A verdade sobre Homens e Mulheres
Uma das coisas que aprendemos em biologia é que as pessoas são diferentes, mas são iguais.
Todos dividimos características, físicas e psicológicas, que nos permitem nos identificarmos como humanos. Mas também, todos possuímos características, físicas e psicológicas, que nos fazem diferente de qualquer outro humano. Nos fazem únicos. Parece um contra-senso, um paradoxo, mas não é. Essas características são consequência dos nossos genes e de como eles se funcionam (se expressam) no ambiente em que vivemos. E um ou outro evento aleatório (ao acaso) aqui e ali durante o percurso. Todos temos, mais ou menos, as mesmas coisas, aquelas que nos fazem iguais, mas em graus e quantidades diversas, o que nos tornam diferentes.
Abre um longo parênteses. Bom, mas quando eu digo que nós humanos somos todos iguais ao ponto de os reconhecermos como humanos, não estou sendo totalmente correto. Existem basicamente dois tipos de humanos, com diferenças suficientes para que possamos afirmar, do ponto de vista genético, fisiológico, molecular, bioquímico, que são diferentes: os homens e as mulheres.
“Ah… Mas isso é obvio!” Você pode dizer. E é. Mas as diferenças, biológicas, entre homens e mulheres vão mulher vão muito, muito além do obvio. temperatura do corpo, número de receptores de pressão na superfície da pele, concentrações de hormônios, receptores na membrana celular, neurotransmissores.
“Ah… Mas isso não me interessa” você pode dizer. E esse é o meu ponto nesse livro: deveria te importar, porque é importante. Essa é a razão pela qual homens e mulheres discutem, porque a comunicação é difícil, pela qual políticas de igualdade entre os sexos fracassam, porque meninos ou meninas fracassam na escola, porque você gosta de quem não gosta de você e porque você não gosta de quem gosta de você. Também é a razão pela qual seu coração bate mais rápido quando você encontra o seu amor, pela qual sua pele se arrepia, pela qual gostamos de beijar na boca (e em outros lugares), pela qual gostamos de dormir agarradinho, pela qual os homens ejaculam precocemente e as mulheres tem surtos de desejo sexual. Fecha o longo parênteses.
Ainda que as semelhanças que nos fazem iguais e as dessemelhanças que nos fazem diferentes não constituírem um paradoxo, elas geram um poderoso conflito: queremos fazer parte de um grupo, dividir uma identidade, mas queremos ser únicos, diferentes de todo mundo.
Do ‘não-paradoxo’ das semelhanças e dessemelhanças nascem um novo conflito, na minha opinião ainda mais poderoso (ouso dizer, o mais poderoso de todos): a nossa necessidade de segurança e de mudanças. Não são só as mulheres que querem segurança. Todos os seres humanos querem. Também não são só as mulheres que querem ‘novidades’ da moda. Todos os seres humanos são exploradores por natureza. Queremos segurança porque um mundo onde tudo muda o tempo todo é muito desgastante. A constância e a estabilidade são importantes para pouparmos energia. Poupar energia, por sua vez, é uma coisa importante também, porque a quantidade de energia disponível na natureza é limitada. E por isso a evolução nos tornou amantes da tranqüilidade e da segurança. Mas vivemos em um mundo onde os recursos também são escassos e devemos competir por eles com outros organismos, da nossa e de outras espécies. Se ficarmos acomodados ou parados no mesmo lugar, nossos competidores acabam por identificar nossos pontos fracos e Zaz… ou somos comidos, ou não conseguimos mais comer nada (e nem ninguém). Precisamos explorar novos territórios, novas fontes de alimento, precisamos criar novas estratégias, precisamos inovar.
Uma dessas inovações, criou mais um paradoxo, que na minha opinião é o que vivemos mais intensamente no dia-a-dia. A invenção foi a colaboração, que cria um paradoxo com a nossa necessidade vital de competir pelos recursos escassos da natureza. A verdade verdadeira é que não inventamos a colaboração: os lobos colaboram, as formigas colaboraram, os leões colaboram, os cupins colaboram. Mas nós elevamos a colaboração a um patamar muito superior ao de qualquer outra espécie e nos tornamos muito bem sucedidos por causa disso.
Como apareceu a colaboração? Nós conseguimos superioridade com relação aos outros macacos porque começamos a consumir muita carne. Nada de passar o dia procurando frutinhas e besourinhos. Depois que provamos o sangue e toda aquela proteína, não quisemos mais nada. Mas para comer carne, tínhamos que competir com os tigres e leões da savana africana pelas Zebras e Antilopes (aliás, carne de Antilope é uma delícia), animais que tinham sido preparados pela seleção natural por milhões e milhões de anos com armas (garras e presas) poderosíssimas para matar. Nós não tínhamos armas naturais, mas tínhamos um cérebro. E como diz a piada, ‘como um desses, podíamos obter um monte daqueles’. Colocamos o cérebro pra funcionar, inventamos lanças e machadinhos e aprendemos a colaborar para caçar. (Veja vai encarar?)
A colaboração parece uma coisa muito, muito boa. Intuitivamente tão boa, que se chegasse um cientista dizendo que ela não é boa, talvez vocês achassem ele maluco. O fato é que colaboração é insustentável. Em um planeta finito, não há recursos para serem divididos por todos, principalmente se continuarmos dobrando o número de ‘todos’ a cada 10 anos. A única coisa que é realmente sustentável é o egoísmo. (pausa para vocês tacarem pedras no cientista). Justamente porque ele não olha para o ‘grupo’ que pode crescer descontroladamente. Ele, o egoísmo, age para o indivíduo. A colaboração, vejam o paradoxo, só funciona em pról dos interesses egoistas dos organismos.
