Capacete do Magneto
Ontem dei uma palestra sobre o método de ensino que estou empregando na disciplina de Biofísica para Biologia na UFRJ, que eu carinhasamente chamo de ‘de muitos para muitos‘, a convite dos professores Stevens Rehen e Marília Zaluar no Instituto de Ciências Biomédicas, também da UFRJ. O nome do evento era “O Futuro da Educação”.
O evento foi de altíssimo nível! Curto, objetivo, preciso. Mas temo que tenha sido inócuo. As pessoas na universidade, docentes principalmente mas também muitos alunos, não estão preparados para mudanças. NENHUMA mudança! E ao que parece não estarão preparados nunca!
“Eles estão usando o capacete do Magneto para que nenhuma onda cerebral externa entre” disse outro professor. O mais engraçado é que esses, aqueles, professores nem vão entender a piada. Aposto que não conhecem o Magneto.
O pior é que nenhuma crítica relevante apareceu. Tenho certeza que o método que descrevi aqui no blog em mais de 10 posts tem falhas e fraquezas, e um momento desses é importante para que professores experientes te ajudem a encontrá-las. Mas não. Ao que parece, se limitaram a encontrar um ou outro erro nos vídeos que os alunos fizeram, além, é claro, de criticar o uso do Funk como instrumento de linguagem. O preconceito deixou manchas no carpete do auditório. Não, eu não gosto de funk. Aliás, detesto. Especialmente o Lek, lek, lek whatever. Mas dai a negar o funk como movimento cultural legítimo… vocês não vão me ver fazendo isso.
como é que se avaliava antes das provas? Como as provas foram criadas com a educação em massa. porque hoje se sabe que não funcionam e porque uma nova forma de avaliar não pode ser avaliada com a métrica antiga e sim com princípios fundamentais que são justamente como a neurociência está mostrando que se aprende e como se deve ensinar.
Criticaram o que eu já sabia que iam criticar: como avaliar o modelo. Na verdade essa é a minha dúvida. A deles foi Como avaliar a aprendizagem do aluno.
Porra… será que não me ouviram falar por 30 minutos? Esse modelo foi criado JUSTAMENTE porque o modelo vigente de avaliação de aprendizagem dos alunos, qualquer que ele seja, NÃO FUNCIONA!
Sei, esse post está parecendo choro de botafoguense… Ia falar sobre o método de avaliação, mas vou parar por aqui.
Apropriação indébita
Eu sou muito emotivo, mas também sou muito apegado a regra. Sem ela, nao podemos ter o que Massimo Canevacci definiou brilhantemente hoje como a “imaginação exata”, aquela que produz coisas no mundo real. E por isso, quando torturam a regra, a minha regra, a ciência, eu ficou muito, muito incomodado. Não… Agora eu estou é puto mesmo!
Estou em Paraty em um evento organizado para refletir os caminhos para o futuro do Brasil. Super ‘selecionado’, supostamente, com a nata da intelectualidade brasileira, capaz de propor esses caminhos. E o que eu vejo e ouço? A apropriação indébita, incorreta e inconsequente de conceitos biológicos pelos cientistas sociais.
A biologia evoluiu muitíssimo nas últimas décadas. Especialmente a biologia evolutiva e a neurociência, com base nas técnicas de manipulação genética e celular. Isso proporcionou o acúmulo de um amplo e sólido corpo de evidencias biológicas, capazes de explicar comportamentos humanos. E por isso a ciência, ainda que distante da sociedade, se tornou fundamental para validar critérios e acreditar opiniões.
Então, intelectuais de ‘Meia cultura e falsa erudição’, como disse Ina Von Binzer ainda no Séc XIX, se apropriam de conceitos poderosos como gene, DNA, neurocientífico, significativo… até epigenética, para corroborar ideias, opiniões e pré-conceitos sociológicos, antropológicos, pedagógicos… insustentáveis!
“A ciência mostrou isso! Vamos falar de neurociência: está tudo lá na mitocondria! O Neguinho da Beija-Flor tem 70% dos seus genes brancos. A raça se consolida com a cultura! “
Pelo amor de Darwin! Como pode um psicólogo falar tantas besteiras em uma frase só?! A neurociência está na moda, no Brasil e no mundo, com todas as coisas bacanas que pessoas como Stevens Rehen, Suzana Herculano e Miguel Nicolélis fazem. Aí o cara resolve colocar ‘neurociência’ na apresentação dele. Só que ele não sabe nada disso! E nem da pesquisa do famoso geneticista mineiro Sérgio Pena, que usa genes mitocondriais para determinar ancestralidade (já que herdamos as mitocôndrias apenas de nossas mães, geração após geração). Só que o objetivo dessas pesquisas é justamente mostrar que a genética não sustenta o conceito de raças, que duas pessoas brancas podem ter mais diferenças entre os genes que um branco e um negro.
“A nova ciência da epigenética provou que o ambiente é mais importante que os genes para determinar a felicidade das pessoas”
Eu não acredito na humildade como força modificadora e acho que um dos ingredientes mais importantes do sucesso é saber reconhecer a diferença entre o que se sabe e o que não se sabe. Eu já ouvi falar tanto de Paulo Freire que sinto como se o conhecesse, mas a verdade é que li apenas um livro seu e não me considero capaz de falar em seu nome.
Então, por favor, estudem antes de falar dos genes. É difícil, eu sei. Como disse Domenico de Masi hoje “imparare è sempre faticoso” (aprender é sempre cansativo). Mas isso não justifica ou autoriza a apropriação indébita.
As melhores universidades do mundo!
“O Brasil tem, hoje, as melhores universidades do mundo!”
