O Legado das Águas

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O maior pedaço de Mata Atlântica, contíguo, preservado, do Brasil, quem diria, é privado.

O Legado das Águas, a reserva da Votorantim, tem 31.000 ha de Mata Atlântica original preservados na região do Vale do Ribeira no Estado de São Paulo.

A preservação não foi altruística. Foi consciente: sem energia, não haveria como a Votorantim produzir alumínio. A energia tinha de vir de usinas hidrelétricas e, sem água, não haveria hidrelétricas. Então era preciso proteger a água. E para proteger a água, era preciso proteger a floresta.

O Rio de Janeiro já havia ensinado essa dolorosa lição. Quando durante o império colocaram a Mata Atlântica abaixo para plantar café no Maciço da Tijuca, o resultado foi um desastre ambiental: secaram as nascentes que abasteciam a cidade. D. Pedro II teve de mandar replantar tudo! E sob o comando do Marechal Archer, 5 escravos, Eleuthério, Leopoldo, Manoel, Matheus e Maria reflorestaram o que hoje é a a maior floresta urbana do mundo, a Floresta da Tijuca.

Então, em prol do futuro sustentável do seu negócio, Antônio Ermírio de Moraes começou a comprar títulos de propriedade para a construção de usinas hidrelétricas e a criação da reserva ambiental, que determinava a manutenção das nascentes do Rio Juquiá.

Os xiitas dirão: como pode ser preservado sem tem 4 hidrelétricas lá dentro? E me levarão para a discussão semântica entre os termos preservação e conservação. Eu responderia com a obra de Antônio Diegues, ‘O Mito Moderno da Natureza Intocada’, livro espetacular que faço com que todos os meus alunos de Biodiversidade leiam, e que fala das razões pouco ortodoxas que levaram a construção do modelo de parques florestais e reservas naturais vigente hoje no mundo, e a sua ineficácia em fazer com que a natureza siga o seu rumo com todos os seus agentes, incluindo os seres humanos. Mas eu sou um cara prático, e quando durante o 1o encontro científico organizado pelo Legado o programa de monitoramento de grandes animais mostrou as fotografias de dezenas de mamíferos selvagens como onças pardas, cachorros do mato e Muriquis, os grandes símios de sociedade matriarca que resolvem suas pendengas sociais com abraços e sexo ao invés de violência física, eu não tive dúvida de que o lugar é uma jóia na coroa do nosso remanescente de Mata Atlântica.

Abre parênteses  Além disso, tenho que confessar, tenho uma queda por barragens. Quem me acompanha sabe disso. Acho incrível como esses pequenos macacos pelados que somos nós são capazes que driblar incríveis forças da natureza. Fecha parênteses.

Se ainda assim alguém duvidar, eu tenho um argumento matador: Água, muita, MUITA água. Quem vive em São Paulo ou no Rio de Janeiro hoje está sentindo (ou seria melhor dizer ‘não está sentindo) na pele a importância disso.

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Quando a Votorantim pensou em preservar a floresta para preservar seu negócio de Alumínio nos anos 40, não sabíamos o que eram os genes e não conhecíamos a estrutura do DNA. Quando descobríamos a biologia molecular e inventávamos a biotecnologia nos anos 70 (bom estou me incluindo aí apesar de ter nascido nos anos 70 porque eu sempre soube que queria ser cientista), eu duvido que eles pensassem em fazer outro uso dessa floresta que não a conservação de suas águas. Mas agora, em meados da segunda década do século 21, temos os instrumentos tecnológicos para criar riqueza a partir da biodiversidade sem alterar 1mm dessa paisagem exuberante, sem prejudicar os serviços insubstituíveis que esse ecossistema pode prover.

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Para mim, Antônio Ermírio atirou no que viu e acertou no que viu e no que não viu. Será que os detentores do seu legado verão?

Venha fazer ciência com a gente!

 

Vou fazer duas perguntas as quais tenho certeza que você vai responder, “Sim”:

Você já quis ser cientista?

Você já quis fazer alguma coisa pela Amazônia?

Claro, não é?!

Estamos te dando a chance de fazer as duas coisas. O laboratório de Biologia Molecular Ambiental criou o primeiro crowdfunding científico brasileiro para sequenciar um genoma. Um crowdfunding é um projeto de financiamento coletivo, onde quem contribui se torna um pouco dono do projeto.

O alvo é o mexilhão dourado, Limnoperna fortunei, uma espécie invasora, uma praga que veio da Ásia e agora está ameaçando a biodiversidade da Amazônia. O video explica tudo direitinho.

Venha participar do sequenciamento do mexilhão dourado

Venha participar da aventura da descoberta científica com a gente. Você contribui financeiramente com o projeto e nós colocaremos o seu nome nos genes e proteínas que identificarmos. Legal né?!

Meio NERD?! É, mas você sabe, NERD é o novo Sexy!

A valsa das Aplysias

A primeira vez que vi uma Aplísia foi na Ilha Grande (RJ) na primeira viagem que fiz com minha turma do então primeiro período da faculdade de Biologia da UFRJ. Foi também minha primeira viagem a Ilha. Fiquei encantado com esse lindo animal! Um encanto NERD eu confesso e concordo. Essa foto (e o balé abaixo) foi tirada duas semanas atrás em Ponta da Lagoinha, em Búzios, um lugar lindo que eu, surpreendentemente, não conhecia.

Foi só no semestre seguinte, nas aulas de ZOO II que eu fui aprender sobre esses intrigantes moluscos que, apesar de fazerem parte da ordem Gastropoda (são todos primos dos caramujos e caracóis) não tem concha aparente. O ‘Manto’, que tem esse nome super apropriado já que recobre internamente a superfície das conchas dos moluscos, no caso das aplysias recobre a concha EXternamente.

