Ciência Política

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The World’s Deadliest AnimalWhat’s the deadliest animal in the world? The answer may just surprise you.

Publicado por GOOD em Segunda, 21 de março de 2016

Nesses tempos de ânimos acirrados por paixões descontroladas, esse infográfico (e video) nos ajuda(m) a entender que, por mais que nossos achismos, viés, preconceitos e visões de mundo, nos digam uma coisa; e que essa coisa nos ajude a apaziguar nossas angustias e medos; nada muda a realidade dos fatos.

Nada que eu disser pode te convencer a entrar na água na praia de Boa Viagem no Recife ou para de beijar seu cãozinho na boca, mas isso não muda o fato que, esse ano, mais pessoas, no mundo, morrerão por terem tropeçado no próprio cadarço do sapato, do que atacadas por tubarões.

E que cães matam mais que leões. Ou que Lombrigas matam mais que cobras. E que só mosquitos matam mais que humanos.

O desejo inerente dos humanos por segurança e novidade gera conflitos internos inevitáveis. A necessidade de independência e compromisso também. Esse conflitos inevitáveis também estão presentes na sociedade que garante na lei, interesses individuais e coletivos que não são plenamente conciliáveis.

Para negociar com objetividade e tranquilidade, e para alcançar um compromisso que permita avançar, é importante observar para além do necessário somente para confirmar nossas expectativas e preconceitos.

É isso que nos permite o olhar científico, mesmo (e principalmente) de fatos sociais e políticos.

Leia para além de encontrar o que confirma seus preconceitos. E da próxima vez, vote com base nas evidências que podem ser medidas, testadas, comprovadas ou refutadas. Senão, de pouco adianta todo o barulho nas ruas. De um lado ou de outro.

Construindo confiança

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Outro dia assisti uma apresentação sobre como fazer uma apresentação de projeto.

“O que é mais importante na apresentação de um projeto? É você! Quem vai realizar o projeto”

Faz todo sentido. Se os financiadores, sejam eles investidores ou avaliadores de uma agência de fomento, não tiverem confiança na sua capacidade de realizar o projeto, não adianta a ideia ser espetacular.

Como diz o meu amigo Arvind Grupta: “Execute ideas. Execution matters!” A execução é fundamental!

Como todo projeto tem riscos, a decisão de investir em depende então, principalmente, quase exclusivamente, da confiança na capacidade de execução do cientista/empreendedor.

Confiança então é a palavra chave. Como demonstrar que você é confiável?

Confiança você não demonstra, você conquista. E como conquistamos confiança? Com integridade.

Mas como no último post, se você não entende o significado de ‘execução’, ‘confiança’ e ‘integridade’, essas palavras não passam de sons que impressionam por serem politicamente corretos.

Então vou compartilhar com vocês uma tabela que me foi apresentada no ano passado no congresso do Industry Research Institute – IRI, em Denver, Colorado, nos EUA. Foi durante uma sessão de discussão sobre o tema ‘weak ties and innovation’. A tradução literal de ‘ligações fracas e inovação’ não dá a idéia precisa do que foi o evento. Nele, o moderador, Andrew Maxwell, falou da importância da confiança para a inovação, já que, se dependermos dos advogados colocarem todos os termos e variantes dos termos em um contrato, o tempo da inovação já terá passado. Por isso a confiança é tão importante: sem ela, não se pode avançar.

Mas assim como o respeito, que a sabedoria popular diz “Você leva uma vida para conquistar e um minuto para perder” a confiança também é algo que se conquista, vivendo a vida com integridade.

E como fazer para sermos íntegros e dignos de confiança? Andrew nos deu a tabela da figura acima, que eu traduzi livremente abaixo. Ela nos mostra os comportamentos que constroem, abalam e quebram a confiança.

Achei essa tabela I-N-C-R-Í-V-E-L! Um guia real não só para ter integridade, como para balizar e melhorar as relações entre as pessoas. Claro, uma comunicação transparente é parte importante da integridade e da confiança. Quais desses comportamentos você pratica?

 

Dimensão da Confiança Construção de confiança Abalam a confiança

Quebra de confiança

Confiabilidade

Consistência

Comportamento que confirma uma promessa anterior Mostrar inconsistência entre palavras e ações

Não manter promessas e acordos

Benevolência

Mostrar preocupação com o bem estar dos outros Mostrar interesse próprio e frente do bem estar dos outros

Tirar vantagens dos outros quando eles estão vulneráveis

Alinhamento

Ações que confirmam valores ou objetivos compartilhados Apresentar comportamento inconsistente com os valores declarados

Demonstrar falta de valores compartilhados e vontade de se comprometer

Capacidade

Competência

Demonstrar habilidades técnicas ou de negócios Demonstrar falta de competência contexto-específica

Dizer que possui habilidades que não possui

Experiência

Evidência de trabalho relevante ou experiência prática Se baseia em experiência inapropriada para tomar decisões

Tenta demonstrar experiência que não possui

Julgamento Confirma habilidades para tomar decisões bem informadas

Se baseia inapropriadamente em terceiros ou fontes ruins

Julga os outros sem dar a eles chance de se explicarem

Confiança

Compartilhamento

Mostra vulnerabilidade ao compartilhar informação confidencial Compartilha informação confidencial sem pensar nas consequências

Compartilha informação confidencial que pode causar dano

Dependência

Mostra disponibilidade em ficar vulnerável ao delegar tarefas Relutante em delegar ou introduzir controles na performance dos empregados Indisponível para se basear na representações de outros ou se recusa a participar
Receptividade Demonstra capacidade de aprender e vontade de mudar Adia ou evita a implementação de novas ideias ou

Recusa feedback ou culpa outras pessoas

Comunicação

Acurácia

Contribui com informação verdadeira no momento apropriado De forma não intencional, representa erroneamente ou atrasa a transmissão de informação Deliberadamente representa erroneamente ou esconde informação crítica
Explicação

Explica detalhes e consequências da informação fornecida

Ignora pedidos de explicação

Nega pedidos de explicações

Abertura Aberto a novas ideias ou novas formas de fazer as coisas Não ouve ou ignora novas ideias

Impede ou sabota novas ideias.

