‘Brothers in arms’ – Quando a cooperação leva a guerra

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“Como funciona a agressão? Que tipos de comportamento envolve? Como é que nós nos intimidamos uns aos outros? Temos, mais uma vez, de olhar para os outros animais. Sempre que um mamífero se torna agressivamente excitado, passa-se no seu corpo um certo número de alterações fisiológicas básicas. Todo o organismo vai se preparar para a ação, através do sistema nervoso autônomo. Esse sistema compõe-se de dois subsistemas opostos que se contrabalançam — o simpático e o parassimpático. O primeiro é responsável pela preparação do corpo para atividades violentas, o segundo tem a função de manter e reconstituir as reservas do corpo. O primeiro diz: “Está pronto para a ação, pode começar”; o segundo diz: “Tome cuidado, modere-se e conserve a sua força”. Em condições normais, o corpo presta atenção a ambas as vozes e mantém-se equilibrado. Mas, quando ocorre agressão violenta, o organismo apenas escuta o sistema simpático. Quando este é estimulado, aumenta a adrenalina no sangue e todo o sistema circulatório é profundamente afetado. O coração bate mais depressa e o sangue que circula na pele e nas vísceras é desviado para os músculos e para o cérebro. A pressão arterial aumenta. Acelera-se a produção de glóbulos vermelhos. O sangue coagula mais rapidamente do que em condições normais. Além disso, interrompem-se os processos de digestão e de armazenamento dos alimentos. A salivação é inibida, assim como os movimentos do estômago, a secreção de sucos digestivos e os movimentos peristálticos dos intestinos. O reto e a bexiga esvaziam-se com mais dificuldade do que normalmente. A reserva de hidratos de carbono é expelida do fígado, provendo o sangue de açúcar. A atividade respiratória aumenta. A respiração torna-se mais rápida e profunda. Os mecanismos reguladores da temperatura são ativados. Os cabelos põem-se em pé e há intensa sudação.”

Abre parênteses: Me permito, muito raramente, escrever com o texto de outros autores, sempre dando o devido crédito, é claro, porque simplesmente tem tanta coisa boa já escrita. As vezes do mesmo jeito exa

to que eu gostaria de escrever. Outras vezes só porque eu quero dizer par ao autora: cara…. como você mandou bem! Esse é o caso de Desmond Morris e ‘O Macaco Nu’. Alguns amigos as vezes me acusam de citar um livro. Não me sinto ofendido. Eu sei quantos livros já li. Eu fico com pena deles. Eu estou tentando quebrar o preconceito deles com as palavras e exemplos mais poderosos que tenho ao meu dispor e várias vezes elas vêm de um livro como ‘O Andar do bêbado’ de Leonard Modlinow. Mas preconceitos não caem facilmente e eles se apegam a argumentos como “você só sabe falar de um livro” pra justificar a manutenção das suas crenças arraigadas. Fecha Parênteses.

Mas mesmo com o corpo todo preparado, vale a pena lutar? A descrição de Desmond Morris e ‘O Macaco Nu’ é excelente.

“Com todos os seus sistemas vitais ativados, o animal está pronto para se lançar ao ataque. Mas há um obstáculo. A luta sem tréguas pode conduzir a uma vitória valiosa, mas pode igualmente acarretar sérios prejuízos para o vencedor. O inimigo não só estimula a agressão, mas também o medo. A agressão empurra o animal para a frente, o medo o faz recuar. Produz-se uma situação de intenso conflito interior. Tipicamente, um animal excitado para a luta não se atira de cabeça para o ataque. Começa por ameaçar que vai atacar. O conflito interior o sustem, já preparado para o combate, mas ainda não completamente pronto para começar. Nessa altura, é sem dúvida melhor que a atitude do animal seja suficientemente impressionante para intimidar o inimigo e esse se ponha em fuga.”

“A vitória pode ser obtida sem derramamento de sangue. Se a espécie é capaz de resolver as disputas sem grande prejuízo para os seus membros, não há dúvida de que se beneficia tremendamente do processo. Em todas as formas superiores de vida animal se tem verificado uma forte tendência nesse sentido — o sentido do combate ritualizado. A ameaça e a contra-ameaça foram substituindo em grande parte o combate físico propriamente dito.”