O apelido de lebre do mar vem provavelmente das duas antenas que suportam os olhos e parecem com as orelhas da lebre. Ou pelo menos esse é o meu chute, já que elas são de uma lenteza enebriante.

“Ah, mas só sendo biólogo para se encantar com lebres do mar” você pode dizer.
Biólogo ou não, se você não se encanta com o balé natatório desses lindos moluscos, então… você não tem senso de estética e não pode saber o que é beleza. E se eu acreditasse em alma, diria ainda que você não tem uma.

“Eu vejo… pessoas”

No (já considerado) clássico moderno “A Verdade Sobre Cães e Gatos”, o autor fala de sua experiência em uma discoteca na década de 80, quando resolveu argumentar sobre a viabilidade da astrologia com uma gatinha que ele tinha abordado e que tinha despretenciosamente tinha perguntado a ele qual era seu signo. Ele falou que Ptolomeu e Copérnico, sobre bilhões e bilhões de estrelas e sobre o charlatanismo. E ela… foi embora.

É impressionante a nossa capacidade de não responder o que foi perguntado ou de responder o que não foi perguntado. Ou, simplesmente, de falar demais. Principalmente quando falamos com (ou quando queremos impressionar) garotas bonitas. E foi isso que aconteceu, de novo, hoje.

Eu acesso super pouco o Twitter, mas hoje, quando dei uma olhada, lá estava ela, Eliane Brum, divulgando seu novo texto sobre a audiência pública do amianto no STF. Finalmente a minha jornalista preferida falava de um assunto sobre o qual eu podia me manifestar com propriedade.

brumelianebrum: Nesta sexta, começa a audiência pública do amianto no STF. Entenda o que está em jogo. Se puder, ajude a divulgar http://t.co/rCiRsa2s 23/08/12 14:09
brumelianebrum: Infelizmente, parece que parte dos brasileiros só vai acordar p/ os riscos do amianto qdo começarem as mortes p/ contaminação ambiental 23/08/12 14:11
brumelianebrum: É bem triste, mas enquanto “só” morrem trabalhadores, de mesotelioma e asbestose, mta gente acha que ñ precisa fazer a sua parte de cidadão 23/08/12 14:14
brumelianebrum: Quem anda pelo Brasil vê assentamentos, quilombos e aldeias indígenas cobertas de telhas de amianto. Como é possível? Por quê? 23/08/12 14:15

Eu estudo mecanismos de toxicidade, eu conheço epidemiologia de poluentes ambientais e até entendo de exposição ocupacional de um monte de substâncias tóxicas incluindo… o asbestos. Minha amiga Valéria Borges, pesquisadora da FIOCRUZ Bahia estudava os granulomas formado nos pulmões de trabalhadores da indústria naval expostos ao asbestos e que desenvolviam o ‘Pulmão de pedra’ no mesmo corredor do instituto de Biofísica da UFRJ onde eu avaliava a contaminação por Cádmio na Baia de Sepetiba e por Mercúrio no lago do Puruzinho na Amazônia. Fiquei tentado a responder a pergunta dela, e respondi:

vcqebiologo
@brumelianebrum o risco da exposição ocupacional ao amianto é muito bem compreendido, enquanto o risco da exposição ambiental é bem menos
23/08/12 14:19
vcqebiologo
@brumelianebrum E compreensão de risco, você sabe, é uma questão de educação científica e de ensino universitário de qualidade
23/08/12 14:21
brumelianebrum
@vcqebiologo Concordo. Mas também de capacidade de enxergar além do seu umbigo.
23/08/12 14:23
vcqebiologo
@brumelianebrum com uma sociedade distante da universidade, é mais difícil compreender o problema do amianto (e do mercúrio, e da soja…)
23/08/12 14:24
brumelianebrum
@vcqebiologo Verdade.
23/08/12 14:25
vcqebiologo
@brumelianebrum Sim, mas a maior parte dos estudantes do BR não sabe fração. Como entender a probabilidade e o risco, ainda que enxerguem?
23/08/12 14:26
vcqebiologo
@brumelianebrum E sem entender o risco… não tem atitude, caem no marasmo e voltam pra TV e pros problemas do próprio umbigo.
23/08/12 14:28
brumelianebrum
@vcqebiologo Qdo vejo alguém doente pq trabalhou numa fábrica q sabia dos riscos e ñ contou,eu enxergo.Enxergaria mesmo se ñ soubesse fração
23/08/12 14:29
vcqebiologo
@brumelianebrum eu não quero dizer que a solução é dar educação. Isso é óbvio. Mas podemos começar prendendo quem faz isso com o trabalhador
23/08/12 14:33
vcqebiologo
@brumelianebrum por mais que problemas como o amianto sejam terríveis (e eu estudo muitos deles), falta de saneamento básico ainda é o pior
23/08/12 14:36
brumelianebrum
@vcqebiologo Algo interessante a se observar é q as pesquisas financiadas pela ind. do amianto são produzidas por profes. da Usp e Unicamp
23/08/12 14:37
vcqebiologo
@brumelianebrum A quantidade de Hg nos lagos da amazônia é menos perigosa para ribeirinhos do q a quantidade de coliformes fecais nessa água
23/08/12 14:38
vcqebiologo: @brumelianebrum hehe… assim como são as de medicamentos questionáveis. O título acadêmico infelizmente não garante idoneidade moral 23/08/12 14:40
vcqebiologo: @brumelianebrum quer chamar atenção da sociedade para além do umbigo? Veja o uso rejeito químico como complemento mineral em ração animal 23/08/12 14:43
vcqebiologo: @brumelianebrum os índices de câncer de mama e outros em bichanos vem aumentando loucamente nos últimos anos 23/08/12 14:45
vcqebiologo: @brumelianebrum e você sabe… pode mexer com índio e pobre, mas se mexer com os ‘pets’… as madames gritam! 😉 23/08/12 14:45

Como naquela noite no Clube Naval em Charitas, fiquei falando sozinho. Me senti, depois, como uma das pessoas que ela provavelmente criticava. Sem a capacidade de “enxergar além do próprio umbigo”. No meu caso específico, de enxergar além da ciência do que eu estava falando, de enxergar as pessoas.

