Apropriação indébita

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Eu sou muito emotivo, mas também sou muito apegado a regra. Sem ela, nao podemos ter o que Massimo Canevacci definiou brilhantemente hoje como a “imaginação exata”, aquela que produz coisas no mundo real. E por isso, quando torturam a regra, a minha regra, a ciência, eu ficou muito, muito incomodado. Não… Agora eu estou é puto mesmo!

Estou em Paraty em um evento organizado para refletir os caminhos para o futuro do Brasil. Super ‘selecionado’, supostamente, com a nata da intelectualidade brasileira, capaz de propor esses caminhos. E o que eu vejo e ouço? A apropriação indébita, incorreta e inconsequente de conceitos biológicos pelos cientistas sociais.

A biologia evoluiu muitíssimo nas últimas décadas. Especialmente a biologia evolutiva e a neurociência, com base nas técnicas de manipulação genética e celular. Isso proporcionou o acúmulo de um amplo e sólido corpo de evidencias biológicas, capazes de explicar comportamentos humanos. E por isso a ciência, ainda que distante da sociedade, se tornou fundamental para validar critérios e acreditar opiniões.

Então, intelectuais de ‘Meia cultura e falsa erudição’, como disse Ina Von Binzer ainda no Séc XIX, se apropriam de conceitos poderosos como gene, DNA, neurocientífico, significativo… até epigenética, para corroborar ideias, opiniões e pré-conceitos sociológicos, antropológicos, pedagógicos… insustentáveis!

“A ciência mostrou isso! Vamos falar de neurociência: está tudo lá na mitocondria! O Neguinho da Beija-Flor tem 70% dos seus genes brancos. A raça se consolida com a cultura! “

Pelo amor de Darwin! Como pode um psicólogo falar tantas besteiras em uma frase só?! A neurociência está na moda, no Brasil e no mundo, com todas as coisas bacanas que pessoas como Stevens Rehen, Suzana Herculano e Miguel Nicolélis fazem. Aí o cara resolve colocar ‘neurociência’ na apresentação dele. Só que ele não sabe nada disso! E nem da pesquisa do famoso geneticista mineiro Sérgio Pena, que usa genes mitocondriais para determinar ancestralidade (já que herdamos as mitocôndrias apenas de nossas mães, geração após geração). Só que o objetivo dessas pesquisas é justamente mostrar que a genética não sustenta o conceito de raças, que duas pessoas brancas podem ter mais diferenças entre os genes que um branco e um negro.

“A nova ciência da epigenética provou que o ambiente é mais importante que os genes para determinar a felicidade das pessoas”

Eu não acredito na humildade como força modificadora e acho que um dos ingredientes mais importantes do sucesso é saber reconhecer a diferença entre o que se sabe e o que não se sabe. Eu já ouvi falar tanto de Paulo Freire que sinto como se o conhecesse, mas a verdade é que li apenas um livro seu e não me considero capaz de falar em seu nome.

Então, por favor, estudem antes de falar dos genes. É difícil, eu sei. Como disse Domenico de Masi hoje “imparare è sempre faticoso” (aprender é sempre cansativo). Mas isso não justifica ou autoriza a apropriação indébita.

Onde está o cientista?

Einstein mostra a lingua
O carnaval está terminando e eu ainda não fiz o meu post sobre a(s) folia(s).

Eu ia falar, como todo ano, pra todo mundo usar camisinha, mas esse ano tenho um babado mais forte (mas por via das dúvidas, acabo de escrever um post curtinho e bonitinho falando pra todo mundo usar camisinha).

Eu vou chegar no babado forte, mas queria começar com essa foto clássica de Albert Einstein. Quando ele mostrou a lingua para o paparazzi que o estava atormentando no dia do seu 72o aniversário, acho que não pensou que estaria fazendo um desserviço a ciência. Ele só queria ser deixado em paz e quando o fotografo pediu para ele sorrir, botou a lingua pra fora. Mas acabou se tornando um símbolo da estranheza dos cientistas. Se juntou a tantas outras histórias, mais ou menos verídicas (como a que Einstein tinha apenas ternos iguais assim não precisaria se preocupar com o que vestir e podia utilizar a sua mente brilhante para coisas mais importantes), de como os cientistas são estranhos.