Para entender esse argumento sem querer tacar pedras no cientista, é preciso ver o mundo como a ciência vê. A vida apareceu no planeta há cerca de 4 bilhões de anos e os organismos, todos os organismos, são frutos de umas moléculas, o DNA (pra simplificar), que ser organizaram de acordo com fenômenos muito simples regidos pelas leis da física e que tinha um simples propósito: continuar existindo. Esse propósito, egoísta, não precisa de uma explicação moral. Ele obedece as leis da física. E essas leis, até onde sabemos, e nós sabemos bastante coisas, funcionam em todos os lugares do universo e funcionaram em todos os tempos e continuaram funcionando muito depois de termos nos extinguido.
“A vida como ela é”, como o cientista vê que ela é, não é uma opinião: é uma decorrência direta das leis da física, que são as únicas verdades inquestionáveis do universo. Especialmente de duas delas, denominadas, bobamente, de primeira e segunda leis da termodinâmica. Uma diz que nada se cria e nada se perde, tudo se transforma. Parece bom, não é?! Não morremos… nos tornamos anjinhos ou demônios. Mas não é bem assim, porque a segunda lei diz que nessa transformação, as coisas perdem qualidade, que em termos físicos significa que elas ‘viram calor’ até que cheguem ao ponto de não existir mais nada, só calor, o que é o fim do universo. Infelizmente, calor só serve para esquentar coisas e não serve pra mais nada.
Ei… vocês ficaram deprimidos? É justamente por isso que as pessoas não querem ouvir os cientistas? Mas veja, ainda que as razões sejam estapafurdias leis da física e as motivações egocêntricas não sejam exatamente nobres, elas permitem que façamos coisas maravilhosas como a nona sinfonia de Beethoven, Hamlet de Shakespeare, a teoria das supercordas ou o gol do Roberto Dinamite no Botafogo em 1976. Por sorte ou circunstâncias, nosso cérebro não foi feito para entender o Bóson de Higgs, a matéria escura ou o nosso próprio cérebro. Fomos feitos para buscar alimento, buscar abrigo, reproduzir, fugir ou lutar, mas para fazer isso com maior eficiência aprendemos a rir e a chorar, as nos emocionarmos com o belo, nos irritarmos com o dolorido, nos solidarizarmos com o sofrimento alheio, nos deliciarmos com boa comida e bom vinho.
E somos cheios de paradoxos e conflitos. No final das contas, parecemos todos doidos, Parece que queremos uma coisa agora e outra depois. Uma coisa em uma hora e outra em outra. Uma coisa hoje e outra amanhã. E ao contrario do que pode nos sugerir a nossa intuição, essas mudanças de humor e essa eterna insatisfação não são coisa ‘da nossa cabeça’. quer dizer, até são, porque estão no nosso cérebro, mas não dependem da nossa vontade, da nossa consciência. Da moral, ética ou dos bons costumes. Dependem de genes, instintos e hormônios. E por isso que um biólogo pode vir aqui falar pra vocês sobre isso e pode até escrever um livro sobre isso. É por isso que vocês devem ler “A Verdade Sobre Cães e Gatos”. Agora a venda no Facebook e na Amazon.br. Um ótimo presente de Natal.
Fantasia e Concretude
Essa semana voltei aos meus tempos de adolescente e dei uma de tiete, igual aqueles malucos que vão pra fila da Madonna, 3 dias antes do show, pra pegar o primeiro lugar na fila. O show era a palestra do sociólogo italiano Domenico de Masi, em Curitiba.
Quem me apresentou Domenico foi meu amigo Milton Moraes e depois que eu li ‘A emoção e a regra’, minha vida não foi mais a mesma. Comecei a me interessar muitíssimo pelas razões que tornam um grupo criativo e o interesse apenas aumentou com o tempo. Hoje eu já li quase tudo que Domenico de Masi publicou e como eu escrevi aqui, ainda estou no meio de Fantasia e Conretude, um calhamaço de 1000 páginas sobre a criatividade.
Apesar de Domenico vir com regularidade ao Brasil, assistí-lo não é fácil. Como um dos homens que previu a falência do sistema de trabalho industrial no mundo pós-industrial, hoje ele é requisitadíssimo por grandes empresas para falar para executivos de alto nível sobre como eles devem gerir seus recursos humanos. Assistir uma palestra do Domenico de Masi pode custar R$1.500,00!
Mesmo assim, de vez em quando eu entro no seu site (www.domenicodemasi.it) pra dar uma olhada na agenda dele. Quando fiz isso no sábado passado, vi que ele estava no Brasil, mais especificamente no Paraná, e que falaria em Curitiba na 4a e 5a feira. Fiquei agitadíssimo, como fiquei para a palestra do Richard Dawkins anos atrás, como fico toda vez que a Madonna vem ao Brasil. Sem pensar muito, cancelei minhas aulas, comprei uma passagem e fui pra Curitiba, determinado a dar um jeito de assistir meu ídolo. Aos 42 minutos do segundo tempo, consegui a confirmação que poderia assistir a palestra exclusiva para professores da PUC – Paraná e gestores da Volvo do Brasil que ele daria na própria universidade.