O título do post é uma brincadeira com a fala do personagem de Haley Joel Osment no filme ‘O sexto sentido’ de M. Night Shyamalan: “I see dead people” (eu vejo pessoas mortas). Eu tenho que confessar que enxergar as pessoas não é o meu forte, principalmente quando se trata de ciência. Eu poderia ficar ali a tarde toda, discutindo com ela argumentos de porque é inútil tentar resolver qualquer problema ambiental. A verdade é que a pouca esperança que as pessoas tem de que podem resolver algum problema ambiental é baseada em… esperança. Quanto mais investigo os problemas ambientais mais compreendo duas coisas: os homens serão os responsáveis por sua própria extinção (levando consigo algumas outras várias espécies) mas para o planeta, isso não fará a menor diferença. Um milhão de anos atrás o planeta era completamente diferente do que é hoje e daqui a um milhão de anos, será, novamente, completamente diferente.

Para a maior parte das pessoas, o que importa, são pessoas. Elas não estão preocupadas com eventos que acontecem na escala do muito pequeno (eletrônicos e quânticos) nem do muito grande (espaciais). Elas vivem o hoje, o ontem e o amanhã. Vá lá, o ano passado e o ano que vem. Mas falar em separação dos continentes e evolução das espécies é um pouco demais. Para elas não adianta dizer que, cientificamente, não há solução. Para elas, a solução está em acabar com aquela dor.

E se um cientista almeja divulgar a ciência para a sociedade, e que essa sociedade pague pela sua ciência, precisa ver isso. Vamos torcer para que os ministros do supremo, mesmo em meio ao julgamento do mensalão, vejam.

Diário de um Biólogo – 2a Feira 13/08/2012 – As invasões bárbaras

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“Também estaremos em ‘Tara’ nesse final de semana. Vamos fazer um ‘barbecue’ no Domingo. Venham encontrar a gente!”

E foi assim, facinho, facinho, que meu amigo Lazar Obradović nos convenceu a ir ao Lago Zaovine no meio do no parque nacional das montanhas de Tara, na fronteira da Sérvia com a Bósnia-Herzegovina.

Estou em merecidas ferias pelo leste europeu e depois de um final de semana no barulhento festival de trompetes de Guča, uma noite na tranqüilidade da montanha não seria nada mal.

Passamos Mokra Gora, a cidade que Kusturica (pronunciado como zz onde se lê c) construiu para um de seus filmes muito doidos, passamos pela simpática Mitrovac (novamente com zz) e chegamos ao lago no cair da noite. Lazar, a mulher Nevena e uma trupe de amigos mergulhadores nos esperavam com a carne de porco na brasa e Slivovica (sempre zz), a Rakja feita de Marmelo e “engarrafada com trovão” como eles dizem aqui.
Lazar é fanático por mergulho e enquanto comíamos um Croassant no aeroporto de Paris, naquelas 32 h de espera por um vôo que torna duas pessoas amigas pro resto da vida, ele descobriu que eu era biólogo marinho e me perguntava tudo, sobre todos os bobos e plantas que já havia visto embaixo d’água, em todos os mergulhos que já havia feito na vida. Eu levei um tempo até convence-lo que era biólogo marinho e não um atlas da vida marinha (ou foi ele que parou de perguntar quando descobriu que sabia mais sobre peixes e invertebrados do que eu – que hoje estou mais para biólogo molecular do que marinho).

O assunto veio a tona naquela noite, quando a instrutora croata de mergulho, Tanja, comentou sobre a enorme quantidade de moluscos que tinha visto mais cedo: “Pergunta pra ele que é biólogo!”

Ao que parece, uma grande quantidade de moluscos mortos, seguida por uma quantidade maior ainda de moluscos vivos, tinha chamado atenção dos mergulhadores.

Eu falei que a minha especialidade eram os bivalves marinhos. “Ah… Bi-valves. Com duas conchas?” Respondi que sim e eles confirmaram então que era realmente um bivalve no fundo do lago. Continuei dizendo que minha experiência com bivalves de água doce era com o Mexilhão Dourado, Limnoperna fortunei, o qual estamos seqüência do o DNA em nosso laboratório. Expliquei que era uma espécie invasora, que havia chegado no Brasil trazida por água de lastro e que além dos prejuízos econômicos por entupimento de tubulações industriais e fixação em embarcações, ameaçava a diversidade de toda fauna aquática brasileira: do pantanal e até da Amazônia. As pessoas ‘normais’ se preocupam com a poluição aquática, mas a invasão biológica é um risco muito, muito maior para a diversidade de qualquer ecossistema.

A curiosidade de ambos os lados foi aumentando até o momento que eu perguntei se poderia mergulhar com eles no dia seguinte. Ficou combinado que eu iria com Bojidar, o instrutor Sérvio, casado com a instrutora Croata, que parece um daqueles fuzileiros-mergulhadores SEAL de filme americanos, mas que é um doce de pessoa.

O dia seguinte foi uma aula prática de limnologia. Igualzinho eu ouvira falar nas aulas de ecologia da faculdade, onde os exemplos de livros são quase todos de ambientes temperados.

Eu estava super excitado porque seria o meu primeiro mergulho em água doce, ainda por cima em um lago de altitude e em um lugar belíssimo. Mas o pessoal logo me desanimou: a visibilidade era super baixa por causa da eutrofização e não mergulharíamos no lado onde uma vila inteira foi alagada. Veríamos apenas muitas pedras e muitos bivalves.

