Por que o Papa é pop?

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Quando assisti ‘Contato’, de Carl Sagan, um trecho me impressionou especialmente. E não tinha nada a ver com a nave espacial que estava sendo construída com instruções extra-terrestres: durante a seleção de quem seria o piloto da nave, que representaria a humanidade no contato com uma outra civilização, a astronauta representada por Jodie Foster, apesar de ser a melhor candidata, foi rejeitada por não acreditar em Deus. Um dos responsáveis pela seleção disse a ela: “Nossa missão era escolher alguém para falar por todos. Eu não poderia votar numa pessoa que não acredita em Deus. Alguém que acha honestamente que 95%dos seres humanos sofrem de uma ilusão coletiva.”

Sou ateu convicto, daqueles que como Richard Dawkins faz pouco até dos agnósticos (que para mim, como para ele, não tem coragem de assumir o ateísmo), mas esse número me impressiona: O que faz com que 95% da população humana sinta a necessidade de acreditar em um Deus? Qualquer um?

Eu entendo ir pra Copacabana e passar a noite inteira em uma festa de 3.000.000 de pessoas. Fiz isso para ver os Rolling Stones, o Ano Novo. Fiz pior para ver a Timbalada no carnaval de Salvador. Se as músicas fossem boas talvez eu até fosse pra lá também. Só pela festa (mas não era o caso. Apesar de muito menos chatos que os evangélicos, os católicos são chatos também). Mas a necessidade autentica em acreditar em magia e milagre, de racionalmente negar a razão e se submeter aos caprichos e vontades de uma entidade superior a você? Para mim é um retrocesso no avanço cultural e científico da humanidade.

Mas 95%… é um percentual alto. Se fosse uma análise estatística, seria até significativa. Será que existe uma razão racional, até biológica, não para a Deus, mas para a necessidade de acreditar em Deus?

Mais uma vez a melhor resposta que encontrei para essa pergunta está no livro de Desmond Morris, ‘O macaco nu’

“Já que falamos em religião, talvez valha a pena observar mais de perto essa estranha forma de comportamento anima (…) O assunto não é fácil, mas, como biólogos, devemos fazer o possível para observar o que se passa na verdade. Se o fizermos, teremos forçosamente de concluir que, em sentido comportamental, as atividades religiosas consistem na reunião de grandes grupos de pessoas que executam longas e repetidas exibições de submissão, no intuito de apaziguar o indivíduo dominante. Esse indivíduo dominador assume muitas formas nos diferentes tipos de cultura, mas conserva sempre um fator comum: um poder enorme. (…) As respostas submissas que lhe são oferecidas podem consistir em fechar os olhos, baixar a cabeça, pôr as mãos em atitude de súplica, ajoelhar, beijar o solo, ou mesmo chegar à prostração extrema, freqüentemente acompanhada de vocalizações de lamento ou de cânticos. Se esses atos de submissão são bem sucedidos, o indivíduo dominante acalma-se. Como mantém enormes poderes, as cerimônias de apaziguamento têm de ser praticadas a intervalos regulares e freqüentes, para impedir que o dominador volte a sentir-se irado. Em regra, mas não sempre, o indivíduo dominante é chamado um ‘deus’.”

“Como nenhum desses deuses existe numa forma corpórea, é o caso de perguntar por que foram inventados. Para encontrar a resposta, temos de regressar às nossas origens ancestrais. Antes de nos termos tornado caçadores cooperantes, devemos ter vivido em grupos sociais semelhantes aos que ainda hoje se vêem em outras espécies de macacos e símios. Nos casos típicos, cada grupo é dominado por um só macho. Este é ao mesmo tempo patrão e senhor todo-poderoso e cada membro do grupo tem de apaziguá-lo ou sofrer as conseqüências. O chefe é também o membro mais ativo na proteção do grupo contra os perigos exteriores e no ajuste de contendas entre os restantes membros. Durante toda a vida, cada membro do grupo gira à volta do animal dominante. O seu papel de detentor de poder absoluto dá-lhe uma posição semelhante à de um deus. Voltando agora para os nossos antepassados mais próximos, torna-se evidente que, com o desenvolvimento do espírito cooperativo, tão fundamental para a caça em grupo, a aplicação da autoridade do indivíduo dominante teve de ser muito limitada, para conservar a lealdade ativa (e não passiva) dos restantes membros. Era preciso que estes últimos quisessem ajudar o chefe, em vez de se limitarem a temê-lo. Para isso, o chefe tinha de ser cada vez mais como ‘um dos outros’.”

“O antigo macaco tirano teve de desaparecer, para ser substituído por um chefe macaco pelado, mais tolerante e cooperante. Tratava-se dum passo essencial para a organização de um novo tipo de ‘entreajuda’, mas criou um problema. O domínio total do membro n.° 1 do grupo foi substituído por um domínio qualificado, de forma que aquele não podia impor uma lealdade cega. Embora essa mudança tenha sido vital para o nosso novo sistema social, deixou, no entanto, uma lacuna. Devido aos nossos antecedentes, conservamos a necessidade de uma figura todo-poderosa que mantivesse o grupo sob um certo controle, e a vaga foi preenchida com a invenção de um deus. Dessa forma, a influência da figura-deus inventada podia funcionar como uma força complementar da influência progressivamente decrescente do chefe do grupo.”

“À primeira vista, surpreende como a religião tem tido tanto sucesso, mas o seu enorme poder nos dá apenas a medida da força da nossa tendência biológica fundamental, herdada diretamente dos macacos e símios nossos antepassados, para nos submetermos a um membro do grupo dominador e todo-poderoso. Por esse motivo, a religião tem-se revelado extremamente valiosa como mecanismo de coesão social, e é mesmo possível que a nossa espécie não tivesse progredido tanto sem ela, dado o conjunto especial das circunstâncias que acompanharam a nossa evolução.”

Pelo visto, vamos ter que conviver com isso até evoluirmos para perder esse traço de submissão da nossa personalidade.

Mais sobre genomas e ‘mainframe’ da vida

ResearchBlogging.org

O Coelacantus Africano é o parente mais próximo dos primeiros peixes que se aventuraram por terra firme LAURENT BALLESTA/ANDROMEDE OCEANOLOGIE

O Coelacantus Africano é o parente mais próximo dos primeiros peixes que se aventuraram por terra firme
LAURENT BALLESTA/ANDROMEDE OCEANOLOGIE

Enquanto sequenciamos o genoma do mexilhão dourado (PARTICIPEM!!!) outros grupos sequenciam outros genomas. Hoje descobrimos que um pessoal da Paraíba montou a primeira plataforma de crowdfunding dedicado ao sequenciamento de genomas (parabéns pessoal!) e hoje também saiu na Nature o sequenciamento do genoma de um peixe ancestral, o ‘fóssil vivo’ Coelacantus.

Abre parênteses: Fóssil vivo é uma péssima ótima expressão. Da mesma forma que uma coisa não pode ser ótima e péssima ao mesmo tempo, um fóssil não pode estar vivo. Mas ela significa que acreditava-se que esse peixe estava extinto há milhões de anos, até que em 1938 um pescador puxou um na sua rede nas águas da África do Sul. Fecha Parênteses.

Coelacantus fossil

As duas espécies desse peixe que se acreditava extinto, vivem uma na África e a outra na Indonésia. Apesar dessa cara de bicho pré-histórico, essas duas espécies que se separaram aproximadamente 6 milhões de anos atrás (mais ou menos na mesma época que os primatas se separaram no grupo que formaria os humanos de um lado e os chimpanzés do outro) tem tantas semelhanças em nível genético (no gene HOX ligado ao desenvolvimento embrionário), que os especialistas chegaram a conclusão que sua evolução é lenta… muito lenta. Juntando isso com as baixas pressões seletivas do fundo do mar, onde esses bichos vivem… temos um ‘fóssil vivo’.