Eu, Ricardo Prado e Alex Pinheiro ficamos um pouco atônitos com a declaração de Domenico De Masi. Tivemos o prazer de almoçar com o ilustre sociólogo italiano na sua mais recente passagem pelo Rio de Janeiro. Eu já tive o privilégio de assistir uma das suas disputadíssimas (e caríssimas) palestras e já li diversos dos seus livros, o que me fazia pensar que conhecia bem sua opinião sobre as coisas. Mas a declaração das universidades brasileiras me pegou desprevinido: Como as nossas sucateadas instituições de ensino poderiam ser as melhores do mundo? Eu não tenho ‘complexo de vira-lata’ – aquele sentimento de que tudo que vem de ‘fora’ (leia-se EUA e Europa) é melhor – não, mas vivo a realidade da universidade diariamente e não tinha como concordar com isso.
“É claro, vocês brasileiros não vêem isso por que olham para os ‘rankings’. Nos rankings, Stanford, Harvard, Berkeley… são as melhores. Mas são as ‘Stanfords, Harvards, Berkeleys’ que FAZEM os rankings. E é claro que de acordo com os critérios ‘deles’, eles serão os melhores.”
Fazia todo o sentido.
“A universidade brasileira tem alegria, tem sensualidade, tem beleza. Essas as características mais importantes para o sucesso na sociedade pós-industrial. Para ter criatividade e para inovar.” E completou:
“Se o número de relações sexuais que ocorrem em um dia fosse o critério para determinar a melhor universidade, a UFRJ seria a número 1 do mundo!”
Todos rimos. Lembrei do Butão e do FIB, o índice de ‘Felicidade Interna Bruta’. Domenico disse que passa pelo menos 4 dias por ano no pequeno país encravado nas cordilheiras do Himalaia e que chamou atenção do mundo ao trocar o parâmetro de avaliação da qualidade de vida da sua população do PIB para o FIB.
“O Butão é um lugar maravilhoso. Até mesmo as empresas agora adotam critérios de bem-estar para avaliar a sua produtividade.”
Eu já tinha pensado sobre o Butão e o FIB, mas não seriamente. Eu gosto da idéia de se rebelar contra os critérios estabelecidos pelas classes (ou países) dominantes para avaliar qualidade, mas tinha parado por ai. Por outro lado, eu já escrevi aqui como me parece impossível para um povo sem problemas sociais, como os Noruegueses, fazerem inovação. Mas não tinha conectado as duas idéias.
“Mas o Butão é muito pequeno. Só o Brasil está em posição de mudar o mundo: é grande, é rico em recursos naturais, é uma democracia, é politeista e não tem conflitos nem internos, nem com seus vizinhos. Que outro país no mundo tem isso?”
Lembrei da minha turma da faculdade. Fomos a todos os Interbios (a olimpíada das universidades de Biologia), ENEBs e EREBs (encontros nacionais e regionais de estudantes de biologia), congressos, seminários, reuniões. Organizamos competições de Voley de praia na Barra, mostra de talentos, campeonato de truco. Passamos Festas Juninas, Carnavais do Rio e de Salvador, Natal e Ano Novo juntos. A beleza (como vocês podem ver), a diversão e a sensualidade (medida por enormes quantidades de beijos na boca e relações sexuais que se estabeleceram) foram sempre as forças motivadoras de todos esses eventos. E TODAS as pessoas nessa foto, uma amostra diversificada e representativa da turma 89/1, estão hoje entre os profissionais mais criativos e bem sucedidos que eu conheço.
É, pensando bem, Domenico está certo: Eu estudei na melhor universidade do mundo!
“Eu vejo… pessoas”
No (já considerado) clássico moderno “A Verdade Sobre Cães e Gatos”, o autor fala de sua experiência em uma discoteca na década de 80, quando resolveu argumentar sobre a viabilidade da astrologia com uma gatinha que ele tinha abordado e que tinha despretenciosamente tinha perguntado a ele qual era seu signo. Ele falou que Ptolomeu e Copérnico, sobre bilhões e bilhões de estrelas e sobre o charlatanismo. E ela… foi embora.
É impressionante a nossa capacidade de não responder o que foi perguntado ou de responder o que não foi perguntado. Ou, simplesmente, de falar demais. Principalmente quando falamos com (ou quando queremos impressionar) garotas bonitas. E foi isso que aconteceu, de novo, hoje.
Eu acesso super pouco o Twitter, mas hoje, quando dei uma olhada, lá estava ela, Eliane Brum, divulgando seu novo texto sobre a audiência pública do amianto no STF. Finalmente a minha jornalista preferida falava de um assunto sobre o qual eu podia me manifestar com propriedade.