“Claro que ai

nda existem de vez em quando lutas sangrentas, mas apenas como último recurso, quando as atitudes e contra-atitudes agressivas não chegam para resolver uma disputa. A intensidade dos sinais que exteriorizam as alterações fisiológicas atrás referidas indica ao inimigo a intensidade da violência com que o animal agressivo se prepara para a ação.”

Todos nós, TODOS, já sentimos isso, essas mudanças fisiológicas. Chegou a apostar que sentimos até várias vezes ao dia. So sangue sobe a cabeça, você quer brigar com todo mundo: do funcionário do banco ao seu irmão ou irmã. Em geral o medo nos impede de prosseguir. Todo mundo tem medo e nossos principais medos são de duas coisas: violência física e abandono. Quando não é o medo, pode ser a nossa razão a nos segurar: Será esse o caminho para o que eu quero/preciso? Será que vale mesmo a pena? Quando nem o medo e a razão funciona, temos a polícia: que poderia sim funcionar como uma grande consciência, estando alí e tem lembrando do que é o correto, mas também pode, como tem feito, tentar te conter ao impingir medo, baixando a porrada.

O combate ritualizado foi um grande ganho evolutivo e certamente evitou a extinção de muitas espécies. Essa estratégia evoluiu, para garantir ainda mais a segurança dos combatentes, aumentando ao máximo a distância entre os combatentes. Nós, humanos, somos o ápice desse combate ritualizado, realizando guerras a distâncias continentais. Fomos tão bem sucedidos que exageramos na dose, e o que poderia ser a nossa glória, agora pode ser a nossa ruína.

“As lanças podem funcionar a distância, mas têm raio de ação muito limitado. As setas são melhores, mas falta-lhes precisão. As espingardas representaram um melhoramento dramático, mas as bombas, lançadas 

do céu, podem ser ainda lançadas a maior distância, e os foguetões intercontinentais levam ainda mais longe o ‘golpe’ do atacante. Resulta de tudo isso que os rivais, em vez de serem vencidos, são indiscriminadamente destruídos. Como já expliquei, quando se desenvolve agressão ao nível biológico no interior de uma espécie, as coisas não se limitam a matar o inimigo, mas acabam por destruir a própria espécie. A fase final de destruição da vida costuma ser evitada quando o inimigo foge ou se rende. Em ambos os casos, termina o encontro agressivo: resolve-se a disputa. Mas, uma vez que o ataque se faz a tão grandes distâncias, os vencedores não conseguem ver os sinais de apaziguamento emitidos pelos vencidos e a agressão violenta transforma-se em devastação. A única forma de interromper a agressão é através da submissão mais degradante, ou da fuga precipitada do inimigo. Como nenhuma delas pode ser presenciada na moderna agressão a longa distância, a matança em larga escala atinge proporções muito maiores do que as alcançadas por qualquer outra espécie precedente”

Essa perda de controle do processo da agressão gerada pelo aumento da distância entre combatente foi maximizado pelo alto grau de cooperação que nossa espécie possui, levando a produção de ainda mais danos!

“O poderoso instinto de nos ajudarmos mutuamente tornou-se hoje suscetível de intervir poderosamente quando se geram conflitos agressivos entre os membros da espécie. A lealdade na caça transformou-se em lealdade na luta, e assim nasceu a guerra. Por uma verdadeira ironia, o nosso profundo instinto de ajudar o próximo desenvolveu-se de forma a constituir a principal causa dos horrores da guerra. Foi ele que nos levou a formar bandos, grupos, hostes e exércitos mortais. Sem ele, não haveria coesão e a agressão se manteria ‘personalizada’.”

Já me aproveitei do Morris até aqui, então vou deixar ele concluir também:

“Qualquer animal quer derrota, mas não assassínio; a agressão visa à dominação e não à destruição. Aparentemente, não somos diferentes das outras espécies, a esse respeito. Nem há qualquer razão para sermos diferentes. Simplesmente, tudo aconteceu por causa da associação viciosa do ataque a distância com a cooperação de grupo, e os indivíduos envolvidos na luta deixaram de ver o objetivo inicial. Atualmente, os lutadores atacam mais para apoiar os seus camaradas do que para dominar os inimigos, e quase não há possibilidade de exprimir a suscetibilidade de reagir perante o apaziguamento direto. Essa infeliz evolução pode acabar por ser a nossa ruína e conduzir à rápida extinção da espécie.”