Da mesma forma que estamos sequenciando o genoma do mexilhão dourado para saber mais sobre ele e poder combatê-lo, os pesquisadores estão estudando o Coelacantus para poder entender a transição entre o ambiente marinho e terrestre, ou como os peixes evoluiram para os tetrapodes (animais com 4 patas). Esse peixe tem ossos nas barbatanas, uma das demandas para ‘invadir’ o ambiente terrestre. E essa é já uma das informações que o genoma trouxe: mostraram que esses peixes já possuem uma sequencia regulatória (não o gene em si, mas aquelas sequencias que fazem com que um gene seja ‘ligado/desligado) que ativa os genes para o desenvolvimento de ‘membros’ similar a dos tetrapodes.

Outras particularidades aparecem justamente nas regiões do DNA que não codificam genes (regiões não-codificantes): o Coelacantus tem um monte de ‘transpossomos’ que são sequencias de DNA móveis, provavelmente resquícios de infecções virais, que ficam pulando de um lado para o outro do DNA (e podem ter grande importância evolutiva). E uma curiosidade… bom, pelo menos pra quem é NERD sexy que nem eu, é que eles não possuem imunoglobulina M, uma proteína do sistema imune que tooooooodo mundo tem. E sistema imune de outros bichos, vocês já sabem que a gente adora.

Será que esse bicho fica bom na Muqueca?

Amemiya, C., Alföldi, J., Lee, A., Fan, S., Philippe, H., MacCallum, I., Braasch, I., Manousaki, T., Schneider, I., Rohner, N., Organ, C., Chalopin, D., Smith, J., Robinson, M., Dorrington, R., Gerdol, M., Aken, B., Biscotti, M., Barucca, M., Baurain, D., Berlin, A., Blatch, G., Buonocore, F., Burmester, T., Campbell, M., Canapa, A., Cannon, J., Christoffels, A., De Moro, G., Edkins, A., Fan, L., Fausto, A., Feiner, N., Forconi, M., Gamieldien, J., Gnerre, S., Gnirke, A., Goldstone, J., Haerty, W., Hahn, M., Hesse, U., Hoffmann, S., Johnson, J., Karchner, S., Kuraku, S., Lara, M., Levin, J., Litman, G., Mauceli, E., Miyake, T., Mueller, M., Nelson, D., Nitsche, A., Olmo, E., Ota, T., Pallavicini, A., Panji, S., Picone, B., Ponting, C., Prohaska, S., Przybylski, D., Saha, N., Ravi, V., Ribeiro, F., Sauka-Spengler, T., Scapigliati, G., Searle, S., Sharpe, T., Simakov, O., Stadler, P., Stegeman, J., Sumiyama, K., Tabbaa, D., Tafer, H., Turner-Maier, J., van Heusden, P., White, S., Williams, L., Yandell, M., Brinkmann, H., Volff, J., Tabin, C., Shubin, N., Schartl, M., Jaffe, D., Postlethwait, J., Venkatesh, B., Di Palma, F., Lander, E., Meyer, A., & Lindblad-Toh, K. (2013). The African coelacanth genome provides insights into tetrapod evolution Nature, 496 (7445), 311-316 DOI: 10.1038/nature12027

Apropriação indébita

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Eu sou muito emotivo, mas também sou muito apegado a regra. Sem ela, nao podemos ter o que Massimo Canevacci definiou brilhantemente hoje como a “imaginação exata”, aquela que produz coisas no mundo real. E por isso, quando torturam a regra, a minha regra, a ciência, eu ficou muito, muito incomodado. Não… Agora eu estou é puto mesmo!

Estou em Paraty em um evento organizado para refletir os caminhos para o futuro do Brasil. Super ‘selecionado’, supostamente, com a nata da intelectualidade brasileira, capaz de propor esses caminhos. E o que eu vejo e ouço? A apropriação indébita, incorreta e inconsequente de conceitos biológicos pelos cientistas sociais.

A biologia evoluiu muitíssimo nas últimas décadas. Especialmente a biologia evolutiva e a neurociência, com base nas técnicas de manipulação genética e celular. Isso proporcionou o acúmulo de um amplo e sólido corpo de evidencias biológicas, capazes de explicar comportamentos humanos. E por isso a ciência, ainda que distante da sociedade, se tornou fundamental para validar critérios e acreditar opiniões.

Então, intelectuais de ‘Meia cultura e falsa erudição’, como disse Ina Von Binzer ainda no Séc XIX, se apropriam de conceitos poderosos como gene, DNA, neurocientífico, significativo… até epigenética, para corroborar ideias, opiniões e pré-conceitos sociológicos, antropológicos, pedagógicos… insustentáveis!

“A ciência mostrou isso! Vamos falar de neurociência: está tudo lá na mitocondria! O Neguinho da Beija-Flor tem 70% dos seus genes brancos. A raça se consolida com a cultura! “

Pelo amor de Darwin! Como pode um psicólogo falar tantas besteiras em uma frase só?! A neurociência está na moda, no Brasil e no mundo, com todas as coisas bacanas que pessoas como Stevens Rehen, Suzana Herculano e Miguel Nicolélis fazem. Aí o cara resolve colocar ‘neurociência’ na apresentação dele. Só que ele não sabe nada disso! E nem da pesquisa do famoso geneticista mineiro Sérgio Pena, que usa genes mitocondriais para determinar ancestralidade (já que herdamos as mitocôndrias apenas de nossas mães, geração após geração). Só que o objetivo dessas pesquisas é justamente mostrar que a genética não sustenta o conceito de raças, que duas pessoas brancas podem ter mais diferenças entre os genes que um branco e um negro.

“A nova ciência da epigenética provou que o ambiente é mais importante que os genes para determinar a felicidade das pessoas”

Eu não acredito na humildade como força modificadora e acho que um dos ingredientes mais importantes do sucesso é saber reconhecer a diferença entre o que se sabe e o que não se sabe. Eu já ouvi falar tanto de Paulo Freire que sinto como se o conhecesse, mas a verdade é que li apenas um livro seu e não me considero capaz de falar em seu nome.

Então, por favor, estudem antes de falar dos genes. É difícil, eu sei. Como disse Domenico de Masi hoje “imparare è sempre faticoso” (aprender é sempre cansativo). Mas isso não justifica ou autoriza a apropriação indébita.

Para vencer a astrologia

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Em 1990 eu estava no segundo ano da universidade quando fui pela primeira vez a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Era o meu primeiro Encontro Nacional de Estudantes de Biologia (ENEB). Fui com Milton Moraes, hoje coordenador da pós-graduação da Fiocruz e mais uma galera da Bio UFRJ. Ninguém sai impune de um ENEB e eu certamente não sai. Fui a todos os outros durante toda a minha graduação (e alguns depois dela também). Fiz ali amigos para o resto da vida como minha querida Nádia Somavilla, que então era aluna de Biologia da Universidade Federal de Santa Maria. ‘Dançando Lambada’, do Kaoma, era o hit do momento (em todo o mundo) e eu lembro super bem de tantas coisas desse evento, que é de questionar se tudo que eu li esse ano sobre a fugacidade da memória é verdadeiro. Dormíamos no chão das salas de aula e o banho era frio, mas ali vi o Carlos Minc falar pela primeira vez e descobri o que era o movimento estudantil. Além, é claro, do Carimbó, com a sempre marcante delegação da UFPA. Lembro até de dirigir o FIAT UNO do Milton pelo campus, o que só aumentou hoje a minha surpresa, ao voltar a UFRRJ, quando me deparei com o belíssimo campus da universidade. Fui a convite da minha amiga, a jornalista e professora Alessandra Carvalho, falar sobre divulgação científica, dividindo a mesa com a também jornalista Eveline Teixeira, da Universidade Federal do Mato Grosso.