| brumelianebrum: Nesta sexta, começa a audiência pública do amianto no STF. Entenda o que está em jogo. Se puder, ajude a divulgar http://t.co/rCiRsa2s 23/08/12 14:09 |
| brumelianebrum: Infelizmente, parece que parte dos brasileiros só vai acordar p/ os riscos do amianto qdo começarem as mortes p/ contaminação ambiental 23/08/12 14:11 |
| brumelianebrum: É bem triste, mas enquanto “só” morrem trabalhadores, de mesotelioma e asbestose, mta gente acha que ñ precisa fazer a sua parte de cidadão 23/08/12 14:14 |
| brumelianebrum: Quem anda pelo Brasil vê assentamentos, quilombos e aldeias indígenas cobertas de telhas de amianto. Como é possível? Por quê? 23/08/12 14:15 |
Eu estudo mecanismos de toxicidade, eu conheço epidemiologia de poluentes ambientais e até entendo de exposição ocupacional de um monte de substâncias tóxicas incluindo… o asbestos. Minha amiga Valéria Borges, pesquisadora da FIOCRUZ Bahia estudava os granulomas formado nos pulmões de trabalhadores da indústria naval expostos ao asbestos e que desenvolviam o ‘Pulmão de pedra’ no mesmo corredor do instituto de Biofísica da UFRJ onde eu avaliava a contaminação por Cádmio na Baia de Sepetiba e por Mercúrio no lago do Puruzinho na Amazônia. Fiquei tentado a responder a pergunta dela, e respondi:
| vcqebiologo @brumelianebrum o risco da exposição ocupacional ao amianto é muito bem compreendido, enquanto o risco da exposição ambiental é bem menos 23/08/12 14:19 |
| vcqebiologo @brumelianebrum E compreensão de risco, você sabe, é uma questão de educação científica e de ensino universitário de qualidade 23/08/12 14:21 |
| brumelianebrum @vcqebiologo Concordo. Mas também de capacidade de enxergar além do seu umbigo. 23/08/12 14:23 |
| vcqebiologo @brumelianebrum com uma sociedade distante da universidade, é mais difícil compreender o problema do amianto (e do mercúrio, e da soja…) 23/08/12 14:24 |
| brumelianebrum @vcqebiologo Verdade. 23/08/12 14:25 |
| vcqebiologo @brumelianebrum Sim, mas a maior parte dos estudantes do BR não sabe fração. Como entender a probabilidade e o risco, ainda que enxerguem? 23/08/12 14:26 |
| vcqebiologo @brumelianebrum E sem entender o risco… não tem atitude, caem no marasmo e voltam pra TV e pros problemas do próprio umbigo. 23/08/12 14:28 |
| brumelianebrum @vcqebiologo Qdo vejo alguém doente pq trabalhou numa fábrica q sabia dos riscos e ñ contou,eu enxergo.Enxergaria mesmo se ñ soubesse fração 23/08/12 14:29 |
| vcqebiologo @brumelianebrum eu não quero dizer que a solução é dar educação. Isso é óbvio. Mas podemos começar prendendo quem faz isso com o trabalhador 23/08/12 14:33 |
| vcqebiologo @brumelianebrum por mais que problemas como o amianto sejam terríveis (e eu estudo muitos deles), falta de saneamento básico ainda é o pior 23/08/12 14:36 |
| brumelianebrum @vcqebiologo Algo interessante a se observar é q as pesquisas financiadas pela ind. do amianto são produzidas por profes. da Usp e Unicamp 23/08/12 14:37 |
| vcqebiologo @brumelianebrum A quantidade de Hg nos lagos da amazônia é menos perigosa para ribeirinhos do q a quantidade de coliformes fecais nessa água 23/08/12 14:38 |
| vcqebiologo: @brumelianebrum hehe… assim como são as de medicamentos questionáveis. O título acadêmico infelizmente não garante idoneidade moral 23/08/12 14:40 |
| vcqebiologo: @brumelianebrum quer chamar atenção da sociedade para além do umbigo? Veja o uso rejeito químico como complemento mineral em ração animal 23/08/12 14:43 |
| vcqebiologo: @brumelianebrum os índices de câncer de mama e outros em bichanos vem aumentando loucamente nos últimos anos 23/08/12 14:45 |
| vcqebiologo: @brumelianebrum e você sabe… pode mexer com índio e pobre, mas se mexer com os ‘pets’… as madames gritam! |
Como naquela noite no Clube Naval em Charitas, fiquei falando sozinho. Me senti, depois, como uma das pessoas que ela provavelmente criticava. Sem a capacidade de “enxergar além do próprio umbigo”. No meu caso específico, de enxergar além da ciência do que eu estava falando, de enxergar as pessoas.
O título do post é uma brincadeira com a fala do personagem de Haley Joel Osment no filme ‘O sexto sentido’ de M. Night Shyamalan: “I see dead people” (eu vejo pessoas mortas). Eu tenho que confessar que enxergar as pessoas não é o meu forte, principalmente quando se trata de ciência. Eu poderia ficar ali a tarde toda, discutindo com ela argumentos de porque é inútil tentar resolver qualquer problema ambiental. A verdade é que a pouca esperança que as pessoas tem de que podem resolver algum problema ambiental é baseada em… esperança. Quanto mais investigo os problemas ambientais mais compreendo duas coisas: os homens serão os responsáveis por sua própria extinção (levando consigo algumas outras várias espécies) mas para o planeta, isso não fará a menor diferença. Um milhão de anos atrás o planeta era completamente diferente do que é hoje e daqui a um milhão de anos, será, novamente, completamente diferente.
Para a maior parte das pessoas, o que importa, são pessoas. Elas não estão preocupadas com eventos que acontecem na escala do muito pequeno (eletrônicos e quânticos) nem do muito grande (espaciais). Elas vivem o hoje, o ontem e o amanhã. Vá lá, o ano passado e o ano que vem. Mas falar em separação dos continentes e evolução das espécies é um pouco demais. Para elas não adianta dizer que, cientificamente, não há solução. Para elas, a solução está em acabar com aquela dor.
E se um cientista almeja divulgar a ciência para a sociedade, e que essa sociedade pague pela sua ciência, precisa ver isso. Vamos torcer para que os ministros do supremo, mesmo em meio ao julgamento do mensalão, vejam.
A “Cúpula – da ingenuidade – dos Povos”
Moro no Rio de Janeiro e como não poderia deixar de ser, fui visitar a ‘Cúpula dos Povos’, o evento paralelo da Rio+20 montado no Parque do Flamengo. Em 1992, ainda estudante de biologia, eu também estive lá. Daquela vez, vi Jacques Cousteau falando do problema da superpopulação, show do Ney Matogrosso e um monte de outras coisas legais. Mas dessa vez… foi uma frustração só.
