A Intuição e o Método

Venus de Milo com Gavetas, de Salvador Dalí

Venus de Milo com Gavetas, de Salvador Dalí

Tenho pensado tanto sobre isso. Como cientista, o ‘método’ é o meu principal instrumento de trabalho. Isso não significa que eu seja metódico no que faço. Significa que eu recorro a evidência, a hipótese, a experimentação e a análise para tecer conclusões e tomar (ou questionar) decisões. Não há como ter dúvida do poder do método para alterar a nossa realidade. Mas ainda assim, grande parte dos desafios profissionais que eu encontro são sobre como convencer as pessoas, mesmo (principalmente) cientistas, a abraçar o método em áreas que não sejam o seu objeto de estudo.
Ainda que possamos nos apoiar na obra de Galileu, Bacon e Descartes para uma explicação do que é o ‘método’; explicar a intuição é muito mais complicado. E o fato de todos nós experimentarmos a intuição independente de compreende-la, torna ainda mais difícil explicá-la cientificamente, porque a explicação esbarra na nossa compreensão ‘intuitiva’ da intuição.
Mas e se quisermos entender o que é a intuição de forma não intuitiva?
Vamos ter que começar entendendo o que é a consciência. Uma tarefa nada fácil já que não existe um consenso científico sobre o que é a consciência. Mas tendo incluído ‘consciência’ no programa da minha disciplina de Biofísica para o curso de biologia da UFRJ, eu estudei bastante o assunto ao longo desse ano e vou arriscar uma explicação para vocês (para quem quiser mais informações eu sugiro fortemente o  documentário da BBC ‘O Eu secreto’).
De maneira bem resumida, quando o seu cérebro é requisitado a dar uma resposta, inicia-se  um processo mental onde são ativadas diferentes regiões do seu cérebro, dependendo de cada processo. A ativação dessas áreas gera sinais elétricos que se propagam por nervos, indo e vindo através dos troncos do tálamo, e disparando, ou ‘acendendo’, diferentes áreas do cortéx no caminho. Dessa atividade elétrica em diferentes áreas do seu cérebro, emerge uma ’sensação’ subjetiva: a auto-consciência. Quando bloqueamos o tráfego dos sinais impedindo a comunicação entre as diferentes regiões, seja pela administração de anestésicos ou naturalmente durante o sono, a nossa auto-consciência desaparece.
A idéia não poderia ser mais assustadora: em nenhum lugar do seu cérebro existe um repositório de quem é você. Não existe nenhuma ‘gaveta’ com a etiqueta ‘quem sou eu’. Ao contrário, a cada vez que o seu cérebro inconsciente decide que um evento é digno da sua atenção, o disparo coordenado de milhões de neurônios, bilhões na verdade, recreia, do zero, a noção de quem é você. 
Se tivesse descoberto que a cada momento eu era um novo ‘eu’, como descobriu Virginia Woolf no século XIV, assim como descrito no maravilhoso livro de Jonah Lehrer ‘Proust foi um neurocientista’, sem ter os instrumentos para compreender como isso era possível, talvez também tivesse me suicidado.
Curiosamente, ou contra-intuitivamente, é o nosso corpo físico, e não uma termodinamicamente improvável alma, que guarda a chave para o segredo da integridade da nossa auto-consciência. Com as nossas experiências anteriores armazenadas na nossa memória de longo prazo e com os limites físicos do nosso corpo identificados por neurônios na mesma posição, os disparos consecutivos que geram a auto-consciência são capazes de replicar com grande fidelidade o nosso ‘eu’.
Mas não com fidelidade total.
As áreas que acendem não são E-X-A-T-A-M-E-N-T-E as mesmas. Nunca!
Inquietante… para dizer o mínimo. Mesmo quando pensamos sobre a mesma coisa, mesmo se essa coisa for a nossa própria identidade, nunca pensamos sobre ela da mesma maneira.
E de fato é com essa assustadora, porém muito esclarecedora constatação que se inicia o livro de Daniel Willingham ‘Porque os alunos não gostam da escola’: Porque pensar é difícil e nós, ainda que sejamos capazes de pensar, não somos bons nisso.
Uma grande parte do nosso cérebro é dedicada ao processamento inconsciente de imagens visuais e, se tem alguma coisa na qual somos bons, é em ‘ver’. Já em pensar… como vocês podem bem imaginar pensando em grande parte das pessoas que conhecem… não é algo todos fazem da mesma maneira, com a mesma eficiência e na qual possamos todos dizer que somos… bons.
O mundo tem uma realidade complexa que procuramos recriar dentro do nosso cérebro para que possamos decidir como reagir a esse mundo real. Como nosso pensamento não é linear, não temos muito controle sobre quais memórias acessamos ou sobre quais áreas do cérebro serão ativadas pelos sinais iniciados com a atenção a um pensamento, não temos como repetir uma mesma análise da realidade duas vezes.
Para piorar a situação, como eu já descrevi aqui, as nossas decisões começam como uma resposta instintiva baseada em processamento ‘inconsciente’ do cérebro, só depois sendo reconsiderada em um processo consciente que, como vimos, é falho.
Por exemplo, no excelente livro ‘Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas’ de Michael Shermer, fica claro que as nossas escolhas, mesmo aquelas conscientes, não são fruto da nossa capacidade intelectual e sim dirigidas por 3 fatores principais: as alternativas oferecidas pelas circunstâncias, o medo e a expectativa da opinião dos nossos pares. Nossa… isso também explica tanta coisa!
A conclusão no poderia ser mais difícil de aceitar: por mais que você se considere um grande pensador, há um limite para o quanto você pode confiar nas suas idéias. Suas intuições… falham!
E é por isso que nós precisamos do método. Ele é a única maneira de escapar das armadilhas que nossos processos mentais nos impõe.
Mas se o método é o que pode nos salvar das nossas falhas mentais, porque será que, na minha experiência e em muitas outras ilustradas na história da psicologia, as pessoas resistem tanto ao uso do método?
Ainda não tenho uma resposta. Mas é possível que a insegurança gerada pela dificuldade de pensar conscientemente e a falsa segurança gerada pela natureza inconsciente da intuição estejam envolvidas nessa resistência.
Além da preguiça, é claro.
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Discussão - 8 comentários

