Check-List

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“Tô cansado do meu cabelo, tô cansado da minha cara, tô cansado de coisa vulgar, tô cansado de coisa rara”
Eu sei, tô muito novo para estar cansado, mas me dá um desanimo cada vez que tenho que ler uma tese, participar de uma banca, seja de tese ou de seleção. Talvez esteja até irritado esses dias, porque esse é meu terceiro post amargo. Mas… se os Titãs puderam um dia, então eu também posso.
É o seguinte, tá na hora de fazermos uma mea culpa para podermos mudar o status quo e preparar essa garotada para o mundo cruel ai fora.
Somos, muitas vezes, condescendentes com nossos alunos menos favorecidos ou menos capazes, por que nos convém: nos ajudam no lab, sabem uma coisa que os outros não sabem e demorariam para aprender, estão com a gente a muito tempo e desenvolvemos um carinho paternal/maternal, ou pelo motivo menos nobre de todos: obedecem nossas ordens sem questionar. Uma maravilha!
Mas a verdade é que não estamos formando bons profissionais. Estamos formando bons alunos para seguirem sendo ‘nossos’ alunos. Sim, porque se eles saírem de nossos laboratórios para uma outra universidade ou para um emprego fora da academia… eles não tem a menor chance.
Ou vocês acham que um entrevistador da ‘Natura’, por exemplo, tem 20 min para cada candidato apresentar seu projeto? Aonde o candidato ainda ultrapassa os 20 min? Sendo que levou 18 min para chegar aos objetivos?
Como disse semana passada, eu ainda acho que eles estão seguindo um modelo. Que lhes foi passado, ou que eles deduziram, vendo outras teses, aulas e seminários. Mas que está equivocado. E nisso, ela tinha razão (assim como tinha razão em várias coisas, mas nunca conseguiu ficar tempo suficiente para descobrir isso). Modelos pré-estabelecidos não servem. São para preguiçosos e pessoas pouco inteligentes. O que nós precisamos é de um check-list.
Então vou propor um check-list defesa de tese, de projeto, de seminário, de entrevista. Assim, que me encontrar ou me convidar para uma banca daqui pra frente, não vai poder dizer que não estava avisado:

  1. Seu título não tem mais de 30 palavras? (Uma linha. No máximo duas. Título não é resumo)
  2. Seu resumo responde as perguntas: O que? Quem/Qual? Quando? Como? Onde? Por que? Para que? (na verdade TODO o seu texto, cada primeiro parágrafo de sessão, deveria responder essas perguntas)
  3. Suas palavras-chave Não são vagas? Elas repetem palavras do título?
  4. Sua introdução ocupa menos de 30% da sua apresentação/tese? Ela esclarece o que o leitor precisa saber para avaliar seus resultados? Ela não repete desnecessariamente informações que o seu leitor já possui?
  5. Sua apresentação tem um número de slides correspondente a, aproximadamente metade do seu tempo de apresentação? (se você gasta menos de 30 s em um slide, é provavel que a sua platéia não tenha entendido direito. Se você gasta mais de 2 min, ela está entediada com ele. em ambos os casos, o slide não cumpre seu papel. Na média, você deve levar 2 min por slide. Por isso, NÃO INSISTA e não coloque slides demais!)
  6. Seus slides estão abarrotados de informação? Suas figuras são grandes o suficiente para que que o leitor possa efetivamente ver a informação? (florzinhas são para alunos do 2o grau enfeitarem o orkut. Uma figura ilustra e explica. Ou ainda sensibiliza. Em ambos os casos, ela deve ser nítida. Não use mais que 6 itens por slide e não mais que duas frases por item. Mais que isso… sua platéia perdeu o fio da meada).
  7. Sua apresentação usa fundo escuro e letra clara? Seu poster usa fundo claro e letra escura? (por causa do brilho da tela do computador, ou projetor, devemos evitar fundos claros. Fundo azul e letra amarela dão a melhor relação contraste/legibilidade. Se você não sabe montar uma apresentação com uma combinação de cores e distribuição de espaço e tipos de letras, escolha uma pronta do PPT. Elas estão lá pra isso e muitas foram feitas por especialistas.
  8. Seus dados são normais? Sua estatística é não paramétrica? Seus gráficos mostram média ou mediana? Desvio padrão ou quartis? (se você não sabe isso, vá descobrir antes de apresentar seu trabalho para uma platéia)
  9. Seus gráficos com resultados comparativos tem eixos na mesma escala? Os eixos tem nomes? Dá pra ler os eixos?
  10. Você sabe que ‘significativo’ é um termo estatístico? Você sabe o que é erro do tipo I e erro do tipo II? Você sabe a diferença entre coeficiente de regressão e correlação? O que é uma variável independente? E a diferença entre significância estatística x biológica? (se não sabe… vá descobrir, de novo, antes de se apresentar em público. Mas já tá arriscado a ter que adiar a sua prévia. E aprenda o que é um gráfico box-plot, porque existe uma chance enorme dele ser o gráfico correto, e não um gráfico de barras).
  11. Seus objetivos batem com suas conclusões?
  12. Você treinou antes da sua apresentação? Falou para o espelho? Gravou você falando no MP3? Ouviu? Releu o seu trabalho? Releu em voz alta?
  13. Seu orientador leu seu trabalho? Tem certeza? Alguém mais leu? Você atendeu as sugestões dessas pessoas em cuja experiência/opinião confiou?
  14. Você não abusa das cores e ornamentos? O tamanho das letras é legível? Mas também não é grande demais?
  15. Você passou o corretor ortográfico? Pediu para alguém revisar o inglês? Escolheu um padrão para títulos e subtítulos? Escolheu um padrão para a bibliografia e manteve esse padrão?