Será que você marcou alguns dos quadros de comportamentos que ‘abalam’ ou ‘quebram’ a confiança? Eu espero que sim, porque estamos longe de ser perfeitos, não é?! Mas se não (ou independente disso), seria interessante pedir a outras pessoas, mais ou menos próximas de você, que preencham esse quadro a seu respeito. Será que essas pessoas vêem você com os mesmos comportamentos que você se vê?

Eu farei isso com a minha equipe.

O Brasil tem um dos maiores índices de desconfiança do mundo e isso atrapalha enormemente as nossas relações (como no exemplo dos contratos acima). É um das, senão a principal, razões pelas quais arriscamos pouco e inovamos pouco. E precisamos mudar isso urgentemente.

Pra terminar, deixo vocês com uma pérola de sabedoria retirada de Homem- Aranha 2: “Change is not just a word. Change comes with commitment and persistence.” Mudança não é apenas uma palavra. Mudança vem com compromisso e persistência.

 

Sem meio termo

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Ao longo dos primeiros meses desse ano, acompanhei muitos artigos que, de maneira contundente, urgem a comunidade científica brasileira a assumir um verdadeiro compromisso com a qualidade da ciência produzida no país. Não podemos considerar nosso critério adequado com os indicadores que temos hoje. Eu sou daqueles que concorda, em grau, número e gênero, com o texto do artigo “Produção científica e lixo acadêmico no Brasil” do professor Rogério Cezar de Cerqueira Leite publicado na Folha de São Paulo em 06/01/15.

No artigo É hora de rever o sistema de pós-graduação brasileiro de 26/01/15, o professor emérito da Unicamp Lewis Joel Greene aponta o problema: “Em meados da década de 1970, houve muitas discussões sobre o fato de que o Brasil precisava produzir milhares de doutores para chegar a níveis de primeiro mundo em número de doutores/100.000 habitantes. Reconhecia-se que a maioria dos primeiros formados teriam uma formação menos que ideal, porém entendia-se e esperava-se que o sistema se tornasse mais rigoroso com o tempo. Infelizmente, isso não ocorreu e, para piorar a situação, os doutores mal treinados estão agora formando a próxima geração de doutores.”

O artigo me fez lembrar do que li no livro ‘Aprendiz da ciência’ de Carlos Chagas Filho. Ele fala da importância da “criação de um conceito fundamental para o nosso país: o emprego de modelos nacionais estudados pelas técnicas as mais avançadas, o que, de um modo geral, significam técnicas internacionais. Esse conceito define e determina o que se deve chamar ‘a ciência nacional’. Isto não significa nenhum tipo de xenofobismo ou de estreito nacionalismo, mas é o melhor caminho para o desenvolvimento natural e social de nosso país.”

Para mim, e acredito que para ele também, não eram apenas as técnicas internacionais, mas também os critérios internacionais de qualidade. A ciência é um conjunto de ferramentas para entender como o mundo funciona. Seus critérios não podem ser flexíveis, porque as leis da natureza não são. Não há como discutir e chegar a um ‘consenso’ do que é o melhor. Não há ‘negociação’ com as evidências. Não há meio termo.

Ainda que eu admire o discurso do professor Domenico de Masi que diz que “as universidades do Brasil só não são consideradas as melhores do mundo porque os critérios para a escolha das melhores são determinados pelas mesmas universidades que publicam o ranking“, tendo tido a oportunidade e o privilégio de visitar Harvard e Stanford, não posso dizer que sejam critérios ruins.

Ainda assim, para mim, existe um critério melhor do que qualquer ranking. Um critério absoluto. O critério do que funciona e do que resolve problemas no mundo real. Quando Ioannidis publicou Why most published research findings are false‘ em 2005, era exatamente disso que ele estava falando: basta de coisas que não são replicáveis, não são confiáveis, coisas que não funcionam!

Nós precisamos fazer coisas que funcionem. Sejam elas teorias ou patentes, precisamos de ciência que ajude a resolver problemas no mundo real.

Precisamos do padrão Richard Feynman: “O que eu não posso criar, eu não posso entender.”

Ou do critério Ayn Rand em ‘A Revolta de Atlas’: “Não há nada de importante na vida exceto sua competência no seu trabalho. Nada. Só isso. Tudo o mais que você for, vem disso. É a única medida do valor humano. Todos os códigos de ética que vão tentar enfiar na sua cabeça não passam de dinheiro falso impresso por vigaristas para despojar as pessoas de suas virtudes. O código de competência é o único sistema moral baseado no padrão ouro.”

A comunidade científica acredita hoje que os artigos científicos são o propósito. O ‘fim’. Entendi, recentemente, ainda que só tenha consolidado essa compreensão agora, neste exato momento, que os artigos científicos são apenas o começo. Se um artigo científico se encerra em si, ele não fez jus aos recursos que foram empenhados nele. Estou falando de transformar dados em informação e informação em conhecimento. E sim, conhecimento em coisas que funcionem.

Patentes ou teorias, artigos tem que se transformar em coisas que funcionem. 

Lembrei da metáfora da fábrica de tijolos. Em 1963 Bernard K. Forscher enviou uma carta a Science na qual usava a metafora de uma fábrica de tijolos para fazer exatamente essa crítica a ciência que estava sendo produzida no mundo (Caos na Fábrica de TijolosChaos in the brickyeard).