Uma peça fundamental nisso tudo é o hormônio testosterona. Mas esse história fica pra outro dia.

Seriam os seres humanos essencialmente bons?

2001

“Uma minoria de vândalos”

A frase passou da boca dos manifestantes, que queriam demonstrar para a sociedade que as imagens apresentadas pelos jornais e autoridades, como justificativa para o comportamento da PM; para as editorias dos próprios jornais, como anteciparam tantos dos meus amigos menos ingênuos, para que toda sorta de políticos e autoridades possam se apropriar das manifestações, contrárias a eles, que estão nas ruas.

“Deixem as ruas sem polícia e vamos ver o que dirão os manifestantes depois de 2 dias…” dizia um outro amigo, republicano radical, mas coberto de razão: assustados com a violência dos manifestantes para com o patrimônio público, com a polícia e com os próprios manifestantes, a galera mais tranquila dos protestos está assustada.

O que me chama atenção nos protestos do país do carnaval é a doce e ingênua ilusão, amplamente arraigada e difundida, que o ser humano, e especialmente o brasileiro, é, essencialmente, bom. Essa é uma gigantesca falácia que não encontra nenhuma sustentação na nossa história biológica ou cultural.

Explico.

Quando o clima começou a muda há cerca de quinze milhões de anos e as florestas que cobriam a europa e a Asia começaram a desaparecer, os símios resolveram descer das árvores e lançarem-se na vida terrestre, competindo com os outros animais, altamente especializados, que dominavam o pedaço. Para sobreviver, Ou se tornavam melhores assassinos que os carnívoros já experimentados, ou melhores pastadores que os herbívoros já existentes. Fomos bem sucedidos em ambos os setores, mas a agricultura, fruto da cultura, demorou muito para aparecer. Por outro lado, como diz Desmond Morris no sensácional livro ‘O Macaco Nu’ “era fácil apanhar animais jovens de todas as raças, desprotegidos ou doentes, e o primeiro passo para se tornar carnívoro não foi muito difícil.”

Compreender as mudanças de comportamento decorrentes dessa mudança de dieta é fundamental.

“passamos de vegetarianos a carnívoros (…) uma grande transformação desse gênero produz um animal com dupla personalidade. (…) Assume-se o novo papel com grande energia evolutiva (…) Ainda não houve tempo para se libertar de todos os velhos traços, mas apressa-se a adquirir novas características. Desenvolvemo-nos essencialmente como primatas de rapina. (…) Todo o seu corpo e modo de vida foram desenvolvidos para viver entre as árvores e, subitamente (em termos de evolução…), foi projetado num mundo onde apenas poderia sobreviver se se comportasse como um lobo inteligente e colecionador de armas.” , diz Desmond.

E continua: “A princípio, o macaco pelado não podia competir com os assassinos profissionais do mundo carnívoro. (…) um gato grande, era mais exímio em matar. (…) Os primeiros macacos terrestres possuíam já grandes cérebros de alta qualidade. Tinham bons olhos e mãos capazes de agarrar eficientemente as presas. Pelo fato de serem primatas, tinham também, inevitavelmente, um certo grau de organização social. À medida que as circunstâncias os obrigavam a aperfeiçoar-se na matança das presas, começaram a ocorrer modificações vitais: tornaíam-se mais eretos — correndo melhor e mais rapidamente; as mãos libertaram-se das atividades locomotoras — permitindo empunhar armas com mais força e eficácia; os cérebros tornaram-se mais complexos — tomando decisões mais rápidas e inteligentes. Tudo isso não se sucedeu segundo uma ordem bem estabelecida (…) uma competição baseada nas condições já existentes, (…) , originando um assassino mais parecido com o cão ou com o gato, (…) poderia ser desastroso para os primatas. (…) Em vez disso, fez-se uma tentativa completamente nova, em que se empregaram armas artificiais em lugar de armas naturais, o que dou resultado. (…) Pouco a pouco ia se formando um macaco caçador, um macaco assassino.