Entramos na água e quando passamos de 8 m de profundidade, a temperatura passou de 22oC para 13oC! T-R-E-Z-E! Milhares de agulhas pareciam espetar os poucos centímetros quadrados de rosto fora do neoprene de 7mm de espessura. “Lagos profundos de ambientes temperados se estratificam durante o verão, quando a água quente se ‘acumula’ na superfície” parecia que eu estava ali ouvindo o professor Chico Esteves. Maldita termoclina! Pobres fitoplânctons.

E aí então eu os vi… Um mar de mexilhões! E não é que… Nossa, como não pensei nisso antes… Mas é claro… As conchas listradas não deixavam duvida.

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O ‘molusco’ do Lago Zaovine era Dreissena polymorpha, o “mexilhão zebra” a mais notória das notórias espécies invasoras, o mexilhão do sudoeste da Ásia que invadiu e reinvadiu as águas da Europa ocidental e América do Norte, reestruturando ecossistemas inteiros como o dos ‘grandes lagos’ dos Estados Unidos e Canadá e causando bilhões de dólares de prejuízos para a industria de tratamento de água e produção de energia.

Só um NERD como eu para, no meio de uma viagem maravilhosa, me emocionar de ‘mergulhar com o inimigo’.

A “Cúpula – da ingenuidade – dos Povos”

 

Moro no Rio de Janeiro e como não poderia deixar de ser, fui visitar a ‘Cúpula dos Povos’, o evento paralelo da Rio+20 montado no Parque do Flamengo. Em 1992, ainda estudante de biologia, eu também estive lá. Daquela vez, vi Jacques Cousteau falando do problema da superpopulação, show do Ney Matogrosso e um monte de outras coisas legais. Mas dessa vez… foi uma frustração só.

Estava mais para uma feira exotérica de artesanato do que para um evento sério, organizado pelas Organização das Nações Unidas, para discutir o futuro da humanidade em busca de “justiça social e ambiental”. Sim… porque se você acha que ‘Economia solidária’ é vender bijuterias e roupas compradas em Vilar dos Teles ou na Rua Teresa (imagem acima) no Aterro do Flamengo, e que isso contribui para a preservação do ambiente… você está redondamente enganado. Índios de mentirinha (imagem abaixo) cantando “Pra não dizer que não falei das flores” junto com mulheres européias usando a ‘terceira visão’ dos hindus e metalúrgicos da CUT. Diretores de ONGs, as mais estapafúrdias possíveis, discutindo sem a menor propriedade, assuntos como violência urbana, educação, saúde etc.

Abre parênteses: Em uma das palestras que eu assisti, um belga diretor de uma ONG de gestão de conflitos no RJ, criou uma teoria com base em uma discussão que observou de um casal em Amsterdã, de que a violência no Rio era gerada por dois mundos dentro da cidade ‘gritando’ um para o outro para serem ouvidos – e que então uma ONG que trabalhasse a ‘comunicação’ entre esses dois mundos contribuiria para o fim da violência (minha amiga Alba Zaluar, antropóloga especializada nas questões que envolvem a violência no Rio, ficaria de cabelos em pé). Fecha parênteses.

Os sem-saúde pedindo um SUS de qualidade, estatal e gratuito; os sem-escola pedindo educação pública de qualidade e gratuita; os sem-terra pedindo reforma agrária de terras públicas de qualidade e gratuitas… Justiça social custa dinheiro. Justiça ambiental custa dinheiro. O evento no Parque do Flamengo é um grande exemplo da ingenuidade dos povos e mostra bem porque a Rio+20 será, do ponto de vista da obtenção da justiça social e ambiental, um fracasso.

É possível que esse fracasso seja explicado pela própria inexequibilidade da proposta: justiça social dificilmente pode caminha com justiça ambiental por uma questão simples: não há como o ambiental suportar uma população de 7 bilhões de pessoas (e crescendo) com ambos. É termodinamicamente impossível! Mas parece que ninguém que está ali sabe disso.

É como escreveu o meu amigo Carlos Eduardo Lima: “Sou biólogo. Estive observando várias matérias sobre a Rio+20 e (…) Assim como na Eco92, vejo vários assuntos importantíssimos sobre Ecologia sendo debatidos por jornalistas, políticos, empresários, engenheiros, médicos sanitaristas, médicos em geral, estudantes, sociólogos, advogados, diplomatas, economistas e etc. Só não vejo o ÚNICO profissional qualificado prá falar do assunto: o biólogo. Eu não posso prescrever um remédio, projetar uma ponte, defender uma causa e etc, mas todo mundo pode dar pitaco sem entender NADA de Ecologia e falar/fazer besteira a 3 por 2.”

Ecologia não é uma ciência política e nem social. Não é uma questão econômica e nem depende de orientação política ou religiosa. Nem de moda. É uma ciência biológica, passível de observação e experimentação pelo método científico. É um trabalho para biólogo! Vai lá… para agrônomo, para oceanógrafo, para meteorologista, para químico, para físico. Um problema ecológico não tem “ponto de vista”. Não é passível de “interpretação”. Sim, existe complexidade, existe incerteza, existem teorias conflitantes. Mas tudo isso é pra ser discutido por quem entende disso: o Biólogo.

Depois… é que os políticos podem entrar para discutir e determinar se querem ou se não resolver o problema. Sim, porque a solução sempre vai: a) custar dinheiro e b) beneficiar alguns grupos e prejudicar outros. Não é uma tarefa fácil. Mas ignorar as variáveis científicas em prol de dados maquiados somente a torna mais difícil.