No auditório cheio, resolvi dar um gostinho pra quem não estava lá e minha primeira transmissão ao vivo pelo twitter. Sei que pelo menos @alesscar e @srehen seguiram
Ao contrário do Richard Dawkins, Domenico é uma simpatia, conquistou a platéia, deu uma palestra interessantíssima e no final foi rodeado por uma orda de professores (principalmente professoras) querendo fotos e autógrafos. Eu fiquei com vergonha, achando que era mico, mas fui lá apertar a mão dele e convidá-lo para participar da próxima edição do PRIMO’s next, a escola internacional de pós-graduação que organizamos todos os anos.
Pra quem ainda não acompanha o @vcqebiologo ou não conseguiu seguir a transmissão #domenicodemasipucpr, eu resolvi compilar os twitts, algumas pérolas, aqui no VQEB. Espero que vocês aproveitem.
- Sou NERD mesmo… Parece que vou ver a Madonna, mas é o Domenico de Masi
- Será que ele vai falar alguma coisa que não esteja nas 1000 páginas de ‘Fantazia e Concretezza’?
- Quantas vezes as autoridades vão repetir o título antes do início da palestra?
- Criatividade é começar! Não tentem produzir o processo completo. Ajustes são feitos no caminho. (Jaime Lerner)
- De onde viemos, p/ onde vamos e o que temos p/ o Jantar? W Allen Ñ adianta pensar gde problemas se ñ resolvemos os pq
- A luta entre Tesis e Metis. A luta entre Corbusie e Niemyer. A luta entre a reta e a curva.
- Qdo Marx escreveu ‘o capital’ 94% dos trabalhadores de Manchester trabalhavam com as mãos
- A principal característica da sociedade industrial é o colonialismo: quem produz coloniza quem consume
- 5 fatores de inovação: globalização, difusão da escolaridade, perdi os outros
- Mesmo quem nasceu em uma sociedade industrial vive hoje já em uma sociedade pós-industrial
- Hoje apenas 1/3 dos trabalhadores usa as mãos. 1/3 trabalho intelectual repetitivo e 1/3 trabalho intelectual criativo
- Hoje a palavra ‘trabalho’ se aplica a diferentes atividades. Mas tratamos todos os trabalhadores do mesmo jeito
- ‘como explicar a minha mulher que qdo olho pela janela estou trabalhando’?
- Gestores de recursos humanos das empresas não evoluíram da sociedade industrial para a pós industrial
- as pessoas estão sempre infelizes n trabalho
- Nos países latinos apenas os homens fazem carreira. As convenções parecem o gay pride
- vale ainda o princípio do iluminismo onde o que vale é a racionalidade. O que é emotivo é ruim e… Feminino
- o homem que tanto se dedica ao trabalho… Morre mais cedo!
- Marília Zaluar e Silvana Allodi iam adorar isso
- assim como neurônios não crescem: estabelecem novas conexões, como serão as conexões entre os 7bi de cérebros em 2020?
- não se é velho enquanto não se perde a vontade de seduzir e de ser seduzido. O que nao acontece aos 60 anos
- a cultura enriquece as coisas de significado. Quando sei que o pêssego veio da China, Japão e Pérsia, ele parece + doce
- no mundo, aprendemos a produzir cada vez mais com cada vez menos trabalho. Isso é difícil de explicar no Brasil
- difícil explicar no Brasil: quanto mais riqueza em um pais: menos trabalho
- o aumento da tecnologia tira o trabalho. Para resolver o problema, temos que diminuir as horas de trabalho
- em 2020 a tecnologia tornará o adultério impossível!
- gdes empresas farmacêuticas estão investindo em drogas ante-ciúmes!!!
- Enquanto a sociedade industrial pensava em organizar o trabalho, agora temos que organizar o tempo livre
- Berlusconi, por exemplo, só tinha ‘problemas de tempo livre’
- o carnaval do Rio é um grande exemplo dessa ‘organização’
- Produção contemporânea de riqueza, saber e alegria: isso é o ócio criativo – Não a preguiça
- em 2020 a sociedade será andrógina. Mulheres cada vez mais masculinas. Homens mais masculinos
- a sociedade pós-industrial depende fortemente da ética e respeito, pq depende de serviços, que dependem de confiança
- os ‘analógicos’ principalmente os anciões tem medo de tudo que é novo: computadores, redes, gays, tudo que é novo
- Eraclito: é no repouso que as coisa se acomodam. É importante incorporar a inovação com ‘leveza’
- se dependesse de mim seria sempre imaturo no relacionado as idéias -Rob Freire. Estar sempre abertos a novas idéias
- não se pode pedir aos homens, ou a quem não esta no poder, de deixar o poder
- fazem carreira as mulheres que tem mentalidade andrógina. O desafio das mulheres e mudar a organização das empresas
- as empresas são lugares de sofrimento. A mulher tem que mudar a organização e até lá é melhor ter homens no poder
- o poder é tomado com ‘graça’ ou com a revolução
- os bancos nasceram na Itália, no séc XII, junto ao purgatório, para gerir os recursos do ‘indulto’ pago a igreja
- o paraíso é um paradoxo: todos querem ir pra lá, mas o mais tarde possível!
- “não digo a vocês como é o paraíso de Maomé, porque senão todos se converterão ao islamismo”
- em nenhum ‘paraíso’ se trabalha!