Sou um cientista que entende que o modelo de financiamento de ciência no mundo está esgotado. Também sei que a percepção do cientista sobre seu papel no desenvolvimento social e econômico do país é uma, a percepção da sociedade sobre esse mesmo papel é outra e o seu real papel, outro ainda. Espero contribuir com inovações que ajudem a chegarmos a um novo modelo, onde todas essas variáveis se reconciliem em um equilíbrio sustentável. Porque voltar ao que era (“nós pesquisamos o que quisermos e vocês pagam a conta”) simplesmente não é mais uma opção.

Há 4 anos atrás o artigo ‘Fabrica de doutores’ (PhD Factory) publicado na Nature chamava a atenção para o excesso de doutores sendo produzidos no mundo. Na semana passada, outro artigo na Nature, ‘O futuro do Postdoc’ (The future of postdoc), mostra como o problema aumentou.

No mundo inteiro, em qualquer área, as únicas pessoas com trabalho garantido são aquelas que aprenderam a se tornar indispensáveis. A maior parte das pessoas quer fazer o que quer fazer e ser paga, com benefícios, por isso. Temo que não seja possível.

Precisamos de muitas pessoas fazendo muita ciência, mas não qualquer pessoa e não qualquer ciência.

Terminei de ler… A nascente

The Fountainhead (1949) from El origen del mundo on Vimeo.

É lindo quando um livro nos comove e entretem ao mesmo tempo.

A história do arquiteto Howard Roark, o homem ‘possível’ da autora e filósofa Russa Ayn Rand, cuja integridade moral, criatividade genial e inabilidade social transformam sua vida numa montanha russa, surpreende a cada página. Me fez pensar (como qualquer outra coisa faz) tanto na ciência e na ciência brasileira: Não podemos fazer concessões! Custe o que custar. Doa a quem doer. A ciência não pode fazer concessões! É tão difícil, mas não podemos nunca nos esquecer.

A Nascente foi publicado em 1943 e mas continua moderno porque é real! Troque ‘arquiteto’ por qualquer outra coisa e a história continua verossímil.

Em 1949 foi lançado o filme (acima) que, apesar de ter roteiro da própria autora, pegou leve com os conflitos morais e éticos dos personagens, com a trama e com os diálogos. É… diferente de seu personagem, Ayn Rand abriu concessões. É uma alternativa para quem não tiver fôlego para as 800 páginas do livro, mas não tem comparação. E Gary Cooper como o jovem arquiteto Irlandês de cabelos cor de abóbora… não convence.

Para aqueles que precisam só de um pequeno estímulo, aqui vão alguns trechos de um testemunho de Roark:

“Nada e dado ao homem na Terra. Tudo o que ele precisa tem que ser produzido. E esta e a alternativa básica que o homem enfrenta: ele pode sobreviver de duas maneiras: por meio do uso independente de sua mente ou como um parasita alimentado pelas mentes de outros. O criador origina. O parasita toma emprestado. O criador enfrenta a natureza sozinho. O parasita enfrenta a natureza através de um intermediário.” […] “O criador vive em função do seu trabalho. Ele não precisa de ninguém. Seu objetivo principal esta dentro de si mesmo. O parasita vive em função dos outros. Ele precisa dos outros. Os outros são a sua motivação principal.  […] “A necessidade básica do criador e a independência. A mente racional não pode funcionar sob qualquer forma de coação. Não pode ser limitada, sacrificada ou subordinada a nenhum tipo de consideração. Ela exige total independência no seu funcionamento e na sua motivação.” […] “Aos homens foi ensinado que a maior virtude não e realizar, e dar. Mas nada pode ser dado antes de ser criado. A criação precede a distribuição … ou não haveria nada a distribuir. As necessidades do criador tem precedência sabre as de qualquer possível beneficiário. Entretanto, somos ensinados a ter mais admiração pelo parasita que distribui presentes que não criou do que pelo homem que tornou os presentes possíveis. Nos elogiamos um ato de caridade e ficamos indiferentes a um ato de realização.” […] “Duas concepções foram oferecidas a ele como polos do bem e do mal: altruísmo e egoísmo. O egoísmo passou a significar o sacrifício dos outros ao ego, para beneficia próprio; o altruísmo, o sacrifício pessoal em beneficia dos outros. Essas concepções ataram irrevogavelmente o homem a outros homens e lhe deixaram apenas uma escolha de dor: sua própria dor, suportada para beneficia de outros, ou a infligida a outros, para beneficia próprio. Quando a essas concepções foi adicionada a ideia de que o homem deve se alegrar com o sacrifício pessoal, a autoimolação, a armadilha se fechou. O homem foi forçado a aceitar o masoquismo como seu ideal, sob a ameaça de que o sadismo era sua única alternativa.” […] “Graus de habilidade variam, mas o principia básico permanece o mesmo: o grau de independência, iniciativa e amor pelo seu trabalho e que determina seu talento como trabalhador e seu valor como homem. A independência de um homem e a única medida da sua virtude e do seu valor: O que um homem e, e O que faz de si mesmo; não O que fez, ou deixou de fazer, pelos outros. Não ha substituto para a dignidade pessoal. O único padrão de dignidade pessoal que existe e a independência.” […] “Em todos os relacionamentos dignos de respeito ninguém se sacrifica por ninguém”.

To do Science is not enough, we have to bet

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In Trieste, Italy, in a recent international gathering of scientific diplomacy organized by the Academy of Sciences for the Developing Countries (TWAS, its acronym in English) and the American Association for the Advancement of Science (AAAS, its acronym in English), I saw former NASA astronaut (the U.S. space agency) David Hilmers talk about cooperation between scientists of different nationalities in space. I also saw Norm Neureiter, former scientific adviser to the Ministry of Foreign Relations of the United States, talking about collaboration on scientific projects with the Soviet Union during the Cold War.