Quando comecei esse blog em 2005 um dos meus objetivos era justamente lutar contra essa imagem esteriotipada do cientista, que infelizmente persiste até hoje. Não que tenha algum problema ser estranhos. E é exatamente esse o ponto: de médico e louco todo mundo tem um pouco! Só que parece que os cientistas tinha mais de louco e isso foi afastando as pessoas, principalmente os jovens, da ciência. E isso não é bom. Principalmente porque não vejo nenhuma foto mostrando o quanto o Silas Malafaia é estranho (e perigoso) e quando 80% dos meus alunos de ciências biológicas se dizem evangélicos.

Ainda que muitas pessoas reclamem do seriado The Big Bang Theory justamente porque ele aumentaria esse esteriótipo, eu discordo. TBBT humaniza os cientistas, que tem suas estranhices esteriotipadas, mas tem problemas iguais aos de todo mundo e, ao contrário do Mackgiver, não são problemas que a ciência possa resolver.

Cientistas, principalmente os cariocas, gostam de cerveja, praia, futebol e carnaval. Entre outras coisas e não necessariamente nessa ordem. E estão em todos os lugares que as outras pessoas estão. Até no melhor bloco de rua do carnaval do Rio, a Orquestra Voadora. Você consegue encontrar o cientista?

Abre parênteses: Só temo que, se conseguir, acabe por confirmar o esteriótipo. Mas não me leve a mal, é carnaval! Fecha Parênteses.

Fazer ciência é legal!

Diário de um Biólogo – 2a Feira 13/08/2012 – As invasões bárbaras

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“Também estaremos em ‘Tara’ nesse final de semana. Vamos fazer um ‘barbecue’ no Domingo. Venham encontrar a gente!”

E foi assim, facinho, facinho, que meu amigo Lazar Obradović nos convenceu a ir ao Lago Zaovine no meio do no parque nacional das montanhas de Tara, na fronteira da Sérvia com a Bósnia-Herzegovina.

Estou em merecidas ferias pelo leste europeu e depois de um final de semana no barulhento festival de trompetes de Guča, uma noite na tranqüilidade da montanha não seria nada mal.

Passamos Mokra Gora, a cidade que Kusturica (pronunciado como zz onde se lê c) construiu para um de seus filmes muito doidos, passamos pela simpática Mitrovac (novamente com zz) e chegamos ao lago no cair da noite. Lazar, a mulher Nevena e uma trupe de amigos mergulhadores nos esperavam com a carne de porco na brasa e Slivovica (sempre zz), a Rakja feita de Marmelo e “engarrafada com trovão” como eles dizem aqui.
Lazar é fanático por mergulho e enquanto comíamos um Croassant no aeroporto de Paris, naquelas 32 h de espera por um vôo que torna duas pessoas amigas pro resto da vida, ele descobriu que eu era biólogo marinho e me perguntava tudo, sobre todos os bobos e plantas que já havia visto embaixo d’água, em todos os mergulhos que já havia feito na vida. Eu levei um tempo até convence-lo que era biólogo marinho e não um atlas da vida marinha (ou foi ele que parou de perguntar quando descobriu que sabia mais sobre peixes e invertebrados do que eu – que hoje estou mais para biólogo molecular do que marinho).

O assunto veio a tona naquela noite, quando a instrutora croata de mergulho, Tanja, comentou sobre a enorme quantidade de moluscos que tinha visto mais cedo: “Pergunta pra ele que é biólogo!”

Ao que parece, uma grande quantidade de moluscos mortos, seguida por uma quantidade maior ainda de moluscos vivos, tinha chamado atenção dos mergulhadores.

Eu falei que a minha especialidade eram os bivalves marinhos. “Ah… Bi-valves. Com duas conchas?” Respondi que sim e eles confirmaram então que era realmente um bivalve no fundo do lago. Continuei dizendo que minha experiência com bivalves de água doce era com o Mexilhão Dourado, Limnoperna fortunei, o qual estamos seqüência do o DNA em nosso laboratório. Expliquei que era uma espécie invasora, que havia chegado no Brasil trazida por água de lastro e que além dos prejuízos econômicos por entupimento de tubulações industriais e fixação em embarcações, ameaçava a diversidade de toda fauna aquática brasileira: do pantanal e até da Amazônia. As pessoas ‘normais’ se preocupam com a poluição aquática, mas a invasão biológica é um risco muito, muito maior para a diversidade de qualquer ecossistema.