  1. Mauro Rebelo disse:

    Uma forma de reconciliar a intuição com o método é utilizar a intuição para gerar as hipóteses que serão depois testadas pelo método como mecanismo de tomada de decisão.

  2. Anderson disse:

    Ótimo texto. =)

  3. Karl disse:

    Mauro,

    Não sei se compreendi bem seu texto, por isso permita-me repeti-lo aqui da forma como entendi na esperança que você me corrija no que for necessário.

    Em primeiro lugar não considero que o método científico “altere nossa realidade”, mas creio que essa expressão foi utilizada mais como uma licença para a questão fundamental do post que é a dificuldade que você tem em convencer as pessoas a pensar (e tirar conclusões) com o método científico mesmo em áreas nas quais não são especializadas. Parece, no texto, que você gostaria de contrapor a racionalidade científica a formas de conhecimento intuitivas.

    Nesse ponto, você sugere que para entender a intuição seria preciso, primeiro, entender a consciência (será?) e passa a utilizar ideias que são bastante próximas de uma corrente de pensamento chamada de fisicalismo. Mas logo após, você dá um cavalo de pau em direção à mais pura fenomenologia (“nosso corpo físico que guarda a chave de nossa auto-consciência”).

    E então, sem deixar necessariamente claro o que você entende por intuição, conclui que as “intuições falham” e que por isso “precisamos do método científico”. Seria mais ou menos isso?

    • Mauro Rebelo disse:

      Oi Karl, teria sido melhor eu dizer: o nosso poder de alterar a nossa realidade quando utilizamos o método. Eu acredito que a racionalidade científica é mais eficiente que as formas de conhecimento intuitivas. Eu não conheço o suficiente sobre essas correntes para poder dizer se sigo ou não uma delas, mas posso te dizer que acredito que tudo na biologia pode ser explicado apenas pela física e pela química. Com um pouco de estatística e matemática 🙂
      Confesso a minha dificuldade em definir intuição (e talvez por isso o meu passeio pela consciência) que para mim é o que está entre o instinto e a racionalização usando o método científico. Pelo menos a mensagem principal eu acho que consegui passar com clareza: a intuição é falha e é mais confiável usar o método. Abraço, Mauro

  4. Karl disse:

    “Eu acredito que a racionalidade científica é mais eficiente que as formas de conhecimento intuitivas”.

    E isso é, tipo, uma intuição ou você pode provar? Hehe. Outra pergunta é como “limpar” a intuição da própria racionalidade científica? Ou como obter uma racionalidade científica pura, independente de insights intuitivos que cientistas possam ter?

    Quando a subsumir a biologia à física e a química… Bem… Isso é um longo argumento, hehe.
    Abs

  5. Rafael disse:

    tenho a mesma opiniao. Os filosofos classicos ja falava que deve se conhecer o EU muito brm para entende o mundo.
    Vejo que uma raridade de pessoas, mesmo em meio academico, nao pratica a metacognicao. A maioria reaje a criticas do seu ego e dos outros de maneira nao construtiva. Criando mecanismo de devesa para se achar certo, evitando o processo produtivo da critica

    O Brasil está longe de propiciar um ambiente favoravel a metacognicao. Nao temos um cultura de livre expressao, artes e critica como a holandesa por exemplo….

  6. Cecilia Prada disse:

    Sorry, permito-me corrigir uma distração sua: Virginia Woolf, é uma autora inglesa nascida em 1882 e morta em 1941, e não é do século XIV, portanto.
    Cecilia Prada
    amaralprada@uol.com.br

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