Terminei de ler: ‘Uncertainty’

Uncertainty

Sim, fiquei um tempão sem escrever aqui. Mas não sem ler.

Entre os livros incríveis que já li esse ano, um chama atenção porque a história poderia ser um blockbuster de hollywood, poderia virar série do Netflix, poderia virar combate como o UFC. Só que um combate de cérebros! A história da descoberta da mecânica quântica e do princípio da incerteza de Heisenberg.

“Desde que Marie-Curie se perguntou sobre a espontaneidade do decaimento radioativo, desde que Rutherford perguntou a Bohr o que fazia o elétron pular de um lugar para outro nos átomos, cresceu o entendimento que eventos quânticos acontecem, em ultima instância, sem nenhuma razão.

O que nos leva a um impasse. A física clássica não pode dizer que o universo ‘aconteceu’, porque nada pode ter acontecido sem que um evento anterior tenha causado o acontecimento. A física quântica não pode dizer ‘porque’ o universo aconteceu, exceto dizer que ele simplesmente aconteceu, espontaneamente, como uma questão de probabilidade mais do que de certeza.

Em outras palavras, Einstein estava certo quando reclamava que a mecânica quântica não poderia dar uma visão do mundo físico que não fosse ‘incompleta’. Mas talvez Bohr estivesse ainda mais certo em dizer que essa ‘incompletude’ era não só inevitável, como talvez até necessária’. Chegamos então a um paradoxo que Bohr teria adorado: somente através de um ato inexplicável de incerteza da mecânica quântica que o nosso universo pode ter chegado a sua existência, disparando uma cadeia de eventos que levou ao nosso aparecimento em cena, nos perguntando que ‘ímpeto’ original nos trouxe a existência”

O que esse belíssimo trecho final do livro de David Lindley ‘Incerteza: Einstein, Heisenber, Bohr e a luta pela alma da ciência’ (que poderia muito bem dar origem a um roteiro de filme) não diz, é que o livro é um destruidor de mitos.

Quando li pela primeira vez que “Max Planck, ao passar em revista a sua carreira no seu Scientific Autobiography, observou tristemente que ‘uma nova verdade científica não triunfa convencendo seus oponentes e fazendo com que vejam a luz, mas porque seus oponentes finalmente morrem [sic] e uma nova geração cresce familiarizada com ela’” (citado por Thomas S. Kuhn em ‘A Estrutura das Revoluções Científicas’, 1962) nunca poderia imaginar que ele estava falando… de si mesmo. E de Einstein e de Schrödinger. 

Como eu já sabia que Einstein tinha encrencado com o princípio da Incerteza, não veio como uma completa surpresa para mim a resistência que ele criou. Mas a intensidade da resistência e a dedicação a provar que Heisenberg estava errado, chegando a negar os próprios princípios da sua relatividade geral… me surpreenderam. Mas talvez a maior decepção tenha sido Schrödinger, que também não acreditava no que o mundo pudesse existir sem causa e consequência, ação e reação: qual não foi a minha surpresa ao descobrir que o famoso experimento teórico do gato ‘quântico’ que estaria 50% vivo, 50% morto dentro da caixa foi pensado (originalmente por Einstein) não para ajudar a explicar melhor a mecânica quântica, mas sim para provar que se um gato quântico é impossível (ridículo talvez fosse a palavra mais adequada), então o era toda a mecânica quântica. O cara que eu considerava o ‘pai’ da biofísica, era um bundão!

A triste verdade, é que a história (mesmo o presente) mostra que os cientistas, mesmo os mais honráveis e brilhantes cientistas, quando tem suas filosofias desafiadas, são capazes de dedicar todo o seu intelecto e grande parte do seu tempo a combater as idéias que desafiam suas descobertas ainda que elas contribuam para o avanço da ciência e para a explicação de fenômenos observados quotidianamente.

Michael Shermer no também interessantíssimo livro ‘Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas’ dá a explicação: “Não fazemos escolhas utilizando a inteligência; fazemos escolhas em função das circunstâncias, por medo, para ter aceitação dos pares. Fazemos escolhas até ao acaso. Mas depois de feita uma escolha, utilizamos todo o nosso intelecto, todo o nosso arsenal cognitivo e toda a nossa criatividade para justificá-las, por mais estranhas que elas pareçam”.

Dan Ariely, outro grande autor que conheci recentemente, chama atenção na sua palestra no TED para o ‘conflito de interesses’ que criamos, inevitavelmente, todas as vezes que falamos para defender uma posição. Lidar com esse conflito é um desafio para qualquer pessoa, em qualquer situação, mas acredito que é um desafio especialmente grande para os cientistas, que buscam a verdade real e não consensual.

Sorte do Heinsenberg que nunca precisou se preocupar com isso. A descoberta dele foi tão incrível e tão definitiva, que ele nunca precisou defender sua descoberta de si mesmo. Heisenberg seria ‘o’ cara se não tivesse se juntado aos nazistas para fazer a bomba atômica alemã.

Como falei, o livro é um destruidor de mitos.

“A verdade sobre Cães e Gatos” o livro do Blog “Você que é Biólogo…”

Saiu o livro do blog!

Uma seleção de textos em torno de assuntos que interessam e agradam a todos nós: homens, mulheres, amor, sexo, instintos e emoções. São 51 textos que trazem uma visão científica e divertida desses temas, e vão colocar um pouco mais de pimenta na já acalorada disputa entre os sexos.