Estava mais para uma feira exotérica de artesanato do que para um evento sério, organizado pelas Organização das Nações Unidas, para discutir o futuro da humanidade em busca de “justiça social e ambiental”. Sim… porque se você acha que ‘Economia solidária’ é vender bijuterias e roupas compradas em Vilar dos Teles ou na Rua Teresa (imagem acima) no Aterro do Flamengo, e que isso contribui para a preservação do ambiente… você está redondamente enganado. Índios de mentirinha (imagem abaixo) cantando “Pra não dizer que não falei das flores” junto com mulheres européias usando a ‘terceira visão’ dos hindus e metalúrgicos da CUT. Diretores de ONGs, as mais estapafúrdias possíveis, discutindo sem a menor propriedade, assuntos como violência urbana, educação, saúde etc.
Abre parênteses: Em uma das palestras que eu assisti, um belga diretor de uma ONG de gestão de conflitos no RJ, criou uma teoria com base em uma discussão que observou de um casal em Amsterdã, de que a violência no Rio era gerada por dois mundos dentro da cidade ‘gritando’ um para o outro para serem ouvidos – e que então uma ONG que trabalhasse a ‘comunicação’ entre esses dois mundos contribuiria para o fim da violência (minha amiga Alba Zaluar, antropóloga especializada nas questões que envolvem a violência no Rio, ficaria de cabelos em pé). Fecha parênteses.
Os sem-saúde pedindo um SUS de qualidade, estatal e gratuito; os sem-escola pedindo educação pública de qualidade e gratuita; os sem-terra pedindo reforma agrária de terras públicas de qualidade e gratuitas… Justiça social custa dinheiro. Justiça ambiental custa dinheiro. O evento no Parque do Flamengo é um grande exemplo da ingenuidade dos povos e mostra bem porque a Rio+20 será, do ponto de vista da obtenção da justiça social e ambiental, um fracasso.
É possível que esse fracasso seja explicado pela própria inexequibilidade da proposta: justiça social dificilmente pode caminha com justiça ambiental por uma questão simples: não há como o ambiental suportar uma população de 7 bilhões de pessoas (e crescendo) com ambos. É termodinamicamente impossível! Mas parece que ninguém que está ali sabe disso.
É como escreveu o meu amigo Carlos Eduardo Lima: “Sou biólogo. Estive observando várias matérias sobre a Rio+20 e (…) Assim como na Eco92, vejo vários assuntos importantíssimos sobre Ecologia sendo debatidos por jornalistas, políticos, empresários, engenheiros, médicos sanitaristas, médicos em geral, estudantes, sociólogos, advogados, diplomatas, economistas e etc. Só não vejo o ÚNICO profissional qualificado prá falar do assunto: o biólogo. Eu não posso prescrever um remédio, projetar uma ponte, defender uma causa e etc, mas todo mundo pode dar pitaco sem entender NADA de Ecologia e falar/fazer besteira a 3 por 2.”
Ecologia não é uma ciência política e nem social. Não é uma questão econômica e nem depende de orientação política ou religiosa. Nem de moda. É uma ciência biológica, passível de observação e experimentação pelo método científico. É um trabalho para biólogo! Vai lá… para agrônomo, para oceanógrafo, para meteorologista, para químico, para físico. Um problema ecológico não tem “ponto de vista”. Não é passível de “interpretação”. Sim, existe complexidade, existe incerteza, existem teorias conflitantes. Mas tudo isso é pra ser discutido por quem entende disso: o Biólogo.
Depois… é que os políticos podem entrar para discutir e determinar se querem ou se não resolver o problema. Sim, porque a solução sempre vai: a) custar dinheiro e b) beneficiar alguns grupos e prejudicar outros. Não é uma tarefa fácil. Mas ignorar as variáveis científicas em prol de dados maquiados somente a torna mais difícil.
A melhor atração da Cúpula dos Povos estava em outro parque, o do Museu da República. Uma instalação mostrando lixo. Nada no estilo artístico Vik Muniz, não. Era lixo mesmo! E fedia! Um corredor montado com parte do lixo que cada pessoa produziu desde a Rio 92 até a Rio+20. Uma média de 7 toneladas!!!
Em 1992 a população da Terra era de 5,5 bilhões de pessoas. Hoje é de 7 bilhões! Se cada pessoa produz de 0,6 a 1kg de lixo por pessoa por dia, faça as contas… Logo, logo não haverá espaço no planeta para tanta gente e tanto lixo.
Esqueça o aquecimento Global, que, cientificamente, não passa de um grande conto de fadas (veja o parênteses abaixo). O problema do mundo é o excesso de humanos.
Abre parênteses: Se você ainda acha que as geleiras estão derretendo, que o nível do mar está subindo e que o planeta está esquentando, assista a excelente entrevista do professor Ricardo Augusto Felicio da USP no programa do Jô Soares em 02/05/2012.
E se ao final não estiver convencido (muita gente se irrita com o tom jocoso dele e por isso ignora a enorme quantidade de fatos científicos que ele passa), procure se informar sobre o fenômeno chamado ‘Mínimo de Maunder’ e que mostra que o Sol brilhou menos durante 40 anos no século XVII em um fenômeno completamente imprevisível. Fecha parênteses.