Eu não preciso de muito estímulo pra ir falar do meu blog. Principalmente agora que posso levar meu livro a tira colo. (fique até pensando, depois, se tinha alguma estória do ENEB no livro, mas acho que não. Ou será que falei daquela gaúcha de 1,90m da UFRGS que dançava lambada de mini-micro saia?) Mas quando cheguei lá, no cair da tarde, a beleza dos pastos e dos prédios me impactou.

UFRRJ - ático do prédio da reitoria 2Talvez por isso, apesar de ter falado bem (no sentido de conseguir dizer tudo que tinha pra falar), respondi pessimamente a melhor pergunta que foi feita na tarde. A pergunta era tão boa, que eu pedi para a Eveline deixar eu dar um aparte, mas como diria a minha irmã, eu sou daqueles caras que tem a resposta perfeita para um discussão, 2h depois dela ter acabado. A pergunta de um rapaz foi: “Todos os grandes jornais do Brasil e do mundo tem páginas e seções de horóscopo. Mas quase nenhum (mais) tem de ciência. Todos querem saber de astrologia e ninguém quer saber de astronomia. Por que perdemos tantos espaço para o esoterismo (hoje acertei Daniela Peres – na semana passada havia escrito esoterismo com ‘x’) e como podemos recuperar esse espaço?”

Essa pergunta está na raiz do problema! Ela é a principal razão pela qual precisamos divulgar ciência. A resposta da Eveline foi boa, mas foi padrão: “porque a ciência é difícil, está longe da vida das pessoas, enquanto o horóscopo… quem não quer saber se vai encontrar o amor da sua vida?”

Mas eu acho que não é só isso. Quer dizer, SEI que não é só isso. Não é a questão da dificuldade. Aprendi que as pessoas, as normais, não NERDS, só gostam e só se interessam por histórias. De preferência com outras pessoas. E é por isso que as pessoas gostam tanto de astrologia. Não, não tem nada a ver com astros, planetas, mapas, modelos malucos com cálculos absurdos: tem a ver com pessoas. Como se comportar em relação a você e em relação as pessoas a sua volta. Nada prende mais a nossa atenção do que isso!

E ai cometi a grande gafe: disse pro rapaz que não havia nada que pudéssemos fazer e que dificilmente ganharíamos da astrologia. A ciência é efetivamente muito difícil e está se afastando cada vez mais da escala das coisas que interessam as pessoas, para escalas, astronômicas ou moleculares, que pouquíssimas pessoas entendem.

E foi só duas horas depois, dirigindo, voltando para o Rio, que eu vi o quão errada foi a minha resposta. Caramba, toda a minha luta, método de trabalho, textos no blog, livro, é pra mostrar que SIM! A ciência não só pode ser interessante como ela É mais interessante que a astrologia. E SIM (!!!) nós vamos vencer o horóscopo! Fiquei tão empolgado que perdi a saída para a linha vermelha e fui parar dentro de Caxias.

UFRRJ - prédio da reitoria

O problema dos cientistas é que tiveram que estudar tanto para se super-especializarem nos seus assuntos, que criaram uma forma de transmitir conteúdo bastante prática, porém pouco intuitiva. Os artigos científicos tem tudo que precisamos saber de forma prática e segura. Mas fria e monótona. Só estudantes e profissionais altamente motivados (e eu garanto para vocês que o estresse de uma tese é um excelente fator motivador) conseguem superar a chatice dos artigos científicos (e do papo dos cientistas também).

Quando um cientista conta uma história… bem… é esse o problema: o cientista NUNCA conta uma história. Ele sempre transmite informação, mas nunca conta uma história. Só que a história é a melhor forma de transmitir informação! Não é a mais eficiente (como o artigo científico) mas é a mais eficaz! Quem ouve uma história, aprende alguma coisa. Já quem estuda um artigo… pode aprender se não pegar no sono antes.

Só que a história não é mais intuitiva ‘por que sim’. Ou ‘por acaso’. É ciência! Nosso cérebro foi programado pela evolução para interagir com outros seres humanos e tirar a maior vantagem reprodutiva possível. Em um mundo de coisas palpáveis. O nosso cérebro, capaz de linguagem, arte e música, é a nossa ‘cauda de pavão’: o instrumento de sedução mais eficaz criado pela natureza até hoje. E porque você nunca ouviu falar disso? Bom, primeiro porque está lendo horóscopo ao invés de livros como ‘a rainha vermelha’, ‘a mente copuladora’ e ‘a guerra dos espermatozóides’. Ou ‘A verdade sobre Cães e Gatos’. Mas também porque mesmo os hábeis autores desses livros, apesar de contarem muito bem a história da ciência e dessas descobertas, não conseguem criar histórias com o que se descobre dessa ciência. E ai… a comunicação da ciência fica capenga.

Vocês já ouviram a sinfonia 25 de Mozart? Ou o ‘Inverno’ de Vivaldi? São duas obras primas que  foram, obviamente, compostas pensando em sexo! Elas tem todo o ritmo de uma relação sexual perfeita! Já pensaram em um livro que conte a história da criação dessas duas músicas maravilhosas, inspiradas por mulheres por quem eles tinham um desejo incrível, subsidiadas pela anatomia e fisiologia da mente humana, evoluída desde os primatas para seduzir parceiros sexuais? Seria um best seller!!! Ia virar filme em Hollywood!!! Acho que vou até escrever esse livro 🙂

Então me deixem responder pro rapaz novamente: “Contando histórias! Nós vamos ganhar da astrologia contando histórias!”

Reflexo IN-condicionado

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(Essa é uma postagem casada e você pode querer ler o post anterior antes desse aqui)

Quanto tempo leva entre você querer mexer o seu braço, o seu cérebro se preparar para mexer o seu braço e o seu braço efetivamente se mexer? Você nunca deve ter pensado nisso, porque, a não ser que você seja NERD que nem a gente, isso não importa: cai tudo na definição de ‘automático’. Mas nós, cientistas NERDs, damos valor a diferenças bem pequenas, desde que elas seja consistente. Então vamos lá, todos sabemos que todo movimento voluntário começa no cérebro. Mas quando?

Bom, bravos cientistas foram medir. Mais precisamente, foram medir o ‘Potencial de antecipação’ (PR), que é uma pequena mudança na corrente elétrica passando pelo couro cabeludo antes (1s ou mais) de um movimento rítmico tanto involuntário (como o batimento cardíaco) quanto voluntários (como mexer o braço. Uma medida é feita pelo eletroencefalograma (EEG), que é parecido com o eletrocardiograma, só que é feito no cérebro, com um monte de eletrodos colados na sua cabeça (pesquise no Google pra ver as imagens).

Mas a pergunta que eles queriam responder era outra. Eles, os bravos pesquisadores, estavam da ‘urgência’ (W), também chamada de ‘preparação’ (W), termos definidos pela auto-consciência do movimento: aquele exato momento em que você sente que seu braço… vai se mexer. Você nunca percebeu isso? bom, como eu disse, é porque tudo acontece muito rápido e nunca paramos para notar. Mas apesar de  um evento subjetivo, sua existência é muito bem caracterizada e documentada. A estimulação de certas zonas do cérebro durante uma neurocirurgias de crânio aberto, induzem nos pacientes uma “vontade involuntária e inexplicável de rolar a língua” ou de “mexer o braço”. A questão é que o 1s entre a alteração no EEG e o movimento do braço, pareciam um tempo muito grande para uma ação voluntária e os pequisadores queriam saber se a urgência se ainda mais cedo.