A melhor atração da Cúpula dos Povos estava em outro parque, o do Museu da República. Uma instalação mostrando lixo. Nada no estilo artístico Vik Muniz, não. Era lixo mesmo! E fedia! Um corredor montado com parte do lixo que cada pessoa produziu desde a Rio 92 até a Rio+20. Uma média de 7 toneladas!!!

Em 1992 a população da Terra era de 5,5 bilhões de pessoas. Hoje é de 7 bilhões! Se cada pessoa produz de 0,6 a 1kg de lixo por pessoa por dia, faça as contas… Logo, logo não haverá espaço no planeta para tanta gente e tanto lixo.

Esqueça o aquecimento Global, que, cientificamente, não passa de um grande conto de fadas (veja o parênteses abaixo). O problema do mundo é o excesso de humanos.

Abre parênteses: Se você ainda acha que as geleiras estão derretendo, que o nível do mar está subindo e que o planeta está esquentando, assista a excelente entrevista do professor Ricardo Augusto Felicio da USP no programa do Jô Soares em 02/05/2012.

E se ao final não estiver convencido (muita gente se irrita com o tom jocoso dele e por isso ignora a enorme quantidade de fatos científicos que ele passa), procure se informar sobre o fenômeno chamado ‘Mínimo de Maunder’ e que mostra que o Sol brilhou menos durante 40 anos no século XVII em um fenômeno completamente imprevisível. Fecha parênteses.

Riqueza ou Criatividade

ZF – Quanto custou isto?
GL – A economia do futuro é meio diferente. Não existe dinheiro no século 24.
ZF – Não existe dinheiro? Então, você não é pago?
GL – A aquisição de fortuna não é mais uma motivação para nós.
GL – Procuramos nos aperfeiçoar… e ao resto da humanidade.

Todo ano escrevo um post de retrospectiva, para fechar o ano. Esse ano resolvi escrever um post de perspectiva, para abri o ano. Um com uma perspectiva ampla.

ResearchBlogging.org

Esse diálogo, entre o excêntrico personagem Zefram Cochrane (interpretado por James Cromwell) e o engenheiro Geordi La Forge (interpretado por LeVar Burton) me marcou profundamente quando assisti Jornada nas Estrelas: O primeiro contato em 1996. Ele construíra a primeira nave da humanidade capaz de fazer a ‘dobra espacial’ (viajar a velocidade da luz), a Phoenix, a partir de um antigo míssil nuclear, tendo se tornado um ícone em toda galáxia, com universidades, cidades e até mesmo planetas com o seu nome. No entanto, sua única motivação para criar o mecanismo que nos deixaria ir “audaciosamente onde nenhum homem jamais esteve“, era… ficar rico. A ideia (será que algum dia vou me acostumar a escrever ideia sem acento?) de que o acumulo de riqueza não deveria mais ser um objetivo a ser perseguido era incrível, simplesmente, porque o acumulo de riqueza não faz o menor sentido como estratégia evolutiva.

Ela está no centro da questão do aquecimento global e das mudanças climáticas. No centro da questão da poluição. Vocês sabem que a minha opinião sobre esses assuntos é contoversa. Para mim, a resposta para os problemas foi dada e eu gosto de duas em especial que considero representativas: Jacques Cousteau, quando defendeu na conferência das nações unidas para o meio ambiente de 1992 no Rio de Janeiro o controle da natalidade como forma de defesa do meio ambiente: “O pavio ligado à explosão populacional já está queimando. Nós temos menos de dez anos para apagá-lo. É preciso uma mobilização mundial para evitar o big-bang populacional.” Ele foi um dos poucos a ter coragem de pronunciar o termo ‘controle da população humana’ já que a igreja católica havia, meio que proibido, que o tema fosse tratado na conferência. Também gosto muito do excelente artigo de Slesser de 1993, que mostra que apenas a redução no consumo é capaz de reduzir as emissões de CO2 para a atmosfera:

“Tornou-se cada vez mais claro para nós que, para alcançar a sustentabilidade, seria necessário uma troca entre consumo, índices de crescimento e o que nós fazemos com nossa riqueza.” “(…) estimular de forma tanto nuclear como renovável (altamente solar) a energia e reduzir ponderadamente o consumo a um crescimento de não mais de 0.05% ao ano acima investimento em crescimento industrial [permite o] crescimento do setor de serviços (2%). E Funciona! [Lentamente] mas funciona. Logo no início do século podemos observar declínios na produção de dióxido de carbono (…) [com] padrão e qualidade de vida (produção de setor de terciário) mantidos bem altos.”

A idéia pode parecer moderna, quase ficção científica, mas não é: os atenienses foram os primeiros a propor e experimentar uma sociedade onde a busca da riqueza material não era um objetivo. Platão e Aristóteles foram os primeiros primeiros a registrar essas idéias no papel.

“Poucos milhares de homens, que povoaram por algumas dezenas de anos uma região praticamente estéril, que viveram vidas breves e inseguras, em bairros imundos, em casas desconfortáveis, ainda assim, permitiram a sua espécie – a espécie humana – um salto de qualidade todavia não superado seja pela criatividade política e social que pela criatividade estética e especulativa” diz o sociólogo Domenico de Masi no livro “Criatividade” – cuja leitura até o final é uma das minhas resoluções de ano novo.

“A filosofia, a matemática, a teoria musical, as ciências naturais, a medicina finalmente desvinculada da magia, a ética, a política, a estória, a geografia, a psicologia, a anatomia, a botânica a zoologia, a física, a biologia fizeram mais progresso teórico naqueles 100 anos do que nos milhares de séculos precedentes.” completa de Masi.

