Venha fazer ciência com a gente!
Vou fazer duas perguntas as quais tenho certeza que você vai responder, “Sim”:
Você já quis ser cientista?
Você já quis fazer alguma coisa pela Amazônia?
Claro, não é?!
Estamos te dando a chance de fazer as duas coisas. O laboratório de Biologia Molecular Ambiental criou o primeiro crowdfunding científico brasileiro para sequenciar um genoma. Um crowdfunding é um projeto de financiamento coletivo, onde quem contribui se torna um pouco dono do projeto.
O alvo é o mexilhão dourado, Limnoperna fortunei, uma espécie invasora, uma praga que veio da Ásia e agora está ameaçando a biodiversidade da Amazônia. O video explica tudo direitinho.
Venha participar da aventura da descoberta científica com a gente. Você contribui financeiramente com o projeto e nós colocaremos o seu nome nos genes e proteínas que identificarmos. Legal né?!
Meio NERD?! É, mas você sabe, NERD é o novo Sexy!
Projeto eBook de Biofísica
Ninguém aprende nada, muito menos pensamento crítico, sem conteúdo. Pensamento crítico pode ser o mais importante, mas primeiro, tem que vir conteúdo. Sim, temos a internet, mas precisamos de conteúdo de confiança, porque nossos alunos ainda não tem o critério aperfeiçoado para definir o que é e o que não é bom na internet.
Sim, temos livros e mais livros, mas eles tem um problema… os alunos acham os livros didáticos chatos. E sou obrigado a concordar com eles.
De muitos para muitos
Na semana passada fizemos a mostra dos PACCE – Projetos Artísticos Científicos Culturais Educacionais dos alunos de Biofísica da UFRJ.
Um show de criatividade! Videos divertidíssimo, que atendiam a todos os critérios exigidos pelo professor: Eram originais (sem utilizar material de copyright), eram – uns mais outros menos – divertidos, eram digitais e ensinavam algum aspecto de biofísica.
Eu faria 5 destaques:
1 - Biosaga – O jogo da metástase - uma célula mutante caminha pelo corpo humano tentando disseminar o câncer, enquanto é combatida pelo sistema imune. Se quiser desenvolver a metástase, você tem que saber bioquímica e biofísica para obter energia e vencer os linfócitos e macrófagos. É simplesmente espetacular!

2 – O telejornal – misturando realidade e fantasia, esses alunos criaram notícias que ajudam a entender o papel e a função de macromoléculas. Genial é pouco!
Vá direto para a ‘Rebelião na matriz mitocondrial (3′ 09″ – Espetácular!!!) e Trânsito no tilacóide (4′ 03″ – Espetácular!!!) Um Lelec lec lec pra terminar porque ninguém é de ferro (5′ 20″)!
3 – O Bonde da Biofísica com o Funk da contração muscular. Sem palavras… o despolarização não vai sair da sua cabeça.
Vá direto para o clip (1’18″). Despolarizaaaaaando… Despolarizaaaaaando… Imperdível!
4 – O samba de Newton. elegante, bem cantado, bem tocado e divertido. Uma graça
5 – o Metano e o aquecimento global. Surreal e divertidíssimo. A paródia do aquecimento global vai conquistar você. Fique até o final para ver o Harlem Shake da vaquinha.
Esses e os outros vídeos estão funpage da disciplina no Facebook.
O sucesso dos projetos me mostram duas coisas: primeiro que eles funcionam como modelo de engajamento, motivação e trabalho colaborativo. Segundo que é possível um ensino que seja mais produtivo e aproxime o erudito do popular, a universidade da sociedade. E que comece a apresentar para os nossos alunos, novos modelos de ensino, e para nossos professores também.
Na universidade, ainda estamos presos ao velho modelo do ‘pouco para muitos’. Antigamente, lá nos gregos, o ensino era de poucos para poucos. Os professores e tutores eram poucos e transmitiam oralmente seus ensinamentos para, no máximo, 3, 4 pupilos. Depois vieram as universidades, o quadro negro, e ampliamos a nossa capacidade de comunicação em uma ordem de grandeza: o ensino passou a ser então de poucos para muitos (ainda que, vamos lá, nem tantos assim, uns 40-50). A EAD e a internet nos possibilitaram aumentar em algumas ordens de grandeza esses valores, de 30-40 para 400, 4.000, 4.000.000. É isso que fazem hoje o Coursera com seus MOOCs (Massive Online Open Courses), o KHAN accademy (com vídeos também em português) e o Almanaque da Rede no Brasil.
Mas ainda assim é ensino de poucos para muitos, de um professor para muitos alunos. Os nossos PACCE são a verdadeira revolução porque estão fazendo ensino de muitos para muitos! Eu explico melhor.
Todo mundo tem alguma coisa a ensinar. Ou um novo modo de ensinar alguma coisa. E que é mais fácil pra alguém em especial aprender.
Todo professor sabe disso. Os melhores, mais ainda: é impossível uma aula, por melhor que seja, agradar a todo mundo. Isso porque, como todo mundo sabe, a aprendizagem é um processo individual e como a opinião, cada um tem o seu. Os bons professores, além de carisma e conteúdo, tem um repertório de modos de explicar a mesma coisa para quem não entendeu (ou de acordo com a turma que se encontra na sua frente). Mas por melhor qu ele seja, seu repertório não é infinito. Assim como não é infinito o tempo de aula. Então… o professor, sozinho, nunca vai poder dar o salto quantitativo necessário para incluir a massa de pessoas em busca de educação.
Mas com o PACCE aumentamos não só o alcance das aulas: aumentamos as oportunidades de aprendizagem! Assim, um aluno pode aprender com um vídeo meu, uma coisa; e com um vídeo de um aluno meu, outra (que possivelmente não aprendeu com o meu vídeo, por melhor que ele fosse).