Para isso bolaram o seguinte experimento:

Um grupo de voluntários ficava sentado confortavelmente, com eletrodos em suas cabeças e braços, olhando para uma parede onde um circulo, com raios parecidos com o de um relógio, estava desenhado. Como eu disse, parecia um relógio, mas não era. Os raios estavam nas mesmas posições 12 posições, mas um volta completa do ponteiro, na verdade um ponto de lazer vermelho, levava apenas 2,56 s para completar a circunferência.

A tarefa dos voluntários era simples: tinham de movimentar livremente, espontaneamente, quando quisessem o seu pulso e os dedos da mão direita (todos os voluntários eram destros). Quando fizessem esse movimento, olhando apenas para o relógio a sua frente, tinham de guardar (para relatar posteriormente – o que faz toda diferença em um experimento onde as variações ocorrem em milisegundos) a posição do ponto de luz veremelha no momento exato em que ‘percebiam’ a ‘preparação’. A ‘urgencia’ do movimento.

Vamos combinar, foi uma grande sacada dos pesquisadores (que eram psicólogos). O ponteiro de luz vermelha era emitido por um computador, ao qual também estavam conectados o EEG e o ‘eletromiograma’ (EMG), o sensor que media o potencial de ação do musculo esquelético do braço e que marcava o início ‘real’ do movimento. Com isso, ao relatar a posição do ponteiro de luz, como a anotação do tempo marcado no relógio para um evento, os pesquisadores foram capazes de transformar uma experiência subjetiva em uma medida computável. E assim, o momento da ‘preparação’ (W) pode ser comparado com o ‘potencial de antecipação’ (PR), anterior ao ato, no escalpo e com o momento da contração voluntária do pulso, medido pelo eletromiograma (EMG).

Abre parênteses: foram feitos diversos tipos de terinamentos e controles com os participantes, para reduzir tendenciosidade e outros tipos de interferências, ou de artefatos, nas medidas ou nos relatos.

Por exemplo, “Os movimentos foram voluntários, com instruções explicitas para que fossem o mais espontâneos possível (sem planejamento). Mas também, foram externos, induzidos por um observador que tocava as costas da mão a pessoa.” ou “Após 40 atos voluntários, os participantes eram questionados quanto a existência de algum movimento que não tivesse despertado a urgência (um tipo de movimento surpresa). Essas perguntas foram feitas para tentar eliminar Bias na reportagem de eventos por parte dos participantes e aumentar a confiança nos tempos que foram efetivamente reportados.” Ou ainda “Dois tipos de controle foram empregados. Um relato dos tempos de percepção de realização do movimento (M) e outro de percepção do estimulo na mão para a realização do movimento (S)”. De acordo com os autores, os participantes ainda eram capazes, facilmente, de diferenciar entre a ‘urgência’ e qualquer outro tipo de percepção planejadora ou que não levasse a um movimento. Vai entender…

Fecha parênteses.

Os resultados foram muito claros: os RP apareciam em torno de -500 ms, antes, dos potenciais de ação medidos pelo EMG, que foram tomados como ‘tempo zero’, para as medidas comparativas. Até ai tudo bem: o movimento do pulso (medido pelo EMG) era precedido por uma atividade cerebral (medida pelo PR) em aproximadamente 500 milisegundos. A coisa ficou estranha quando mediram os tempos de ‘urgência’ (W) (a percepção introspectiva e subjetiva da decisão de mover o braço): eles foram em media de – 200 ms (também em relação ao EMG)! Ou seja: A decisão sobre mover o pulso era percebido 300 ms DEPOIS do cérebro ter iniciado o processo de movimentação do pulso! As consequências são perturbadoras: se o cérebro começa a agir antes da decisão consciente, então… o livre-arbítrio pode simplesmente não existir!

Os autores fazem diversas ressalvas: “Os RP medidos no estudo, ainda que bons indicadores, representam a atividade de uma pequena área, a região motora suplementar no neocortex mesial” sendo que outras áreas poderiam estar sendo ativadas para a ‘decisão’ em outro local do cérebro. Na verdade, uma infinidade de mecanismos de ‘iniciação’ e ‘integração’ do sinal no cérebro, antes dele virar consciente e se tornar uma ação, poderiam atuar no cérebro. Um ‘pensamento’ não gera diferença de potencial suficiente para gerar um registro no EEG, e justamente por isso é tão difícil avaliar essa percepção subjetiva de forma objetiva. E é também por isso que os autores ressalvam : Podemos ainda especular que exista uma fase anterior da consciência do movimento que não sejamos capazes de recapitular, ou que não possa ser armazenada na memória recente, dado que a habilidade de relatar esteja vinculada a memória recente.” Mas nenhuma dessas ressalvas mudam o fato de que a decisão sobre o movimento  acontece de forma inconsciente. Nas palavras dos autores: “Concluímos que a iniciação de um ato voluntário no cérebro, como dos estudados aqui, pode começar, e usualmente começa, inconscientemente”

Abre parênteses: O termo inconsciente refere-se simpesmente a todos os processos que não são expressos como uma experiência consciente. Isso pode incluir, e não se distingue de, preconsciência, subconsciência e outros processos de inconsciência não reportáveis. Fecha parênteses.

É claro que a evidência de iniciação inconsciente de um ato voluntário relatada nesse artigo se aplica a um número muito limitado de atos. No entanto, um simples ato motor voluntário como o relatado aqui sempre foi considerado com incontroversamente e exemplo ideal de um ato engdógeno e livremente voluntário.

“Essas cpnsiderações parecem limitar o potencial dos indivíduos para exercer controle consciente (como iniciar) sobre seus atos. Considerando que atos voluntários espontâneos possam ser iniciados inconscientemente, ainda poderíamos imaginar duas condições em que um controle consciente poderia ser exercido: um ‘veto’ consciente que ‘aborta’ o processo espontâneo inconsciente (o que parece encontrar evidência mesmo nos resultados desse experimento) e em processos onde os atos voluntários não são espontâneos e nem de resposta rápida.”

Na melhor das hipóteses, assustador. Mas pelo menos agora você tem a desculpa perfeita para aquela olhada para o lado quando passa um bum-bum bonito ou um decote mais ousado.

Libet B, Gleason CA, Wright EW, & Pearl DK (1983). Time of conscious intention to act in relation to onset of cerebral activity (readiness-potential). The unconscious initiation of a freely voluntary act. Brain : a journal of neurology, 106 (Pt 3), 623-42 PMID: 6640273