It’s a very different reality from that of the developing countries that were represented there. How to convince our politicians and governments to value science?

I asked this question to Ray Orbach, scientist responsible for negotiating the participation of the United States in thermonuclear experimental reactor to be built in France by a consortium of nine countries. There will be simulated in a controlled environment, temperatures as high as those found in the Sun, and that will make the nuclear fusion of hydrogen, producing helium gas and energy, lots of energy.

How to expect a country like Brazil, where the average citizen has little education – almost 70% of the population has not completed high school – and the government does not consider science, technology and innovation (ST & I) a priority – we have a fifth of the world’s average number of scientists by inhabitants – come participate in something so important for the future of humanity? This requires investments of frightening amounts of money, huge uncertainties, major conflicts of interest and too much risk. And what is worse, the results appear only in the long run: the operations of the reactor, for example, are referred to in 30 years.

Orbach had no answer. But in that moment, the president of TWAS, Romain Murenzi, a native of Rwanda, stood up and challenged me: “I was in Brazil and I can assure you, your country has a strong commitment to ST&I”. He mentioned the improvement of the position of Brazilian universities in international rankings and, as would be expected, the Science without Borders program.

The next day, when the representative of the Dominican Republic called for a stronger legislation to prevent the escape of academics from developing countries, Romain stood up again and said he was mistaken in thinking it was the lack of infrastructure that led scientists to escape their countries. In many of them, the political conditions were so unstable that researchers feared for his life, not by unavailability of equipment.

I understood later, talking privately with Romain that for him the fact of my country have invested in my education to the doctoral meant a deep commitment to ST & I. Of course if you compare Brazil with Rwanda will have to accept that our commitment to ST & I is strong. But if we compare with the U.S.? And what comparison is correct?

After seeing the two seconds video of the light touch of the leg of a paraplegic on the ball at the opening of the World Cup in Brazil, and the reaction of the scientific community on social networks, I found the answer.

The comparison did not matter. Only when we were willing to invest large sums of money on cutting-edge projects, risky and uncertain, we would unveil a big commitment to science.

Brazil has an enormous socioeconomic deficit that also inhibits its scientific development. It is virtually impossible not to be always one step behind our collaborators (and competitors). A strategy to escape this trap would be to walk an alternative path, where the long-term investment in basic education were accompanied by massive investments in fron
tier of sciences. Areas with potential for faster returns, but with greater financial contributions, as well as uncertainties and risks.

The answer was in that lawn. Brazil had committed! The result was not the expected. From the point of view of marketing – and it was a marketing event for the demonstration took place in the World Cup opening, not in a scientific congress – it was a failure. But scientifically the enterprise has not failed. It’s easy, retrospectively, to find the reasons why the venture failed. But cast the first stone who has never talked about an outcome before it was published. It will be up to the funding agencies to account for the invested resources and the scientific community to verify Nicolelis’ allegations. Which, incidentally, will be the only one to bear the embarrassment that was the difference between the promised and the delivered.

Scientific activity is risky and its results can never be predicted with accuracy. But it is part of the game. An expensive game, but precisely because of that, it requires a large commitment of the players. Four years ago, Nicolelis was the right bet. More than that, investing in science was the right decision for Brazil. Brazilian science can live without the 15 million USD that were allocated to Nicolelis’ research. What Brazil cannot, is to live without the fundamental commitment to risk in science.

MAURO F. REBELO, 42, PhD in biophysics, is professor at the Institute of Biophysics Carlos Chagas Filho, at Federal University of Rio de Janeiro

Free translation by the author from the article published in the Brazilian newspaper Folha de São Paulo on 21/06/2014

O beco sem saída

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O resultado do concurso para professor adjunto na minha instituição na semana passada deixou clara para mim uma coisa: o meu enorme desalinho com rumo que a universidade está tomando. Ou que tomou. Ou que sempre teve, não sei mais. De qualquer forma, fico me perguntando como não percebi isso antes. Não creio que tenha sido um estudante idealista pra ficar cego contra algumas obviedades, e muito menos um adulto idealista: como é que me escapou então?

Meu problema não foi, ou não tem sido, com os candidatos. Meu problema é com as bancas, que insistem em perpetuar um sistema que ultrapassado, que claramente não funciona mais, ainda que todo mundo faça o maior esforço pra fazer de conta que sim.

Mas eu não quero insistir, nesse texto, no ponto do concurso; quero insistir no desalinho. As vezes, muitas vezes, fico me perguntando se é possível que apenas eu veja que tudo está errado, que nossos professores estão desmotivados e despreparados; que nossos alunos estão além disso, desatentos; que nossas pesquisas não tem impacto…

Você não concorda comigo? Eu aprendi cedo na minha vida acadêmica que a única coisa, talvez capaz de convencer pessoas inteligentes a mudar de opinião, são argumentos técnicos. Afinal, como diz o canastrão  da série de televisão CSI – Miami, Horatio Caine: – “Pessoas mentem, evidências não”.

E nesse caso as evidências são sólidas, consistentes e aterrorizantes

– Alunos entram na universidade sem conhecimentos fundamentais de diversas disciplinas

– Na região norte do país, menos de 1% dos professores do ensino fundamental tem graduação. Qualquer graduação, em qualquer área.

– Apenas 14% dos jovens brasileiros entre 19 e 24 anos estão na universidade (menos que a Bolívia e muito, muito menos que Argentina e Venezuela)

– índices de evasão em cursos da UFRJ variam entre 50 e 90%

– A produção científica no país cresceu mas ela não tem impacto

– Os alunos do CsF voltam para casa por falta de proficiência em inglês

– Professores com doutorado ocupam 2 faixas da pista + o acostamento + as duas faixas da contramão na hora do rush na saída do campus do Fundão.