Temos que disponibilizar mais conteúdo e fazer esse conteúdo chegar a mais pessoas. É um desafio gigante! Mas infelizmente não é suficiente. Isso por que algumas coisas são, simplesmente, difíceis demais para aprender só com uma explicação, ou de um só jeito. Momentos de aprendizagem, essa é a inclusão! Ops, a solução.
Apropriação indébita
Eu sou muito emotivo, mas também sou muito apegado a regra. Sem ela, nao podemos ter o que Massimo Canevacci definiou brilhantemente hoje como a “imaginação exata”, aquela que produz coisas no mundo real. E por isso, quando torturam a regra, a minha regra, a ciência, eu ficou muito, muito incomodado. Não… Agora eu estou é puto mesmo!
Estou em Paraty em um evento organizado para refletir os caminhos para o futuro do Brasil. Super ‘selecionado’, supostamente, com a nata da intelectualidade brasileira, capaz de propor esses caminhos. E o que eu vejo e ouço? A apropriação indébita, incorreta e inconsequente de conceitos biológicos pelos cientistas sociais.
A biologia evoluiu muitíssimo nas últimas décadas. Especialmente a biologia evolutiva e a neurociência, com base nas técnicas de manipulação genética e celular. Isso proporcionou o acúmulo de um amplo e sólido corpo de evidencias biológicas, capazes de explicar comportamentos humanos. E por isso a ciência, ainda que distante da sociedade, se tornou fundamental para validar critérios e acreditar opiniões.
Então, intelectuais de ‘Meia cultura e falsa erudição’, como disse Ina Von Binzer ainda no Séc XIX, se apropriam de conceitos poderosos como gene, DNA, neurocientífico, significativo… até epigenética, para corroborar ideias, opiniões e pré-conceitos sociológicos, antropológicos, pedagógicos… insustentáveis!
“A ciência mostrou isso! Vamos falar de neurociência: está tudo lá na mitocondria! O Neguinho da Beija-Flor tem 70% dos seus genes brancos. A raça se consolida com a cultura! “
Pelo amor de Darwin! Como pode um psicólogo falar tantas besteiras em uma frase só?! A neurociência está na moda, no Brasil e no mundo, com todas as coisas bacanas que pessoas como Stevens Rehen, Suzana Herculano e Miguel Nicolélis fazem. Aí o cara resolve colocar ‘neurociência’ na apresentação dele. Só que ele não sabe nada disso! E nem da pesquisa do famoso geneticista mineiro Sérgio Pena, que usa genes mitocondriais para determinar ancestralidade (já que herdamos as mitocôndrias apenas de nossas mães, geração após geração). Só que o objetivo dessas pesquisas é justamente mostrar que a genética não sustenta o conceito de raças, que duas pessoas brancas podem ter mais diferenças entre os genes que um branco e um negro.
“A nova ciência da epigenética provou que o ambiente é mais importante que os genes para determinar a felicidade das pessoas”
Eu não acredito na humildade como força modificadora e acho que um dos ingredientes mais importantes do sucesso é saber reconhecer a diferença entre o que se sabe e o que não se sabe. Eu já ouvi falar tanto de Paulo Freire que sinto como se o conhecesse, mas a verdade é que li apenas um livro seu e não me considero capaz de falar em seu nome.
Então, por favor, estudem antes de falar dos genes. É difícil, eu sei. Como disse Domenico de Masi hoje “imparare è sempre faticoso” (aprender é sempre cansativo). Mas isso não justifica ou autoriza a apropriação indébita.
Onde está o cientista?

O carnaval está terminando e eu ainda não fiz o meu post sobre a(s) folia(s).
Eu ia falar, como todo ano, pra todo mundo usar camisinha, mas esse ano tenho um babado mais forte (mas por via das dúvidas, acabo de escrever um post curtinho e bonitinho falando pra todo mundo usar camisinha).
Eu vou chegar no babado forte, mas queria começar com essa foto clássica de Albert Einstein. Quando ele mostrou a lingua para o paparazzi que o estava atormentando no dia do seu 72o aniversário, acho que não pensou que estaria fazendo um desserviço a ciência. Ele só queria ser deixado em paz e quando o fotografo pediu para ele sorrir, botou a lingua pra fora. Mas acabou se tornando um símbolo da estranheza dos cientistas. Se juntou a tantas outras histórias, mais ou menos verídicas (como a que Einstein tinha apenas ternos iguais assim não precisaria se preocupar com o que vestir e podia utilizar a sua mente brilhante para coisas mais importantes), de como os cientistas são estranhos.
Quando comecei esse blog em 2005 um dos meus objetivos era justamente lutar contra essa imagem esteriotipada do cientista, que infelizmente persiste até hoje. Não que tenha algum problema ser estranhos. E é exatamente esse o ponto: de médico e louco todo mundo tem um pouco! Só que parece que os cientistas tinha mais de louco e isso foi afastando as pessoas, principalmente os jovens, da ciência. E isso não é bom. Principalmente porque não vejo nenhuma foto mostrando o quanto o Silas Malafaia é estranho (e perigoso) e quando 80% dos meus alunos de ciências biológicas se dizem evangélicos.
Ainda que muitas pessoas reclamem do seriado The Big Bang Theory justamente porque ele aumentaria esse esteriótipo, eu discordo. TBBT humaniza os cientistas, que tem suas estranhices esteriotipadas, mas tem problemas iguais aos de todo mundo e, ao contrário do Mackgiver, não são problemas que a ciência possa resolver.
Cientistas, principalmente os cariocas, gostam de cerveja, praia, futebol e carnaval. Entre outras coisas e não necessariamente nessa ordem. E estão em todos os lugares que as outras pessoas estão. Até no melhor bloco de rua do carnaval do Rio, a Orquestra Voadora. Você consegue encontrar o cientista?