Foi quando a coisa começou a ficar perigosa para a nossa espécie. Ou, quando nós começamos a ficar perigosos para a nossa própria espécie.

“Para compreendermos a natureza dos nossos instintos agressivos, temos de encará-los segundo a nossa origem animal. A nossa espécie está atualmente tão preocupada com a violência e com a destruição em massa, que somos capazes de perder objetividade ao discutir esse assunto. Ê um fato comprovado que os intelectuais mais sensatos se tornam muitas vezes violentamente agressivos quando discutem a necessidade urgente de suprimir a agressão.”

Como isso funcionava com os nossos antepassados primatas omnívoros e com os carnívoros ‘puros’?

Entre os primatas, não há muito espírito cooperativo, como sucede entre outros animais — os lobos, por exemplo — que caçam em grupo. Existe sobretudo competição e dominação. Claro que em ambos os grupos existe competição na hierarquia social, mas no caso dos macacos e símios não há atividades cooperativas que a atenuem. (…) [Já para os carnívoros] no decurso de encontros sociais, as armas selvagens, tão importantes para a caça, constituem uma ameaça potencial para a vida e são utilizadas para resolver as mais íntimas disputas e rivalidades. Quando dois lobos ou dois leões se zangam, ambos estão tão fortemente armados, que, em questão de segundos, a luta pode originar mutilação ou morte. Isso podia ameaçar de tal maneira a sobrevivência das espécies, que, durante a longa evolução em que foram aperfeiçoando suas mortíferas armas de caça, os carnívoros tiveram igualmente necessidade de criar poderosas inibições quanto ao uso das armas contra os outros indivíduos da própria espécie. Tais inibições parecem ter uma base genética específica: não precisam ser aprendidas. Criaram-se posturas submissivas especiais, as quais apaziguam automaticamente um animal dominador e inibem-no de atacar.”

Mas para que lutar? Existem duas razões: ou para estabelecer domínio numa hierarquia social, ou para estabelecer os direitos em um território.

“Algumas espécies são puramente hierárquicas e outras puramente territoriais. Outras [ainda] mantêm hierarquias nos seus territórios e têm de encarar ambas as formas de agressão. Pertencemos ao último grupo: temos os dois problemas. (…) [com um agravante] a prolongada fase de dependência dos mais novos, que levou à adoção de unidades familiares unidas aos pares, exigia (…) que Cada macho passasse a defender a sua própria habitação no interior do grupo. (…) Como cada um de nós sabe por experiência própria, essas formas de agressão ainda hoje são bem manifestas, apesar das complexidades da sociedade atual.”

Apesar do que os muitos antropólogos (e eu sou fã e amigo de Massimo Canevacci e Alba Zaluar), sociólogos (e sou também fã e amigo de Domenico De Masi) e cientistas políticos falarão sobre os eventos dos últimos dias, cada um com uma explicação diferente (ou não) para os eventos, todos eles, TODOS, sem exceção, terão uma coisa em comum: ignorarão o papel dos nossos traços instintivos e heranças biológicas e relíquias comportamentais do nosso lado animal.

Não existe bom ou ruim. Por milhões de anos, para nos impormos como espécie, precisamos colocar em prática os nossos instintos mais violentos e conseguir outros. Somos violentos! Somos muito violentos! E ainda vamos precisar de muitos anos de escola e família, abundância de recursos e de um monte de outras coisas, para abandonarmos essa furia. Até lá… eu acho melhor não ignorar isso.