(A Escola de Atenas, de Raffaello)

É verdade que Aristóteles, em seu ‘Tratado da política‘ defendia que alguns homens haviam nascidos para serem escravos. Se conseguirmos nos desvencilhar do problema moral para seguir a lógica de Aristóteles veremos que ela está correta: “Não é possível praticar as virtudes da política conduzindo a vida de um operário, de um assalariado… Nós chamamos trabalhos operários aqueles que modificam a disposição do corpo  e os trabalhos remunerados que impedem a elevação e a facilidade de espírito”. Imagino que muitos estejam se remexendo nas cadeiras enquanto lêem isso porque provavelmente o significado dos termos ‘política’, ‘operário’, ‘assalariado’ para nós tem significados diferentes. Mas Domenico de Masi lembra que 2000 anos depois, na obra prima de Tocqueville ‘Democracia na América’, o mesmo pensamento reaparece, talvez de forma mais palatável para nossos dias: “Quando um operário se dedica continuamente e unicamente a fabricação de apenas um objeto, termina por desenvolver este trabalho com destreza singular, mas perde, ao mesmo tempo, a faculdade geral de aplicação do seu espírito na direção do trabalho. Ele se torna cada dia mais hábil e menos industrioso e, se se pode dizer, o homem se degrada a cada passo que o operário se aperfeiçoa.”

Aristóteles considerava que, entre os diversos tipos de trabalho, “os mais mecânicos eram aqueles que deformavam o corpo, os mais servis aqueles que se fundamentam somente no uso do corpo e os mais ignóbeis aqueles que requerem um mínimo de capacidade espiritual.” Para ele “devem ser considerados ignóbeis todas as obras, profissões e ensinamentos que rendam inadequados as obras e ações da virtude, o corpo ou a inteligência do homem livre. Portanto, todos os trabalhos que prejudicam as boas condições do corpo devem ser chamados de ignóbeis, como também os trabalhos assalariados, porque privam a mente do ócio e a fazem pequena”.

 Apesar do que você pode pensar, Aristóteles não apreciava ou encorajava a preguiça, a ociosidade a apatia ou a inércia. Muito pelo contrário! De Masi diz que Aristóteles acreditava na nobreza do trabalho intelectual que acontecia nos limites entre o estudo e o jogo, na excelência da reflexão filosófica e na atividade mental que se exprime através da política e da arte. O que de Masi chama de ‘Ócio Criativo’.

Mas como é possível dedicar-se ao ócio criativo sem morrer de fome?

Para Aristóteles e para os ‘clássicos’ a resposta é simples: “Acima de tudo, é preciso reduzir ao mínimo o desejo por objetos e serviços, de todos os supérfluos bens materiais. De luxo, isto é, ostentação de riqueza, é até desnecessário dizer; a verdadeira habilidade é a razão e o único verdadeiro luxo é a sabedoria. Reduzida a necessidade de bens materiais, se reduz também a necessidade de trabalhadores.”   

Vivemos em um mundo em crise, onde só a criatividade pode nos salvar da bancarrota. Mas enquanto estivermos preocupados em comprar o último modelo de iPhone, com uma assistente pessoal que não fala português e não entende os seus comandos de voz (além de fazer julgamentos morais sobre suas perguntas) não podemos pensar em soluções criativas para os problemas que temos e teremos de enfrentar. E continuaremos produzindo gases do efeito estufa.

Slesser, M. (1993). Is an environmentally sustainable future for the European Community compatible with continued growth: carbon dioxide and the management of greed Science of The Total Environment, 129 (1-2), 191-203 DOI: 10.1016/0048-9697(93)90170-B

Alarmismo não, pessimismo


Vocês sabem que sou um ferrenho combatente contra o alarmismo como argumento para divulgação científica. Defendo que a gente conheça os graus de incerteza relacionados com cada evento, para tomar a melhor decisão possível. É assim que venho tratando o tema do aquecimento global.Alguns meses atrás assisti, relutante, confesso, o badalado documentário do Al Gore “Uma verdade inconveniente”. Relutava porque achava que estaria repleto de campanha política para presidente dos EUA (e está, com aval do Oscar). Mas foi interessante e aprendi muitas coisas.

Na 4a feira passada, o Dr. Sergio Besserman, economista brasileiro que participa do IPCC (o painel global da ONU para mudanças climáticas) veio falar à Biofísica sobre Aquecimento Global. Gostei muito! E aprendi muito também, de novo. Primeiro porque ele começou apertando a tecla que eu venho batendo insistentemente: “Nós somos irrelevantes para o planeta. Ainda que consigamos destruir tudo, tudo voltará novamente. Os únicos prejudicados pelo aquecimento global somos nós mesmos”.

Nós e essa nossa mania de sermos o centro do mundo, e que por sermos inteligentes conseguiríamos resolver todos os problemas.

“Daqui alguns milhões de anos vai tudo estar muito mais interessante do que hoje, e para terra, vai ter passado apenas mais um minuto na sua história”, Besserman continuou. E ainda foi mais fundo: “Na verdade, são só os pobres do mundo vão sofrer!” De novo. Mais ainda.

Ele está certíssimo.

Quando a maré subir, não vai ser Nova Iorque que vai se afogar, como no filme. Nem Copacabana (mas não seria mal lavar a Narcisa Tamborindeguy da nossa orla, não é Dudu?). Amsterdã vive abaixo do nível do mar. Parece, inclusive, que os holandeses já estão fazendo propaganda em todo o mundo de que possuem a tecnologia necessária para as casas não afogarem. E tem mesmo. Só vai custar caro. E não sei se Bangladesh vai conseguir pagar.

Os pobres é que vão penar!

Quando eu chamei o aqui o aquecimento global de farsa, eu estava criticando o alarmismo científico. Mas tenho de reconhecer que me faltavam informações. E que as evidências de que os níveis de CO2 na atmosfera hoje são os maiores de todos os tempos, baseados nos registros históricos observados através das pequeníssimas bolhas de ar que ficam presas nas geleiras da Antártica e Ártico, são muito científicas.