A curiosidade de ambos os lados foi aumentando até o momento que eu perguntei se poderia mergulhar com eles no dia seguinte. Ficou combinado que eu iria com Bojidar, o instrutor Sérvio, casado com a instrutora Croata, que parece um daqueles fuzileiros-mergulhadores SEAL de filme americanos, mas que é um doce de pessoa.

O dia seguinte foi uma aula prática de limnologia. Igualzinho eu ouvira falar nas aulas de ecologia da faculdade, onde os exemplos de livros são quase todos de ambientes temperados.

Eu estava super excitado porque seria o meu primeiro mergulho em água doce, ainda por cima em um lago de altitude e em um lugar belíssimo. Mas o pessoal logo me desanimou: a visibilidade era super baixa por causa da eutrofização e não mergulharíamos no lado onde uma vila inteira foi alagada. Veríamos apenas muitas pedras e muitos bivalves.

Entramos na água e quando passamos de 8 m de profundidade, a temperatura passou de 22oC para 13oC! T-R-E-Z-E! Milhares de agulhas pareciam espetar os poucos centímetros quadrados de rosto fora do neoprene de 7mm de espessura. “Lagos profundos de ambientes temperados se estratificam durante o verão, quando a água quente se ‘acumula’ na superfície” parecia que eu estava ali ouvindo o professor Chico Esteves. Maldita termoclina! Pobres fitoplânctons.

E aí então eu os vi… Um mar de mexilhões! E não é que… Nossa, como não pensei nisso antes… Mas é claro… As conchas listradas não deixavam duvida.

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O ‘molusco’ do Lago Zaovine era Dreissena polymorpha, o “mexilhão zebra” a mais notória das notórias espécies invasoras, o mexilhão do sudoeste da Ásia que invadiu e reinvadiu as águas da Europa ocidental e América do Norte, reestruturando ecossistemas inteiros como o dos ‘grandes lagos’ dos Estados Unidos e Canadá e causando bilhões de dólares de prejuízos para a industria de tratamento de água e produção de energia.

Só um NERD como eu para, no meio de uma viagem maravilhosa, me emocionar de ‘mergulhar com o inimigo’.

Porque é importante para um cientista ir a uma festa literária?

Para mim, a principal atividade do cientista é estudar.

Produzir dados no laboratório (ou no campo) é uma das coisas que o cientista faz, mas transformar esses dados em informação e conhecimento é (ou deveria ser) a sua principal atividade. E para isso o domínio da linguagem escrita, da habilidade de se comunicar por escrito, de ler de maneira critica desvendando um texto e de criticar o próprio texto são fundamentais.

Por isso, vir para Paraty ouvir Roberto da Matta dizer que “quanto mais velhos fixamos, mais temos opiniões sobre tudo” ouvir Stephen Greenblatt dizer que Shakespeare “rescrevia incansavelmente seus textos”, ouvir James Shapiro falar sobre como “os autores tinha pavor de serem ‘rescritos’ por Shakespeare“, ver a empatia infinita de Gabeira, ou como uma boa idéia (“E se Renè Descartes tivesse vindo ao Brasil com Maurício de Nassau?”) ser destruída por Cao Guimarães no chatíssimo filme Ex-isto; é tão importante.

Nos ajuda a criar valores e parâmetros que são importantes para o nosso senso crítico na atividade de ler e escrever, que é uma atividade fundamental e complexa para o cientista. E que não se aprende e não se desenvolve a não ser pela prática.

Antes tarde do que nunca

“O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) vai acrescentar, na plataforma eletrônica Lattes, que traz currículos e atividades de 1,8 milhão de pesquisadores de todo o País, duas novas abas para divulgação pública. Em uma delas, os cientistas brasileiros informarão sobre a inovação de seus projetos e pesquisas; e na outra, deverão descrever iniciativas de divulgação e de educação científica.”