Sorriso Maracanã

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Apesar do brilhantismo vocal da nossa espécie, também apresentamos os mesmos padrões de comunicação básicos de outras. Eles estão relacionados com emoções primárias e são prontamente reconhecidos pelo seu propósito. E ao contrário das línguas e idiomas, esses sinais são independentes de raça ou cultura. Eles são o choro, o riso e o sorriso.
O choro é partilhando pela maioria das espécies. Gritos, lamúrios e guinchos e chios são uma forma clara de transmitir susto ou dor. Tristeza também, mas principamente nos adultos. Quando somos pequenos choramos também pela ausência de necessidades imediatas, pela perda de apoio físico ou frente ao desconhecido. Pensando bem, quando somos adultos também. Além da verbalização, o choro é acompanhado por uma série de sinais visuais, manifestados principalmente na face: tensão muscular, vermelhidão, abertura da boca, retração dos lábios, lacrimejar e exagero na respiração.
O choro poderia até ser um riso. E é. Ou melhor, o riso é que é um choro. Sabe quando dizem que ‘rimos até chorar’? O mais correto seria dizer que ‘choramos até rir’, porque aparentemente o riso é que se origina do choro.
Enquanto o choro está presente desde o momento do nascimento, o riso aparece apenas por volta do 3 mês de vida, quando começamos a reconhecer nossos pais. E mais precisamente, nossa mãe. “Antes de aprender a identificar o rosto da mãe e a distinguí-lo de outros adultos, um bebe pode gorgolejar e balcuciar, mas não ri. Quando começa a conhecer a própria mãe, começa também a ter medo dos outros adultos.” E ai o riso será importante.
Conforme começa a perceber o mundo a sua volta, o bebê aperfeiçoa o seu sentimento de medo. Convenhamos: é um mundo assustador! A mãe é a principal (senão única) fonte de conforto e segurança. Porém, como também a mãe é capaz de fazer coisas que assustam ao bebê, ele tem de administrar um conflito: chorar porque está assustado ou gorgojear e balbuciar porque está feliz? Perdido entre os dois, o bebê ri. Com o tempo (e a seleção natural), o riso se tornou uma resposta independente.
O riso é uma resposta dramática, que indica que um perigo existe, mas não é real. É um aval para uma brincadeira continuar, um sinal de confiança. Se a brincadeira causar maior desconforto, o riso vira choro e a resposta da mãe passa a ser de proteção. O riso indica que a pessoa está pronta para ultrapassar seus limites e explorar o mundo a sua volta.
Não somos apenas nós que rimos. O famoso úu-úu-úu dos chimpanzés também é o resultado da mistura da sua cara-de-felicidade (lábios projetados o máximo para frente) com a cara-de-medo (lábios retraídos com os dentes a mostra), que transforma o grunhido nesse som. Só que a medida que o tempo passa, os chimpanzés ficam mais sérios e brincam pouco quando se tornam adultos. Nós, por outro lado, continuamos brincalhões, e transformamos o ‘riso’ em uma importante arma social. “Rir é um duplo insulto, porque indica que o outro é assustadoramente esquisito e, ao mesmo tempo, que não vale a pena levá-lo a sério” afirma Desmond Morris no excelente livro ‘O Macaco Nu’.
Já o sorriso se diferenciou a partir do riso para se tornar uma resposta específica, um sinal de saudação entre membros da espécie. Enquanto uma saudação com um riso pode ser desconfortável (afinal, estão te chamando de esquisito) a saudação com o sorriso indica apenas amabilidade. Um bebê de 7 meses é incapaz de diferenciar um quadrado de um triângulo, mas reconhece perfeitamente esse leve alçar dos cantos da boca que configuram o sorriso.
“Todos os contatos sociais provocam pelo menos um certo medo. O comportamento do outro indivíduo na ocasião do encontro é sempre uma incógnita. Tanto o riso quanto o sorriso indicam a existência desse medo, associado com sentimentos de atração e bom acolhimento. (…) O sorriso mútuo assegura aos que sorriem que ambos estão num estado de espírito ligeiramente apreensivo, mas com atração recíproca. Estar ligeiramente receoso significa estar não agressivo e estar não agressivo significa estar amigável; dessa maneira, o sorriso constitui um dispositivo de atração amigável.”
A chave para entender o sorriso parece estar na nossa pele sem pelos (ao menos comparado aos outros primatas). Um bebê que começa a se desgarrar da mãe para explorar o mundo, quando quer voltar a segurança do convívio materno, tem sempre dois desafios: chamar a atenção da mãe e manter essa atenção. O primeiro é fácil, basta chorar. Qualquer mãe que esteja tentando dormir sabe disso. O segundo é mais difícil. Os macacos não precisavam se preocupar com isso, porque já nasciam fortes e quando a mãe se aproximava atendendo ao chamado do choro, eles logo se agarravam nela segurando no pelo. Pra não desgrudar mais. Como nós nascemos fracos e nossas mães não tem pelos, temos que usar uma outra estratégia para manter o foco da atenção da mãe: é ai que entra o sorriso. A mãe fica tão feliz de ver aquela coisinha sorrindo, que não consegue mais deixá-la. E sorri. O bebê fica tão feliz de estar com a mãe e vê-la sorrindo, que sorri mais ainda.
DSCN0834.JPGO sorriso diz para ambas as partes “Eu sou amigável, fique comigo”. Um gesto que dá origem a uma reação em cadeia de felicidade. Que ninguém sabia provocar como Danielli Pureza (in memoriam).

Formando curadores

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Depois de escrever sobre a importância do critério na inovação no texto anterior, não parei de pensar sobre a importância das estratégias evolutivamente estáveis (EEE) e sobre a importância de ter a habilidade (ou a flexibilidade) para poder optar por uma ou outra estratégia em função do contexto.
Ando obcecado por critério, porque é ele que permite a você decidir quando mudar de estratégia, é ele que te permite ver a importância que a tomada de decisão pode ter na sua vida, que te estimulará a buscar opções e a desenvolver os seus critérios.
Ao longo da nossa vida, vamos testando limites e estabelecendo critérios. Ao longo da evolução, em nível de espécie e população, vamos adquirindo variabilidade gênica e adaptações que nos permitem nos adequarmos a diferentes ambientes e situações.
Critério é tudo para a vida. E critério é tudo na vida.
Atualmente, as escolas nos ensinam mais a imitar (“Como passar no vestibular em 12 lições”), mas as empresas e os empregadores querem pessoas com critério, porque só elas são capazes de inovar. Porque isso, o ‘cérebro eletrônico’ ainda não pode fazer.
Ai em cima vocês vem meus alunos da “Oficina de Escrita Criativa em Ciência” que terminou na 6a feira, fazendo um dos muitos exercícios sobre seleção de informação e redação.
Cada vez mais tomo consciência que a escrita não é uma questão de inspiração, mas sim de prática. E o que mais se pratica, quando se escreve, é o critério.
Acredito que a escrita é um poderoso instrumento para adquirir e exercitar critério. Para “formar curadores” como disse o Luli Radfher. Por isso temos que colocar todo mundo pra escrever e transformar todos em ‘autores’.
Sem critério, pode ser que você se torne deputado.