O lançamento oficial, transmitido ao vivo pelo Hangout, será no dia 12/06, dia dos namorados, as 18h na livraria Folha Seca, no Centro do Rio de Janeiro. Depois o autor vai a São Paulo, Campinas, Salvador, Recife e Natal. No final do Ano, Curitiba, Porto Alegre e Caxias do Sul.

Leia aqui a resenha na contra-capa feita por Cristine Barreto e o texto sobre o autor escrito por Eduardo Goldenberg.

O livro está a venda na loja da Singular digital, no formato impresso e digital ou eBook.

Aqui nessa página você pode deixar os seus comentários sobre livro e sobre o autor.

A verdade sobre cães e gatos. E sobre homens e mulheres também.

O livro mais esperado do ano… vai ficar para o ano que vem.

Acho que vocês não tem idéia de como é difícil publicar um livro. Talvez seja como tudo na vida. Uma vez um professor de música me disse: “tocar violão um pouco é fácil. Tocar violão bem é muito, muito difícil”.

Tendo escrito teses e publicado alguns artigos em revistas científicas, eu já sabia que publicar poderia ser, para o autor, tão difícil quanto produzir a informação. Então eu sabia que não seria fácil, mas não imaginei que seria tão difícil quanto escrever o livro.

Os editores, acabei descobrindo, são como os investidores de risco. No Brasil não existe um investidor de risco sequer que tope correr risco algum. Só querem investir em projetos com lucro certo. A mesma coisa são os editores. Não querem editar o livro, só querem fazer a diagramação e ficar com 90% do preço de capa. Conversei com uma dezena deles e é uma vergonha.

Abre parênteses: É verdade que vergonha mesmo são as grandes livrarias, que ficam com 55% dos noventa. E nós… seduzidos pelo brownie e o café – que custam o dobro de qualquer outro lugar – acabamos para que eles nos vendam o livro, mais do que pagamos pelo livro! Mercado-negro… isso que elas deveriam ser chamar! Fecha parênteses.

Mas nem tudo são espinhos. Tive que correr atrás das ilustrações eu mesmo e com uma super dica da Ana Paula Abreu-Fialho cheguei no grande José Carlos Garcia da Pixelworks. Aqui vocês vêem algumas ilustrações de cordel que ele fez para o livro. E olha que essas não são as definitivas!

E com um pouco de sorte, porque há de se contar com a sorte também, eu cheguei até a Ana Maria Santeiro que será minha agente literária.

Me digam vocês, se não é muito chique ter um agente literário?! Porque eu, como diria Preta Gil: – “Acho chique!” E demais.

Mas o dinheiro não vai dar pra ter um assessor de imprensa. Então, contarei com vocês, meus caros amigos, leitores, amigos leitores e leitores amigos, para fazer a divulgação. Quero aproveitar Janeiro e Fevereiro para fazer muitas noites de cerveja e autógrafos. Com ou sem discurso. E se vocês acham que conseguem juntar mais de 20 amigos em torno de uma mesa de bar para ver um biólogo falar, me avisem que eu vou até a cidade fazer um lançamento. Tem que ser bar, porque as livrarias vão querer ficar com 50% do preço de capa dando só água pra gente beber.

Aguardem só mais um pouco. Você não vai poder dar o livro de presente de natal, mas vai poder dar de presente de carnaval.

Tu sabes quanto tu vales?

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Uma querida amiga, que faz aniversário hoje, fez um pronunciamento inflamado em uma discussão entre amigos na semana passada:
“(…) é sim uma necessidade de deixar bem claro, que nós mulheres, exatamente por sermos fortes, bonitas e independentes, não estamos na prateleira esperando que um homem nos escolha (coitadinhas) e nos dê a honra de sua fálica companhia.”
Meus amigos que não tem treinamento em ciência são facilmente iludidos pelo que os cientistas chamam de ‘seleção de observação‘, que é quando prestamos atenção nos eventos que confirmam nossas expectativas, quaisquer que elas sejam, e ignoramos (ou desconhecemos) aqueles que negam. Eles são literatos, inteligentes e observadores perspicazes, mas por causa disso, acabam por encontrar padrões onde eles não existem, como no movimento das estrelas (astrologia) ou nas ações das outras pessoas (conspiração).

O texto completo desse post está no livro do blog ‘a verdade sobre cães e gatos’, a venda ao lado

Pra saber realmente “o que querem as mulheres”

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Abri o jornal, não pra saber sobre a guerra contra o tráfico de drogas no Rio, mas para procurar propaganda de colchões. Você sabia que pode comprar um colchão excelente em São Paulo, com frete grátis, pela metade do preço do mesmo colchão no Rio? Vi essa propaganda na revista do Globo semanas atrás e fui procurar de novo.
Mas não é disso que eu quero falar. Com eu tinha visto a propaganda do colchão em uma revista do Globo fui olhar o caderno Zona Sul, que era revista do dia no jornal. E nem precisei folhear para me deparar com a grande bobagem que era a reportagem da capa: “Palavra Feminina”.
A reboque da pouco-séria mini-série que a Globo está transmitindo, a revista perguntava a várias mulheres da Zona Sul, o que elas queriam.
Não é só que os depoimentos fossem banais, do tipo que Miss daria em concurso, como:
“Dinheiro no bolso e bumbum sem celulite” ou “Equilíbrio espiritual, mental e físico” ou ainda, “Independência financeira, sucesso profissional e amor”. É que toda essa idéia por trás de “o que é que as mulheres querem, é furada.
Explico o porquê. Primeiro, o que as mulheres realmente querem, é que ninguém saiba o que elas querem.
Continue lendo…