A lógica da raiva

É assim que você fica quando está brava
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“A raiva é parte da biologia básica da espécie humana. Ela aparece espontaneamente na infância, está distribuída universalmente entre culturas, em todos os indivíduos e tem uma base neural espécie-específica.”
Assim começa o artigo que eu vou comentar hoje. Quando você é cientista, nada do que serve de acalento para a maior parte das pessoas funciona. Florais de Bach, mantras, massagem holística… nada disso ameniza a mente racional. Bom, é verdade que Rivotril funciona mesmo nos cientistas. Mas antes de partir pras drogas pesadas, a gente procura consolo na sabedoria de bilhões de anos da seleção natural.
Na tentativa de explicar biologicamente a raiva, os cientistas procuraram primeiro compreender qual seria o propósito da raiva: para que ela teria sido selecionada pela seleção natural? A resposta, vejam só, é que ela teria evoluido como ferramenta de barganha, para resolver conflitos de forma favorável para a pessoa com raiva.
Como assim?
Todo ser humano dá um determinado valor ao próprio bem estar e também ao bem estar alheio. E é claro, está disposto a investir uma certa quantidade de tempo e de recursos (de energia) nesses bem estares (o próprio e o alheio). A raiva seria um ‘incentivo’ (ou como veremos melhor, uma ameaça) para que o ‘próximo’ desse mais valor ao bem estar da pessoa com raiva, as vezes até mesmo em detrimento do dele próprio.
O quanto nós deveríamos nos preocupar com o bem estar do próximo (ou o bem estar alheio) com relação ao nosso próprio?
Eu já tratei aqui sobre questões de agressividade, e como podemos calcular o valor do altruísmo e da ajuda. Certamente essa resposta depende do que está (ou se há) em jogo, mas alguns fatores variam de forma esperada, sempre. Um deles é o grau de parentesco (que você pode ler mais aqui).
“Os seres humanos possuem sistemas cognitivos que buscam pistas de grau de parentesco, e ‘recalibram’ suas ações altruísticas de acordo com essas evidências.”
Se um amigo pede para eu ir até a Barra da Tijuca buscar os ingressos para ele ir a um show numa 6a feira as 5 da tarde pela linha Amarela, eu não vou. Mas já se for a minha irmã…
A raiva faz parte de um outro sistema cognitivo, que é o sistema de barganhas. Como podemos convencer alguém a ser altruísta conosco se ele não é nosso parente?
Depende do nosso poder de barganha, que se resume, basicamente, em duas coisas com nomes estranhos, mas significados muito familiares: formidabilidade e conferibilidade. No inglês, de onde vem a nomeação, os dois termos não são utilizados com os significados mais usuais do português, mas sim no sentido de ‘impor dificuldades’ e ‘conceder benefícios’, respectivamente. Assim, quanto mais ‘formidável’ uma pessoa é, mais dificuldades ela é capaz de impor a você (e não é que as vezes é assim mesmo?!).
Entre outras coisas que podem ser levadas em conta pelo mesmo ‘sistema de barganhas’ estão a agressão, a reciprocidade e as externalidades. Essas suposições todas precisam se apoiar em um suposto sistema computacional do cérebro humano que seja capaz de:

  • Avaliar as consequências de um ato para si mesmo
  • Avaliar as consequências de um ato nos outros
  • Relacionar e avaliar as consequências dos atos em ambos