– 85% dos CEOs no Brasil dizem que sua maior preocupação para o crescimento é a disponibilidade de recursos humanos de qualidade.

Poderia continuar com mais argumentos.

Enquanto pesquisas e mais pesquisas em neurociência e psicologia evolutiva mostram, consistentemente, que as metodologias de ensino tradicionais são ineficientes e impossíveis de serem aplicadas em escala; eu gostaria de entender porque professores pesquisadores se recusam a aplicar em sala de aula as verdades científicas que outros cientistas produzem. Deve ter a ver com o que Dan Pink fala na excelente palestra TED sobre porque nos recusamos a aplicar verdades cientificamente comprovadas na gestão de recursos humanos nas empresas,

Na verdade, não preciso de Dan Pink, eu sei a resposta: porque vai dar trabalho, porque quem era o melhor professor antes não será mais o melhor professor, porque vai custar caro, porque não queremos aceitar que estacamos fazendo errado em primeiro lugar.

Enquanto isso, nossos alunos continuam passando em branco pela universidade, chegando despreparados no mercado de trabalho e achando que fizemos a nossa parte porque ganhamos uma avaliação positiva depois de uma aula (ou um curso) ou porque um ou dois alunos deram uma resposta excelente em uma prova.

Será que ninguém vê que assim não vamos conseguir educar os milhões de jovens que precisamos para começar, apenas começar a retirar o atraso do Brasil nesse setor? Será que ninguém vê que esse bonde  caminha em
 um beco sem saída? Não, ninguém vê.

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[A falta de] Impacto social, econômico e intelectual da ciência brasileira

Ainda que a produção científica nacional tenha crescido significativamente nos últimos anos, o impacto das nossas publicações continua o mesmo: nenhum!

Ainda que a produção científica nacional tenha crescido significativamente nos últimos anos, o impacto das nossas publicações continua o mesmo: nenhum!

As vésperas do encontro anual da Academia Brasileira de Ciências, visitei um artigo publicado em fevereiro desse ano, onde o ex-presidente da FAPESP e ex-Reitor da Unicamp Henrique Britto-Cruz fala, embasado em amplas estatísticas, sobre a falta de impacto da nossa ciência.

A primeira vez que vi o Britto-Cruz falar foi em 1999, quando eu, junto com um grupo de alunos de doutorado preocupados com seu futuro como cientistas no Brasil, ajudei a organizar o simpósio ‘Cientistas do Próximo Milênio: O que se espera de um doutor em ciências no Brasil’. O evento foi incrível e contou com nomes importantes da ciência na época como Jorge Guimarães, Wanderley de Souza, Leopoldo de Meis, entre outros. A palestra de Britto-Cruz foi muito boa. Mas, se prestarmos atenção ao conteúdo, de 1999 pra cá, ele pouco mudou.

Já sabíamos que a produtividade científica do Brasil vinha aumentando pela decisão estratégica de investir os parcos recursos de C&T brasileiros em bolsas de pós-graduação ao longo da década de 1970, 80 e 90. Investimos maciçamente em um exercito de idealistas de pós-graduação dispostos a qualquer coisa pela ciência, mesmo a trabalhar nas péssimas condições oferecidas pelas universidades públicas, que estavam sendo sucateadas pela falta de recursos para infra-estrutura.

Mas aqueles não eram os únicos problemas. Como os jovens doutores que estavam sendo formados pelo sistema poderiam produzir ciência de alto impacto, como a que estavam fazendo em seus pós-doutorados no exterior, quando precisamos esperar meses pela liberação na alfândega de reagentes importados e pagamos até 3x mais pelo mesmo material que em outros países? Pois é, não dava.

Então, em 2003 um grupo de jovens pesquisadores brasileiros coloca dedo na ferida: altas taxas de importação e ágio estavam causando prejuízos financeiros aos laboratórios (e aos cofre públicos) e, junto com a demora na liberação de material importado para pesquisa, estavam minando a competitividade da ciência nacional. (veja em: ‘High prices of supplies drain cash from poorer nations’ labs’ – Nature 428, 453 (1 April 2004; doi:10.1038/428453a e ‘Scientific aid to Brazil is strangled by red tape’ – Nature 428, 601 (8 April 2004; doi:10.1038/428601a). Repetimos a companha em 2007 e o o presidente Lula, pressionado pela comunidade científica, em 20 de novembro assinou o decreto nº 6.262, dando 90 dias de prazo para quatro ministérios simplificarem o processo. Você acreditou que o problema estava resolvido? Eu acreditei, mas nada mudou. Sem grandes esperanças, repetiram a campanha em 2012 e o auxílio veio de onde menos se esperava:  o deputado federal Romário (PSB-RJ) propõe o projeto de Lei 4411/2012 que simplifica a importação de mercadorias destinadas à pesquisa científica será uma vitória, mas só quando virar lei. O texto, de autoria permite aos pesquisadores liberação automática de mercadorias, livres de taxas da Receita Federal e Anvisa. Ainda está longe da aprovação, mas deixou claro para mim uma coisa: o problema do impacto da ciência brasileira ainda não será resolvido por cientistas e não será resolvido na minha geração.

Entra ministro, sai ministro e… nada muda! Nossa classe científica dirigente se acomodou e não percebe que está ultrapassada. Não conseguem inovar para vencer os obstáculos do governo e libertar as amarras que impedem os 10.000 doutores que o Brasil produz por ano de ‘fazerem a diferença’.

Mas será que poderíamos esperar essa iniciativa dessa classe dirigente?

No mesmo número da Nature de 2004 onde foi publicada a reportagem sobre os danos da burocracia de importação no Brasil, um comentário de Robert Insall da Universidade de Birminghamem em um outro artigo sobre a ‘Tendenciosidade dos editores de grandes revistas científicas’, me ajuda a responder:  “Seria mais fácil fazer frio no inferno que conseguir que cientistas mais velhos mudem alguma coisa, muito menos alguma coisa que beneficia muitos deles”.