A lógica da raiva

É assim que você fica quando está brava
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“A raiva é parte da biologia básica da espécie humana. Ela aparece espontaneamente na infância, está distribuída universalmente entre culturas, em todos os indivíduos e tem uma base neural espécie-específica.”
Assim começa o artigo que eu vou comentar hoje. Quando você é cientista, nada do que serve de acalento para a maior parte das pessoas funciona. Florais de Bach, mantras, massagem holística… nada disso ameniza a mente racional. Bom, é verdade que Rivotril funciona mesmo nos cientistas. Mas antes de partir pras drogas pesadas, a gente procura consolo na sabedoria de bilhões de anos da seleção natural.
Na tentativa de explicar biologicamente a raiva, os cientistas procuraram primeiro compreender qual seria o propósito da raiva: para que ela teria sido selecionada pela seleção natural? A resposta, vejam só, é que ela teria evoluido como ferramenta de barganha, para resolver conflitos de forma favorável para a pessoa com raiva.
Como assim?
Todo ser humano dá um determinado valor ao próprio bem estar e também ao bem estar alheio. E é claro, está disposto a investir uma certa quantidade de tempo e de recursos (de energia) nesses bem estares (o próprio e o alheio). A raiva seria um ‘incentivo’ (ou como veremos melhor, uma ameaça) para que o ‘próximo’ desse mais valor ao bem estar da pessoa com raiva, as vezes até mesmo em detrimento do dele próprio.
O quanto nós deveríamos nos preocupar com o bem estar do próximo (ou o bem estar alheio) com relação ao nosso próprio?
Eu já tratei aqui sobre questões de agressividade, e como podemos calcular o valor do altruísmo e da ajuda. Certamente essa resposta depende do que está (ou se há) em jogo, mas alguns fatores variam de forma esperada, sempre. Um deles é o grau de parentesco (que você pode ler mais aqui).
“Os seres humanos possuem sistemas cognitivos que buscam pistas de grau de parentesco, e ‘recalibram’ suas ações altruísticas de acordo com essas evidências.”
Se um amigo pede para eu ir até a Barra da Tijuca buscar os ingressos para ele ir a um show numa 6a feira as 5 da tarde pela linha Amarela, eu não vou. Mas já se for a minha irmã…
A raiva faz parte de um outro sistema cognitivo, que é o sistema de barganhas. Como podemos convencer alguém a ser altruísta conosco se ele não é nosso parente?
Depende do nosso poder de barganha, que se resume, basicamente, em duas coisas com nomes estranhos, mas significados muito familiares: formidabilidade e conferibilidade. No inglês, de onde vem a nomeação, os dois termos não são utilizados com os significados mais usuais do português, mas sim no sentido de ‘impor dificuldades’ e ‘conceder benefícios’, respectivamente. Assim, quanto mais ‘formidável’ uma pessoa é, mais dificuldades ela é capaz de impor a você (e não é que as vezes é assim mesmo?!).
Entre outras coisas que podem ser levadas em conta pelo mesmo ‘sistema de barganhas’ estão a agressão, a reciprocidade e as externalidades. Essas suposições todas precisam se apoiar em um suposto sistema computacional do cérebro humano que seja capaz de:

  • Avaliar as consequências de um ato para si mesmo
  • Avaliar as consequências de um ato nos outros
  • Relacionar e avaliar as consequências dos atos em ambos