É isso gente, 15 itens que podem salvar a sua tese. Pelo menos se eu estiver na banca. Claro, dado que você tenha feito um bom trabalho experimental e que saiba do que está falando. Se seguirem esse check-list, garanto que não vão passar vergonha. Nunca! E ainda podem sair com um título, uma vaga, ou um emprego.

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Discussão - 10 comentários

  1. Rachel Werneck disse:

    Concordo com o seu check-list, aliás com todo o texto hehehe e dou mais algumas dicas:
    1- Não importa a sua área dentro da biologia, tente dedicar 25 ou 30 dias da sua vida acadêmica a um Curso de campo. Geralmente eles tem Ecologia no nome mas vão muito além… são 25 dias aprendendo tudo isso que está no check-list do Mauro e muito mais! Os cursos de campo são oferecidos pelos cursos de pós-graduação em ecologia. Eu participei do da Mata Atlântica, pela USP… mas tem o do Cerrado (pela UFG ou UNICAMP), da Amazônia (EFA), do Pantanal (UFMS) e o da Caatinga (UFC) -estes são apenas os cursos que eu conheço. Durante o curso há aulas de delineamento, estatística e redação, elaboração e execução de pequenos projetos, redação de artigos e apresentações para uma platéia de colegas e professores que farão críticas e sugestões valiosas. Até agora essa foi a melhor experiência acadêmica e a que mais me preparou pra dar continuidade ao mestrado.
    2- Existem cursos de redação científica! Um dos mais recomendados é o do Prof. Dr. Gilson Volpato.
    3- Dê a cara a tapas! Esta faz parte da check-list, mas vale salientar: aprenda a receber críticas e peça ajuda. Apresente suas prévias para colegas ou amigos, peça para outra pessoas lerem seus textos e criticarem. Isso é bastante comum e contribui para a formação de todos os envolvidos no processo.

  2. De tudo isso, só discordo do fundo escuro com letras claras nas apresentações em powerpoint. E acrescentaria mais nesse item: usar sempre fontes não-serifadas, tipo arial. Letra cheia de firula pq é “bonitinho”, tipo comic sans, é péssimo.