A universidade é o carrasco da ilusão da sociedade
Eu adoro a jornalista Eliane Brum. Acho até que amo. Não, está mais pra uma fixação. Tudo começou com o artigo dela “Meu filho, você não merece nada!”. Espetacular! Depois li aquele sobre o ‘Criacionismo‘, sobre a usina de “Belo Monte“, e depois um monte de outras coisas. Não bastasse ser inteligente e perspicaz, ela é bonita (mesmo com aquele sotaque de gaúcha que, vamos lá, não combina tão bem com mulheres bonitas). Comecei a segui-la no Twitter e, eventualmente, cheguei até a sua entrevista no programa provocações da TV cultura. Excelente! Suas opiniões sobre a morte e a coluna prestes são fortes e bem embasadas. “Quando eu vejo alguma coisa interessante, eu raspo a minha poupança, pego todo o meu dinheiro e vou lá, porque eu não falo do que eu não vi”. Por isso tudo, fiquei triste, bem triste, quando ao final do programa, perguntada pelo Abujarana sobre a academia, ela respondeu “a universidade está distante da sociedade”. E nem foi só assim, a seco. Foi com um certo desdém. O mesmo desdém com que eu, por exemplo, falo do congresso nacional.
Só que não fiquei não só triste. Fiquei também preocupado: “Se uma jornalista do calibre dela tem essa opinião da universidade, qual será a opinião que o resto das pessoas tem?” Mas mais do que isso, me perguntei: “Será que ela está certa mesmo?“
Falar mal da universidade, principalmente das públicas, é chutar cachorro morto: remuneração ruim, abandono, burocracia, lentidão… Mas ainda assim são ilhas de saber e conhecimento e um porto seguro quando se trata de questões práticas que requerem saber ou tecnologia. Seja na área do ensino, das engenharias, do meio ambiente ou da saúde. Discutir porquê a universidade está longe da sociedade é muito relevante no momento em que os professores das federais param em greve.
A universidade está sim, distante da sociedade. Mas sempre que alguém diz isso, como quando a Eliane Brum disse, parece que a culpa é da universidade. Será que é? A responsabilidade pela distância entre a academia e a sociedade é da universidade? Ou, no mínimo, será que é SÓ da universidade?
Eu sou da opinião de que só a opinião das pessoas conta pouco, ou muito pouco, e, por isso, devemos observar o que as pessoa fazem, não o que elas dizem ou querem. E se eu olho a nossa sociedade, o que eu vejo é que o primeiro eletrodoméstico de uma família é a TV, mesmo que seja uma família muito, muito pobre do sertão do cariri, mesmo antes da geladeira. Vejo qu
e o Brasil é reconhecido no mundo, hoje, por Paulo Coelho e Michel Teló (já foi por Carmem Miranda e Pelé), que temos muito mais horas por semana de programas religiosos na TV (190h) mesmo do que de esportes (50h), notícias ou entretenimento (Ciência tem míseras 8,5h). E que o BBB e o Ratinho são campeões de audiência. Como uma sociedade assim pode se aproximar da universidade (e vice-versa)? O que a universidade tem a oferecer a essa sociedade? Podem me chamar de preconceituoso, mas quando paro para pensar na resposta a essa pergunta, quase me desespero. Chego a conclusão que muito pouco ou quase nada. Tirando o diploma, o documento em si (e não o conhecimento associado a ele), acho que a sociedade não reconhece na universidade nada que possa interessar a ela.
Vejam, não estou dizendo que é verdade ou que eu concor
do com isso (que a universidade não tem nada a contribuir com a sociedade). E vou dar um exemplo prático. O ministério da educação, quando instituiu a Universidade Aberta do Brasil, o fez seguindo um modelo semi-presencial, que incluía a criação de pólos presenciais em parceria com as prefeituras, onde os alunos a distância pudessem usufruir de uma série de serviços como biblioteca, aulas práticas e tutoria. O governo federal financiaria, de diversas maneiras, esses pólos para as prefeituras que submetessem projetos. Mas… nada! As prefeituras simplesmente não submeteram porque… infelizmente… não há pessoas, na maioria das prefeituras dos mais de 5.000 municípios brasileiros, capazes de ler um edital e escrever um projeto adequado a ele. Isso vale também para outras áreas como saneamento básico, segurança pública e meio ambiente. Uma colaboração entra a prefeitura e a universidade mais próxima, qualquer uma, pública ou privada, poderia facilmente preencher essa lacuna e permitir o acesso a esses recursos que trariam benefícios diretos e visíveis a população.
A sociedade consome os produtos da ciência, mas
é avessa a sua filosofia. Por falta de educação, provavelmente. Afinal, temos apena 14% dos nossos jovens entre 18 e 24 anos na universidade (menos que a bolívia!). Aproximadamente o mesmo percentual de outros jovens mais jovens na escola. O que podemos esperar dessa população, a não ser que por algumas gerações a distância continue grande?
O Brasil tem um povo sofrido, explorado, que tem na esperança a única ferramenta para a paz de espírito, para lidar com a incerteza de uma vida em uma das sociedades com pior distribuição de renda e índices de corrupção do mundo. O Brasileiro sabe, sempre soube, aprendeu, a ter fé e usar a fé para combater a incerteza. A universidade usa a ciência para combater a incerteza, reduz a esperança, e mostra que o trabalho e a razão são mais importantes que a oração; que a educação combate a corrupção, mas que para aprender, tem que estudar e tem que trabalhar. É muita coisa. (Principalmente quando nossos políticos usam a estratégia da religião: prometem reco
mpensas enormes e colocam a responsabilidade na fé do cidadão, sem precisarem prestar contas dos resultados). A ciência mostra que as recompensas não podem ser tão grandes, que precisam ser conquistadas com trabalho e precisam, a todo momento, serem postas a prova. A ciência acaba com a esperança de sucesso fácil, mas mostra que o sucesso é mais provável com trabalho.