E essas avaliações tem de levar em conta todos os fatores que relacionamos até agora (raiva, agressividade, parentesco, formidabilidade e conferibilidade, além de externalidades não previstas) juntos. Isso quer dizer que é fácil atribuir um valor ao medo que temos de uma agressão isoladamente, mas e se o risco de agressão se apresentasse quando uma pessoa querida está envolvida, ou em uma situação de ‘tudo ou nada’, ou ainda com um aparente parceiro, mas que cometeu uma grande traição? Os valores, os pesos que damos a cada variável, bem podem mudar. E mudam!
“Existem muitas evidências de que esse ‘sistema de avaliação da barganha’ existe nos humanos como parte de uma intrincada arquitetura neural e toma parte ativa nos nossos processo de tomada de decisão.”
Mas como poderíamos influenciar no valor que a outra pessoa dá ao nosso ‘bem estar’ em uma situação de conflito, quando ela está computando a barganha? é ai que a raiva entra! A raiva é a nossa ferramenta para ‘ entrar’ no sistema nervoso do outro e modificar as prioridades dele para que atendam mais as nossas próprias.
Acontece que a raiva por si só provavelmente não tem poder suficiente para modificar a perspectiva alheia. Ou você nunca ouviu aquela frase, principalmente dos seus pais, no auge da sua raiva: “Vai ter dois trabalhos, ficar puto e desficar” (Bom, meu pai não falava palavrão, mas ele dizia, “Claro filho, você pode ir na festa, mas eu não vou te emprestar o carro”).
Para não arriscar o desperdício de energia da raiva, a pessoa irritada faz uso de duas outras ferramentas, essas sim, muito mais poderosas: o potencial para infligir custos no oponente, ou o seu potencial para retirar benefícios que são esperados.
“Claro meu amor, você não precisa concordar comigo, mas hoje não vai ter sacanagem pra você” diz a minha irmã para o marido dela (mas tudo bem, ele é Francês).
A maior parte dessas transações é mais efetiva se ficam no campo da ameaça. Ou seja, só com a reação de raiva sendo suficiente para mudar o comportamento alheio para atender as demandas do indivíduo, sem ter que partir para a agressão ou para a privação.
Isso porque todo esse ‘teatro’ é baseado, principalmente, na visão que a pessoa tem do seu próprio potencial de barganha. Se essa percepção estiver muito equivocada, ninguém vai dar atenção a ela, ou ninguém vai recusar nada a ela. Mas se essa percepção estiver apenas um pouco descalibrada, então o conflito pode ser perigoso.
Abre Parênteses:Aliás, esse parece ser o único porém desse excelente artigo, o grupo de indivíduos estudado é quem avaliou a sua própria propensão a raiva, em um questionário com perguntas do tipo: Você tem o pavio curto? Ainda que você não aja, você tem vontade de dar um murro na cara das pessoas? Você nunca arreda o pé de uma discussão? Fecha parênteses.
Mas é isso mesmo que os modelos comportamentais modernos mostram: que são as pessoas com maior poder de barganha que efetivamente se enraivecem com mais facilidade. Ou seja, não há ‘blefe’ no ‘sistema’ de raiva.
Abre Parênteses: uma conhecida teoria de blefe no sistema de raiva é o ‘efeito napoleão’, onde os indivíduos tentariam compensar a perda de poder de barganha da sua baixa estatura colocando força nos seus acessos de raiva. Fecha parênteses.
Então, pessoas que possuem um grande capacidade de machucar ou de causar privações nos outros, acabam esperando melhor tratamento dos outros, e ficam com raiva facilmente quando não recebem. Aposto que você conhece alguém assim, não conhece?
Mas assim como em outros programas neurocognitivos, não existem evidências de que os seres humanos conheçam as bases para o funcionamento desse processo ou ajam de forma consciente. Eles simplesmente conhecem seus efeitos na motivação e no comportamento. E usam e abusam deles.

Sell A, Tooby J, & Cosmides L (2009). Formidability and the logic of human anger. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 106 (35), 15073-8 PMID: 19666613

A raiva tem lógica

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ResearchBlogging.org

(Essa é uma postagem colada e talvez você queira ler primeiro o artigo anterior)

“Os seres humanos diferem da maioria das espécies no número, intensidade e duração de relações de colaboração próximas”

