O carro na frente dos bois

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Descobri o que anda me irritando tanto nos congressos e na ecotoxicologia em geral: primeiro, ninguém sabe fazer apresentações de PowerPoint interessantes (colocam mais introdução do que resultado, introduzem o que a platéia já sabe, não treinam e não respeitam o tempo, usam tabelas impossíveis de ler, figuras pequenas demais, e outras coisas que você pode ler aqui). Mas isso é em qualquer área e é o que torna os congressos tão chatos em geral. A segunda coisa é que os trabalhos são pequenos demais. Quer dizer, as vezes são trabalhos grandes, mas com uma pergunta muito específica. Parece que estamos todos olhando para um aspecto muito particular, de um problema mais particular ainda, porque a ‘big picture‘, o problema como um todo, é muito grande, muito complexo, ou muito caro. Mas o que mais me irrita mesmo, é o pessoal que faz um experimento e depois fica ‘brincando com os dados’ pra ver o que pode responder. Encontra uma correlação aqui, uma correlação ali… e acha que pode concluir alguma coisa. Colocar os resultados antes de ter muito claro qual, ou quais são, as perguntas, é colocar o carro na frente dos bois. E desrespeitar um princípio básico do método científico. A pergunta tem que vir ‘antes’ do desenho experimental e da análise dos resultados. A falta de uma pergunta específica no início do experimento, leva a um desenho experimental que responde não só a uma, mas a várias perguntas. Quando se observa um evento a posterióri, podemos justificá-lo ou explicá-lo não com uma, mas com várias teorias. Sem nunca poder determinar qual a verdadeira. (no máximo podemos usar a Navalha de Occam pra escolher qual é a melhor) É sempre possível, com base em uma mesma observação, contar várias histórias plausíveis. É o que diz a lógica dedutiva, e por isso que não podemos usá-la no método científico.
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Discussão - 5 comentários

  1. Bessa disse:

    É, apresentação ruim é dureza. Sabe o que mais me choca? Excelentes conteúdos numa forma porca. Nós, primatas visuais, corremos o risco de perder boas informações mal vestidas. E como já vi acontecer… opa! Gosto do Blog da Manuela Loddo, sobre montagem de apresentações. Sempre saem dicas boas lá.

  2. Munique disse:

    Concordo com você. Só me diz se você tem alguma sugestão sobre o que fazer com um orientador que exige que eu fique brincando com os dados na esperança de sair uma coisa qualquer sem significado importante, só porque ele acha que tem que fazer alguma coisa com aquilo. Não vale dizer pra me impor, porque já fiz isso e a palavra dele tem que ser a palavra final.
    É… a gente só conhece o orientador depois que trabalha com ele de verdade, né? E aí já não tem muito mais o que fazer, tem que aguentar e fazer um monte de coisa idiota na dissertação.
    Haja paciência…
    Parabéns por ter idéias sensatas.

  3. Mauro Rebelo disse:

    Oi Munique, numa situação dessas, você pode ‘brincar’ com os dados mas sempre fazendo as perguntas antes de fazer o teste estatístico. Esse grupo é diferente daquele? Ai testa. Por favor… não saia fazendo correlações e testes ‘t’ pra ver quem bate com quem. Um abraço, Mauro

  4. Giselle disse:

    Sou bióloga, com mestrado e doutorado e, desde que deixei de fazer ciência, passei a pensar que não “dava pra coisa”. Era do tipo que para fazer uma imunofluorescência, tinha que começar com pelo menos 20 lamínulas, porque no mínimo umas 5 se quebrariam no caminho. E isso se eu conseguisse lavá-las no ponto certo, nem demais, nem de menos. Os meus géis de poliacrilamida, então, ou tinham bolhas ou rasgavam. Uma desastrada mor. Mas uma coisa que eu sempre soube fazer eram perguntas. E desenhar experimentos para responder tais perguntas e avaliar as respostas obtidas com os experimentos. Aos poucos fui ficando desiludida com o valor que se dá à “mão boa para bancada” e acabei me convencendo de que eu era má cientista. Coisas de gente nova. Hoje em dia eu sei que deveria era ter seguido por uma ciência sem bancada porque fazer ciência é pensar de maneira científica e isso eu sempre soube fazer.
    Por essas voltas que a vida dá, acabei seguindo pelo setor de políticas públicas na área biotecnológica e indo parar num curso de pensamento estratégico. A idéia é pensar estratégias para o Brasil. Uma das coisas que me vieram à mente é o porquê do Brasil não ter quase doutores montando empresas. Por que os doutores não trabalham em empresas? Por que não vendemos extratos? Por que não isolamos moléculas? Por que não inventamos? Há políticas públicas de incentivo a doutores na empresa. Há políticas públicas de incentivo à inovação. Há políticas públicas de financiamento ao desenvolvimento tecnológico. Foi quando eu me toquei que eu não sabia de nada disso quando estava me formando doutora.
    Fiz mestrado e doutorado em um instituto de excelência, capes 7, e ainda assim, nunca estudei “Empreendedorismo”. Nunca estudei “Direito para Biólogos”. Nunca estudei “Propriedade Intelectual”. Como um doutor pensaria em sair da academia, em montar uma empresa se a ele nem é ensinado que essa possibilidade existe. Nos formamos na academia acreditando que o único futuro é continuar lá. No fim da graduação, pensamos em mestrado; no fim do mestrado, no doutorado. Assim que doutor, hora do pós-doc, aguardando concurso. Como se a vida do cientista fosse linear e não uma árvore repleta de possibilidades. Em um primeiro momento eu me questionei se o foco da pós-graduação não é realmente formar mais de si mesmo. Mas, não. O foco de um Programa de Pós é formar doutores. O que os doutores vão fazer da vida é escolha deles. E se melhor formados, melhores escolhas farão.
    Lendo o seu post sobre o checklist de teses, eu completei ainda mais o meu pensamento. Não estamos formando nem bons cientistas. Da mesma maneira que nunca estudei matérias que me formariam boa para o desenvolvimento tecnológico, nunca estudei “Filosofia da ciência”. Nunca estudei “Pensamento científico”. Nunca estudei: “Gestão de Projetos”.
    A pós-graduação do jeito que está, focada na bancada, no desenvolvimento da tese a todo custo, na publicação de artigos, nas matérias de cunho puramente técnico, como “Expressão molecular de vírus”, não está formando sequer bons cientistas, no máximo grandes técnicos de nível superior.
    Taí, se eu um dia chegar a Ministra, hehe (tá bem, pelo menos a Secretária), eu proporia uma reforma geral na pós-graduação em biotecnologia. Se não agregarmos os diferentes programas, trazendo a Administração, o Direito e a Filosofia para dentro da Biologia, continuaremos apenas selecionado os auto-didatas, ao invés de formarmos Doutores, com “D” maiúsculo, que é a função do curso de doutorado ao final de contas.

  5. Euclydes Santos disse:

    Um ex-prof de ictiologia, digo ex porque já está curtindo sua justa aposentadoria, Labbish Ning Chao, me ensinou isto com uma alegoria um pouco diferente (como é chines provavelmente não conhecia a história do carro de boi). Dizia ele com seu peculiar sotaque:
    “Caçador olha para céu e vê bando de patos. Aponta espingarda e, bum, bum, bum, derruba todos. Depois vai e escolhe pato para preparar. Nã, nã, nã. Isto errado. Caçador vê bando de patos, escolhe o que deseja preparar e, bum, mata aquele. Isto correto.” Obrigado Chao.

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