Abre parênteses: Só temo que, se conseguir, acabe por confirmar o esteriótipo. Mas não me leve a mal, é carnaval! Fecha Parênteses.
Fazer ciência é legal!
Para vencer a astrologia
Em 1990 eu estava no segundo ano da universidade quando fui pela primeira vez a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Era o meu primeiro Encontro Nacional de Estudantes de Biologia (ENEB). Fui com Milton Moraes, hoje coordenador da pós-graduação da Fiocruz e mais uma galera da Bio UFRJ. Ninguém sai impune de um ENEB e eu certamente não sai. Fui a todos os outros durante toda a minha graduação (e alguns depois dela também). Fiz ali amigos para o resto da vida como minha querida Nádia Somavilla, que então era aluna de Biologia da Universidade Federal de Santa Maria. ‘Dançando Lambada’, do Kaoma, era o hit do momento (em todo o mundo) e eu lembro super bem de tantas coisas desse evento, que é de questionar se tudo que eu li esse ano sobre a fugacidade da memória é verdadeiro. Dormíamos no chão das salas de aula e o banho era frio, mas ali vi o Carlos Minc falar pela primeira vez e descobri o que era o movimento estudantil. Além, é claro, do Carimbó, com a sempre marcante delegação da UFPA. Lembro até de dirigir o FIAT UNO do Milton pelo campus, o que só aumentou hoje a minha surpresa, ao voltar a UFRRJ, quando me deparei com o belíssimo campus da universidade. Fui a convite da minha amiga, a jornalista e professora Alessandra Carvalho, falar sobre divulgação científica, dividindo a mesa com a também jornalista Eveline Teixeira, da Universidade Federal do Mato Grosso.
Eu não preciso de muito estímulo pra ir falar do meu blog. Principalmente agora que posso levar meu livro a tira colo. (fique até pensando, depois, se tinha alguma estória do ENEB no livro, mas acho que não. Ou será que falei daquela gaúcha de 1,90m da UFRGS que dançava lambada de mini-micro saia?) Mas quando cheguei lá, no cair da tarde, a beleza dos pastos e dos prédios me impactou.
Talvez por isso, apesar de ter falado bem (no sentido de conseguir dizer tudo que tinha pra falar), respondi pessimamente a melhor pergunta que foi feita na tarde. A pergunta era tão boa, que eu pedi para a Eveline deixar eu dar um aparte, mas como diria a minha irmã, eu sou daqueles caras que tem a resposta perfeita para um discussão, 2h depois dela ter acabado. A pergunta de um rapaz foi: “Todos os grandes jornais do Brasil e do mundo tem páginas e seções de horóscopo. Mas quase nenhum (mais) tem de ciência. Todos querem saber de astrologia e ninguém quer saber de astronomia. Por que perdemos tantos espaço para o esoterismo (hoje acertei Daniela Peres – na semana passada havia escrito esoterismo com ‘x’) e como podemos recuperar esse espaço?”
Essa pergunta está na raiz do problema! Ela é a principal razão pela qual precisamos divulgar ciência. A resposta da Eveline foi boa, mas foi padrão: “porque a ciência é difícil, está longe da vida das pessoas, enquanto o horóscopo… quem não quer saber se vai encontrar o amor da sua vida?”
Mas eu acho que não é só isso. Quer dizer, SEI que não é só isso. Não é a questão da dificuldade. Aprendi que as pessoas, as normais, não NERDS, só gostam e só se interessam por histórias. De preferência com outras pessoas. E é por isso que as pessoas gostam tanto de astrologia. Não, não tem nada a ver com astros, planetas, mapas, modelos malucos com cálculos absurdos: tem a ver com pessoas. Como se comportar em relação a você e em relação as pessoas a sua volta. Nada prende mais a nossa atenção do que isso!
E ai cometi a grande gafe: disse pro rapaz que não havia nada que pudéssemos fazer e que dificilmente ganharíamos da astrologia. A ciência é efetivamente muito difícil e está se afastando cada vez mais da escala das coisas que interessam as pessoas, para escalas, astronômicas ou moleculares, que pouquíssimas pessoas entendem.
E foi só duas horas depois, dirigindo, voltando para o Rio, que eu vi o quão errada foi a minha resposta. Caramba, toda a minha luta, método de trabalho, textos no blog, livro, é pra mostrar que SIM! A ciência não só pode ser interessante como ela É mais interessante que a astrologia. E SIM (!!!) nós vamos vencer o horóscopo! Fiquei tão empolgado que perdi a saída para a linha vermelha e fui parar dentro de Caxias.
O problema dos cientistas é que tiveram que estudar tanto para se super-especializarem nos seus assuntos, que criaram uma forma de transmitir conteúdo bastante prática, porém pouco intuitiva. Os artigos científicos tem tudo que precisamos saber de forma prática e segura. Mas fria e monótona. Só estudantes e profissionais altamente motivados (e eu garanto para vocês que o estresse de uma tese é um excelente fator motivador) conseguem superar a chatice dos artigos científicos (e do papo dos cientistas também).
Quando um cientista conta uma história… bem… é esse o problema: o cientista NUNCA conta uma história. Ele sempre transmite informação, mas nunca conta uma história. Só que a história é a melhor forma de transmitir informação! Não é a mais eficiente (como o artigo científico) mas é a mais eficaz! Quem ouve uma história, aprende alguma coisa. Já quem estuda um artigo… pode aprender se não pegar no sono antes.