Biologicamente, a raiva de baseia na habilidade das pessoas de mudarem o peso que dão ao bem estar alheio em função de uma reação raivosa. Mas claro, essa habilidade não responde apenas a isso, principalmente em uma espécie tão social como a nossa. Reciprocidade e troca são outros fatores que se somam a formidabilidade e conferibilidade e aos que comentamos anteriormente, capazes de influenciar no processo de decisão.
Sim, mas apesar desse papo todo bonitinho de colaboração, o que conta, no fim das contas, é mesmo o tamanho do braço.
Sim, os pesquisadores correlacionaram as respostas do questionário (que, não canso de repetir, incluía perguntas como: Você encara os outros? Desde os 14 anos você esteve em quantas brigas? A violência resolve problemas pra você?) com o a circunferência do biceps e a carga de peso levantada no supino. O resultado não poderia ser outro: uma correlação significativa com a propensão a raiva e com o histórico de brigas.
Não poderia ser outro porque na verdade estamos falando de uma herança ancestral. A força da parte superior do corpo sempre conferiu habilidade a um homem de infligir dor aos seus oponentes. Esse é, também, um dos principais critérios cognitivos para despertar atração das mulheres. Logicamente, então, a força muscular aumenta o ‘índice de formidabilidade’ de um indivíduo.
Abre parênteses. Curiosamente, não havia correlação com a capacidade de ruminar. Não, não estou chamando os fortões da academia de ruminantes. Ruminar é o termo, também nomeado no Inglês, para o tempo que uma pessoa permanece com raiva. Na verdade, nenhum dos parâmetros avaliados pelo estudo apresentou relação com a ruminância. Fecha parênteses.
Mas se a força na parte superior do corpo de um homem pode servir de argumento para que ele espere que as outras pessoas atendam as seus caprichos (ou sofram as consequências), será que esse argumento também funcionaria para as mulheres? É verdade que quando a minha fisioterapeuta me pegava pelo trapézio com apenas o polegar e o indicador, a dor era tanta que eu seria capaz de qualquer coisa. Ela nem precisaria dar um pitty.
Mas para as mulheres o critério é outro: a beleza! Quanto mais atraente uma mulher, maior também o seu índice de formidabilidade e, principalmente, de conferibilidade.
Você acha estranho? Não, não acredito. Depois de tudo que eu já falei aqui e aqui?! Mas se precisar ainda de um argumento, o artigo traz vários: A beleza é um importante critério de juventude e pessoas mais bonitas são mais valorizadas como parceiros sexuais, companheiros, aliados, tem salários maiores, maiores probabilidades de assumirem posições de liderança, para serem eleitas para cargos públicos e, até mesmo, recebem penas menores do sistema judiciário.
E ainda que as mulheres reclamem da quantidade de outras mulheres e de homens gays no mercado, o acesso sexual as fêmeas é um fator muito, mas muito mais limitante para os homens do que o acesso sexual aos homens é para as mulheres. E assim, mesmo uma pequena habilidade de oferecer acesso a sexualidade, garante um grande poder de barganha para uma mulher. Não me massacrem, por favor. A culpa é da seleção natural.
De fato, os autores encontraram que as mulheres mais bonitas (ou melhor, as que se percebem – e são percebidas – como mais bonitas – por fotos ou então por perguntas de questionário como: eu mereço mais do que uma pessoa comum? Eu sou melhor do que a maioria das pessoas?) são mais eficientes em resolver conflitos, tem maiores expectativas com relação ao que os outros devem oferecer a elas, e tem uma propensão significativamente maior a acessos de raiva.
Novamente, a beleza não se correlacionou com a ruminação. Mas porque o tempo que ficamos com raiva não se correlaciona com a propensão a raiva? A explicação é lógica. Se o papel da raiva é atrair atenção (e energia, e esforço) para os nossos problemas (ainda que caprichos), então ela deveria se dissipar logo depois do objetivo ter sido atingido. A ‘ruminação’ acontece quando alguma coisa nos impede de tomar uma ação direta enquanto estamos com raiva, e temos que avaliar se essa ação considerando as consequências. Que podem ser políticas, sociais ou até criminais. E como as leis se aplicam a fortes e fracos, feios e bonitos, a ruminação não se correlaciona com nenhum dos fatores medidos nesse estudo.
O artigo termina mostrando que a força muscular é fator mais relevante para avaliar a propensão a raiva do que a própria testosterona, que a propensão a raiva está ligada também a uma atitude mais conivente com a agressão (já que homens fortes e mulheres bonitas tendem a aceitar melhor que o seu país entre em guerra com um oponente) e que a propensão a raiva tem um componente filogenético (ancestral e evolutivo) mais forte do que o ontogenético (histórico e desenvolvido).
Ao que tudo indica, “o crime não compensa”, mas a raiva sim.

Sell A, Tooby J, & Cosmides L (2009). Formidability and the logic of human anger. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 106 (35), 15073-8 PMID: 19666613

Vai encarar?


No semestre que vem tenho de dar um curso sobre Evolução e como estou numa fase muito literata, comprei um livrinho pra estudar mais sobre “Sociobiologia“. Durante décadas esse foi um tema controverso em Biologia, porque sugere que os comportamentos sociais no mundo animal, incluindo o humano, teriam uma base genética (o autor, Edward O. Wilson, foi até mesmo acusado de Nazista, o que certamente é um exagero).

Já digo pra vocês que não sou muito adepto da Sociobiologia. Queria apenas saber mais sobre o assunto. E foi ai que me deparei com um dos principais temas do comportamento animal: A agressão!

Como a seleção natural sempre foi vista como a “luta pela sobrevivência” a agressão animal sempre teve um papel importante nessa luta. Depois, a visão da seleção foi mudando do “mais forte” para o “mais apto”, ou mais adaptado, e a agressão pode tomar várias formas menos violentas.