A matéria do jornal da ciência anunciando que finalmente o CNPq, o conselho nacional de ciência e tecnologia, vai reconhecer divulgação científica como produção científica é um alento para a sociedade, para os cientistas e para os blogueiros. A sociedade porque financia a ciência com os seus impostos mas não é capaz de entender os artigos científicos extremamente técnicos que órgãos financiadores exigem, e os cientistas porque vão poder divulgar seu trabalho e se aproximar do seu público sem que isso signifique ‘desperdício’ do tempo que deveria ser investido em artigos técnicos. Finalmente, para os blogueiros, que vêm fazendo essa divulgação sem nenhum apoio dos órgãos de fomento ou dos seus próprios pares. Tomara que os alunos de pós-graduação percebam a importância de divulgar seus trabalhos para a sociedade e, ao escrever, praticar a sua escrita.

Camisinha na cabeça

Todo ano, na época do Carnaval, faço no VQEB uma campanha pelo uso da camisinha. Esse ano, resolvi vestir a campanha e levá-la a todos os blocos do Rio de Janeiro. O resultado foi esse:

Para quem, como eu, passa o ano todo esperando pela folia, não deixe de aproveitar os últimos blocos que ainda sairão no final de semana. E use camisinha!

Foto: tirada no Aterro do Flamengo na saída da Orquestra Voadora; camisa da ‘Posto 9′ (confecção do italiano Ciccio Panza); cordão dos Filhos de Gandhi (porque mesmo no carnaval do Rio, meu coração bate pela Bahia) e cerveja do Vascão (que bateu, brilhantemente, de virada, o timininho por 2×1 há dois dias)

Diário de um biólogo – segunda, 13/02/2012 – Assembléia

Chego em casa e como um pacote de amendoins. É segunda-feira e a maldita piscina está fechada (ela passa mais tempo fechada do que aberta, apesar do quanto deve custar ao condomínio) e eu estou cansado demais para correr. Recorro ao amendoin, me controlando para não abrir uma cerveja. Não resisto, pego mais um pacote de amendoins e abro uma cerveja.

Sai de uma reunião de 4 horas com o corpo docente da pós-graduação do Instituto de Biofísica da UFRJ. Uma reunião longa e tensa.

“Somos um curso de pós-graduação grande, que fez a opção de se manter multidisciplinar enquanto outros se fragmentaram criando cursos com diferentes níveis de qualidade” disse a coordenadora.

Sabe quando uma empresa grande quebra, por má administração, e ai se transforma em duas, uma com a parte boa pra ser vendida e outra com a parte ruim que acaba falída na conta de algum credor (em geral o governo)? Mais ou menos a mesma coisa. Colocam o Filet mignon de laboratórios, orientadores e orientados em um curso nota 7 (a nota máxima conferida pela CAPES) e deixam os outros em cursos 5, 4, 3… Uma vergonha!

“Nossas atividades diversificadas contam muito como critério de qualidade, o diferencial para que um curso nota 5 se torne um curso nota 6 ou 7. Mas para que um curso se torne 5, ele precisa atender alguns critérios de quantidade…”

Tudo é dose… já falei sobre isso aqui! Qualidade demais te dá pouca quantidade. Quantidade demais, te dá pouca qualidade. Mas como qualidade é subjetivo, então… temos um grande problema.

“Precisamos que nossos docentes publiquem mais, precisamos também que eles publiquem em revistas melhores. E precisamos ainda que nossos alunos sejam autores. Mas temos cada vez menos alunos se inscrevendo na pós-graduação e cada vez menos sendo aprovados nos processos seletivos.”

Até aqui, apesar das notícias não serem boas, eu não estava me preocupando. Eu conseguia identificar claramente o problema que, verdade seja dita, já se anunciava no horizonte.

O problema é que nem todo mundo vê o problema do mesmo jeito.

“Se sua unica ferramenta é um martelo, você tende a ver todo problema como um prego” disse Abraham Maslow.

Isso ficou muito claro hoje com relação as propostas que foram apresentadas. Elas não solucionavam efetivamente os problemas, mas eram as ferramentas que estavam a disposição. Só que… NÃO ADIANTA! O problema não vai desaparecer por causa da nossa boa vontade em resolvê-lo!