- O futuro é dos humanistas. Bastam poucos engenheiros pra planejar e poucos operários para produzir, mas…
- … Precisamos de milhares de humanistas para colocar conteúdo lá dentro. O outros milhões para usa-lo.
- escola de música de Antônio Abreu na Venezuela. Platão já dizia que o mais importante a ensinar, é a música
- Bolschoi Brasil em Joinville, escola em foz do iguaçu, músicos do sertão brasileiro. Todos exemplos do futuro da escola
- governo Berlusconi foi a primeira ditadura mediática do mundo: a violência nãoo é física. A tortura é intelectual
- na ditadura mediática, o governo faz o que o povo quer, que faz o que a TV sugere, que sugere o que o governo quer
- a genialidade é feita de grande fantasia e grande concretude. Hoje temos muitos com excesso de um ou outro. Ñ de ambos
- a bossa nova no Brasil é um grande exemplo de criatividade pós-industrial
- em foz do Iguaçu, a natureza das cataratas competem com o humanismo da hidrelétrica de Itaipu. Eu já tinha dito!
- na universidade há sempre a luta entre a inteligência e a imbecilidade. Ambas são infinitas! Ainda que com ‘violência’
- o maior inimigo do criativo é o burocrata. Os burocratas são sempre seguros pq pensam ao passado
- os burocratas são sempre amigos de Burocratas. Deus foi criativo! (como deus nao existe…)
- a única arma contra os burocratas é a ironia: a arma dos gênios e dos criativos
Pra quem ficou com gosto de ‘quero mais’, se tudo der certo, teremos ele novamente no Brasil em Outubro, dessa vez patrocinado pelo VQEB.
Quem foi que disse?
Fiquei tão impressionado com a velocidade que meus leitores esclareceram a questão da autoria da frase “Me perdoe está longa carta, é que não tive tempo para escrever uma curta” (veja aqui) que e resolvi propor um no enigma: A Obesidade Mental!
O texto a seguir é um trecho do livro “Obesidade Metal” de Andrew Oitke:
“O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades: Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy. Todos dizem que a Capela Sistina tem teto, mas ninguém suspeita para que é que ela serve. Todos acham que Saddam é mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam porquê. Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto.”
O texto chegou até mim em um daqueles e-mails repassado por 587 pessoas. Mas a mensagem era importantíssima e eu comecei a usar a citação em aulas e palestras. Como eu não gosto de citar livros que eu não li (ainda que eu cite Homero sem ter lido a Ilíada e a Odisséia) achei por bem comprar o livro e lê-lo. Certamente haveria mais coisa interessante. Entrei no Submarino e… nada. Saráiva, FNAC, Cultura… nada. Recorri então a Amazon e… nada. Título em Português, título em espalnho, título em inglês… nada. Busca pelo nome do autor… nada também. Comecei a desconfiar que havia alguma coisa de errado. Se você digitar o título do livro e o nome do autor, aparecem muitas, muitas páginas, mas todas com o mesmo trecho do livro (uma variação mais extensa do excerto acima). Mesmo que em outro idioma, o trecho é o mesmo.
Entrei no site de Harvard, de onde teoricamente o autor é afiliado e… nada.
Finalmente conclui: o livro não existe e o autor não existe.
Alguns sites já comentam que o livro não existe, mas ninguém consegue identificar a fonte da história. Tem algum nome pra esse tipo de conto do vigário? Uma pena, eu gostaria de ouvir o que esse cara tem a dizer.
Afundados em pilhas de artigos – PhD Movie
O título é a tradução livre do título do filme Piled Higher and Deeper (PhD movie), dos mesmos produtores das famosas(!) tirinhas sobre a vida dos alunos de pós-graduação.
Se você nunca leu, não pode perder. Se você já leu, deve ter ficado, como eu (que não tem tanto tempo assim era aluno de pós-graduação também) curiosíssimo sobre o PhD filme.
Eu assisti o trailer no cinema e quando resolvi procurar onde o filme passaria, qual não foi a minha surpresa ao descobrir que ele NÃO PASSARIA. Não nos cinemas. Alguém, em alguma universidade, deveria organizar uma projeção do filme. Até agora a única no Brasil (de acordo com o site deles) tinha sido na UNICAMP em Novembro. Bom… como eu disse, eu queria ver o filme, então resolvi organizar uma sessão.
Achei que isso poderia ser um processo lento e doloroso. Mesmo assim, resolvi escrever para o pessoal do site, que prontamente me responderam. Também consegui com a secretaria da pós-graduação da Biofísica a reserva do Auditório Rodolpho Paulo Rocco, o Quinhentão, pra fazer a exibição. O preço foi salgado, mas decidi fazer uma boa ação de final de ano e dar a exibição de presente para todos os alunos de PG da UFRJ. Na verdade, para todos que couberem dentro do auditório. Talvez para homenagear minhas lembranças dos meus bons tempos de bolsista. Talvez porque o mundo precise que as coisas legais da ciência sejam mostradas pra todo mundo e divulgadas ao máximo. Talvez porque quisesse eu escrever, produzir, dirigir e estrelar um filme desses, mas como não dá, pelo menos eu posso exibir!
O número de assentos é limitado, por isso, se você quiser assistir, se inscreva na página do evento no Facebook. Será dada preferência para os alunos de PG da UFRJ e se for necessário haverá distribuição de senhas antes do expetáculo (com sotaque carioca).