E essas avaliações tem de levar em conta todos os fatores que relacionamos até agora (raiva, agressividade, parentesco, formidabilidade e conferibilidade, além de externalidades não previstas) juntos. Isso quer dizer que é fácil atribuir um valor ao medo que temos de uma agressão isoladamente, mas e se o risco de agressão se apresentasse quando uma pessoa querida está envolvida, ou em uma situação de ‘tudo ou nada’, ou ainda com um aparente parceiro, mas que cometeu uma grande traição? Os valores, os pesos que damos a cada variável, bem podem mudar. E mudam!
“Existem muitas evidências de que esse ‘sistema de avaliação da barganha’ existe nos humanos como parte de uma intrincada arquitetura neural e toma parte ativa nos nossos processo de tomada de decisão.”
Mas como poderíamos influenciar no valor que a outra pessoa dá ao nosso ‘bem estar’ em uma situação de conflito, quando ela está computando a barganha? é ai que a raiva entra! A raiva é a nossa ferramenta para ‘ entrar’ no sistema nervoso do outro e modificar as prioridades dele para que atendam mais as nossas próprias.
Acontece que a raiva por si só provavelmente não tem poder suficiente para modificar a perspectiva alheia. Ou você nunca ouviu aquela frase, principalmente dos seus pais, no auge da sua raiva: “Vai ter dois trabalhos, ficar puto e desficar” (Bom, meu pai não falava palavrão, mas ele dizia, “Claro filho, você pode ir na festa, mas eu não vou te emprestar o carro”).
Para não arriscar o desperdício de energia da raiva, a pessoa irritada faz uso de duas outras ferramentas, essas sim, muito mais poderosas: o potencial para infligir custos no oponente, ou o seu potencial para retirar benefícios que são esperados.
“Claro meu amor, você não precisa concordar comigo, mas hoje não vai ter sacanagem pra você” diz a minha irmã para o marido dela (mas tudo bem, ele é Francês).
A maior parte dessas transações é mais efetiva se ficam no campo da ameaça. Ou seja, só com a reação de raiva sendo suficiente para mudar o comportamento alheio para atender as demandas do indivíduo, sem ter que partir para a agressão ou para a privação.
Isso porque todo esse ‘teatro’ é baseado, principalmente, na visão que a pessoa tem do seu próprio potencial de barganha. Se essa percepção estiver muito equivocada, ninguém vai dar atenção a ela, ou ninguém vai recusar nada a ela. Mas se essa percepção estiver apenas um pouco descalibrada, então o conflito pode ser perigoso.
Abre Parênteses:Aliás, esse parece ser o único porém desse excelente artigo, o grupo de indivíduos estudado é quem avaliou a sua própria propensão a raiva, em um questionário com perguntas do tipo: Você tem o pavio curto? Ainda que você não aja, você tem vontade de dar um murro na cara das pessoas? Você nunca arreda o pé de uma discussão? Fecha parênteses.
Mas é isso mesmo que os modelos comportamentais modernos mostram: que são as pessoas com maior poder de barganha que efetivamente se enraivecem com mais facilidade. Ou seja, não há ‘blefe’ no ‘sistema’ de raiva.
Abre Parênteses: uma conhecida teoria de blefe no sistema de raiva é o ‘efeito napoleão’, onde os indivíduos tentariam compensar a perda de poder de barganha da sua baixa estatura colocando força nos seus acessos de raiva. Fecha parênteses.
Então, pessoas que possuem um grande capacidade de machucar ou de causar privações nos outros, acabam esperando melhor tratamento dos outros, e ficam com raiva facilmente quando não recebem. Aposto que você conhece alguém assim, não conhece?
Mas assim como em outros programas neurocognitivos, não existem evidências de que os seres humanos conheçam as bases para o funcionamento desse processo ou ajam de forma consciente. Eles simplesmente conhecem seus efeitos na motivação e no comportamento. E usam e abusam deles.

Sell A, Tooby J, & Cosmides L (2009). Formidability and the logic of human anger. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 106 (35), 15073-8 PMID: 19666613

A raiva tem lógica

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(Essa é uma postagem colada e talvez você queira ler primeiro o artigo anterior)

“Os seres humanos diferem da maioria das espécies no número, intensidade e duração de relações de colaboração próximas”

Biologicamente, a raiva de baseia na habilidade das pessoas de mudarem o peso que dão ao bem estar alheio em função de uma reação raivosa. Mas claro, essa habilidade não responde apenas a isso, principalmente em uma espécie tão social como a nossa. Reciprocidade e troca são outros fatores que se somam a formidabilidade e conferibilidade e aos que comentamos anteriormente, capazes de influenciar no processo de decisão.
Sim, mas apesar desse papo todo bonitinho de colaboração, o que conta, no fim das contas, é mesmo o tamanho do braço.
Sim, os pesquisadores correlacionaram as respostas do questionário (que, não canso de repetir, incluía perguntas como: Você encara os outros? Desde os 14 anos você esteve em quantas brigas? A violência resolve problemas pra você?) com o a circunferência do biceps e a carga de peso levantada no supino. O resultado não poderia ser outro: uma correlação significativa com a propensão a raiva e com o histórico de brigas.
Não poderia ser outro porque na verdade estamos falando de uma herança ancestral. A força da parte superior do corpo sempre conferiu habilidade a um homem de infligir dor aos seus oponentes. Esse é, também, um dos principais critérios cognitivos para despertar atração das mulheres. Logicamente, então, a força muscular aumenta o ‘índice de formidabilidade’ de um indivíduo.
Abre parênteses. Curiosamente, não havia correlação com a capacidade de ruminar. Não, não estou chamando os fortões da academia de ruminantes. Ruminar é o termo, também nomeado no Inglês, para o tempo que uma pessoa permanece com raiva. Na verdade, nenhum dos parâmetros avaliados pelo estudo apresentou relação com a ruminância. Fecha parênteses.
Mas se a força na parte superior do corpo de um homem pode servir de argumento para que ele espere que as outras pessoas atendam as seus caprichos (ou sofram as consequências), será que esse argumento também funcionaria para as mulheres? É verdade que quando a minha fisioterapeuta me pegava pelo trapézio com apenas o polegar e o indicador, a dor era tanta que eu seria capaz de qualquer coisa. Ela nem precisaria dar um pitty.
Mas para as mulheres o critério é outro: a beleza! Quanto mais atraente uma mulher, maior também o seu índice de formidabilidade e, principalmente, de conferibilidade.
Você acha estranho? Não, não acredito. Depois de tudo que eu já falei aqui e aqui?! Mas se precisar ainda de um argumento, o artigo traz vários: A beleza é um importante critério de juventude e pessoas mais bonitas são mais valorizadas como parceiros sexuais, companheiros, aliados, tem salários maiores, maiores probabilidades de assumirem posições de liderança, para serem eleitas para cargos públicos e, até mesmo, recebem penas menores do sistema judiciário.
E ainda que as mulheres reclamem da quantidade de outras mulheres e de homens gays no mercado, o acesso sexual as fêmeas é um fator muito, mas muito mais limitante para os homens do que o acesso sexual aos homens é para as mulheres. E assim, mesmo uma pequena habilidade de oferecer acesso a sexualidade, garante um grande poder de barganha para uma mulher. Não me massacrem, por favor. A culpa é da seleção natural.
De fato, os autores encontraram que as mulheres mais bonitas (ou melhor, as que se percebem – e são percebidas – como mais bonitas – por fotos ou então por perguntas de questionário como: eu mereço mais do que uma pessoa comum? Eu sou melhor do que a maioria das pessoas?) são mais eficientes em resolver conflitos, tem maiores expectativas com relação ao que os outros devem oferecer a elas, e tem uma propensão significativamente maior a acessos de raiva.
Novamente, a beleza não se correlacionou com a ruminação. Mas porque o tempo que ficamos com raiva não se correlaciona com a propensão a raiva? A explicação é lógica. Se o papel da raiva é atrair atenção (e energia, e esforço) para os nossos problemas (ainda que caprichos), então ela deveria se dissipar logo depois do objetivo ter sido atingido. A ‘ruminação’ acontece quando alguma coisa nos impede de tomar uma ação direta enquanto estamos com raiva, e temos que avaliar se essa ação considerando as consequências. Que podem ser políticas, sociais ou até criminais. E como as leis se aplicam a fortes e fracos, feios e bonitos, a ruminação não se correlaciona com nenhum dos fatores medidos nesse estudo.
O artigo termina mostrando que a força muscular é fator mais relevante para avaliar a propensão a raiva do que a própria testosterona, que a propensão a raiva está ligada também a uma atitude mais conivente com a agressão (já que homens fortes e mulheres bonitas tendem a aceitar melhor que o seu país entre em guerra com um oponente) e que a propensão a raiva tem um componente filogenético (ancestral e evolutivo) mais forte do que o ontogenético (histórico e desenvolvido).
Ao que tudo indica, “o crime não compensa”, mas a raiva sim.