Só que a história não é mais intuitiva ‘por que sim’. Ou ‘por acaso’. É ciência! Nosso cérebro foi programado pela evolução para interagir com outros seres humanos e tirar a maior vantagem reprodutiva possível. Em um mundo de coisas palpáveis. O nosso cérebro, capaz de linguagem, arte e música, é a nossa ‘cauda de pavão’: o instrumento de sedução mais eficaz criado pela natureza até hoje. E porque você nunca ouviu falar disso? Bom, primeiro porque está lendo horóscopo ao invés de livros como ‘a rainha vermelha’, ‘a mente copuladora’ e ‘a guerra dos espermatozóides’. Ou ‘A verdade sobre Cães e Gatos’. Mas também porque mesmo os hábeis autores desses livros, apesar de contarem muito bem a história da ciência e dessas descobertas, não conseguem criar histórias com o que se descobre dessa ciência. E ai… a comunicação da ciência fica capenga.
Vocês já ouviram a sinfonia 25 de Mozart? Ou o ‘Inverno’ de Vivaldi? São duas obras primas que foram, obviamente, compostas pensando em sexo! Elas tem todo o ritmo de uma relação sexual perfeita! Já pensaram em um livro que conte a história da criação dessas duas músicas maravilhosas, inspiradas por mulheres por quem eles tinham um desejo incrível, subsidiadas pela anatomia e fisiologia da mente humana, evoluída desde os primatas para seduzir parceiros sexuais? Seria um best seller!!! Ia virar filme em Hollywood!!! Acho que vou até escrever esse livro
Então me deixem responder pro rapaz novamente: “Contando histórias! Nós vamos ganhar da astrologia contando histórias!”
Divulgação Científica, um delírio!
No mês passado estive na UNICAMP para um evento internacional de divulgação científica: o 2o Seminário Internacional Empirika, vinculado a à Empirika 2012, a mega feira Ibero-americana de ciências.
O evento se propôs a discutir ‘Comunicação, divulgação e percepção de ciência e tecnologia’ mas o que vi lá não foi bem isso. O programa foi todo concentrado em torno dos organizadores – praticamente todos, senão todos, os palestrantes tinham ou tiveram algum vínculo com o laboratório de jornalismo da UNICAMP ou o curso de mestrado em divulgação científica e cultural - e a meu ver refletiu apenas o que deve ser a visão dos organizadores sobre o tema. Por exemplo não havia ninguém da enorme comunidade de blogueiros de ciência, nem mesmo Leandro Tesler, professor do Instituto de Física da Unicamp e autor do excelente blog ‘Cultura Científica’. Como gerar debate se todo mundo se conhece e é da mesma turma?
Talvez por isso não tenham percebido, ou tenham e não viam problema nisso, o conflito que se criou entre os dois principais temas discutidos: a percepação do público sobre a ciência e a arte e a cultura como alternativa para comunicar ciência.
As excelentes apresentações de Yurij Castelfranchi da UFMG e Sandra Daza do Observatório Colombiano de C&T deixaram claro que todas as metodologias utilizadas (até) HOJE para avaliar a percepção do pulbico sobre C&T são imprecisas e ineficientes, e produzem percepções equivocadas. Ao mesmo tempo p-r-a-t-i-c-a-m-e-n-t-e TODAS as outras palestras foram sobre COMO comunicar ciência para população ‘dada’ a percepção que eles tem da ciência. Ops! Mas se os instrumentos que temos não tem como avaliar corretamente esse percepção… Isso mesmo! O que tivemos foram horas de apresentações de pesquisadores bem intencionados mas embasados por premissas que eram, na melhor das hiposteses, controversas.
Com relação ao uso da arte para comunicar ciência, acho que foi ainda pior. Descobri ainda que os descolados das ciências sociais (eram quase todos das ciências sociais) são ainda mais elitistas do que os NERDs das ciências exatas. Claro que usar a arte e a cultura para transmitir e comunicar ciência é ótimo. Agora… se a arte que você quer usar para isso é tão distante da população como a ciência que você quer divulgar… então não adianta muito, não é mesmo?
Vocês acham que eles chamaram a Regina Casé para falar de produção cultural na periferia (veja abaixo) e como podemos embutir ciência nisso?
Não, chamaram chamaram um professor da UNICAMP, Laymert Garcia, para falar sobre ‘Dispositivos de visão – Ressonâncias entre o audiovisual xamânico e o audiovisual digital’. Não se preocupe se você não entendeu nada do título: ninguém entendeu. Ele é uma simpatia, um ótimo contador de histórias, mas faz produção cultural para uma parcela limitadíssima da população. Uma parcela que JÁ tem uma enorme cultura geral a ponto de se poder permitir assistir um filme como: ‘Xapirí’, que fala sobre as experiências transcendentais dos xamãs Yanomamis depois de inalarem o pó mágico yãkõana.
Hoje começo a entender melhor meus amigos inteligentes e bem sucedidos que são radicalmente contra os professores universitários e os acadêmicos em geral: a falta de objetividade dos deles (nossa) pode ser terrificante!
Eu entendo tentar fugir do método científico para validar o conhecimento obtido empiricamente, não registrado a não ser pela tradição oral, especialmente de comunidades marginais e isoladas. Mas isso não significa, jamais, de forma alguma, que o empirismo seja um mecanismo melhor de se obter conhecimento, ou que ‘todo’ conhecimento de comunidades marginais e sem educação científica tenha valor. A medicina Ayuervédica tem mais de 7000 anos e nem por isso está menos equivocada.
Nós, intelectuais brasileiros, temos que parar de querer intelectualizar todo mundo. Principalmente, de uma hora para outra. Precisamos dar educação, o que inclui educação científica, para que as pessoas possam exercer sua cidadania de forma plena, nas relações sociais, comerciais e com o estado, mas sem querer transformar todo mundo em intelectual. E com isso, o que nós precisamos é que nossos intelectuais se coloquem a serviço de produzir mais coisas como ‘The Big Bang Theory’ do que ‘Xapurí’.
Ou vocês conhecem algo que consiga ensinar mais ciência, de forma mais correta, divertida, dinâmica e criativa do que o clip de abertura do seriado americano? Eu não conheço.