Molho de tomate e a origem da vida


Eu adoro cozinhar. E a minha especialidade é molho de tomate. Herdei da minha avó e aprimorei com minhas tias italianas. Modéstia a parte, é um espetáculo. Hoje, enquanto dava a última fervida antes iniciar o longo processo de apuração a frio, vi elas lá, lindas, algumas ‘células de Benard‘. Bom, não eram exatamente como deveriam ser, mas com ‘um pouco de muita boa vontade’, podia-se até imaginar que, nas condições ideais, elas apareceriam, pra enfeitar o meu molho de tomate.
Mas acho que, além da emoção da despedida de hoje, eu me emocionei com o fato de, finalmente, entender o que são as ‘células de Benard’ e porque elas são tão importantes.
Não se preocupe se você nunca ouviu falar sobre isso, é justamente o que eu vou explicar aqui.
Em 1997, quando eu começava o doutorado no Instituto de Biofísica da UFRJ, fiz uma disciplina incrível, chamada ‘Filosofia da Ciência’, onde tive, entre muitas, uma aula incrível com um físico chamado Paulo Bisch, que tinha estagiado no laboratório do grande químico Ilya Prigogine, que tinha ganho o prêmio Nobel pelos seus estudos em termodinâmica e pela descoberta das estruturas dissipativas.
Se você é como os meus alunos e não sabe quais são as leis da termodinâmica, pode dar uma olhada aqui e aqui e aqui, mas o que você precisa saber mesmo é que elas são leis fundamentais do universo. E se alguma coisa vai contra as leis da termodinâmica, então essa coisa tem problemas.
Muito bem, acontece que a ‘vida’ é uma dessas coisas que aparentemente vai contra as leis da termodinâmica. Mais precisamente, contra a segunda lei da termodinâmica, porque nós somos seres altamente organizados e que ‘ganhamos’ organização ao longo do tempo, enquanto tudo no universo ‘perde’ organização ao longo do tempo. Como isso é possível? Com um gasto muito grande de energia. Assim, desorganizamos ainda mais o universo, para que possamos nadar contra a corrente nos mantendo altamente organizados.
Abre parênteses: já sei, você não entendeu. Olha, eu não vou te enganar, não dá pra entender de primeira mesmo. É um trem pouco intuitivo e difícil. Tem que ler mais coisas a respeito. Não desista. Fecha parênteses.
Bom, apesar de você não ter entendido direito, explicar como a vida se encaixa na 2a lei da termodinâmica foi relativamente fácil. Mas outras coisas pareciam não se encaixar de jeito nenhum. Uma delas são as células de Benard.
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Na verdade as células de Benard são apenas um exemplo dos ‘sistemas estáveis afastados do equilíbrio termodinâmico’, que era o que mais intrigava o Prigogine. As ‘células’ que vocês estão vendo são pequenos redemoinhos de água em uma placa. O que o Prigogine chama de ‘afastado do equilíbrio termodinâmico’ significa que tem uma fonte de calor, como o fogo da boca do fogão, esquentando alguma coisa, como a placa de petri com água, ou a minha panela de molho de tomate. Sem fonte de calor, mesmo dois corpos tenha inicialmente uma temperatura diferente, o corpo mais quente vai passar calor para o corpo mais frio até que os dois fiquem com a mesma temperatura. Isso é o equilíbrio termodinâmico. Mas com a fonte de calor… o corpo mais quente passar calor para o corpo mais frio, mas eles nunca chegam na mesma temperatura.
E é isso que acontece quando você esquenta a água pra fazer café ou chá: perto do fogo está mais quente e perto da superfície está mais fria (ou menos quente) até que… a água começa a ferver. Não é mais só o calor que sobre pela coluna de água. A água mais quente é menos densa e sobe para a parte de cima da coluna d’água (dentro da penala, ou chaleira). Já a água da superfície é mais fria e densa, e desce para o fundo da panela. Forma-se então um movimento de convecção (a água sempre desce por um lado e sempre sobe pelo outro). É literalmente uma ‘cachoeira’ de água menos quente e um ‘geiser’ de água mais quente, que se alimentam um do outro: quando o geiser chega a superfície da coluna d’água, passa calor para o ar e a água esfria. Esfria o suficiente para aumentar a sua densidade e precipitar na cachoeira que leva até o fundo da panela, onde o calor do fogo esquenta a água até ela perder densidade e subir no ‘geiser’ e repetir o processo. Vistos de cima, as ‘cachoeiras’ estão nos centros das células, a parte mais escura, e os ‘geisers’ estão nas extremidades das células.
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A regularidade dessas estruturas impressionou os químicos e físicos da época. Como poderia um sistema fora do equilíbrio gerar ordem? Isso parecia ir contra a 2a lei da termodinâmica. Mas na verdade não ia, porque na verdade a formação das ‘células de Benard’ permitia que mais calor fosse transferido, e mais rapidamente, da água para o ar. Ou da fonte para o ar através da água. Foi então que Prigogine teve a grande sacação: quando um sistema fora de equilíbrio (como a água dentro da chaleira sobre o fogo para fazer café) alcança um momento crítico, a ordem aparece para permitir uma troca de calor mais eficiente entre os dois sistemas. Ele chamou esse fenômeno de ‘auto-organização’ e as estruturas ordenadas de ‘estruturas dissipativas’ porque elas permitem que o sistema dissipe, transfira, mais calor para o meio.
Entender isso, o que eu só fiz anos depois, foi uma vitória. Mas para mim, já depois daquela aula, tudo tinha mudado. Deus estava definitivamente morto. Havia caido, para mim, o último bastião da magia. Não havia mais um ‘por que’ ou um ‘para que’ a vida tinha sido criada. A vida é uma estrutura dissipativa auto-organizada em um ponto crítico do sistema termodinamicamente aberto do nosso planeta. Que, guardadas as devidas proporções, e respeitada a licença poética, pode ser considerada uma chaleira cuja função é dissipar a energia vinda do sol. E, como todo estrutura dissipativa, o seu aparecimento é inevitável, dado que o sistema chegue ao ponto crítico.
Depois dai, deixo com Darwin, no trecho final do belo filme ‘Criação’, que terminei de assistir hoje.
“É da guerra da natureza, da fome e da morte, a coisa mais sublime que somos capazes de conceber, a saber, ou seja, a produção dos animais superiores, advém. Há grandeza nesta forma de ver a vida, que enquanto este planeta foi girando de acordo com a lei fixa da gravidade, a partir de um início muito simples, infinitas formas as mais belas e as mais maravilhosas, evoluiram e continuam evoluindo.”

A primeira impressão é a que fica

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O que os mamíferos e as plantas com flores e frutos (Angiospermas) tem em comum? Não vale dizer que você tem são aquelas mangas da Mangueira que você tem no quintal.

 A pergunta é ampla e por isso possivelmente difícil de responder mas está no centro de uma polêmica que envolve você diretamente, seu passado, presente e futuro: o ‘Imprinting parental’. Imprinting‘ é o nome dado a capacidade que alguns genes (o genótipo) tem de forçar a expressão da sua característica (o fenótipo) no filho de acordo com a origem desse gene: paterna ou materna. Se o gene que se manifesta veio do pai, então a característica será uma. Se veio da mãe, a característica será outra. Você pode achar que isso é a mesma coisa que a relação de ‘dominância’ que você aprendeu na escola, quando o alelo ‘A’ que determina olho escuro era dominante sobre o alelo ‘a’ que determinava olho claro. Mas não  é, porque a dominância do ‘A’ se mantém independente dele ter vindo da mãe ou do pai. No ‘imprint‘ quem determina se a característica será manifestada não é a informação do gene em si, mas as ‘marcas’, um verdadeiro programa ou software, que não está gravado no seu código genético.

Abre parênteses: Se você não lembra mais o que são ‘alelos’, ‘genótipo’ e ‘fenótipo’ não tem problema: Você sabe que nós somos diplóides, ou seja, possuímos dois conjuntos de genes, um de origem materna e outro de origem paterna. Então cada gene do nosso corpo, que, você sabe, é responsável pela produção de uma proteína (bom, não é exatamente assim, mas serve para a nossa discussão hoje) possui duas cópias, uma vinda do pai e outra da mãe. Cada cópia de um gene para uma mesma proteína é chamada de ‘alelo’. Então, como cada gene determina uma proteína, a sequência de nucleotídeos desse gene (aquelas letrinhas A, C, T e G) é que é o ‘genótipo’ e o produto final da manifestação desse genótipo, que nesse caso é a proteína que ele produz, é o ‘fenótipo’. Em geral usamos o termo ‘fenótipo’ para uma característica visível, como ‘olhos castanhos’, ou ‘cabelo ruivo’, mas como cada uma dessas características é dada por proteínas, então podemos dizer, especialmente aqui, que a proteína é o fenótipo. Fecha parênteses.

 Os genes que você importou do seu pai e mãe funcionam em conjunto, na grande maioria dos casos, sendo expressos ao mesmo tempo, produzindo as proteínas que, também agindo em conjunto, ajudam a te fazer quem e como você é. 

Abre parênteses: Na ‘expressão monoalélica‘, o fenótipo também é determinado pela expressão de apenas um dos alelos, o do pai ou da mãe. A diferença é nesses casos essa definição é aleatória, ao acaso, e no ‘imprinting‘ ela acontece em resposta a uma programação. Fecha parênteses.