Sell A, Tooby J, & Cosmides L (2009). Formidability and the logic of human anger. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 106 (35), 15073-8 PMID: 19666613

Terminei de ler… O andar do bêbado

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“Alguns anos atrás, um homem ganhou na loteria nacional espanhola com um bilhete que terminava com o número 48. Orgulhoso por seu feito, ele revelou a teoria que o levou à fortuna.
“Sonhei com o número 7 por 7 noites consecutivas”, disse, “e 7 vezes 7 é 48”
O primeiro parágrafo de O Andar do Bêbado de Leonard Mlodinow da um exemplo de quão grande é a nossa capacidade de abstrair a realidade em prol da nossa percepção da realidade.
Se você acha que uma coisa é, então ela será, não importa que ela não seja.

Entre os bons livros que tenho lido nos últimos tempos, esse é o que eu mais recomendaria, para um maior número de pessoas. Não importa se você é cientista, jogador e futebol, analista da bolsa de valores, advogado, jornalista, médico ou professor. Ao contrário do que prega Kardec, o acaso existe sim, e além de ser um fator determinante nas nossas vidas, é provavelmente o que menos pessoas conseguem entender.
Mas Leonard consegue te explicar sem nenhuma equação, em 90% do tempo sem nenhuma fórmula, ainda que use bastante números. Mas são números interessantíssimos e nada daquela chatice de dados e urnas (ainda que sim, esteja cheio de dados e urnas nos exemplos do livro).
Por exemplo, você sabia que a análise matemática das demissões de técnicos após o fracasso de seus times, em todos os grandes esportes, mostrou que, em média, elas não tiveram nenhum efeito no desempenho da equipe?
O maior desafio à compreensão do papel da aleatoriedade na vida é o fato de que, embora os princípios básicos dela surjam da lógica cotidiana, muitas das consequências que se seguem a esses princípios provam-se contraintuitivas. Que em qualquer série de eventos aleatórios, há uma grande probabilidade de que um acontecimento extraordinário (bom ou ruim) seja seguido, em virtude puramente do acaso, por um acontecimento mais corriqueiro.
Outro ponto importantíssimo levantado por Leonar é a importância da quantidade de informações. Enquanto a falta pode levar à concorrência entre diferentes interpretações, o excesso pode diferenciar o vencedor. Se os detalhes que recebemos em uma história se adequarem à imagem mental que temos de alguma coisa, então, quanto maior o número de detalhes, mais real ela parecerá (isso porque consideraremos que ela seja mais provável, muito embora o ato de acrescentarmos qualquer detalhe do qual não tenhamos certeza a torne menos provável)
O livro ainda faz pouco das pseudo-ciências que tentam ignorar o acaso. No caso da astrologia, o exemplo veio da Roma Antiga:
“Cícero, (…) Irritado com o fato de que, apesar de ilegal em Roma, a astrologia ainda continuasse viva e popular, (…)observou que [quando] Aníbal (…) trucidouum exército romano (…), abatendo mais de 60 mil de seus 80 mil soldados. “Todos os romanos que caíram em Canas teriam, por acaso, o mesmo horóscopo?”, perguntou? “Ainda assim, todos tiveram exatamente o mesmo fim”.
Mas acho que Leonard encontrará também bastante resistência, porque ele acaba com muitas das estatísticas dos esportes. Todos eles! Veja essa passagem e imagine como se aplicaria ao campeonato brasileiro:
“Se um dos times for [55%] melhor que o outro (…), ainda assim o time mais fraco vencerá uma melhor de 7 jogos cerca de 40% das vezes (…). E se o time superior for capaz de vencer seu oponente em 2 de cada 3 partidas, em média, o time inferior ainda vencerá uma melhor de 7 cerca de uma vez a cada 5 disputas. (…). Assim, as finais dos campeonatos esportivos podem ser divertidas e empolgantes, mas o fato de que um time leve o troféu não serve como indicação confiável de que realmente é o melhor time do campeonato.:
Que foi claramento o que aconteceu com o Flamengo no Brasileiro e com o Botafogo no Estadual. 😉
Mas a sacaneada mais bacana está nos médius:
[em uma roleta] O trabalho do apostador é simples: adivinhar em qual compartimento cairá a bolinha. A existência de roletas é uma demonstração bastante boa de que não existem médiuns legítimos, pois emMonte CarIo, se apostarmos USD 1,00 em um compartimento e a bolinha cair ali, a casa nos pagará USD 35,00 (além do USD 1,00 que apostamos). Se os médiuns realmente existissem, nós os veríamos em lugares assim, rindo, dançando e descendo a rua com carrinhos de mão cheios de dinheiro, e não na internet, com nomes do tipo Zelda Que Tudo Sabe e Tudo Vê, oferecendo conselhos amorosos 24h, competindo com os outros 1,2 milhões de médiuns da internet.”
Mas falando mais sério, o livro é uma aula de matemática, história, estatística e ciências. Ele explica o ‘Triangulo de Pascal’, as ‘Provas de Bernoulli’, o ‘Teorema Áureo’, o surreal ‘Teorema dos pequenos números’, a ‘Distribuição Normal’ e o ‘Teorema do Limite Central’. E de forma que a gente entende.
Um fato que me chamou atenção, porque relacionei com a educação e com a avaliação de alunos, é ilustrado abaixo:
“Um diretor de empresa que tenha 60% de anos de sucesso, deve apresentar 60% de sucessos em um Periodo de 5 anos (que seriam aproximdamente 3)? Na verdade não! (vai ler o livro pra ver a explicação!) Na verdade é mais provável que 2/3 dos diretores tenham um resultado mais guiado pelo acaso do que pelas suas habilidade. Nas palavras do matemático Bernoulli: “Não deveríamos avaliar as ações humanas com base nos resultados:”. E sim nas suas habilidades