Broadcast yourself or die!

Será que é possível, atualmente, dar uma disciplina na universidade sem que os alunos morram de tédio e o professor de desgosto? E ainda mais, que os alunos estudem, trabalhem em grupo e sejam criativos? E ainda mais, que o material didático seja de qualidade, disponível na internet e acessível a todo mundo?
Parece sonho, mas com um pouco de disposição, muita coragem e o apoio do meu amigo e coordenador de graduação Marcelo Einicker, conseguímos fazer exatamente isso na disciplina de Biofísica da graduação em Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Apesar da apatia que sempre reinou, mesmo com meus esforços mais hercúleos, eu sempre soube que meus alunos (porque eu fui um deles anos atrás) tinham potencial (veja aqui a resposta sensacional a uma questão de prova criativa, postada por um aluno há dois semestres). Mas foi só quando eu vi o vídeo do Piruvato, feito por um ex-aluno meu, que eu percebi que estava apontando eles na direção errada. Discuti isso em um post no início do semestre e propús aos meus alunos a mudança do rumo do navio, mesmo com ele em curso.
invertemos tudo: as provas foram publicadas na internet e a cada semana uma das questões era discutida em sala de aula. Os alunos tinham até as 22h do dia anterior a aula para postarem na internet, no site da disciplina baseado em MOODLE, conceitos, idéias e materiais multimídia que pudessem auxiliar na construção da resposta em sala de aula no dia seguinte. A nota… era baseada simplesmente na presença em sala de aula durante a discussão da resposta: postou argumentos no site e estava presente durante a aula, ganhou o ponto!
A lista de chamada… uma foto da turma tirada com o celular. Começaram a sair de sala? Dormiram? Outra foto. Como eu já discuti aqui, quem não consegue disposição para estar 2h por semana na minha sala de aula lépido e faceiro, não merece educação pública de qualidade e gratúita. Mas todo mundo queria ‘sair bem na foto’ e, e eu tive a maior frequencia em sala de aula desde 1849.
É claro que ainda tinha gente que não ia, que só assinava a chamada e escapava, que só ficava pra foto… que comia, que dormia, que namorava… Mas tinha um monte de gente trazendo conteúdo, tirando dúvidas, perguntando, explicando. E transformarmos aquele momento que era frustrante para todo mundo, a aula presencial, em ‘um momento de qualidade’.
Mas o ponto máximo foi a aula de hoje, quando eles apresentaram seus “Projetos Artístico Científicos Culturais Criativo Educacionais”. No início do curso, eles receberam uma tarefa, que seria a principal nota do curso: Produzir um material didático alternativo, que pudesse ser disponibilizado na internet para todo mundo, que ensinasse um (qualquer um) tema ou aspecto da biofísica. O material deveria:
- Ser publicado na internet (videos no youtube, textos em blog) com uma licença creative commons (utilizado, copiado e distribuido gratuitamente)
- Videos não poderiam ter mais de 10 min. Os blogs não poderiam ter menos de 20 textos e cada texto não poderia ter mais de 500 palavras. Foto novelas e histórias em quadrinhos também eram permitidas.
- O material poderia, deveria, ser engraçado, irreverente, bonito, provocante, surpreendente, sensual, criativo… mas como isso tudo é difícil de avaliar, o critério objetivo era: tinha que ensinar biofísica. E tinha que ter ensinado biofísica a quem tivesse preparado o material.
Ninguém estava acostumado a fazer isso, e ninguém deveria nascer produtor de cinema. Por isso, as idéias foram transformadas storyboards, os storyboards discutidos e transformados em roteiros, os roteiros discutidos e finalizados. Depois ensaiados, gravados, editados, finalizados e ‘subidos’ para a rede.
O resultado foi surpreendente. Todos cumpriram as instruções e levaram nota máxima (e ganharam livros “A Verdade Sobre Cães e Gatos“. Os vídeos estão na página da disciplina no Facebook. Vale a pena conferir!
Certamente existem outras soluções para o problema da apatia na sala de aula, mas posso dizer que fiquei muito satisfeito com essa. Estamos no caminho certo: Broadcast yourself or die!
O ritmo contagiante do Kuduro conquistou a todos. A letra dessa versão é brilhante: correta, inteligente, divertida… Notem os pequenos detalhes como a transferência dos ‘elétrons’ bolinha, a rotação da bomba de prótons e a distribuição dos ATPs. Mas quando Francisca Paiva entra em cena como ‘energia luminosa’… ninguém consegue se segura e as palmas explodem no salão!
Engraçadíssimo… Os ancoras Arthur Santana e Bruna Maria… a ‘contra-rega’ Camila Puga… o professor Pedro Feio… E claro… os sensacionais Poraquês! Dr. Chagas ficaria encantado com o vídeo.
Muito boa a mistura de Escolinha do Professor Raimundo, Chaves e Casseta & Planeta. Destaque para Isabela Espasandin fazendo a “Loira Burra” morena, carioca e inteligente. E para os malucos diversos do Interbio 2012. Ficou ótimo o efeito de ‘película’ na imagem. Tratamento professional!
Outro grupo criou o blog Teorias do Envelhecimento para discutir e explicar as teorias sobre o envelhecimento. Os textos são ótimos! Stevens Kastrup Rehen iria adorar! Tomara que eles continuem publicando.
Os personagens no estilo South Park são caricaturas dos alunos do grupo. A platéia não resiste e bate palmas no ritmo do refrão “onda, onda, olha onda – clap, clap”
Caras e caretas viram um alerta sobre os sintomas e problemas da contaminação por mercúrio em uma rodinha de violão.
A ecolocalização explicadinha. Chamar Batman e Aquaman para explicar o fenômeno comum em golfinhos e morcegos foi uma excelente idéia. Os personagens de massa de modelar ficaram ótimos!