E é demais. O que eu tenho percebido é que o golpe da ciência na esperança é forte demais, e não sobra nada em pé para que uma sociedade literal e digitalmente excluída construa em cima. O golpe na esperança é fatal e quando vem a ciência em cima, não há mais nenhum terreno para fecundar. Se você não entendeu o que eu quis dizer com isso, pode ser que essa tirinha ajude.
É isso… a ciência é o carrasco da ilusão, que mata junto a esperança. Haja coração!
Adianta greve de professor?
A greve dos professores, que começou há duas semanas, me mobilizou para escrever um post sobre a distância entre a sociedade e a universidade, motivado por uma frase dita pela jornalista Eliane Brum em um programa de televisão. Mas para isso, precisei falar primeiro da greve em si.
Eu sou um cientista. Já disse que isso não é o que eu faço, é o que eu sou, e por isso não consigo evitar a abordagem científica momento algum. Se acredito que o método científico é a melhor maneira para se resolver um problema, como posso aplicá-lo no laboratório mas não aplicá-lo em casa, quando tento entender porque um souflé não funcionou ou porque uma lâmpada queima recorrentemente? Como posso aceitar a fé como fonte de explicação na minha vida pessoal, quando sei, pela experiência, que só as evidências científicas criam um saber consistente, coerente e permanente? Talvez outros possam, mas eu não posso. É por isso que quando meus colegas professores começam a se mobilizar por uma greve, eu não consigo me mobilizar ou aderir. Pela simples razão de nunca uma greve de professores ter dado qualquer resultado em função dos danos causados pela paralisação em si. Por que daria agora?
Avanço nos transportes, nas comunicações, na medicina, no ambiente… Talvez, nunca antes na história da civilização a sociedade tenha sentido tanto o efeito do saber que é produzido na universidade. Mas, sem uma população educada, é também provável que nunca antes a sociedade tenha se sentido tão afastada dessa instituição. Por que isso acontece é o argumento do meu próximo texto. O fato é que o governo primeiro contribui para essa distância ao investir na formação de doutores, mas cortar financiamento para pesquisa. Ao criar programas de treinamento para jovens, mas não fomentar o ensino fundamental e médio que prepare esses jovens para a universidade. Ao promover o aumento de vagas nas universidades sem dar infraestrutura. E depois o próprio governo usa a universidade abandonada como justificativa para não investir mais na universidade.
Os professores e pesquisadores, com todo o amor que tem pelo que faze, tem de matar uma manada de leões por dia para dar conta de ensinar em salas de aula quentes, sujas, mal equipadas uma geração de jovens super conectada e dispersa.
A classe jornalística, ao invés de denunciar isso, faz pouco, como no ‘causo’ que vou relembrar agora: No final de 2010, ia para a universidade ouvindo a CBN no Rádio quando o Carlos Alberto Sardenberg comentou que o prestígio do Mercadante estava baixo porque havia sido indicado para o MCT&I, na opinião dele, “um ministério menor”. Ainda que o MCT&I não tenha importância política (que advém da sua inexpressão econômica, que advém do Brasil apostar que o seu crescimento depende apenas da replicação de indústrias antigas – sujas e insustentáveis – com modelos e tecnologias importadas), é inadmissível que um jornalista desse porte faça esse comentário sem que seja acompanhada de uma crítica feroz e a exaltação da sua importância estratégica
É um triste exemplo do quanto os diferentes setores da sociedade pouco se importam com o que acontece na universidade. Como podemos esperar algum efeito de uma greve?
A motivação da greve é mais do que justa. Os professores universitários são os profissionais mais mal remunerados do serviço público federal, trabalham em péssimas condições em universidades sucateadas por anos de abandono, e ainda é tratado como palhaçada pelo governo na proposta de aumento salarial. Na prática, o salário de um professor adjunto da UFRJ, com 10 anos de casa, doutorado e pós-doutorado, com não sei quantos artigos publicados e alunos de graduação e pós-graduação, foi de R$13,00.
Além do papel na formação de cabeças pensantes e trabalhadores qualificados na universidade, o Brasil só pode contar com os professores universitários para movimentarem um sistema de inovação no país. É que sem uma indústria de transformação, aquelas pequenas empresas capazes de transformar o conhecimento produzido na academia em protótipos e produtos para a indústria (e sem uma política econômica e social que possibilite o desenvolvimento dessas empresas – o que inclui a falta de jovens com ensino fundamental, médio e superior de qualidade), essas duas tarefas caem nas mãos dos professores universitários. E não sou eu que estou dizendo isso não: é o próprio governo. Ou porque vocês acham que o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) virou MCT&I (de Inovação)? O Brasil está fazendo de bobo a categoria mais importante no seu plano de se tornar um país com uma posição mundial de liderança no século XXI.
Mas será que a greve é a forma de reinvidicar melhores condições de trabalho?
Hoje em dia, qualquer manifestação na INTERNET vai mobilizar muito mais a opinião pública do que uma passeata de 50 pessoas. Ou mesmo de 500, ou mesmo de 5000 pessoas. Vejam só o ‘Veta Dilma’. Escrever 1, 2, 10, 50 blogs mostrando dia após dia, de forma consistente, de forma crítica, de forma direta os problemas e os responsáveis pelos problemas na universidade, denunciem no jornal, no rádio, na TV, sensibilizem um ator global para fazer um pronunciamento, façam um vídeo viral na internet… era isso que as associações de trabalhadores e sindicatos deveriam estar fazendo no século XXI, mas não… E o movimento grevista contagia até mesmo os alunos, que resolveram entrar em greve também. Greve de aluno é uma incoerência, é uma ingenuidade. É claro que os alunos tem o direito de, e devem, se manifestar contra as péssimas condições da universidade, mas chamar de ‘greve’ (é um direito trabalhista e aluno não é trabalhador) e se recusar a assistir aula como forma de protesto é uma estratégia muito pouco eficiente. É antiga, sensibiliza negativamente a opinião pública e prejudica, em última instância, e principalmente, os próprios manifestantes: os alunos, já tão prejudicados por tantas outras coisas.