Um dos monstros da estatística praticamente desconhecido do público geral e louvado no livro é Bayes. Esse monge jamais publicou um único artigo científico e provavelmente realizou seu trabalho para satisfação própria. Bayes desenvolveu a probabilidade condicional em uma tentativa de resolver o problema: como podemos inferir a probabilidade subjacente a partir da observação?
Ou como traduziu Leonard: “Se um medicamento acabou de curar 45 dos 60 pacientes num estudo clínico, o que isso nos informa sobre a chance de que funcione no próximo paciente?
Novamente, não é uma questão fácil. Assim como eu que já fiz umas duas disciplinas de estatística Bayesiana garanto a vocês: Bayes é demais, mas é difícil demais.
Para Leonard, uma das pequenas contradições da vida é o fato de que, embora a medição sempre traga consigo a incerteza, esta raramente é discutida quando medições são citadas:
“Se uma policial de trânsito um tanto exigente diz ao juiz que, segundo o radar, você estava trafegando a 60km/h numa rua em que a velocidade máxima permitida é de 55km/h, você provavelmente será multado, ainda que as medições de radares com frequência apresentem variações de muitos quilômetros por hora.”

Ah… um capítulo a parte é o papel do acaso na avaliação de vinhos (também tem um sobre vodcas e outro sensacional sobre o efeito placebo da glicosamida), mas esses são tão bons que merecerão um post a parte
Finalmente ele aborda a questão com a qual inicia o livro: nossa habilidade para reconherce padrões, chamada de Heurística. Para Leonard, “Buscar padrões e atribuir-lhes significados faz parte da natureza Humana”.A heurística é muito útil, mas assim como nosso modo de processar informações ópticas pode levar às ilusões ópticas, a heurística também pode levar a erros sistemáticos. Ou erros de vieses.
“Todos nós utilizamos a heurística e padecemos de seus vieses. E o que é pior, temos o costume de avaliar equivocadamente o papel do acaso em nossas vidas, tomando decisões comprovadamente prejudiciais aos nossos interesses.”
Um desses exemplos é a ‘Falácia da Boa Fase’, experimentada por atletas de qualquer esporte (mas principalmente os mais assistidos); mas o mais chocante é o ‘Viés da confirmação’.
“Quando estamos diante de uma ilusão – ou em qualquer momento em que tenhamos uma nova ideia -, em vez de tentarmos provar que nossas ideias estão erradas, geralmente tentamos provar que estão corretas.”
Essa tendenciosidae representaria um grande impedimento à nossa tentativa de nos libertarmos da interpretação errônea da aleatoriedade. Como afirmou o filósofo Francis Bacon em 1620,
“a compreensão humana, após ter adotado uma opinião, coleciona quaisquer instâncias que a confirmem, e ainda que as instâncias contrárias possam ser muito mais numerosas e influentes, ela não as percebe, ou então as rejeita, de modo que sua opinião permaneça inabalada”.