Vamos torcer para o Romário ser tão bom na câmara quanto era na área.

Desapega!

@vcqebiologo: Assistindo a palestra do sensacional Paulo Saldiva na abertura do Toxi-Latin 2014.
@dbotaro: Ele é pop!

Fui convidado por Afonso Bainy para uma apresentar os dados do nosso laboratório sobre as consequências das altas taxas de polimorfismos dos invertebrados aquáticos para o uso de biomarcadores no Congresso latino americano de toxicologia clínica e ambiental. Eu não gosto especialmente de Porto Alegre, mas como fiz meu mestrado em Rio Grande (que eu tenho de confessar, não gosto nem um pouco) criei um vínculo com a cidade e com os gauchos, principalmente com minhas amigas Ada e Cris que sempre me acolheram tão bem. Por isso, ir a Porto Alegre significa rever amigos queridos, como José Monserrat, meu guru científico, que estava lá também.

Atualmente, ir a um congresso é sempre um desafio. Já escrevi aqui que gostaria que todos os congressos científicos dessem uma renovada no seu formato e fossem como a FLIP. Como eles não são… não consigo achar nenhum deles interessante. Ou pelo menos interessante o suficiente para justificar o quanto custam. Ainda assim, se você quiser fazer uma coisa legal pelo seu congresso, convide o médico patologista e professor da USP Paulo Saldiva pra falar. Ele vai conseguir fazer a poluição, principalmente a do ar, que é a que ele estuda com mais propriedade, mas também, talvez, a mais perigosa, já que a gente não vê mas respira o tempo todo; te tocar. Sério, mas despretensioso; objetivo, mas leve. Como poluição é a minha área de pesquisa há 20 anos, eu já havia ouvido o nome do prof Saldiva antes, mas virei fã depois de assistir a palestra dele no TEDxSP (que vocês podem assistir acima). Como disse Dani Botaro enquanto eu tuitava a palestra dele: ele é pop!

@vcqebiologo: as megacidades como causa de toxicidade. O primeiro sistema de saneamento básico em cidades apareceu em Roma e chamava ‘Maxima Cloaca’

Primeiro sistema de condução de esgotos do mundo (em vermelho)

Primeiro sistema de condução de esgotos do mundo (em vermelho)

@vcqebiologo: São Paulo: apenas o centro histórico tem IDH alto. Na mesma cidade temos Oslo e Maputo.
@vcqebiologo: O que vai nos matar no futuro? Em 2012, 7 milhões de pessoas morreram no mundo por causa da poluição. 
@vcqebiologo: O mapa da ineficiência energética no mundo e racismo ambiental: o uso seletivo d tecnologia limpa d acordo c o pais
@vcqebiologo: As cidades deixaram de produzir bens para vender serviços. Isso requer mobilidade e a consequência é que vivemos em chaminés.
@vcqebiologo: A relação entre o risco de ‘morrer no dia seguinte’ e ‘poluição’ é uma linha reta
@vcqebiologo: Entre os comportamentos listados por pacientes infartados antes do infarto está o tráfego!
@vcqebiologo: A poluição para as cidades, é como o cigarro para os indivíduos. E todo mundo sabe que tem da parar de fumar!

Mas o melhor estava por vir. Ao final do congresso, quando fui pegar o transfer de volta para o aeroporto, Paulo estava no mesmo carro. Ele foi conversando com o motorista que, quando soube que ele era médico, logo pediu conselhos sobre a sua hérnia de disco, sem se preocupar em saber a diferença entre um ortopedista e um patologista. Depois de responder atenciosamente todas as dúvidas do motorista, ele fala que está na hora de se aposentar:
– “Se eu ficar no meu instituto, vou atrapalhar todos os jovens que estão por lá”.

Opa, me meti na conversa:
– “Como assim professor?”

Ele explicou:
– “Eles nunca vão poder crescer. Veja, todos os artigos saem no meu nome, todos os projetos saem no meu nome, todos os financiamentos saem no meu nome. O INCT (sigla dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, os maiores projetos financiados pelo CNPq) está no meu nome… enquanto eu estiver lá, não haverá espaço para ninguém crescer.”

Abismado com a lucidez, sensibilidade, clareza e coragem do comentário, perguntei se ele se importaria de repetir tudo para eu poder gravar. Era uma brincadeira, mas com fundo de verdade.

– “No ano passado nós publicamos na Nature e na Lancet (a maior de todas as revistas científicas e a maior de todas as revistas médicas). Eu sei que não vou ganhar um Nobel, então eu já contribui tudo que poderia contribuir para o meu instituto. Agora, o que eu tenho que fazer é ir para uma faculdade de medicina, dessas que estão nascendo aos borbotões em cada esquina, e ajudar eles a fazer um bom trabalho.”

Uau! Chegamos ao aeroporto e a mega fila para deixar a bagagem me impediu de continuar a conversa. É lindo ver que a auto-confiança gerando desapego. Algo que eu procuro exercitar sempre, mas que acredito que apenas as mentes mais evoluídas podem alcançar.

Que não reste dúvida: ele se tornou o meu maior ídolo acadêmico vivo.

Sobre Beagles e Exoesqueletos

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Hesitei em entrar nessa discussão por duas razões: primeiro porque não sou um especialista em ética ou em uso de animais em pesquisa; segundo, porque não acho que exista qualquer coisa que possa ser dita que vá aplacar a motivação daqueles que acreditam que os testes científicos em animais sejam um problema.