Ainda assim, fico pensando… será que o aquecimento global pode ser tão poderoso para mudar a forma do planeta quanto um movimento de placas tectônicas? Quando me lembro que em 1991, durante a erupção do Pinatubo na Indonésia, uma das maiores dos últimos séculos, o vulcão liberou mais CO2 na atmosfera em 3h que a cidade de Nova Iorque liberaria em 30 anos, é difícil acreditar que o planeta nunca passou por outros eventos naturais mais importantes que a atividade humana. E imaginar que uma especiezinha como nós, recém-nascidos em termos evolutivos, só porque alcançou os 6 bilhões de indivíduos, possa causar esse estrago todo.

Mas pelo visto pode. É a tal história mostrada no filme (e também na palestra do Besserman) sobre novas tecnologias e velhas atitudes.

Mais pensei em outra coisa. Um pouco mais sombria que só alarmismo.

Nas aulas de ecologia, ensino sobre estratégias de utilização de recursos (energia). Algumas espécies usam uma estratégia chamada de r e são classificadas de oportunistas. Quando essas espécies encontram recursos disponíveis em abundância, utilizam esses recursos até a sua exaustão e depois, inevitavelmente, perecem. A população então sobrevive com um número mínimo de indivíduos até os recursos se renovarem (o que pode levar algum tempo), e elas poderem executar um novo Bloom demográfico. Essas espécies apresentam curvas de crescimento exponenciais e desaparecimentos bruscos. Sabe com o que parece a curva? Com os batimentos do coração no eletrocardiograma, com aqueles picos de subida e descida. Ao longo do tempo, essas espécies repetem esse comportamento sempre que os recursos se renovam, ou quando invadem um novo ambiente. Repetem isso não porque não são inteligentes. É só a estratégia delas. E não conseguem fazer diferente.

Não preciso reler meu texto, nem minhas aulas, para ver que nós agimos como estrategistas r.

Mas o pior não é isso. Eu também escrevi aqui, sobre os mecanismos de tolerância e resistência. Quando ultrapassamos o limite dos mecanismos que permitem nossa vida fora das condições ótimas, ativam-se outros mecanismos, mas que não tem a capacidade de trazer a gente para um novo equilíbrio. E morremos.

Quando Besserman mostrou que o problema do efeito estufa não são apenas os gases que estão sendo produzidos agora, mas o acúmulo de todos os gases já produzidos até hoje (na verdade, os gases permanecem na atmosfera por uns 100 anos), que levam um tempo até se integrarem na atmosfera e começarem a agir… aquilo ficou na minha cabeça… até que a ficha caiu.

Com 6 bilhões de pessoas que devem virar 9-12 bilhões nos próximos 5 anos, com a China crescendo 11% ao ano e com a radical mudança de comportamento que seria necessária para, não diria reverter, mas amenizar as emissões… ferrou! Superamos a capacidade de tolerância do ambiente e entramos nos mecanismos de resistência. Nossa extinção é inevitável!

Vamos levar algumas outras espéceis conosco, mas nada que vá afetar demais o planeta.
Pode parecer radical. Deve ser por isso que o outro chamou de “Uma verdade inconveniente”.

Mas a verdade mesmo é essa: Ferrou!

Quem tem medo do EIA-RIMA?

Em 2000, ainda aluno de doutorado, fui contratado por uma firma de consultoria para fazer um relatório de impacto ambiental da abertura de uma nova válvula em um duto. A área a ser desmatada era de 60 m2: Um pouco maior do que o apartamento na Tijuca onde eu morava então. Uma dessas áreas já se encontrava dentro de um terreno construido da empresa dona do duto. Mesmo assim, tivemos de fazer várias visitas ao local, reconhecer árvores exóticas do jardim da empresa, conversar com moradores em um raio de 200m etc. Quando o relatório ficou pronto, incluia muito mais do que as informações que coletamos. Era uma enorme equipe trabalhando por um fim: o licenciamento da obra!

Nesse dia recebi meu cheque pelos serviços prestados e resolvi que, salvo necessidades ulteriores, não mais trabalharia para licenciamento qualquer. A razão era simples: todo o esquema de licenciamento é furado. E certamente milhões de reais são gastos, como os milhares que foram gastos para avaliar o impacto socio-econômico-ambiental de abrir uma torneira em um cano dentro do banheiro de uma industria, a tôa.

Naquele dia andei pelo centro da cidade pensando em como deveria ser o licenciamento ambiental para que não fosse apenas rápdio, mas mais barato e eficiente. E que cumprisse seu papel: proteger o meio ambiente. Mais uma vez me debati com a minha prepotência: Como todas as pessoas, de todas as firmas de consultoria ambiental, de todos os departamentos de meio ambiente de empresas, de todos os órgãos de meio ambiente dos governos, de todos os assessores de deputados… como todas essas pessoas não percebem o que eu percebi trabalhando apenas 1 semana no assunto? Ainda que, como na questão das mudanças climáticas, isso sugira que eu estou errado, o tempo deve mostrar que eu estou certo.

Das muitas coisas que eu pensei na época para o artigo que acabei nunca escrevendo, estavam:
1o – Nem todas as obras precisam de EIA-RIMA (Estudo de Impacto Ambiental – Relatório de Impactos no Meio Ambiente).

Eu estou lendo esse livro chamado “A morte do bom senso” onde um advogado americano conta causos onde a lei atrapalha muito mais do que ajuda. Será que eu realmente preciso de um EIA pra mudar de posição as traves no campo de futebol que já está construído? Fala sério!

2o – Uma empresa que quer realizar uma obra não pode ser responsável por apresentar o estudo de impacto ambiental para aquela obra, ainda que fosse terceirizando a produção de tal estudo.