Divirtam-se!
A verdade sobre cães e gatos. E sobre homens e mulheres também.
O livro mais esperado do ano… vai ficar para o ano que vem.
Acho que vocês não tem idéia de como é difícil publicar um livro. Talvez seja como tudo na vida. Uma vez um professor de música me disse: “tocar violão um pouco é fácil. Tocar violão bem é muito, muito difícil”.
Tendo escrito teses e publicado alguns artigos em revistas científicas, eu já sabia que publicar poderia ser, para o autor, tão difícil quanto produzir a informação. Então eu sabia que não seria fácil, mas não imaginei que seria tão difícil quanto escrever o livro.
Os editores, acabei descobrindo, são como os investidores de risco. No Brasil não existe um investidor de risco sequer que tope correr risco algum. Só querem investir em projetos com lucro certo. A mesma coisa são os editores. Não querem editar o livro, só querem fazer a diagramação e ficar com 90% do preço de capa. Conversei com uma dezena deles e é uma vergonha.
Abre parênteses: É verdade que vergonha mesmo são as grandes livrarias, que ficam com 55% dos noventa. E nós… seduzidos pelo brownie e o café – que custam o dobro de qualquer outro lugar – acabamos para que eles nos vendam o livro, mais do que pagamos pelo livro! Mercado-negro… isso que elas deveriam ser chamar! Fecha parênteses.
Mas nem tudo são espinhos. Tive que correr atrás das ilustrações eu mesmo e com uma super dica da Ana Paula Abreu-Fialho cheguei no grande José Carlos Garcia da Pixelworks. Aqui vocês vêem algumas ilustrações de cordel que ele fez para o livro. E olha que essas não são as definitivas!
E com um pouco de sorte, porque há de se contar com a sorte também, eu cheguei até a Ana Maria Santeiro que será minha agente literária.
Me digam vocês, se não é muito chique ter um agente literário?! Porque eu, como diria Preta Gil: – “Acho chique!” E demais.
Mas o dinheiro não vai dar pra ter um assessor de imprensa. Então, contarei com vocês, meus caros amigos, leitores, amigos leitores e leitores amigos, para fazer a divulgação. Quero aproveitar Janeiro e Fevereiro para fazer muitas noites de cerveja e autógrafos. Com ou sem discurso. E se vocês acham que conseguem juntar mais de 20 amigos em torno de uma mesa de bar para ver um biólogo falar, me avisem que eu vou até a cidade fazer um lançamento. Tem que ser bar, porque as livrarias vão querer ficar com 50% do preço de capa dando só água pra gente beber.
Aguardem só mais um pouco. Você não vai poder dar o livro de presente de natal, mas vai poder dar de presente de carnaval.
“Sei mais Física”
Você não tem, ou tem, religião mas, e, gostaria, nesses tempos de natal, de exercer o seu altruísmo, só que ainda não sabe como? Eu tenho a solução: faça como eu e dê uma bolsa do projeto ‘Sei mais física’ para um estudante da rede pública desenvolver suas habilidades em exatas.
Quem lê o VQEB sabe que eu sou amigo e fã da Sonia Rodrigues. Aprendi e continuo aprendendo muito com ela. Dentre os vários projetos que ela coordena, no tempo entre publicações, um em especial tem chamado atenção: o ‘Sei mais física‘.
Premiado pela FAPERJ e pelo Banco Mundial, o ‘Sei mais Física’ e o ‘Almanaque da Rede’ são uma rede social de aprendizagem que ajudam seus participantes a desenvolverem atitudes de estudo e colaboração essenciais para o sucesso profissional e pessoal. O Almanaque da Rede existe desde 2009 e até hoje, 13.200 alunos já participaram do projeto. Você acha legal a Khan Accademy?! Então vai adorar o Sei mais Física e o Almanaque da Rede: a rede funciona com um sistema de desagios, tem mais de 200 vídeo aulas sobre Física, Matemática e Redação e um sistema de pontuação meritocrático. Os pontos são trocados por prêmios, como pen drives com as vídeo aulas, livros e netbooks.
Eu já tinha falado aqui sobre apagão da física, o que ajuda a entender porque o Almanaque e o ‘Sei mais física’ são tão importantes: hoje, no Brasil, uma carreira em física garante um emprego como professor de física! (além de garantir pontos com as meninas: afinal, os nerds do Big Bang Theory estão na moda
Mas você pode perguntar: com os salários dos professores no Brasil, quem quer ser professor de física na rede pública?
A Sonia tem muitas respostas pra essa pergunta, várias delas no Blog “Inclusão Digital” que ela mantém no Globo. A minha é: “Os milhões de jovens brasileiros entre 18 e 24 anos fora do mercado de trabalho formal que viram camelo, cobradores de van ou, pior, avião e fogueteiro do tráfico”.
Eu já contribui.
Qualquer gato vira-lata
Assisti ‘Qualquer Gato Vira-Lata (tem uma vida sexual mais saudável que a nossa)’. Uma graça o filme. Aqui, chegou a passar da marca de 1.000.000 de espectadores nos cinemas (a peça homônima de Juca de Oliveira já havia levado mais de 1.000.000 de pessoas aos teatros), mas eu achei que faltou aquele ‘burburinho’. Como o gerado por ‘Ele não está tão afim de você’ ou por ‘Big Bang Theory’. Sim, porque o filme é um tipo de ‘BBT’ da biologia.
