O Legado das Águas

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O maior pedaço de Mata Atlântica, contíguo, preservado, do Brasil, quem diria, é privado.

O Legado das Águas, a reserva da Votorantim, tem 31.000 ha de Mata Atlântica original preservados na região do Vale do Ribeira no Estado de São Paulo.

A preservação não foi altruística. Foi consciente: sem energia, não haveria como a Votorantim produzir alumínio. A energia tinha de vir de usinas hidrelétricas e, sem água, não haveria hidrelétricas. Então era preciso proteger a água. E para proteger a água, era preciso proteger a floresta.

O Rio de Janeiro já havia ensinado essa dolorosa lição. Quando durante o império colocaram a Mata Atlântica abaixo para plantar café no Maciço da Tijuca, o resultado foi um desastre ambiental: secaram as nascentes que abasteciam a cidade. D. Pedro II teve de mandar replantar tudo! E sob o comando do Marechal Archer, 5 escravos, Eleuthério, Leopoldo, Manoel, Matheus e Maria reflorestaram o que hoje é a a maior floresta urbana do mundo, a Floresta da Tijuca.

Então, em prol do futuro sustentável do seu negócio, Antônio Ermírio de Moraes começou a comprar títulos de propriedade para a construção de usinas hidrelétricas e a criação da reserva ambiental, que determinava a manutenção das nascentes do Rio Juquiá.

Os xiitas dirão: como pode ser preservado sem tem 4 hidrelétricas lá dentro? E me levarão para a discussão semântica entre os termos preservação e conservação. Eu responderia com a obra de Antônio Diegues, ‘O Mito Moderno da Natureza Intocada’, livro espetacular que faço com que todos os meus alunos de Biodiversidade leiam, e que fala das razões pouco ortodoxas que levaram a construção do modelo de parques florestais e reservas naturais vigente hoje no mundo, e a sua ineficácia em fazer com que a natureza siga o seu rumo com todos os seus agentes, incluindo os seres humanos. Mas eu sou um cara prático, e quando durante o 1o encontro científico organizado pelo Legado o programa de monitoramento de grandes animais mostrou as fotografias de dezenas de mamíferos selvagens como onças pardas, cachorros do mato e Muriquis, os grandes símios de sociedade matriarca que resolvem suas pendengas sociais com abraços e sexo ao invés de violência física, eu não tive dúvida de que o lugar é uma jóia na coroa do nosso remanescente de Mata Atlântica.

Abre parênteses  Além disso, tenho que confessar, tenho uma queda por barragens. Quem me acompanha sabe disso. Acho incrível como esses pequenos macacos pelados que somos nós são capazes que driblar incríveis forças da natureza. Fecha parênteses.

Se ainda assim alguém duvidar, eu tenho um argumento matador: Água, muita, MUITA água. Quem vive em São Paulo ou no Rio de Janeiro hoje está sentindo (ou seria melhor dizer ‘não está sentindo) na pele a importância disso.

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Quando a Votorantim pensou em preservar a floresta para preservar seu negócio de Alumínio nos anos 40, não sabíamos o que eram os genes e não conhecíamos a estrutura do DNA. Quando descobríamos a biologia molecular e inventávamos a biotecnologia nos anos 70 (bom estou me incluindo aí apesar de ter nascido nos anos 70 porque eu sempre soube que queria ser cientista), eu duvido que eles pensassem em fazer outro uso dessa floresta que não a conservação de suas águas. Mas agora, em meados da segunda década do século 21, temos os instrumentos tecnológicos para criar riqueza a partir da biodiversidade sem alterar 1mm dessa paisagem exuberante, sem prejudicar os serviços insubstituíveis que esse ecossistema pode prover.

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Para mim, Antônio Ermírio atirou no que viu e acertou no que viu e no que não viu. Será que os detentores do seu legado verão?

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Discussão - 3 comentários

  1. jose paulo orsini de carvalho disse:

    Prezado Mauro Rebelo, não compartilho com seu entusiasmo por barragens e outros geniais engenhos do homo sapiens. Nos, nativos deste Vale do Ribeira assistimos a agonia e a breve morte programada do Rio Ribeira sorvido pelas sedentas Curitiba e São Paulo.Acrescento que a Votorantim é proprietária de outro latifúndio neste vale, no alto Ribeira, na futura barragem do Tijuco Alto.

  2. […] Fonte: scienceblogs.com.br/vqeb/2014/12/o-legado-das-aguas/ […]

  3. Camila Pimenta disse:

    O vale destacar que esta historinha contada pela Votorantim que se preocupa com a area toda desde a década de 40 ainda engana alguns. A Votorantim comprou tantas terras pelo preço barato, e sempre se preocupou apenas com a faixa muito proxima do rio para preservar a energia. A falta de preocupacao era tão grande que numa discussão de titularidade de grande parte da area colocada neste “Legado das Águas”, o Sr. Antonio Ermírio praticamente “abriu mão” desta pois não afetava sua energia. Fora o grande número de posseiros no local, provando que nunca se preocuparam com a àrea (só com a proximidade do rio, e o resto poderiam acontecer qualquer coisa, pouco importava). E a Votorantim voltou a pensar na área total somente porque viu isto como forma de utilizar como “reserva legal” para suas áreas industriais, que possuiam um défit de reserva legal milionário, e seus principais executivos e acionistas nunca pensaram nesta como um parque ou área de preservação. Só uma das empresas do Grupo Votorantim via a área como um parque mas não pela preservação, mas para bloquear futuros interessados nas suas usinas, pois havia o risco de perderem a concessão – e assim criariam um grande onus para um terceiro, além da intençäo de passar a compartilhar a vigilância da area com o Estado (diminuindo seu custo com gente e empresas de segurança). Mais que atirar no que viu e acertar no que não viu, a Votorantim agora diz que viu aquilo que não viu até pouco tempo, e aquilo que era um estorvo passou a ser uma boa forma de lucrar (inclusive com imagem), e ainda vê a área simplesmente como um negócio (pouco importa a Mata Atlântica, vale o uso disso para resrva legal e para propaganda institucional).

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