Eu sou um cara prático. Tive que aprender a ser prático, porque sempre gostei de conviver em meio aos grandes. E os grande… bem, eles tem muito pouca tolerância com os pequenos. Então se aprende a ouvir muito e falar pouco, a saber distinguir entre o que é viável e o que não é, e, principalmente, quais lutas enfrentar e quais lutas abandonar. É verdade que nunca se sabe o suficiente sobre isso, mas acho aprendi muito. E hoje vi que aprendi mais do que muitos dos grandes que eu achava que tinham a ensinar.

Mas falar sobre o conflito de gerações hoje seria justamente perder o aspecto prático da discussão. Ele existe, está lá, e desejar que ele não estivesse é pouco prático: o conflito de gerações continuará lá! Eu deveria aprender a lidar com ele. A questão, é que isso não é prático também.

Eu não sou comunista. Também não sou capitalista. Não sou a favor da tirania, mas também não sou a favor da democracia. Eu só acredito nas ‘Estratégias Evolutivamente Estáveis’ (sobre as quais eu já falei aqui). Podemos discutir amplamente um problema em busca de idéias, mas não em busca de consenso! Consenso é muito bonito na teoria, mas na prática é muito mais difícil do que almeja a nossa vã humanidade, e mesmo quando ele é possível, em geral chega tarde demais.

“Quando se tenta resolver um problema técnico de forma política, muitas vezes acabamos com dois problemas: o técnico que não foi resolvido e o político que foi criado”. A frase (algo parecido com isso) é de Phillip Howard, autor do livro ‘A morte do bom senso’, sobre o qual eu já falei aqui.

Me desespero, primeiro com as opiniões das pessoas que, em princípio, deveriam saber mais do que eu;  mas depois me desespera simplesmente o fato das opiniões serem tantas e tão variadas que é óbvio que o consenso é impossível. E ainda que as pessoas concordassem quanto ao problema, ainda restaria estabelecer as prioridades. E nunca… nunca, jamais, em tempo algum, haverá consenso quanto as prioridades.

É preciso uma mudança radical de olhar, é preciso inovação, é preciso pensar ‘outside the box’, é preciso coragem! A solução depende de algumas outras coisas, mas basicamente do que se está disposto a abrir mão e do quanto estamos dispóstos a nos comprometer com a solução do problema.

E foi ai que eu me toquei… e que o desespero se abateu sobre mim.

Não tem solução! Vivemos em um país que tolera a corrupção de tal maneira, que crianças são aprovadas automaticamente nas escolas para criar indicies de escolaridade que beneficiem os governantes. Se algo tão deplorável é aceito pelos políticos, e pela sociedade, que esperança podemos ter que os valores das bolsas de pós-graduação serão revistos? Minha aluna de IC ganha menos que um pedinte no sinal, minha aluna de mestrado menos que minha faxineira e meu aluno de doutorado menos que meu porteiro! Que esperança podemos ter do problema das importações ser resolvido? De termos alojamento, transporte e alimentação decentes para os alunos que vem (do e) de fora do Rio?

Não, a universidade é engessada demais para poder resolver esses problemas. A solução terá de vir de outro lugar. Não sei ainda que lugar é.

Viagens

Contemplativo. Linda essa palavra, não é?! No final de semana em que completei 40 anos, viajei pra serra. Enquanto caminhava pelas trilhas e rios, admirava a paisagem e, de vez em quando, parava em algum lugar mais bonito para observar. Quem me via de longe poderia pensar: “que rapaz contemplativo”

Mas que nada. Minha mente estava agitada. Do mesmo jeito que a bela imagem da queda d’água é construída pelo inexorável fluxo de moléculas de H2O coordenados pelas leis da física e regidos pelas leis do acaso geram a imagem da cachoeira, a passagem de ions de sódio e potássio através da membrana plasmática dos meus neurônios geravam a agitação intelectual que não podia ser percebida por quem me via ali… hipnotizado por uma cachoeira… da mesma forma que ficamos hipnotizados pelo fogo da fogueira.