Não, na verdade eu entendo porque não houve burburinho. Assistindo o filme parecia até que estava assistindo uma filmagem do VQEB. E como o tipo de coisa que eu escrevo aqui gera polêmica, porque o filme não haveria de gerar?
Polêmica?! Não sei se é a palavra correta. Descrença, talvez seja uma palavra melhor. Desconfiança, melhor ainda.
As pessoas resistem tanto, tanto, mas tanto mesmo, a aceitar a nossa natureza animal e a amoralidade da natureza. E as regras que ambos impõem.
“Não existem regras para o amor! É preciso respeito acima de tudo. As relações sempre vão ser únicas, porque cada pessoa tem uma bagagem diferente, costumes, valores diferentes. O interessante é tentar deixar de ser egoísta, ser mais parceiro, ser mais amigo. Mas o fato de que toda relação é única faz com que não existam regras” foram unânimes em afirmar os atores do elenco.
Não importa se nossos instintos de 1 milhão de anos digam outra coisa, não importa se nossas mudanças hormonais digam outra coisa, não importa se nossa anatomia diga outra coisa. As pessoas preferem negar essas influencias castradoras até a morte. Ou até o divórcio.
Sim, porque se não existem regras para o amor, certamente existem para o desamor. Ou é isso que as estatísticas mostram.
No Brasil, de 1940 até 1990, o percentual de pessoas divorciadas, na população em geral, aumentou 15 vezes (IBGE). O percentual de divórcios era de 1:9 em 1985, 1:4 em 1995 e se aproximou de 1:2 em 2005 (nos Estados Unidos o percentual é de 60% e na Inglaterra de 40%). Mais de 50% dos divórcios é causado por problemas financeiros (Instituto Gallup), 33% dos casais brigam com freqüência por dinheiro e 7,5% brigam sempre por esse motivo (H2R Pesquisas Avançadas). Além do dinheiro, a curiosidade e a fofoca também levam ao fim dos relacionamentos. Mais de 60% dos brasileiros checam o perfil do(a) namorado(a) em redes sociais (TNS Research), com o percentual subindo para 70% quando se trata do(a) ex. No fim de 2009, um em cada cinco processos da Divorce-Online trazia a palavra ‘Facebook’ nos autos.
Olha, eu não estou fazendo propaganda pró ou contra coisa nenhuma. Simplesmente me impressiona que, contra todas as evidências, biológicas e estatísticas, as pessoas continuam achando que o modelo de relacionamento inventado menos de 1 século atrás é o que deve ser. E que se não for, a culpa é nossa, como se dependesse da nossa vontade. Ou do amor. Quando se trata de relacionamento, há muito pouco livre arbítrio.
Queriamos ser bonzinhos, respeitadores, éticos, morais, altruistas, mas somos só humanos.
Isso também não significa que eu seja determinista, como meus amigos cientistas gostam de pensar que eu sou. Os posts do blog que tratam do assunto (veja por exemplo ‘A evolução da moda – parte I e parte II) quase sempre são motivados por conversas de bar entre cientistas, tem argumentação respaldada por diversas referências bibliográficas, divertem, mas são sempre rejeitados pelas mesmas pessoas que levantaram as hipóteses inicialmente.
Claro, cientistas estão acostumados a testas suas hipóteses com o rigor do método científico, e apresentam forte resistência a toda forma de ciência que não segue esse modelo. Mas em algumas situações, outras metodologias podem ser aceitas com quase tanta confiança. A epidemiologia não segue o método científico e auxilia enormemente na prevenção, tratamento e cura de doenças. A evolução por seleção natural não pode ser avaliada pelo método científico mas nem por isso existe qualquer dúvida quanto ao valor dela (bom, a não se entre os criacionistas). Estudar o comportamento humano do ponto de vista zoológico não é uma novidade e foi assunto de um livro incrível, publicado na década de 60 e que eu acabei de ler: ‘O macaco nu‘ de Desmond Morris.
Sexo, agressão, alimentação, colaboração, está tudo lá. Mas em uma das muitas passagens brilhantes do livro, Desmond sugere um pequeno conjunto de regras, que aplicamos em muitas situações. Veja:
“Assim, em qualquer dessas esferas – pintura, escultura, desenho, música, canto, dança, ginástica, jogos, esportes, escrita, discurso -, nos prosseguiremos, para nossa satisfação pessoa e ao longo de toda vida, complicadas e especializadas formas de exploração e de experimentação. Por meio de um treino elaborado, tanto os executantes quanto os assistentes somos capazes de sensibilizar a nossa capacidade de responder ao imenso potencial exploratório que nos é oferecido por tais atividades. Se pusermos de parte as funções secundárias dessas atividades (ganhar dinheiro, criar prestígio etc), elas representam biológicamente quer o prolongamento da na vida adulta das nossas brincadeiras infantis, quer a aplicação das ‘regras da brincadeira’, aos sistemas de informação-comunicação dos adultos.
Essas regras podem resumir-se assim:
- investigar o desconhecido até que este se torne conhecido;
- impor repetição rítmica daquilo que é conhecido;
- variar essa repetição de todas as maneiras possíveis e imagináveis;
- selecionar as variações mais satisfatórias para as desenvolver à custa dos outros;
- combinar essas variações entre si de todas as formas possíveis;
- fazer tudo isso pelo simples gosto de fazer, como fim, e não como meio.