  3. Kim disse:

    Adorei suas dicas! São muito boas, especialmente sobre o bom uso da estatística na apresentação dos dados.
    Shewchuk é um autor conhecido na área de mecânica dos fluidos que escreveu “Os três pecados dos autores em Ciências de Computação e Matemática” (http://www.cs.cmu.edu/~jrs/sins.html): “grandmothering”, índice de conteúdos em um parágrafo, e conclusões que não concluem.
    “Grandmothering”, consiste em gastar espaço do seu texto para falar obviedades aos leitores. Como colocado por ele, “cada polegada devotada a convencer experts sobre a importância de [termo técnico], ou introduzir [termo técnico] para gurus em [termo técnico], são quinze segundos brutalmente roubados de suas vidas.”
    Índice de conteúdos em um parágrafo é um que eu especialmente odeio, e todos conhecem pelo menos em livros. Quando vejo um texto como “na seção 2 expomos isso, na seção 3 apresentamos aquilo e na seção 4 analisamos os resultados”, pulo imediatamente.
    E claro, conclusões que não concluem são especialmente tristes. Como dito pelo Shewchuk, “uma vez li um artigo onde as conclusões eram quase uma cópia exata da introdução, mudando apenas o tempo dos verbos. Isso é imperdoável.” Como uma regra, se o leitor entender sua conclusão sem ler o artigo, há algo muito errado com ela.

  4. Mario Lira Junior disse:

    Meus parábens pela excelente síntese. Acredito que todos nós, como orientadores e avaliadores, devemos “bater” cada vez mais nestas teclas, porque são as que vão permitir publicação em boas revistas, não somente êxito nas bancas.

  5. Euclydes Santos disse:

    Mauro, é claro que teu texto parte do pressuposto óbvio que é necessário, antes de mais nada, TER O QUE DIZER. Há algum tempo eu tinha na parede uma frase: “cuidado, você pode estar se tornando um futuro papagaio alfabetizado”. O meu medo com estas checklists é esse, o cara faz direitinho tudo o que foi dito mas, se esquece do conteúdo, ou seja, vira um verdadeiro papagaio. Se expressa bem (tanto oralmente quanto por escrito), tem slides maravilhosos, etc, etc. Mas falta substância e consistência.

  6. Mauro,
    Faltou a mais essencial das perguntas para uma tese:
    Sua ideia, ou proposta, ou abordagem, é realmente original, única?
    Se não for, tchau amigo(a). Não é uma tese de doutorado.
    abraços,
    Roberto

  7. Mauro Rebelo disse:

    Não sei não Roberto. Sei que esse é um pressuposto das teses, mas quantos argumentos originais e únicos ainda existem por ai? Claro, as pessoas mudam a espécie, mudam a substância, usam uma tecnologia nova. Mas será que são criativas em suas perguntas? Raramente. Mesmo assim, as teses saem. E acho que tem que sair mesmo. Mas os criativos é que eu acho que vão durar.

  8. Mauro Rebelo disse:

    Mestre, com você falando assim, eu lembrei daqueles caras que ganham fortunas dando palestras sobre auto-ajuda, ou para vendedores. Sério, eu assisti uma em 2010 sobre empreendedorismo. Uma palhaçada, clichês do início ao fim. Mas o cara recebia R$ 9000,00 pelo pacote 1h palestra 30 min de perguntas. Acho que nossos alunos estão longe dessas manipulações de platéia, mas que eles poderiam investir mais em desenho amostral e experimental, isso podiam.

  9. Mauro Rebelo disse:

    Fernandinha, não sei se dá pra discordar do fundo escuro. É um fato. A legibilidade é melhor e pronto. Assim como, corretissimamente lembrado por você, as letras sem serrilhado. Mas é verdade que na prática funciona também com fundo claro e ninguém ficará cego com isso.

  10. Henrique disse:

    Muito bom!
    Tô cansado de seleções paternalistas. Família de professores. Orientador que cria de IC até o doutorado. Bolsa eterna para uma mente não ligada na Ciência…
    Tô cansado de correções de estrutura de textos em bancas. Cadê os bons prof. que questionam os candidatos?
    Tô cansado de aplicação de estatística errada. P insignificante e tendência a ver isso ou aquilo. Tire a estatística e parta para dados qualitativos. Que mal a nisso, se for biologicamente significante?
    ps.: estudando tipos de erros e variáveis!
    Abraço.

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