O projeto foi feito para ajudar os alunos do vestibular comunitário da UFRJ e o destaque é a trilha sonora de Fernando Tuna.
Aproximando os cientistas da sociedade
O mundo hoje é diferente do que era há 5000 anos. Do que era há 500 anos. Do que era há 50 anos. Até mesmo do que era há 5 anos. Por causa da ciência.
Leopoldo De Meis mostrou que, desde que a ciência foi institucionalizada, o número de cientistas passou de algumas dezenas de pessoas que trabalhavam isoladasnos séc XIV e XV, para, nos dias de hoje, alguns milhões trabalhando em universidades e institutos de pesquisa, e publicando seus achados em revistas especializadas de circulação internacional. Os resultados dessas pesquisas transformaram completamente (exponencialmente) a sociedade. Passamos dos 5 km/h que conseguíamos alcançar com nossas próprias pernas à 200.000 km/h que alcançamos com foguetes capazes de nos levar a outros planetas. Nossa expectativa de vida aumentou de 15 anos no pleistoceno para 90 anos em países desenvolvidos depois que o cientista Pasteur mostrou, no século XIX, a relação entre a contração de doenças e a higiene pessoal. E a população cresceu então de 1 bilhão de habitantes em 1800 para 2 bilhões em 1930, 3 em 1960 e 7 bilhões em 2012. Podemos transmitir texto, sons, imagens, dados de um canto a outro do planeta imediatamente através de cabos de fibra ótica no fundo dos oceanos e satélites em órbita no espaço.
Ainda assim, o que observamos nesse começo de século é uma sociedade cada vez mais distante da ciência. (veja ‘O que os brasileiros pensam da ciência?‘) Porque?!
A resposta para essa pergunta é complexa e o melhor que eu deveria fazer é ficar quieto, ao invés de arriscar uma resposta. “Mantenha-se discreto e nada de mau te acontecerá” dizia o saudoso prof. Tito Eneas Leme Lopes. Mas eu sou atrevido e vou dar o meu palpite. Para mim, a velocidade de produção de informação e, principalmente, de transmissão da informação, superaram, em muito, a velocidade de educação da população.
O processo educacional, há séculos, está focalizado em uma pessoa: o professor. Na grécia antiga, o ensino era para muito poucos: um professor ensinava de 3 a 4 pupilos e o método principal era a imitação. Depois vieram as universidades na idade média e ainda ali, apesar de discursos para uma dezena de pessoas, o ensino continuava sendo para poucos: aqueles que podiam entrar em contato direto com um mestre ou tutor. Foi apenas no século XIX, com a invenção do quadro negro por um Escocês, que o ensino pode ser ampliado e um professor podia transmitir seu conteúdo para dezenas de pessoas. Desde então apareceram o behaviourismo e o construtivismo, massificamos as formas de avaliação e aumentamos o número de professores e escolas, mas um professor continua ensinando ainda um número bastante limitado de alunos. Isso indica, para mim, que alcançamos o limite e não há como superar esse número com a escola tradicional.
(pausa para os professores na sala atirarem pedras no cientista)
A consequencia dessa deficiência no ensino é que, de certa forma, os cientistas modernos, apesar de todos os nossos meios de comunicação, estão mais isolados do que os cientistas estavam no renascimento. Isso porque a sociedade, em geral, hoje em dia é tão incapaz de entender o que os cientistas fazem como era há 500 anos. (Veja ‘A universidade é o carrasco da ilusão da sociedade‘)
E assim criamos um paradoxo: as pessoas nunca usaram tanto a ciência (e a tecnologia), nunca foram tão dependentes da ciência e, ao mesmo tempo, nunca estiveram tão distantes dela. É como se os computadores, os tecidos, as viagens, os remédios, as comidas, os livros… como se tudo isso viesse de algo que não foi, em um passado recente, uma idéia de um pesquisador em um laboratório.
Parte da culpa é dos cientistas. Eles nunca se esforçaram muito para traduzir seus achados para a população, apesar da população pagar pela produção desse conhecimento científico. “Nos dêem financiamento e nos deixem trabalhar em paz. Afinal, vocês não entenderiam mesmo o que estamos fazendo” escreveu o biólogo Stephen J. Gould sobre essa ‘atitude arrogante’ do cientista em ‘Seta do tempo, Ciclo do tempo’. Essa postura arrogante não contribuiu para aumentar o diálogo com a população. Mas é verdade que não foi só com arrogância que se construiu essa falta de diálogo. Uma certa timidez de muitos cientistas e um tanto de excentricidade de outros, ajudaram a criar um esteriótipo pouco atraente para a sociedade. Em nossa defesa, tenho que dizer, mesmo sob o risco de alimentar a imagem arrogante, que não podemos ignorar o fato da ciência ser difícil (sem tirar o mérito de ser Loira do Tchan, que eu também acho difícil), e que o público leigo tem mesmo dificuldade de entender, e que não podemos fazer muito com relação a isso. Trabalhamos com coisas pouco intuitivas, intangíveis e altamente especulativas. A industria do entretenimento, por exemplo, trabalha justamente com o oposto: nossos sensibilidade inata para a fofoca (veja ‘Ti-ti-ti! A fofoca como instrumento de ensino‘), a beleza (veja ‘A beleza nas letras‘ ) e o medo (veja ‘Por que as pessoas sentem medo?‘). Por isso Big Brother, Paris Hilton e Crepúsculo fazem tanto sucesso. Em uma sociedade sem mentes preparadas pela educação para entender a ciência, os cientistas continuarão isolados.
Ainda há, acredito eu, três outros fatores que contribuem para aumentar essa distância entre a ciência e a sociedade.