Em geral essa mistura é boa, porque com característica combinadas da sua mãe e do seu pai, você tem melhores chances de enfrentar os problemas de adaptação ao ambiente do que eles tiveram. (e esse é o grande argumento da reprodução sexuada). Mas alguns genes não são assim. Eles não gostam dessa ‘mistura’. Na verdade detestam ela e são capazes de brigar, e muito, para que sejam expressos sozinhos, sem nenhuma manifestação ou interferência da copia do mesmo gene do outro genitor.

Mas por que isso? Se a reprodução sexuada é importante justamente para termos as características do pai e da mãe; e é tão importante a ponto de só podermos reproduzir se conseguirmos um conjunto de genes do sexo oposto, por que os genes então os genes combateriam para eliminar esses mesmo genes que, tantas (nossa, tantas e tantas) vezes, passam por grandes desafios para conseguir?

A resposta a essa pergunta é longa, então eu vou dar apenas parte dela. É que apesar de homens e mulheres colaborarem para terem um filho, em cada evento em que isso acontece, não significa que essa colaboração atenda aos interesses maiores de um e de outro. As estratégias reprodutivas de homens e mulheres (machos e fêmeas) são muito diferentes e não são conciliatórias. Colaboração em meio a competição. Isso é o que melhor descreve o relacionamento entre os dois sexos do ponto de vista biológico. Já sei, você acredita em almas gêmeas, unha e carne, feitos um para o outro… Bom, acho que se você for discutir com seus amigos na mesa de bar vai encontrar muito mais exemplos de um grande amor que te passou a perna (quando você então deixou de considerá-lo um grande amor) do que de um grande amor que se confirmou como tal. Não só na sua experiência, mas como na dos seus amigos e amigas também. O fato é que machos e fêmeas precisam colaborar para produzir a prole, mas ambos estão com as antenas ligadas para se aproveitarem um do outro na primeira oportunidade.

E o Imprint parental é uma dessas estratégias. Uma ‘rasteira epigenética‘ que machos e fêmeas tentam passar um no outro logo depois da fecundação. Os ‘genes de imprint‘; trazem ‘marcas’ do seu genitor, seja ele o pai ou a mãe. Como as cicatrizes que o Lamarck achava que poderíamos passar de uma geração para outra. Essas ‘marcas’ são grupamentos metil que são adicionados no DNA durante a meiose para a formação do gameta. A ‘metilação‘ do DNA é um código, um programa, que vai influenciar na expressão desses genes ao longo do desenvolvimento do embrião. Ops, mas peraê, quer dizer então que podemos transferir informação ‘adquirida’ para as próximas gerações sem que elas estejam gravadas no código genético? Exatamente! São os mecanismos epigenéticos, mas isso é uma outra história, para ser contada um outro dia.

O ‘imprint‘ começa a ser programado no corpo do genitor, durante a espermato e ovogênes. Os ‘genes de imprint‘ são metilados diferencialmente, um programa que é capaz de resistir até mesmo a ‘limpeza do zigoto’ que é o grande evento de desmetilação que acontece assim que o óvulo é fecundado, para apagar todas essas ‘marcas’ hereditárias. Logo depois da grande limpeza, lá estão de volta os genes de imprint todos metilados novamente. São essas marcas epigenéticas, esses nucleotídeos metiladosque levarão a expressão diferencial dos genes.

Ops, peraê, divergi. 

Relendo o texto vejo que não respondi a pergunta que formulei 3 parágrafos atrás: porque sufocar os genes que nos esforçamos para conseguir misturar? E pior, que servem tanto para machos e fêmeas de mamíferos quanto de angiospermas?

O conflito entre machos e fêmeas vem do fato da fêmea carregar o filhote no ventre e ter certeza que todos os seus filhos, são seus filhos. Isso faz com que a infidelidade da fêmea seja pior para o macho do que a infidelidade do macho é para a fêmea. Ou você acha possível que uma fêmea crie a prole da infidelidade do macho achando que os filhotes são dela? Não tem como. Já o macho… pode muito bem estar criando um filhote que saiu da barriga da fêmea dele, mas que não é dele. Só para vocês terem uma idéia, em humanos essa taxa está em torno de 10-15%. Que é baixa, porque nós temos muitos mecanismos para iludir os outros, mas muitos mecanismos para evitarmos de ser iludidos também.

Em outros animais, esse percentual é muito maior. O imprint parental não pode ajudar a garantir a fidelidade, mas pode ajudar que ela seja menos profícua.

No embrião humano, as camadas externas são responsáveis pela formação da placenta. As plantas com frutos tem a estrutura chamada ‘endosperma’, que em geral é a parte suculenta do fruto, aquela que a gente come. Apesar das diferenças, o endosperma e a placenta tem a mesma função: transferir nutrientes da mãe para o embrião, seja ele um bebê ou um grão de milho. Uma placenta desenvolvida dá origem a um bebê maior e mais forte, que tem mais chances de sobreviver, mas enfraquece tanto a mãe quanto os outros filhotes que ela possa estar carregando na mesma gestação. Ainda que em humanos isso seja mais difícil, não é difícil de perceber a idéia por trás. Em muitos mamíferos, como os cãezinhos de estimação, a fêmea é capaz de carregar filhotes de diferentes machos em uma mesma gestação. Se um filhote carrega um gene do pai que estimula a formação de uma placenta grande, então aquele filhote receberá mais nutrientes que os outros, e nascerá com  mais chances de sobreviver. Para o filhote e para o pai dele é ótimo, mas para a mãe e os outros filhotes dela (meio-irmãos do ‘placentudo‘), é muito ruim.

Como a mãe tem sempre certeza que os filhotes são dela, ela quer mais é variar o macho, para ter uma prole diversificada, e com mais chances de ter seus genes se fixando na população. Para isso, ela quer garantir que os recursos energéticos que pode investir na reprodução, sejam divididos igualmente entre os filhotes, sem que ela aumente o risco de morte durante o nascimento ou seja prejudicada nas próximas gestações.

Para o macho, essa diversificação da fêmea não é interessante, porque criar futuros competidores para os seus genes. Então ele, além de cuidar para que ninguém mais fecunde a sua fêmea, coloca nos seus espermatozóides genes que vão explorar os recursos energéticos da fêmea e minimizar as chances de sucesso de outros filhotes dela que não sejam seus.

A mesma coisa acontece nas plantas com frutos. Os genes da planta macho querem um endosperma grande e suculento, para que os seus genes, presentes na semente, possam germinar com tranqüilidade. Já a planta fêmea, quer distribuir seus recursos em endospermas equivalentes para todos os frutos, garantindo a germinação de todas as sementes que ela produzir.

Sinistro, não é mesmo?!

Um ‘cabo de guerra’ até que a morte os separe.

Reik W, & Walter J (2001). Genomic imprinting: parental influence on the genome. Nature reviews. Genetics, 2 (1), 21-32 PMID: 11253064
Moore, T. (1991). Genomic imprinting in mammalian development: a parental tug-of-war Trends in Genetics, 7 (2), 45-49 DOI: 10.1016/0168-9525(91)90230-N

A invenção da morte

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Quando a Nina Simone diz “Ev’rytime we say goodbye, I die a little” (na verdade as palavras são de Cole Porter, mas ficam muito melhores na voz da Nina, não é?!) é uma metáfora, mas não está longe da realidade. A morte é tão complicada quanto a vida. Ela é certa, mas é difícil de determinar e de prever. Mais ainda de explicar.

