Batendo o martelo

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Alguns de meus alunos eram extremamente inteligentes.
Eu sabia que entrariam no mundo profissional e criaram novos e fantásticos programas de computação, projetos de animação e recursos de entretenimento. Mas eu também sabia que que eles tinham o potencial para frustrar milhões de pessoas no processo.
Nós, engenheiros e cientistas da computação, nem sempre criarmos coisas fáceis de usar. Muitos de nós somos terríveis quando explicamos tarefas complexas de modo simples. Já leram algum manual de instruções de um videocassete? Então já viveram a frustração a que me refiro. Por isso sempre quis enfatizar a meus alunos a importância de pensarem nos usuários finais de suas criações. Como eu poderia tornar clara para eles a necessidade de não criarem uma tecnologia frustrante? Arranjei um meio sensacional de lhes prender a atenção.
No primeiro dia de aula eu levava um aparelho de videocassete funcionando. Colocava o aparelho sobre uma mesa, na frente da sala, pegava uma marreta e o destruía. Em seguida, dizia:
“Quando se constrói algo difícil de usar, as pessoas se aborrecem. Ficam tão irritadas que querem destruí-lo. E nós não queremos criar objetos que as pessoas queiram destruir”.
Sensacional esse trecho do texto “Atraia a atenção das pessoas” de Randy Pausch (do livro “A lição final”, presente da minha querida amiga Cristine Barreto.
Mas não são apenas os engenheiros que constroem coisas difíceis de usar. Alunos de pós-graduação em geral fazem isso. Constroem teses dificilíssimas de ler. Por isso lembrei desse texto, porque foi exatamente assim que eu me senti depois de ler uma tese essa semana: vontade de pegar um martelo e destruí-la!
Porque as pessoas querem fazer coisas que ninguém entende depois? Ou pior, como é que aluno e orientador podem ler um trem daquele e achar que está bom? Preguiça, só pode ser preguiça. E ai passam a responsabilidade pro revisor.
Dá vontade de martelar.
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Discussão - 4 comentários

  1. Euclydes Santos disse:

    Concordo em gênero e número, mas não em grau, pois acho que martelo, além de arrebentar a tese, poderia também deixar marcas em algumas cabeças. 😉

  2. Eliane Souza disse:

    Nem sempre é preguiça. É restringir (intencionalmente ou não) a tese/assunto naquele mundinho aluno-orientador, pensar que a banca (afinal são doutores, e tem ALGUMA relação com o assunto)vai entender absolutamente tudo. É querer manter o rebuscado estilo acadêmico do “escrever díficil”, tão dificil que ninguém além do aluno/orientador entendem. E o mais importante: é pq ninguém teve coragem de falar para eles que não tá bem escrito, que a linguagem está complicada, de mostrar “é assim que faz, ó”. Só acenam com a cabeça e diz “aham, ok, tá bom”.

  3. Gracielle disse:

    Acredito que a “escrita rebuscada” seja uma coisa tão tradicional quanto a academia, e aqueles que contestam isso são minoria. Quem está sendo avaliado quer agradar a banca, e o que a gente vê é que os avaliadores, em sua maioria, não se convencem com linguagens simples, dessas que eles conseguem entender em uma passada só, talvez sintam que falta capricho, não sei. Acontece que os pesquisadores devem ter a consciência de que a sociedade é seu chefe, e se seus resultados não convencem determinada população, eles se tornam pequenos elefantinhos brancos.

  4. Jacques disse:

    Preguiça aliada à burrice.
    O clássico “fazer o trabalho só para passar na matéria” funciona só no insosso segundo grau e em cursos universitários muito ruins.
    Quem quer fazer algo sério e direito, se empenha em escrever de forma simples, mas não simplória.
    Não para mostrar que sabe, mas para provar que pode passar adiante o que aprendeu.
    Parabéns pelo ótimo site.
    Valeu.

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