Se o acaso é inevitável e a sorte é fundamental, então o diferencial pode não ser o talento (ainda que ele seja necessário), mas a persistencia.
“O primeiro Harry Potter, de J.K. Rowling, foi rejeitado por nove editores e o manuscrito de “A firma’, de John Grisham só atraiu o interesse de editores depois que uma cópia pirata que circulava em Hollywood lhe rendeu uma oferta de US$600 mil pelos direitos para a produção do filme.
Como observou Thomas Edison “muitos dos fracassos da vida ocorrem com pessoas que não perceberam o quão perto estavam do sucesso no momento em que desistiram!”
Não deixem de ler, absolutamente!

Densidade 0,12 ou como montar uma lista de convidados para uma festa

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Eu estou cada vez mais convencido: ciência se faz na biblioteca e na mesa de bar. Claro, no laboratório e no campo também. Mas nesses lugares a gente coleta dados, é na solidão da biblioteca ou na enfervescência da mesa de bar que eles viram informação e conhecimento.
Estou em Viçosa (MG) para participar de uma banca de concurso público para professor em Biofísica Ambiental. Confesso que vivi um conflito. Entre as aulas de duas disciplinas de pós-graduação e duas de graduação, encarar 11h de viagem em um intervalo de 50h não era o meu ideal de vida. Mas foi o primeiro convite que recebi para uma banca de concurso, o que nessa profissão é uma coisa importante, e eu não pude recusar.
Fui surpreendido por uma cidade menor, e uma universidade maior, do que eu imaginava; por um pão de queijo e um doce de leite maravilhosos, e por professores muito simpáticos.
Ontem a noite me levaram pra jantar no num barzinho bacana, o ‘Pau Brasil’, e depois da 3a cerveja, estávamos 4 professores contando histórias de faculdade, congressos e artigos. Não vou mentir pra vocês: era papo de NERD! As piadas eram feitas com uma mistura de carnaval em Piuma (ES) e aquaporina (uma proteína de membrana que permite a entrada organizada de água nas células); entre congestionamento de carros e metabolismo celular; ‘Pubs’ inlgeses e a teoria das supercordas; cidades turisticas e diversidade de gastrópodes em floresta tropical de altitude. Mas eu garanto, éramos a mesa mais divertidada do bar. Acho até que nossas gargalhadas estavam atrapalhando as outras pessoas. Aquelas normais.
E foi nesse clima que o prof. Og de Souza (sim, o nome dele é ó gê mesmo) falou da regra do 0,12. Segundo ele, para qualquer coisa, na verdade para qualquer agrupamento de organismos, a densidade ideal era 0,12. Fossem esses organismos bactérias, cupins, coelhos, cavalos ou pessoas. O 0,12 seria um número mágico! Mas cientistas não gostam de números mágicos e ele teve que explicar pra gente.
O Og trabalha com cupins e os vários artigos publicados em revistas internacionais de alto nível garantem que ele sabe do que está falando com relação a esses bichinhos. Os artigos dele mostram que a sobrevivência de cupins é até 5 vezes maior quando eles estão na densidade de 0,12 (densidade é uma grandeza adimensional e por isso não tem unidade), mesmo expostos a inseticidas, do que quando estão em densidades maiores ou menores que esse valor.
Mas porque?
Já na 6a garrafa de Original (ou era de Bohemia?), ele se indireitou na cadeira, como fazem as autoridades antes de falar, e, usando saches de Ketchup, começou a sua explicação:
“Cada organismo é capaz de interagir (trocar informação) de maneira ideal com 8 organismos ao seu redor” em um esquema que vocês podem observar na foto acima, tirada in loco.
“Se você colocar mais um indivíduo (representado pelos saches de ketchup) além desses 8, a informação terá de passar por um intermediário o que reduz a sua qualidade e a eficiência do processo”.
E continua “Se você tem menos de 8 organismos (e ele retira 3 saches vermelhos), perde vias de chegada de informação, e pode estar recebendo menos informação do que o necessário pra sua sobrevivência”.
A explicação já tinha sido clara o suficiente, mas ele estava empolgado: “Imagina que você está em um ônibus lotado. É mais fácil ou mais difícil falar com o motorista pra pedir pra descer?”
E foi com a aplicação desse tipo de raciocínio, que ele se propuseram a testar a teoria da densidade ótima de organismos humanos: em uma festa!
“Cada pessoa ocupa, em média, uma área de 0,25m2. Medimos o tamanho do salão e calculamos quantas pessoas seriam necessárias para que a área do sãlão dividida pela área ocupada pelos convidados fosse 0,12.”
Isso permitiria que cada pessoa pudesse interagir diretamente com outras 8, criando o ambiente mais favorável possível a trocas de informação. Fizeram a lista e chamaram os convidados. Como quase toda festa, ela começou meio mixuruca e depois foi melhorando. Um dos anfitriões ficava em pé em uma cadeira monitorando os convidados com dois aparelhos: um festodensitômetro* e um animofestômetro*
E batata! Na hora em que o festodensitômetro marcava 0,12 foi registrado o pico de animação no festoanimômetro!
Apesar desse ‘experimento’ ter sido conduzido na Inglaterra, os organizadores eram latinos e os convidados também. Isso quer dizer que cada convidado acreditava que o convite para a festa era extensivo a vários outros amigos, e rapidamente a densidade populacional começou a aumentar. O curioso foi que o efeito do aumento da densidade na festa foi similar aquele encontrado em agrupamentos de insetos: a segregação de grupos.
Quando a densidade aumenta, naturalmente grupos menores começam a se formar para que a interação e a troca de informação entre eles seja mais eficiênte.
Não tem nada de sociologia gente: é pura física (entropia) e biologia (efeitos dependentes da densidade).
Rapidamente peguei o telefone e liguei pra Cristine, que está organizando a melhor festa do ano, sua tradicional festa de aniversário, nessa 6a feira: “Alô?”; “Alô, oi, sou eu, qual é a metragem do seu apartamento?”
Chegamos a conclusão que com a lista dela a densidade está em 0,18. Na 6a feira levarei o festodensitômetro e o animofestômetro. Depois eu conto pra vocês como é que foi.
Miramontes, O., & DeSouza, O. (2008). Individual Basis for Collective Behaviour in the Termite,
Journal of Insect Science, 8 (22), 1-11 DOI: 10.1673/031.008.2201