Gente, não é obvio?! Se eu quero que a obra se realize, vou contratar alguém que conte a história que eu quiser que queira ser contada. Ainda que os técnicos do IBAMA que avaliem a proposta sejam idôneos, não têm como essa pessoas saberem o que não foi dito. O IBAMA não deveria avaliar o EIA-RIMA: Ele deveria PREPARA-LO! Claro, apenas um órgão técnico, isento, idôneo, poderia preparar esse relatório. E ai então, as empresas, se quisessem, poderia contestar com seu corpo técnico ambiental, o que o órgão isento proparou.

3o – A lei ambiental precisa ser mais flexível e precisa acompanhar a evolução das técnicas de avaliação de impacto que o meio científico está desenvolvendo.

Como uma lei que pede para uma firma de consultoria fazer o que eu sei que custa caro e é desatualizado, sendo ainda, muitas vezes, simplesmente errado? Como é que vamos conseguir ter boa vontade de empresários para com, ou efetivamente proteger, o ambiente?

Estava tudo errado e eu tinha percebido em uma semana. Ou será que eu estou errado? Não sei não…

A grande farsa

Há muitos anos estão nos empurrando goela a baixo a grande farsa do aquecimento global. Ah, vocês acham que estou louco, um biólogo defendendo o aumento do CO2? Não chega a tanto. Sou um árduo defensor do meio ambiente e um defensor ainda mais árduo da ciência. Por isso que esse alarmismo meio hipócrita me irrita. É claro que se 155 cientistas assinaram esse relatório do IPCC da ONU dizendo com 90% de certeza que o aquecimento global é antropogênico, então existe a possibilidade de eu estar errado. Deixo pra vocês decidirem.
Quem já ouviu falar da teoria do Caos? Bom, um tempo atrás (nos anos 60), um meteorologista chamado Lorenz, trabalhando com uma equação não-linear muito, muito simples, descobriu algo muito, muito poderoso: que algumas coisas não-lineares, como a previsão do tempo, são , efetivamente, imprevisíveis! Não importa o quão bom seja o “Weather channel“: a previsão do tempo de depois de depois de amanhã é sujeita à 100% de erro. Isso não ajuda muito na hora de decidir ir para a praia ou para o cinema, não é mesmo?! Agora imaginem se quisermos avaliar efeitos para os próximos 10, 200, 500 anos apenas com com base nas medições de temperatura do últimos 50 anos? É impossível!

Digo o por quê. Acontece que nosso tempo de observação dos fenômenos relacionados com o efeito estufa é muito pequeno e esses fenômenos acontecem em uma escala de tempo geológica e não humana, ou seja, muito, muito grande. Com isso, o que fazemos quando analisamos a composição química da atmosfera, ou a variação da temperatura de ano a ano, é como tirar uma fotografia instantânea desses fenômenos. Só que isso não é suficiente para uma boa modelagem que pretende dizer se o planeta vai acabar! Imagine olhar uma fotografia, de uma cena de um filme, que tem muitas, muitas, muitas horas de duração e com isso dizer o enredo e como termina o filme? Não dá!


Mas ainda estão fazendo pior que isso, estão des-considerando um monte de informações científicas importantes para poder gerar o alarmismo e as manchetes de jornal. Assisti uma palestra na 4ª feira falando que o sol, nossa sacra fonte de energia, com toda sua magnanimidade e seu brilho constante, nem sempre foi assim. Aparentemente a intensidade do seu brilho variou (para menos) durante 40 anos no século XVII e de acordo com os historiadores centenas de milhares de pessoas morreram (de fome) em função dessa mudança. Uma vez vi um jornal anunciar uma manchete em letras garrafais o degelo da calota polar, mostrando duas fotos de um pedaço do ártico, onde podíamos verificar a redução. Mas no final da mesma reportagem, em letras menores, eles chamavam a atenção que em outra enseada, a calota havia aumentado.


Desde o 3º período de biologia marinha a gente aprende sobre o sistema tampão de carbonato dos oceanos, que absorve grande parte do CO2 da atmosfera. Ninguém sabe exatamente quanto, nem exatamente qual a sua capacidade limite. Talvez nem haja limite. As medições precisas de temperatura da atmosfera começaram apenas nos últimos 50 anos. Talvez tenhamos registros mais ou menos precisos dos últimos 100 anos, mas antes disso… pouco provável que haja informação confiável. Podemos avaliar bem a liberação de CO2 pelos combustíveis fósseis, relacionar com a revolução industrial, com as queimadas na Amazônia e até com peidos de vacas.

Mas gente, vivemos em um planeta que passou por várias eras glaciais nos último milhão de anos (parece que vivemos algo entre 10.000 anos de quente para cada 90.000 anos de gelo). Só que ninguém sabe exatamente por que. Fala sério! É claro que podemos influenciar o aquecimento da terra. Assim como as vacas! Mas daí a coneguirmos prever essa influência, quando nossa compreensão de fenomenos naturais muito mais poderosos (em intensidade e duração) do que peidos, como as glaciações, alterações do sol ou dos oceanos; ainda comporta dúvidas da ordem de alguns poucos milhares de anos? Acho que por enquanto é pouquiíssiomo provável. Você sabiam que o Vulcão Pinatubo, que entrou em erupção na Indonésia em 1991, liberou na atmosfera mais CO2 em 3h do que a cidade de Nova Iorque liberaria em 30 anos?

Gente… nós somos pequenos! Presidentes podem contratar assessores (que em geral são pesquisadores ruins que por não saberem pesquisar dão consultoria sobre o que outros pesquisam) e ex-presidentes podem fazer filmes. Mas se os cientistas começarem a fazer alarme, pra que pessoas leigas entendam o potencial risco real do que a gente não pode efetivamente prever, em quem vamos confiar quando o dia de depois de amanhã chegar?

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