Talvez a única maneira dessa greve funcionar fosse justamente o contrário: Ou até o contrário: lutar para ter aulas seria a melhor forma de transformar a greve dos professores em algo que viraria notícia. Se os principais prejudicados pela greve dos professores fazem greve também…. ninguém vai se incomodar com mais nada.
Ou… como tantas vezes… talvez estejam todos certos e eu esteja errado. Se os professores universitários que estão sendo solicitados a fornecerem a inovação que o Brasil tanto precisa, não conseguem sequer bolar uma forma nova de protesto que não seja uma greve, talvez não mereçam reconhecimento mesmo.
Band-aid pra estancar hemorragia
A relação entre jornalistas e cientistas é complexa. Ponha um junto com o outro e, quase obrigatoriamente, um dos dois ficará insatisfeito. Foi o que aconteceu ontem com a reportagem sobre a burocracia na importação de material científico que foi ao ar no Repórter Brasil, telejornal da TV Brasil.
Quando o editor me ligou no dia anterior para saber se eu poderia falar ao jornal sobre o programa do CNPq expresso, eu disse que não. Apesar de ter me envolvido muito com a questão da importação de material científico em 2007-2009, eu acabei me distanciando. Foi quando em 2009 o próprio presidente Lula admitiu o tamanho e a importância do problema, intimou as agências responsáveis a resolverem a questão em 45 dias e ainda assim nada de produtivo foi feito. Eu descobri que esse problema era muito maior do que eu e que sem um respaldo de uma entidade superior (como o que a FeSBE prometeu mas não deu), nada poderia ser feito. Desde então tinha abandonado um pouco essa causa.
A burocracia da importação não tem uma origem unica: ela é resultado da burocracia da ANVISA, da Receita Federal, do MAPA, do MCT, do CNPq… E por isso, iniciativas isoladas não tem como resolver o problema. Só que uma iniciativa conjunta, requereria um gerente com influencia e força política, o que nenhum cientista tem. Pior, que a ciência não tem!
Me lembro no início do governo Dilma, quando os ministérios estavam sendo formados, e o Senador Aloysio Mercadante foi indicado, para a surpresa de todos, para a pasta da ciência e Tecnologia. O jornalista Carlos Sardenberg disse em seu programa na CBN que a indicação demonstrava o Mercadante estava em baixa, porque aquele era um ministério ‘menor’.
Abre parênteses: Que comentário mais infeliz! Ainda que seja verdade, um jornalista que se preze deveria ter vergonha de dizer isso em rádio nacional. Pobre do país que considera a ciência e tecnologia ‘menor’ e pobre do país cujo jornalista propaga essa desimportância sem criticar. Sardenberg perdeu o meu respeito e a minha audiência naquele dia. Fecha parênteses.
Enquanto a C&T (e agora I de Inovação) não for vista pelos nossos governantes e políticos como a principal arma, que é, para o desenvolvimento do Brasil, então nunca teremos um ministério rico e politicamente forte, que seja capaz de não de empurrar… mas de catapultar a ciência no Brasil. E a ciência no Brasil está pronta para isso, para ser catapultada! Mas… insistem apenas em dar um empurrãozinho. E sempre mais do mesmo. Sim, porque é isso que é o que é o CNPq express: Mais do mesmo. Um band-aid para estancar uma hemorragia. Uma peneira para tapar o sol.
Os problemas para se fazer ciência no Brasil são muitos e muito grandes, e não será como band-aid ou peneira que vamos resolver. As medidas que ajudam são aquelas com benefícios consistentes e de longo prazo. Quando o Rio resolveu imitar São Paulo e cumprir a determinação da constituição estadual de destinar 2% da sua receita a C&T, a FAPERJ cresceu, se fortaleceu e fortaleceu a comunidade científica fluminense – que não se enganem, será muito solicitada para resolver os desafios, por exemplo, da exploração do pré-sal.
Pois bem, mas todo esse relato começou por causa do telefonema do editor pedindo que eu desse um depoimento sobre os problemas da importação de material para pesquisa no Brasil, o que eu fiz durante maia hora com ele no telefone e por outra uma hora com a repórter no meu laboratório. Mas a reportagem mostrou apenas a necessidade de se trabalhar com material importado no laboratório e nem sequer discutiu as chances de um programa como o CNPq expresso funcionar.
Aprendi muito sobre o lado dos jornalistas quando ouvi Bernardo Esteves e Alessandra Carvalho no II EWCliPo em 2009. Acompanho os blogs de jornalistas que falam de ciência como o Reinaldo e a Isis Nobile, mas não tem jeito… na hora que você tem que falar com um jornalista… a chance do resultado agradar é muito pequena. Minha experiência mais frustrante foi essa daqui, quando a jornalista da FAPERJ me ouviu por duas horas e depois… disse na reportagem o que eu não disse na entrevista. Tive que ficar me retratando para os meus pares por um tempão até que, eventualmente, a reportagem foi esquecida. E poderia ter sido pior, porque eu poderia ter sido até processado pelo que ela disse que eu disse: que frutos do mar dos restaurantes do Rio estavam contaminados por metais pesados.
Talvez não haja solução e teremos simplesmente aprender a lidar com a frustração. Ou quem sabe no dia em que a Eliane Brum me entrevistar tudo fique direitinho. Porque ela é o máximo!