* Festodensitômetro e animofestômetro são aparelhos fictícios para indicar a avaliação subjetiva da quantidade de pessoas e da animação delas na festa.

Use camisinha!

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Ao som da Timbalada, o VQEB entra em recesso de carnaval fazendo coro para a anual campanha do sexo seguro contando um pouco da história do acessório mais importante da folia. Afinal, como diz o ditado popular, ‘o que não mata, engorda’!
Essas histórias estão no capítulo “o sexo e seus inconvenientes” do livro “A assustadora história da medicina”, que eu comentei no post anterior.
No texto, Richard Gordon fala que a divergência entre o entusiasmo do ser humano pelo prazer do sexo e a idéia da reprodução humana sempre provocou um ‘debate acalorado’, já que o mundo todo ama o amor, mas ele pode ter inconveniências desagradáveis: a doença e, as vezes, a gravidez.
O primeiro grande defensor da camisinha foi o inglês James Boswell, que ao longo da vida teve 19 crises de gonorréia, a primeira aos 22 anos em 1763. Ele usava camisinhas de tripa de carneiro ou cabra, temperadas, perfumadas, com 20 centímetros de comprimento, delicadamente fabricadas em moldes de vidro pelas mãos da proprietária, a senhora Phillips, que tinha uma loja em Leicester Square. As de melhor qualidade, Baudruches (balões) superfinas, eram amarradas na extremidade superior com fitas nas cores da bandeira da Inglaterra.
Tinha também o “Duplo superfino” para os fregueses mais cautelosos, feito com a superposição e a colagem de dois cecos, a extremidade fechada do intestino grosso do carneiro. “Essa tripa ovina profilática foi pela primeira vez anunciada como ‘um aparelho para a prevenção dos inconvenientes das aventuras amorosas’, no jornal The Tatler, em 12 de maio de 1709.”
Muitos achavam que as camisinhas eram “Armaduras” que dimínuia o prazer com as Lizzies, Nannies, Louisas, Megs… e alguns preferiam as feitas de linho, que precisavam ser molhadas antes de usar. “Elas ainda eram mais econômicas que as Baudruches da senhora Phillips, porque podiam ser lavadas na lavanderia de camisinhas em St. Martin Lane”
Lavanderia de camisinhas? Meu… Deus…
A vulcanização da borracha, em 1843, permitiu um salto de qualidade nas camisinha e na década de 1920 as eram tão resistentes quanto os pneus (guardadas as devidas proporções), além de não formarem volumes vergonhosos nos bolsos dos cavalheiros.
É, parece que sempre houve pudor na obtensão do utensílio, porque a história diz que elas eram colocadas em lugares invisíveis pelos farmacêuticos, obrigando o consumidor a um ritual de leitura dos rótulos de fortificantes, comida para crianças e pastilhas para a tosse até a farmácia ficar vazia. Mas elas eram distribuídas mais abertamente à alta sociedade pelos os barbeiros: “E alguma coisa de uso pessoal, senhor?”
Reza a lenda que as camisinhas receberam seu nome em inglês, condom, por causa do doutor ou possivelmente coronel Condom, um inglês, ou talvez francês, mas que também pode nunca ter existido. Em latim ‘condo’ significa “inserir, enfiar”, mas no dicionário de Oxford, ‘condoma’ é um antílope listrado com chifres em espiral: em quem acreditar? Condom também é uma cidade de 6.781 habitantes na França, entre Bordeaux e Toulouse.
A origem do nome ‘camisinha’ em português, eu não sei, mas tenho certeza que algum dos meus bem informados leitores deixará essa valiosa contribuição nos comentários. Os portugueses eu sei que falam condoms (sem sotaque inglês), ainda que na verdade, ninguém chame as camisinhas de ‘condons’. Os americanos chamam de borracha (rubber) e os ingleses usam algo parecido com FL, que é a sigla em inglês de Free Love – Amor Livre.
Claro que com a pílula e os antibióticos, a camisinha parecia fadada ao esquecimento, e ainda que ela proteja de muitas, muitas outras coisas, foi a AIDS que a trouxe glamurosa de volta a cena.
Independentemente do nome, hoje as camisinhas são distribuídas gratuitamente nos postos de saúde. Tenha uma sempre com você no carnaval. Como diz o outro ditado: “É melhor ter e não precisar, do que precisar e não ter”.
Mas fique alerta, ela não protege de amor transmissível sexualmente.

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