Esses princípios aplicam-se de um extremo ao outro da escala, quer se treate de uma criança que brinca na areia, que de um compositor que trabalha numa sinfonia.”
Podem não ser regras bonitas, mas nos ajudaram a sobreviver por 1 milhão de anos. Achar que elas não servem para mais nada e não nos ajudam mais, é tão ingênuo quanto achar que elas são determinísticas e que vivemos apenas de acordo com elas, sem influência da nossa razão.
Vivemos em conflito. Vivemos tentando gerenciar o conflito. Viver isso é melhor do que viver fingindo que não é assim. Talvez você até se divirta mais.
“Bela demais para não ser verdadeira”
Estou lendo novamente ‘O Fim da Ciência’ de John Horgan. Como editor da Scientific American durante muitos anos, Horgan teve de entrevistar algumas das maiores mentes científicas do século XX. E a todas elas fez a pergunta: “Você acha que a ciência já acabou?”
Logo nas primeiras páginas, ele fala que foi entrevistar Roger Penrose. Penrose havia acabado de escrever ‘A mente nova do emperador’ um livro que ele próprio (Horgan) classificou como denso e difícil. Eu confesso que a primeira vez que vi o tijolo que é esse livro, fiquei assustado. Foi durante o mestrado, em Rio Grande, nas mãos do meu amigo André ‘Batata’ Barreto. O Batata, Nerd mais gente boa que já conheci, falou sobre o quão viajante, doido e difícil era o livro. E se o Batata tinha achado difícil… é porque realmente era.
Mas o que Horgan fala é que Penrose, desiludido com o que o panorama da ciência tinha a oferecer naquele momento para explicar o que ele definia como ‘a última fronteira do conhecimento’, a consciência, se permite criar toda uma teoria para explicar o pensamento, sem nenhuma evidência para suas especulações. Claro… ele simplesmente estava propondo uma maneira de realizar a tão sonhada unificação da mecânica quântica com a relatividade geral de Einstein (em cuja interface residiria a consciência).
A base científica dos argumentos é um dos principais critérios quando avalio uma tese ou quando um artigo meu é avaliado por um referee. Sem essa base, tudo vira especulação. Ou imaginação?
É que uma (especulação) tem conotação negativa enquanto a outra (imaginação) tem conotação positiva. Mas será que elas são diferentes? E de quanta especulação precisa a ciência para crescer?
Enquanto escrevo minha mente não para. “Será que na verdade a diferença está em ‘quem’ especula?”
Sim, porque, pensem comigo, quando um cientista desinformado especula por preguiça de ler, a chance dessa especulação ser criativa e trazer nova luz a problemas sem solução é muito pequena. A maior chance é que ele re-invente a roda. Já se um cientista como Penrose esgota as possibilidades de explicação com base nas evidências existentes e começa a especular sem base nas evidências, ai pode ser que algo de produtivo apareça.
Ainda assim, essa nova especulação deve ter algum tipo de critério. “Penrose é um platônico confesso” Diz Horgan, “Os cientistas não inventam a verdade, eles as descobrem. Das verdades genuínas emana uma beleza, uma correção, uma qualidade evidente por si mesma, que lhes dá o poder da revelação.” Para Penrose, a ‘beleza’ é o critério.
A beleza não é um critério totalmente subjetivo: simetria, ordem, padrão, são todos critérios de beleza que podem ser medidos e avaliados. Mas também há novidade e diversidade e esses… são critérios difíceis de serem avaliados, porque dependem de contexto.
Apesar da subjetividade, a beleza está presente no método científico. E de uma maneira muito… bonita. É a beleza (ou como quer que você queira determinar um critério estético) que vai determinar, entre duas perguntas similares, qual é aquela que o pesquisador vai escolher para estudar. Para aplicar o método científico. E a escolha… na minha opinião, é o que diferencia o cientista espetacular do cientista bom, ou muito bom.
“É bela demais para não ser verdadeira” disse Rosalin Franklin ao ver o esquema da estrutura da dupla hélice do DNA proposto por Watson e Crick, enquanto o modelo proposto por ela, responsável pelas imagens de difração de raios X de alta qualidade que os dois outros pesquisadores usaram para fazer sua descoberta, não se sustentava. A beleza não pode ser considerada uma evidência, mas parece que elas andam lado a lado. Uma evidência de qualidade é sempre bonita.
Agora, lendo essas colocações de Horgan e Penrose, penso que existe mais uma brecha no método científico onde a beleza se encaixa: na especulação da discussão. Mas com muito cuidado. A beleza só pode ser utilizada como argumento quando todas as outras evidências tiverem se esgotado. Mas quando podemos considerar que esgotamos todas as evidências e podemos começar a utilizar a beleza como argumento?
Quando você descobrir, vai conseguir diferenciar um cientista ruim de um bom.
Inovação da lei

Na semana passada foi amplamente divulgado pela imprensa o absurdo da produção de leis no Brasil: 75.517 leis criadas entre 2000 e 2010, numa média de 18 novas leis por dia.
Poderíamos pensar em todas essas novas leis como inovações, mas não são. Não tem como esse monte de leis ser viável. E não são. A reportagem no Globo fala muito bem sobre todos os problemas associados a esse alto número.