A triste verdade é que, com 50% da nossa população beirando o analfabetismo funcional, é extremamente difícil conseguir convencer as pessoas com argumentos técnicos e lógicos. E é por isso que eu acredito que as tentativas dos meus colegas cientistas que entendem muito mais do assunto do que eu para explicar a importância e o cuidado dos cientistas no uso dos animais, tem sido infrutíferas: seus argumentos técnicos funcionam apenas na legião de convertidos capaz de entendê-los e não conseguem alcançar para além deles, a grande massa de excluídos científicos que, sem noção do que é o método científico ou como as coisas que eles usufruem no dia a dia são possíveis, vivem a margem da compreensão das coisas, baseando suas decisões apenas em emoções e percepções superficiais dos problemas.

Quando alguns alunos viram esse vídeo de personalidades falando em defesa dos ‘pobres animais indefesos’, vieram me pedir para fazer um vídeo legal, bem produzido, numa linguagem acessível, sobre a importância do uso de animais em pesquisa.

Mas a verdade é que seria inútil.

, cito Dobzhansky, quando ele diz algo como “quando as conclusões forem desagradáveis, não importa o quão boa seja a explicação ou os fatos: as pessoas irão recusá-las”

Ainda assim, fiquei irritadíssimo ao assistir o tal vídeo: É lamentável que personalidades como essas se disponham a falar de um tema o qual não entendem minimamente, para o qual não apresentam qualquer argumento técnico ou evidência objetiva. Carl Sagan (que eu imagino eles não saibam que foi) disse muito bem: “As pessoas aceitam os produtos da ciência, mas recusam os seus métodos”. Eu gostaria de chamar de hipocrisia, mas é só uma triste falta de conhecimento mesmo.

Conhecimento que textos como esse da neurocientista Lygia Veiga ( A Escolha de Sofia: Os Beagles ou eu, mostra. Nós sabemos o quanto é difícil desenvolver modelos alternativos porque é justamente isso que estamos fazendo no laboratório: Nosso grupo de pesquisa é um dos que não trabalha com animais de sangue quente e sistema nervoso complexo em laboratório, e que se esforça para desenvolver modelos alternativos, que permitam, quando for possível (e é isso que estamos tentando determinar) usar invertebrados como ostras, mexilhões, caranguejos e camarões, em pesquisa biomédica. Bivalves produzem heparina e um monte de outras substâncias úteis para humanos. O primeiro passo para usar esses animais com um sistema nervoso bem primitivo em pesquisa, é conhecer seus genes. É isso que nosso grupo vem fazendo há mais de 3 anos, mas que só agora conseguimos publicar. Ainda assim, com dados preliminares.

Mas nada parece aplacar a ira dos ‘black ALF blocks’, que estão ameaçando pesquisadores e institutos de pesquisa nas redes sociais. E até mesmo meus amigos com grande treinamento em ciência tem postado comentários revoltados nos textos que compartilho na funpage do VQEB no Facebook.

Sob pena de ser julgado pela minha contundência, tenho de afirmar que eles estão equivocados e que nenhuma argumentação ética ou filosófica sobre esse argumento pode se sustentar.

A natureza é Amoral. Tente aplicar ética e moral a natureza e… vamos gerar conflitos irreconciliáveis.

Nos damos ao luxo de discutir o bem estar animal hoje, quando a competição por recursos DENTRO da nossa espécie foi minimizada pela agricultura e… a criação de animais. Por que se acabarmos com os supermercados e restaurantes, não nos preocuparemos nem mesmo com o próximo. Será cada um por si, como está ‘escrito’ nos nossos genes.

Todas, eu disse TODAS, as espécies animais e vegetais exploram o seu ambiente, o que inclui outros animais e vegetais.

Da mesma forma que não podemos acabar com a poluição, porque a segunda lei da termodinâmica dita que não há uso de energia sem produção de resíduo, não creio que seja possível acabar com a exploração animal e vegetal.

Isso não é um argumento para um ponto de vista ou outro: é uma constatação! A natureza é Amoral e não existe certo ou errado, bom ou ruim… o que existe são ‘Estratégias Evolutivamente Estáveis’: o que funciona, evolutivamente, em curto, médio e longo prazo.

Meu chute é que uma estratégia de ‘não exploração de recursos animais ou vegetais’ está fadada a não permanência no pool gênico das gerações futuras. Da mesma forma, não acredito que estratégias de exploração exaustiva fiquem para contar história.

Mas será que seremos nós a decidir? Eu acho que não. Acho que nos extinguiremos como espécie antes disso. É preciso ser mais inteligente do que nós somos, ou menos sensível aos nossos instintos, para criar uma estratégia evolutivamente estável no que tange a exploração de recursos, sejam eles animais, vegetais ou minerais.

Até lá, vamos fazer o melhor que podemos, o que inclui implantar cirurgicamente eletrodos na cabeça (no cérebro) de uma criança tetraplégica para que ela consiga operar uma roupa experimental com o pensamento e dar o ponta pé inicial da copa do mundo do Brasil.

Um isopor explosivo (ou como enviar amostras com gelo seco pela transportadora)

Subst perigosas diversas 9

Saio do ostracismo involuntário para tratar de um assunto pouco interessante mas, para você que é pesquisador, de qualquer nível, muito importante: como enviar amostras biológicas preservadas em gelo seco, de um lugar para outro do Brasil, por uma transportadora aérea.

O pior é que nem é difícil. É trabalhoso, mas difícil… difícil não é. Difícil é física quântica, é biologia molecular. Mas quando a gente não sabe… a dor de cabeça e o trabalho podem estragar o seu dia. Como estragou o meu ontem, tendo que ir 3 (três) vezes ao setor de cargas da TAM para conseguir ter minha amostra (1 tubo de 500 µL contendo 10 µL de DNA sintético) enviada do Rio para São Paulo. O problema é que não existem instruções claras sobre como empacotar o seu material, preparar a embalagem e os documentos necessários EM NENHUM LUGAR! O que me levou a escrever esse guia.