Inexorável. Outra bela palavra, dessa vez pela sua força.

E o que deveria me acalmar, me angustiou. Simplesmente algumas moléculas de água vão pela direita na bifurcação, empurradas por uma massa de moléculas de água exatamente iguais a ela, sem que haja nenhuma chance dela mudar seu rumo. Outras moléculas… seguem tem o mesmo destino, mas pela esquerda. O destino dessas moléculas foi determinado metros atrás, quando (pelo menos) algumas delas poderiam estar lado a lado uma da outra. Mas para outras moléculas de água, o destino direita/esquerda é determinado apenas após o choque com a rocha. Um choque de uma fração de tempo infinitamente pequena. E que, em última instância, se dá entre átomos de um lado (água) e átomos do outro (rocha). Um número incontável de vezes. Talvez um número inimaginável de vezes.

É por isso que tenho que assistir filmes do Steven Segal para relaxar. A contemplação é algo quase impossível para mim. Uma bela cachoeira me transporta para um mundo quântico onde a paz não existe. Mas que é o mesmo mundo do visível, onde a água inexorável e o rio se bifurca a cada nova rocha que encontra pela frente. Um rio que corre independente do mundo invisível, que somos nós: nossos pensamentos, de nossas angústias e de nossas vontades. E que agora mesmo, meses depois, continua lá: correndo contra o tempo e se chocando nas rochas.

Esses foram 15 minutos na vida do Mauro.

E depois me pergunto porque as pessoas não acreditam quando eu digo que não uso, nem nunca usei, drogas.

Diário de um biólogo – terça, 07/11/2011 – Post it

Um mês sem escrever uma linha no blog. Um monte de justificativas: trabalho, trabalho e trabalho. A questão é que não estou mais dando conta. Preciso de férias para colocar o trabalho em dia. Não vou ter. Não sei como vou fazer. Os livros a ler também estão se acumulando e tudo que eu me permito é desligar o cérebro 1h por dia em frente a um episódio das temporadas antigas de Dexter. Só um desabafo.

Diário de um biólogo – Sexta, 01/07/2011 – Blues Etílicos

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O que faz pessoas se reencontrarem depois de mais de 20 anos e descobrirem coisas em comum? Qualidade e Critério.
Mas me deixem começar do começo.
Três da tarde e eu entro em sala de aula. O ar-condicionado está desligado por causa da greve dos funcionários e o humor dos alunos não é o melhor. Ou seria o meu? Não, não estava de mau humor, só estava com pressa. Mas a aula era sobre homeostase, tema que tem grande potencial para uma boa aula, e isso me animou a respirara fundo e começar.
O potencial vem dos conceitos de fisiologia e toxicologia que trabalhamos como dose, limite, tolerância, resistência e resiliência. São conceitos importantes no nosso dia-a-dia e para toda vida. É fácil sair com algum exemplo que tire os alunos do torpor do último tempo de aula do dia e da semana. E me faça esquecer por duas horas que não tenho nada pronto para o super jantar que tenho de oferecer hoje a noite.
Quando falo sobre toxicologia é inevitável provocar os alunos com exemplos de substâncias entorpecentes. Sem dar um julgamento moral, discutimos como se metaboliza o THC e o Etanol. Acho que foi a leve dor de cabeça de fundo, fruto da ressaca e das poucas horas dormidas depois do reencontro na noite anterior com amigos do colégio que não via há mais de 20 anos, que me fez usar o álcool como exemplo. E deve ter sido a expectativa da primeira cerveja do final de semana que fez os alunos adorarem.
“Quando uma substância é essencial ao correto desenvolvimento de um organismo, a sua ausência caracteriza o que chamamos de deficiência…”