A morte é uma variável discreta (morreu/não morreu) e não contínua (vivo/pouco morto/muito morto/ morto). E a morte é definitiva. Então o que é que está dizendo a Nina?
É que a morte pode acontecer em escalas diferentes. Assim como temos diferentes níveis de organização biológica (célula, tecido, órgão, organismo) para o qual podemos atribuir vida, também podemos dizer que houve morte. De certa forma, até mesmo a extinção é a morte de uma espécie.
A morte é sempre a mesma, mas não terá o mesmo significado, ou as mesmas conseqüências, dependendo do nível em que acontece.
A morte celular, que os cientistas chamam de apoptose, é um dos principais mecanismos da vida. Sem ela não poderíamos moldar as partes do nosso corpo durante o desenvolvimento. Da mesma forma que um escultor tira um pouco de argila daqui e coloca ali, os genes controlam ‘mãos invisíveis’, que tiram as células de um lugar para que possam aparecer outras células em outro. Uma das ‘mãos’, a que tira a argila, são as proteínas que se chamam ‘caspazes’. Elas funcionam em reações em cadeia, que chamamos de cascatas, apesar de se parecerem muito mais com aquelas cascatas de Champagne (onde os copos estão um em cima do outro fazendo uma torre e ao transbordar o copo de cima, você enche os que estão embaixo) do que com uma cachoeira. Quando chega um sinal dizendo que aquela célula precisa sair dali, as caspazes recebem esse sinal e disparam a cascata de reações que culmina na fragmentação de proteínas, material genético e, eventualmente, da morte da célula. Quando então a célula morre e a membrana também se fragmenta, são liberados sinais que servem para outras células fazerem o mesmo.
Abre parênteses. A “mão que constrói”, seriam proteínas que controlam o ciclo celular, a divisão de uma célula em duas (que viram quatro, e depois oito…), mas isso é uma outra história. Fecha parênteses.
A morte celular também é a nossa principal defesa contra os tumores. Se uma célula sofre uma mutação, um dano no seu DNA, e esse dano não pode ser consertado, então as caspazes entram novamente em ação, e levam a célula maligna para a forca.
Então, em nível celular, a morte é boa? Poderíamos dizer que sim. No mínimo irrelevante, porque não há perda de material genético. Todas as células do nosso corpo tem o mesmo DNA (ou quase). Se uma morre, ainda que o seu DNA não permaneça, as células vizinhas tem o mesmo material genético. E pra vida, é isso o que importa.
E aqui você, leitor, pode ficar zangado comigo, porque o que eu vou dizer é meio ‘remédio amargo’: duro de engolir. Mas para a natureza, quem você é e todas as coisas legais que você fez na vida, mesmo se você tiver sido Shakespeare ou Mozart, não importam. Porque tudo que você já fez, já passou, e o que importa, é o que está por vir. E para lidar com o que está por vir, você precisa de genes, de genes novos. O que importa são os genes que você deixa para a sua próxima geração. Para arrumar genes novos, você precisa arrumar um(a) parceiro(a) pra trocar genes, o que os cientistas chamam de reprodução sexuada, mas você pode conhecer por vários outros nomes, nem tão científicos assim. Sem um parceiro(a), a gente não consegue reproduzir. Até porque, não valeria a pena, mas essa também é uma outra história. O que importa dessa discussão aqui é que sob está ótica, a célula em si, mesmo organismo organismo como um todo, não é importante: o importante são os genes dentro dele.
Bom, e parece que é isso mesmo. Desde de que Dawkins publicou “O gene egoísta” em 1976 essa é a teoria dominante. Nossos organismos são apenas máquinas para propagar nossos genes.
Então a morte, aquela que importaria, é a morte do organismo, porque ai seus genes se perderiam, pelo menos se ele não conseguisse reproduzir primeiro. Se morrem apenas algumas células, tudo bem, porque as outras continuam tendo os seus genes. Você não morre ‘um pouco’, mas só algumas partes de você morrem. E isso faz de você quem você é.
Mas nesse ponto surge uma pergunta inevitável, ainda que estejamos sempre tão preocupados com a morte que nunca paremos realmente para pensar na lógica dela: porque se dar ao trabalho de reproduzir para ‘escapar’ da morte, se poderíamos apenas sobreviver?
Abre parênteses: Sim, porque dá um trabalhão reproduzir. Você não pensa no trabalho que dá porque não é a evolução trabalhando milhões de anos a fio para desenvolver o processo, e porque, no final das contas, reproduzir é gostoso. Mas você já pensou que é gostoso simplesmente para que você se dê ao trabalho? Essa história também vai ficar para outro dia, porque agora eu tenho que voltar para a minha pergunta original. Fecha parênteses.
A teoria do gene egoísta não explica porque nós morremos, ou porque devemos morre, ou mesmo porque existe morte. Mas deu a pista.
Os genes usam seus organismos para competirem uns com os outros. Desenham organismos que sejam eficientes para competir por abrigo, alimento, parceiros reprodutivos e ingressos para a final do campeonato. Mas essa não é a única forma dos genes competirem uns com os outros. Eles podem competir diretamente! Essa competição pode se dar de várias formas, mas hoje só vamos falar de uma, a mais importante, aquela com um material genético parasito, que nem organismo tem: os Vírus.
A a morte é uma brilhante solução para um problema complexo: os parasitas.
Abre parênteses, de novo: Vou ter que deixar pra falar disso de novo outro dia, e peço desculpas a vocês por estar deixando tantas coisas de lado hoje, mas o meu espaço, e o tempo e a paciência de vocês, é curto, e eu preciso chegar no meu destino. Fecha parênteses.
Não há como vencer a competição com os parasitas sobrevivendo, por isso a gente morre, deixando o corpo cheio de parasitas pra lá, e criando um novo corpo para o nosso material genético (com a ajuda de um parceiro(a) de alta qualidade, e de preferência um sistema imune diferente do nosso). Um processo muito estudado na física, chamado ‘resiliência‘. O furo na teoria estava no fato dessas coisas todas que eu falei: apoptose, caspazes, modelagem no desenvolvimento, resiliência… serem encontrados apenas em organismos superiores: os eucariotos. Mas os vírus são muito mais antigos, então porque a morte teria aparecido só nos eucariotos? Mas ela, a senhora com a foice na mão, é mais antiga que os eucariotos, é foi isso que Nick Lane, um dos descobridores, conta no artigo anexo.
Os organismos mais antigos da Terra, as cianobactérias, cujos fósseis remontam há 3,8 bilhões de anos, possuem um grupo de proteínas chamadas metacaspazes, disparam processos de apoptose em situações de estresse, principalmente durante infecções virais. Antes dos vírus se reproduzirem e romperem a célula liberando mais partículas virais para contaminar outras células, a cianobactéria se mata. Um ato nobre, vocês não acham? Mas muito antinatural. Na natureza não tem essa coisa de ‘ser bonzinho’ e ‘não cobiçar a mulher do próximo’. É cada um por si! E um organismo unicelular não pode fazer como a Nina Simone e ‘morrer só um pouco’. Então como explicar um organismo unicelular que ativa morte celular programada? A explicação de Lane está na alta redundância do pool genético de uma floração de fito e bacterioplancton. As cianobactérias são unicelulares, mas nunca estão sozinhas. Quando as condições ambientais são favoráveis, elas se reproduzem muito, em um curto intervalo de tempo, produzindo uma população enorme, um ‘bloom’, ou floração. Por isso, os organismos nesses blooms são praticamente clones, e, assim, da mesma forma que uma célula em um organismo multicelular entra em apoptose para que o organismo se livre de um câncer, uma cianobactéria entra em morte celular para livrar a floração de uma virose. A célula morre, mas a floração morre só um pouquinho.
A morte pode não ser definitiva, dependendo da escala em que observamos. Mas o problema de se morrer um pouquinho, é que pode-se continuar morrendo muitas vezes, por muito tempo. E isso não é bom.

Lane, N. (2008). Marine microbiology: Origins of Death Nature, 453 (7195), 583-585 DOI: 10.1038/453583a

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