O primeiro fator é o mais delicado, o mais perigoso, e o que impõe o maior desafio para o cientista que quer se comunicar com o grande público: É o fato da ciência requerer um rigor que nós, pessoas leigas, não queremos nas nossas vidas. Na verdade, um rigor que não podemos ter. Grande parte dos nossos problemas, no dia-a-dia, são resolvidos por empirismo e intuição. O cientista tira das pessoas as certezas construídas por essas duas forças, sem colocar nada no lugar! Quero dizer, o que a ciência tem a oferecer para colocar no lugar do vazio da morte da ilusão (que é o incrível prazer de compreender o incompreensível e a avassaladora paz de espírito de fazer parte de algo tão maior do que nós mesmos que a nossa própria linguagem é incapaz de expressar com precisão), está fora do alcance da maioria das pessoas. Não falo isso com arrogância. Aprendi com o Millor que “somos todos ignorantes, apenas assuntos diferentes”. Eu mesmo não posso explicar pra vocês o Bóson de Higgs ou os fenômenos quânticos do emaranhamento e da sobreposição porque eu, simplesmente, não sei. Não sei porque é muito difícil e pra entender temos que ter muitos e mãos anos estudando e preparando a nossa mente para compreensão desses conceitos. E dificilmente podemos fazer isso sem que afete a maneira como vemos o mundo de forma geral, nossa vida cotidiana, nossos hábitos, nossa alimentação, nosso corpo e nossos relacionamentos com outras pessoas. “Mauro, você tem que entender que as pessoas não entendem bem uns 95% do que você fala” me disse uma vez uma amiga querida. Conversar com um cientista pode ser irritante por causa do rigor que ele aplica mesmo a eventos banais do cotidiano. Da mesma forma que pode ser irritante para o cientista conversar com pessoas leigas que acreditam em superstições e outras formas de pensamento que não requerem o mesmo rigor de análise do método científico. E talvez estejam certos! Fomos feitos para buscar alimento, buscar abrigo, reproduzir, fugir ou lutar e nosso cérebro não está planejado ou preparado para entender a teoria das supercordas, a matéria escura ou o nosso próprio cérebro. Em certo aspecto, eu mesmo me pergunto se não exageramos na nossa ansia de ‘entender’ tudo. Os seres humanos são capazes de coisas maravilhosas como a Nona Sinfonia de Beethoven, Hamlet de Shakespeare e o gol do Roberto Dinamite no Botafogo em 1976; que mostram que a ciência não pode nos dar tudo que precisamos para viver bem. Mas se quisermos dar a população tudo o que a ciência tiver a oferecer para que eles possam viver melhor, vamos ter que encontrar uma forma melhor de nos comunicarmos com eles.
O que me leva ao segundo ponto: aumentamos os nossos meios de comunicação, mas não sabemos ainda como nos comunicar. A escola, e principalmente a universidade, tem feito um trabalho incrível em pasteurizar nossa comunicatividade ao focar o ensino apenas na competência de ‘interpretação’ da informação (que é efetivamente importante) como se as competências de identificar, descrever, listar não fossem fundamentais para o processo de comunicação e necessárias para a interpretação. O resultado é que nossos alunos (e professores, e executivos, e cientistas, e todo mundo) não conseguem exercer concisão, coesão, clareza e criatividade em seus textos. Criam mensagens enormes que não dizem nada (veja ‘Quem foi que disse?’) e deixam os leitores desesperados: “Mas eu não tenho tempo de ler nada, eu só leio e-mails” disse um espectador desesperado em uma palestra da escritora Sonia Rodrigues, por causa volume de e-mails desnecessariamente extensos de trabalho que lê e responde todos os dias. “Para bom entendedor, meia palavra basta” o ditado popular mostra como nossa habilidade de interpretar deveria jogar a nosso favor. E jogaria, desde que usássemos as palavras corretas: os sete lugares do pensamento (Veja ‘Em busca dos 7 lugares de pensamento‘) que os gregos e romanos já haviam identificado como ancoras de qualquer discurso. “Mas no caso de você ser um mal entendedor, vou te escrever umas 5 páginas”. Seja por medo, vaidade ou incompetência, não queremos abrir mão do nosso texto e escrevemos mais do que o necessário sem escrever o necessário. O resultado são leitores cognitivamente exauridos, exaustos e frustrados por serem incapazes, depois de todo esforço, de compreenderem a mensagem. “Existem várias formas de ser compreendido: ser claro é a principal” me disse a professora Cristine Barreto. Esse é um problema generalizado. Está em todos os ambientes e grupos sociais, e os cientistas não escapam. Se “Comunicação não é o que você fala, é o que os outros entendem”, temos que explicar para os cientistas que ninguém está entendendo nada.
O terceiro pode ser considerado o mais polemico, pelo menos pela comunidade científica. É que a ciência que é feita no mundo hoje é… chata! Extremamente chata! John Hudges especula, em seu livro ‘O fim da ciência’, se não teríamos já descoberto tudo que há pra descobrir e se agora não estamos apenas no fase de produzir “mais medições, mais precisas” (frase pronunciada por Lord Kelvin, na Royal Academy de Londres, em 1899, quando realmente se acreditava que tudo que havia para ser descoberto na física já havia sido descoberto – sendo que não poderiam estar mais equivocados). Hoje publicamos em torno de 1,6 milhões de trabalhos científicos por ano. Muitos desses trabalhos tem pouca ou nenhuma relevânica científica (acrescentam pouco ao que já se sabe), não enobrecem o espirito humano, não produzem nenhuma aplicação prática e muitas, muitas vezes, estão simplesmente errados. Isso porque muitas, muitas vezes, são produzidos por vaidade, influência econômica, modismo, carreirismo ou sem o menor conhecimento de estatística. “O cidadão comum é passível de aborrecimento” a frase pronunciada por Cícero na Roma antiga se referia aos discursos dos políticos que eram ininteligíveis aos cidadãos comuns por serem incrivelmente entediantes (que eram então excluídos das decisões políticas do império), mas poderia muito bem se aplicar aos cientistas hoje. Os cientistas fazem questão de usar uma linguagem rebuscada que dificulta ainda mais o acesso ao conhecimento hermético que produzem, tornando esse ainda mais chato. O ser humano foi equipado com um poderoso senso de estética (que pode ser prejudicado depois da 3a cerveja) para suportar as dificuldades da vida e também com uma curiosidade inata que o ajuda a explorar novos ambientes e possibilidades. Por isso não gostamos do que é feio e nos entediamos com coisas que permanecem constantes e com artigos científicos da Nature. A pesquisa científica precisa, urgentemente, deixar de ser chata.