Quando você vai pela primeira vez ao aeroporto, você descobre que existe um ‘check-list’, que eles usam para verificar se o seu pacote está pronto para viagem. Ajudaria bastante ter essa check-list na mão, não é? Então veja a  figura 1. Nela você descobre as etiquetas que precisam estar (e as que não podem estar também) coladas no lado externo do pacote. Veja principalmente a parte do ‘marcado e etiquetado’:HP0025

Use uma embalagem decente. Uma boa caixa de isopor, com paredes sólidas. Ela também não deve estar quebrada ou rachada, obviamente. Não abuse no gelo seco. Você pode usar até 200kg em uma embalagem, mas para amostras biológicas de laboratório em geral precisamos de bem pouco. Mas de uma forma ou de outra, você precisa do PESO LÍQUIDO DE GELO SECO que está sendo embarcado. Ele precisará constar na etiqueta da embalagem (abaixo), no formulário de despacho e na declaração de segurança.

As etiquetas são: Gelo Seco (ou Dry Ice) junto com o código da ONU UN1845 (não esqueça de anotar o peso de gelo seco na embalagem)

DRY ICE UN 1845

E a outra é etiqueta da IATA para identificação de ‘substâncias perigosas diversas’ que ilustra o início desse texto.

Sim, o gelo seco, que é dióxido de carbono na forma sólida, é uma substância perigosa. Mas como, se o ar está cheio de dióxido de carbono e nós expiramos ele a todo momento?

Bom, o porque ele é perigoso não importa muito, já que existe uma norma que diz que tem que ser assim e se não cumprir isso não levam a sua carga, mas se você é que nem eu que não se contenta com esses argumentos, eu vejo duas razões claras: a primeira é que ele é sólido a temperaturas inferiores a -50oC, o que pode gerar sérias queimaduras na pele. A segunda é que a temperatura ambiente, ele é um gás. Com isso, a sublimação do sólido pode gerar muito gás, aumentar a pressão dentro do recipiente e… explodir. É muito pouco provável que isso aconteça, mas… é possível. E é por isso que um ponto importante, não dito em nenhum lugar até você chegar no aeroporto, é que sua embalagem NÃO PODE ESTAR HERMETICAMENTE FECHADA! É preciso ter algum ponto de escape para o gás. Não vede todas as tampa do isopor com fita adesiva!

Muito bem. Falta ainda descobrir o que são as tais ‘etiquetas irrelevantes’ no check-list. Eu sou cientista e não gosto de nada impreciso. Por exemplo: o endereço do destinatário é irrelevante? Ele consta no documento chamado ‘conhecimento aéreo’ que acompanha a carga, por isso, em teoria, é irrelevante; mas na prática, não é. Então, OUTRAS DUAS ETIQUETAS que você precisa ter na sua embalagem, são o ENDEREÇO DO REMETENTE E DO DESTINATÁRIO.

Não terminamos ainda. O material biológico precisa ser acompanhado de uma declaração de periculosidade. Se a sua amostra, como as nossas sempre são, não apresentam qualquer perigo a saúde, você precisa de uma DECLARAÇÃO DE SEGURANÇA em papel timbrado, assinada por um profissional de saúde (médico, biólogo, veterinário…). O texto pode ser algo como:

DECLARAÇÃO DE SEGURANÇA

A quem interessar possa,

O material contido nessa amostra é composto por DNA sintético , NÃO apresentado qualquer PERIGO para a saúde humana, animal ou ambiental.  É NÃO TÓXICO e NÃO INFECCIOSO

Atenciosamente, (assinatura do profissional de saúde com seu número no registro profissional)

Abre parênteses: Se a sua amostra de material biológico for perigosa, você precisará de uma declaração  assinada por um profissional de saúde (médico, biólogo, veterinário, dentista, etc.), atestando que o material está enquadrado na UN 3373 e garantindo que a ‘Instrução de Embalagem 650 (embalo triplo, com etiqueta UN3373 afixada do lado de fora) foi cumprida. Fecha Parênteses.

Mas essa NÃO É A ÚNICA declaração! Outra, que não está listada em nenhum lugar que eu tenha encontrado, e nem na tal check-list, e que me fez ter de voltar mais uma vez ao aeroporto, é UMA OUTRA DECLARAÇÃO DE PERICULOSIDADE dizendo que sua embalagem contém Dióxido de Carbono sólido, gelo seco ou dry ice (e quanto contém).

DECLARAÇÃO DE SEGURANÇA

 A quem interessar possa,

 A embalagem em anexo contem até 2kg de dióxido de carbono sólido (gelo seco – dry ice).

 Atenciosamente,  Atenciosamente, (assinatura do profissional de saúde com seu número no registro profissional).

 Quase tudo pronto, agora você só precisa preencher a minuta de despacho. Aqui embaixo tem um exemplo, com os campos que você terá de preencher marcados. É importante ter o CPF/CNPJ do destinatário, sabendo que esse número vincula quem poderá receber a carga.

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Finalmente, lembre-se que como carga com gelo seco é considerada perigosa, a TAM pelo menos, não entrega no endereço do destinatário, sendo que alguém terá de ir no aeroporto fazer a retirada. Se o seu destinatário for uma pessoa jurídica, o responsável pela coleta terá de levar MAIS UMA DECLARAÇÃO, EM PAPEL TIMBRADO DA EMPRESA, AUTORIZANDO a retirada da carga XXX (identificada pelo número do conhecimento aéreo) por… (Nome e RG do portador da declaração).

Como eu disse, é muito papel, é chato, mas não é difícil. Pelo menos agora que alguém se dispôs a explicar tudo direitinho.

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