Ostras felizes não fazem inovação
O título do livro de Rubem Alves ‘Ostra feliz não faz pérolas‘ chama a atenção de qualquer um que, como nós do Laboratório de Biologia Molecular Ambiental, trabalha ou aprecia esses simpáticos bivalves. Mas o significado é muito mais profundo, como vocês podem ver na resenha feita pelo próprio autor:
“A ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para si mesma: ‘preciso envolver essa areia pontuda que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire as pontas…’ Ostras felizes não fazem pérolas… Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída… Por vezes a dor parece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade. Este livro está cheio de areias pontudas que me machucaram. Para me livrar da dor, escrevi.”
Lembrei disso esses dias. Estava na Noruega para dois dias de reunião de um projeto que envolve, ou deveria envolver, inovação. O Brasil tem agora um monte de petróleo e um monte de dinheiro para aplicar em ciência e tecnologia por causa do petróleo. Esse dinheiro para pesquisa será usado, principalmente, para explorar mais, e melhor, todo esse óleo, mas para isso precisamos de mais engenheiros, geólogos e um montão de outros profissionais, além de empresas que forneçam maquinas, equipamentos e serviços. Assim, uma boa parte desse dinheiro será usada em educação e formação de pessoal e na criação do que se convencionou chamar ‘conteúdo local’, empresas nacionais capazes de fornecer tudo que a indústria petrolífera necessitará. E não é pouco dinheiro não: estima-se que a Petrobras sozinha investirá em média 1,8 bilhões de reais por ano até 2020 (da acordo com a ANP). Então, todo mundo, literalmente, que trabalha com a indústria do petróleo, inclusive, e principalmente, os cientistas, está de olho no Brasil. E os noruegueses também.
“Descobrir petróleo pode ser a salvação ou a ruína de um país” me disse o cônsul norueguês outro dia. Para a Noruega, o petróleo que eles descobriram no ártico nos anos 70 foi a salvação. E desde que as Nações Unidas criaram o ranking de países com melhor qualidade de vida baseado no índice de desenvolvimento humano (IDH), há 20 anos, a Noruega está em primeiro lugar.
Abre (um curto) parênteses: Esse índice tem de ser furado… nenhum país com aquele frio todo pode ter a melhor qualidade de vida do mundo! Fecha (um curto) parênteses.
Toda essa qualidade de vida deixou esses noruegueses assim… bem de vida. São ostras felizes. São super educados, inteligentes, informados. Viajam, falam outros idiomas, tem respeito pelos gêneros e culturas. Mas falta a eles o incomodo da dificuldade. Aquele que faz com que você queira planejar um futuro melhor. Aquele que faz você economizar um pouco a cada mês, mesmo que tenha que deixar de comer fora, pra um dia comprar a casa própria e sair do aluguel. Continuando a metáfora, eles não tem que sair do aluguel, então… pra que se furtar a comer fora?
Os noruegueses tem certeza que as soluções que eles desenvolveram para a exploração de petróleo na Noruega, e que levaram o país deles a melhor qualidade de vida do mundo, serão úteis para a exploração de petróleo aqui. Pode até ser, mas historicamente, a experiência brasileira, é que não são. E pela primeira vez na história, o Brasil está disposto a ‘fazer pesquisa’ para desenvolver suas próprias soluções, ao invés de comprar as importadas que vem prontas mas não solucionam os nossos problemas (como as usinas de Angra 1, 2 e 3).
É difícil para os noruegueses entender os problemas e o povo brasileiro. Entender essa coisa de passar fome e brincar carnaval, de virar a panela vazia para fazer batucada. É difícil para mim também, devo confessar. Mas é assim que é e eu sou feliz de que seja assim. E se isso se reflete na nossa forma de resolver problemas, é importante que quem esteja interessado em participar da solução desses problemas, entenda, ou simplemente aceite, isso: chegou a hora do Brasil produzir e exporta soluções! O que os noruegueses, e todos os outros povos interessados no dinheiro para pesquisa do petróleo brasileiro tem que pensar é “o que nós podemos desenvolver aqui no Brasil e que poderemos usar de volta em nossos países para melhorar – ainda mais, que seja – a nossa qualidade de vida?”. E com R$ 2 bilhões por ano… eu aposto que tem muita coisa que pode ser feita.
Mas para isso, tem que inovar. E me parece que é bem mais difícil inovar se você é uma ostra feliz.
Antes tarde do que nunca
“O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) vai acrescentar, na plataforma eletrônica Lattes, que traz currículos e atividades de 1,8 milhão de pesquisadores de todo o País, duas novas abas para divulgação pública. Em uma delas, os cientistas brasileiros informarão sobre a inovação de seus projetos e pesquisas; e na outra, deverão descrever iniciativas de divulgação e de educação científica.”
A matéria do jornal da ciência anunciando que finalmente o CNPq, o conselho nacional de ciência e tecnologia, vai reconhecer divulgação científica como produção científica é um alento para a sociedade, para os cientistas e para os blogueiros. A sociedade porque financia a ciência com os seus impostos mas não é capaz de entender os artigos científicos extremamente técnicos que órgãos financiadores exigem, e os cientistas porque vão poder divulgar seu trabalho e se aproximar do seu público sem que isso signifique ‘desperdício’ do tempo que deveria ser investido em artigos técnicos. Finalmente, para os blogueiros, que vêm fazendo essa divulgação sem nenhum apoio dos órgãos de fomento ou dos seus próprios pares. Tomara que os alunos de pós-graduação percebam a importância de divulgar seus trabalhos para a sociedade e, ao escrever, praticar a sua escrita.


