Nossa… será que eu falo assim desse jeito?!
Quem acha que o álcool não é necessário ao correto desenvolvimento de um organismo não considera felicidade como um elemento de correção. Humprey Bogart dizia que o “o homem nasceu 3 doses de whisky abaixo do normal”. Ou terá sido o Vinícius de Morais? Impossível de determinar consultando o Google, mas foi assim que começamos.
A concentração aumenta e chegamos a um estado ideal. O Álcool é um depressor do sistema nervoso central, mas felizmente, em pequenas doses, a primeira coisa que ele deprime são os centros de controle, causando estimulação e desinibição.
Esse estado pode ser mantido ainda que a dose aumente consideravelmente por causa dos nossos mecanismos de homeostase. O principal é o mecanismos de destoxificação, que quebra o álcool em aldeído e mantém o efeito sob controle.
Nos livramos rápido do álcool convertendo ele em Acetoaldeído. Temos 3 formas de fazer isso. A princípal é a enzima álcool desidrogenase, a segunda é o citocromo P450 2E1 (CYP2E1) e a terceira é a enzima catalase. Porque você deveria saber isso? Não consigo pensar em nenhuma boa razão nesse momento. A verdade é que eu acho divertido saber o que acontece com a gente e com o corpo da gente, mas isso me faz muito nerd, e eu procuro guardar pra mim essas motivações. Ainda assim, eu poderia dizer, por exemplo, que a via secundária do CYP2E1 é indutível, o que explica porque as vezes você está mais, ou menos, sensível ao álcool. Porque as vezes você pode tomar 10 chopps e fica bem e outras toma apenas 1 e já está legal. Se você ficar muito tempo sem beber, seus CYP2E1 ficam em baixa, e pouco álcool já é suficiente para causar a desinibição. Se você bebe constantemente, acumula CYP2E1 e isso faz com que você precise consumir mais álcool para ter o mesmo efeito. Ou que os japoneses possuem uma variável polimórfica dessa enzima que é menos induzida e menos eficiente, e por isso eles têm menor tolerância ao álcool. Mas continua papo de Nerd.
Horas depois, jantando com meus amigos, usamos todas as nossas desidrogenases, citocromos e catalases, mas ainda assim faltou para dar conta do Prosseco Voldobiene, do Primitivo da Manduria, do Mastro da Campania, do Rust en Vrede…
E quando seus mecanismos de homeostase não conseguem dar mais conta de tanto álcool, outros atores entram em cena: os efeitos. A metabolização do álcool consome muita água, que desidrata o corpo, levando a dor de cabeça e ressecamento da pele. A tonteira e o enjôo vem do efeito no fígado, a euforia passa para depressão, a alegria vira agressividade, e por ai vai. Nesse momento foi ultrapassado o seu limite de resiliência e a ressaca no dia seguinte é inevitável. Não há Engove que te salve (ainda que consumir muita, muita água durante a bebedeira, possa ajudar muito). Nossa capacidade de julgamento também se foi e… que Deus te proteja da ressaca moral dos seus atos nesse período. Seus mecanismos de resistência entram em ação, para tentar adiar o coma alcoólico, que será inevitável se você não interromper a ingestão. E é uma ilusão que a Glicose na veia pode reverter esse processo. Em geral quem apaga por causa de bebida é porque não comeu nada, então é sempre bom dar um gás antes de mandar o infeliz pra casa.
“Aonde vou conseguir tomates maduros pra fazer molho as 6 da tarde de uma sexta-feira?” eu pensava enquanto respondia para um aluno que nunca poderemos abrir mão dos testes com animais porque não há como prever quais são os limites de tolerância e resiliência sem testá-los, forçá-los e ultrapassá-los. E por isso não podemos nos tornar quem somos, e não podemos desenvolver nossos critérios, sem uma ou outra ressaca. Física e moral.
IMG_1366.jpgSaio da UFRJ e vou para COBAL, o único lugar que poderia salvar meu molho. Escolher os ingredientes certos é o que determina a qualidade e o sucesso de um jantar. E é uma questão de critério. Seguir a receita depois, é mole. Dar o ponto certo na massa também requer critério. E foi isso que me fez voltar para a bancada e colocar mais farinha no impasto. Atrasou, mas ficou ótimo.
Sob a égide de Baco, e mais abençoados por Champagne que por Champagnat, falamos sobre limites, sobre tolerância, sobre dose, sobre resistência e resiliência, sobre as euforias e as ressacas que nos tornaram quem nós somos.
Terminamos com Limoncello, Barbera Chinato, Amarula e… chocolate.
E se a ressaca é inevitável… relaxa e goza.

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