Precisamos, todos nós cidadãos, e especialmente nós cientistas, enfrentarmos esse problema para aproximarmos a sociedade da ciência. A Internet mudou a forma de fazer entretenimento, jornalismo, negócios e política. Está na hora de usarmos todo esse potencial dessa WEB 2.0 para educar e incluir cientificamente a população. Os blogs são parte importante desse mecanismo. Antigamente o conhecimento produzido por um cientista no laboratório percorria um longo caminho até chegar ao estudante na sala de aula. Os artigos científicos eram publicados em revistas especializadas, que depois eram reunidos em revisões, livros texto e eventualmente chegavam ao livro didático, que com sorte o professor utilizaria em sala de aula. Hoje ele pode, ele próprio, em 3 passos, criar um blog e comunicar-se não apenas com estudantes, mas com TODO MUNDO! No mundo todo!
Essa é uma tarefa de todos mas principalmente do cientista, porque apenas ele pode traduzir o conhecimento complexo que está sendo produzido dentro dos laboratórios para a população leiga. Se fizermos isso, mais do que cumprir o nosso papel e a nossa responsabilidade social, estaremos capitaneando uma revolução na educação. Qualquer um que detenha um conhecimento e que tenha acesso a um computador e a internet, pode se tornar um professor para um número incalculável de pessoas, que, por quererem conhecimento e terem acesso a um computador (ou tablet, ou celular, ou TV) conectado a internet, se tornam alunos. O foco do processo educacional deixará de ser ‘o professor que detém o conteúdo e o transmite dentro de sala de aula para um número limitado de alunos’ e com isso realizamos a maior e mais poderosa inovação na educação de todos os tempos. A inovação que finalmente permitirá incluir científica, digital e socialmente, os 7 bilhões de seres humanos no planeta!
E o momento é esse! A última pesquisa de opinião encomendada pelo MCT em 2010 mostra que 65% da população brasileira tem interesse pela ciência (mais que pela política, mas ainda menos que pelo esporte) e que a internet já é a principal fonte de acesso a notícias para jovens e adultos até 30 anos. Só que um alto percentual (40%) da população que não se interessa por ciência, explica que simplesmente não consegue entender do que se trata. A maioria não conhece um cientista ao ponto de confiarem mais na palavra do médico ou dos jornalistas quando se trata de ciência. Mas a população tem noção de que ciência é capaz de coisas maravilhosas e tenho certeza que são capazes de perceber, mesmo sem entender, que hoje podemos explicar coisas que apenas 500 anos atras pareciam mágicas. Coisas que 5000 anos atras eram mágicas! Mas não podemos permitir que a compreensão desses fenômenos, e dos avanços tecnológicos e sociais permitidos por eles, fiquem restritos a uma parcela da população só por serem difíceis, pouco intuitivos ou por estarem além da nossa compreensão. Isso seria condenar a maioria das pessoas a viver a margem da sociedade, da história e do futuro. Condená-los a viver a margem do seu próprio potencial e a é colocar nas mãos de outrem o poder de tomar decisões importantes para a vida, sua e dos seus.
Todos nós, cientistas, leigos, educadores, estudantes, precisamos aprender a viver e a nos comunicar em um mundo saturado de informação. Para ter sucesso nesse mundo, temos que aprender novas habilidades: selecionar, priorizar e sintetizar informação, para podermos gerar conhecimento e propor soluções inovadoras para problemas novos e antigos. Essas são habilidades complexas que apenas a mente que se dedicou ao estudo de pelo menos uma disciplina por mais de 10 anos é capaz de desenvolver. O presidente da Apple Steve Jobs dizia que na internet “a maioria de nós continua apenas consumidores, ao invés de autores”. Os cientistas precisa tomar a iniciativa de um movimento para formar ‘autores’ e incluir científica, digital e socialmente a população.
Porque é importante para um cientista ir a uma festa literária?
Para mim, a principal atividade do cientista é estudar.
Produzir dados no laboratório (ou no campo) é uma das coisas que o cientista faz, mas transformar esses dados em informação e conhecimento é (ou deveria ser) a sua principal atividade. E para isso o domínio da linguagem escrita, da habilidade de se comunicar por escrito, de ler de maneira critica desvendando um texto e de criticar o próprio texto são fundamentais.
Por isso, vir para Paraty ouvir Roberto da Matta dizer que “quanto mais velhos fixamos, mais temos opiniões sobre tudo” ouvir Stephen Greenblatt dizer que Shakespeare “rescrevia incansavelmente seus textos”, ouvir James Shapiro falar sobre como “os autores tinha pavor de serem ‘rescritos’ por Shakespeare“, ver a empatia infinita de Gabeira, ou como uma boa idéia (“E se Renè Descartes tivesse vindo ao Brasil com Maurício de Nassau?”) ser destruída por Cao Guimarães no chatíssimo filme Ex-isto; é tão importante.
Nos ajuda a criar valores e parâmetros que são importantes para o nosso senso crítico na atividade de ler e escrever, que é uma atividade fundamental e complexa para o cientista. E que não se aprende e não se desenvolve a não ser pela prática.


