Um livro espetacular que li no ano passado e ainda não tinha comentado aqui, já tratava desse assunto. Chama-se The Death of Common Sense: How Law Is Suffocating America
(‘A morte do bom senso: como as leis estão sufocando os Estados Unidos’), do advogado americano Philip Howard. Ele mostra que essa enxurrada de leis matou o bom senso, a noção de ‘certo’ e ‘errado’ que todo mundo tem.
Para ele, o sistema legal moderno tem engloba o pior de dois mundos: É maior do que deveria ser porque quer fazer coisas demais, mas é menos eficiente do que deveria ser porque só consegue fazer coisas de menos:
“Esse paradoxo é explicado pela ausência de um ingrediente indispensável a qualquer empreendimento humano: o uso do discernimento. Nas décadas após a segunda guerra mundial, construímos um sistema de leis que basicamente exclui o bom senso, em um esforço para tornar a lei auto-executável e que tirou a sua humanidade.”
“Fazer leis cada vez mais precisas se tornou um mantra” Como se apenas elas pudessem garantir que não haverá favorecimento de uma das partes em diferentes situações. Não garantem.
Um dos princípios da evolução é que sem diversidade de possibilidades há mais chances de extinção. Organismos especialistas, que por exemplo só comem broto de bambu, podem ser muito eficientes e muito bem adaptados. Contanto que nunca falte broto de bambu. Já se você tem uma dieta flexível… pode ter uma dor de barriga de vez em quando, mas não vai passar fome se a sua floresta preferida for desmatada para o plantio de soja.
Existem estratégias evolutivamente estáveis, mas a melhor estratégia é poder mudar de estratégia se a situação assim pedir. E para isso, precisamos de discernimento, que tem sido preterido as normativas;
“O sistema interestadual de rodovias, até hoje o maior programa público de obras do pós-guerra, foi autorizado em 1956 com um estatuto de 28 páginas. A ‘lei do transporte’ que passou no congresso em 1991 sem que isso tenha afetado muito a sua vida, tinha dez vezes mais.(…) Só a EPA (agência de proteção ambiental americana) tem mais de 10.000 páginas de regulamentos.”
No Brasil não é muito diferente e basta ver o drama por que passam qualquer empreendimento que tente se instalar no Brasil. Será que deveríamos ter leis mais flexíveis, que contassem mais com o discernimento das pessoas? E se o resultado fosse que as hidroelétricas de Belo Monte, Santo Antônio e Jirau fossem instaladas sem uma discussão prévia? Acontece que com as leis precisas demais, os empreendimentos continuam acontecendo, mas ao invés de uma discussão, estimulamos o descumprimento da lei e a corrupção.
Eu acho que uma nova lei deveria ser considerada como uma inovação: só pode ser produzida se houver indícios concretos que ela possa ser cumprida. Nem só cumprida, ela tem que ser viável. Talvez, antes de qualquer um dos dois, ela tem de ser necessária!
O Richard Feynman dizia, ou eu depreendi isso do que li do livro dele ‘Deve ser brincadeira Sr. Feynman’ que uma boa idéia não pode refutar os princípios básicos das coisas. Já falei sobre isso aqui.
Lembro do meu deputado, o Fernando Gabeira, propondo isso no congresso anos atrás: que toda lei proposta fosse acompanhada de um estudo do custo de implementação.
Se todo deputado tivesse de escrever um plano de negócios de suas leis, para ser submetido a FINEP ou a um grupo de investidores de risco, ou mesmo de capital anjo, teríamos muito, muito menos leis. E teríamos deputados muito, muito melhor preparados.
Falta critério, falta bom senso, falta inovação.
Batendo o martelo

Eu sabia que entrariam no mundo profissional e criaram novos e fantásticos programas de computação, projetos de animação e recursos de entretenimento. Mas eu também sabia que que eles tinham o potencial para frustrar milhões de pessoas no processo.
Nós, engenheiros e cientistas da computação, nem sempre criarmos coisas fáceis de usar. Muitos de nós somos terríveis quando explicamos tarefas complexas de modo simples. Já leram algum manual de instruções de um videocassete? Então já viveram a frustração a que me refiro. Por isso sempre quis enfatizar a meus alunos a importância de pensarem nos usuários finais de suas criações. Como eu poderia tornar clara para eles a necessidade de não criarem uma tecnologia frustrante? Arranjei um meio sensacional de lhes prender a atenção.
No primeiro dia de aula eu levava um aparelho de videocassete funcionando. Colocava o aparelho sobre uma mesa, na frente da sala, pegava uma marreta e o destruía. Em seguida, dizia: “Quando se constrói algo difícil de usar, as pessoas se aborrecem. Ficam tão irritadas que querem destruí-lo. E nós não queremos criar objetos que as pessoas queiram destruir”.
Sensacional esse trecho do texto “Atraia a atenção das pessoas” de Randy Pausch (do livro “A lição final”, presente da minha querida amiga Cristine Barreto.
Mas não são apenas os engenheiros que constroem coisas difíceis de usar. Alunos de pós-graduação em geral fazem isso. Constroem teses dificilíssimas de ler. Por isso lembrei desse texto, porque foi exatamente assim que eu me senti depois de ler uma tese essa semana: vontade de pegar um martelo e destruí-la!
Porque as pessoas querem fazer coisas que ninguém entende depois? Ou pior, como é que aluno e orientador podem ler um trem daquele e achar que está bom? Preguiça, só pode ser preguiça. E ai passam a responsabilidade pro revisor.
Dá vontade de martelar.