O maior problema é sempre a nossa visão romantizada dos eventos naturais e a nossa eterna necessidade de classificar tudo como certo ou errado. A agressão entre animais de espécies diferentes é aceitável, ou pelo menos compreensível, como nas relações predador-presa.

Abre parênteses: Isso me lembra meu primeiro dia de aula na universidade. Fomos todos da turma conhecer os diferentes laboratórios e acabamos chegando na herpetologia (estudo dos répteis) onde um estagiário estava alimentando as cobras no terrário. As meninas da turma logo se indignaram: “Oh…. pobre ratinho”. Seguiu-se então a explicação do estagiário sobre a pobre cobra, presa em cativeiro e que deveria, pelo menos, comer. Com o passar do tempo houve uma curiosa inversão. A cobra ia acompanhando o ratinho dentro do terrário e do lado de fora, todos, inclusive as meninas, passaram a torcer pela cobra. Fecha parênteses.

Já a luta entre animais da mesma espécies é menos aceita. Mas não por isso, quando a luta é intra-específica, acontece algo curioso: a ameaça é mais utilizada do que a agressão. Existe um ritual onde o mais fraco pode sempre dar sinal de conciliação, impedindo a agressão mortal do mais forte. Bem, parece que também existe uma contribuição, essa sim uma tendência genética, a um animal não gostar do sabor da carne de um companheiro da mesma espécie.

Mas o que determina qual o ponto da batalha onde se opta pela conciliação ou pela agressão mortal?

Quem melhor definiu isso foi um outro biólogo, brilhante, chamado Maynard Smith. Roberto Freire disse que “a maioria dos grandes criadores sinceros já sentiu e já comunicou essa sensação de estar sendo uma espécie de tradutor, de comunicador da linguagem do inconsciente coletivo que existe igualmente em todos nós, mas que eles especializaram em decifrar e comunicar. (…) Costumo dizer, com envergonhada honestidade ou com humilde paranóia, que todos os poemas de Fernando Pessoa são meus, como se ele apenas tivesse revelado em seus versos o que já estava pronto poeticamente em mim.” Maynard Smith colocou em teoria matemática o que eu já sabia há muito tempo, como bem já coloquei aqui no blog outras vezes: Não existe certo ou errado, apenas estratégias que sejam favoráveis em longo prazo. O nome que ele deu pra isso foi “Estratégia Evolutivas Estáveis (EEE)”, que podem ser avaliadas com base na “teoria dos jogos“.

Abre parênteses de novo: fiquei tão empolgado com o assunto que fiz uma coisa que meu amigo Edu faz muitas vezes, comprei a referência bibliográfica que o autor dá, pra começar a ler antes de terminar o primeiro livro. Tive que ir até a Amazon.com porque o “Evolution and the Game Theory” do Maynard Smith não tem no Brasil. Fecha parênteses.

Uma EEE é uma estratégia para qual não existe nenhuma outra “estratégia mutante” que possa dar mais sucesso. Funciona tanto no caso de uma partida de pôquer quanto para o sucesso reprodutivo. Não ficou claro o que é estratégia mutante? Ficou pensando nos X-men? Calma, acho que com o exemplo vai ficar mais claro.


Maynard ilustra sua teoria com dois personagens, que representam duas estratégias opostas de comportamento: O pombo e o gavião. Os gaviões lutam sempre, ferozmente, até que vençam ou sejam gravemente feridos. Os pombos lutam de forma ritualística, trocando ameaças até que um deles se canse e vá embora. Eles sempre se retiram antes do confronto.

Nenhuma dessas duas estratégias é uma EEE, pois um gavião sempre obteria mais sucesso reprodutivo em uma população de pombos e vice versa. Então qual é a melhor? Na verdade o melhor (e é o que acontece na natureza) é um equilíbrio entre as duas estratégias. Uma possível EEE seria que os animais da população apresentassem uma relação de 5:7 entre pombos e gaviões. Com a possibilidade de agressões ritualísticas inofensivas e agressões reais e mortais.

Mas é isso mesmo que a gente encontra na natureza? Esses são modelos simples que não incluem uma figura tipicamente carioca: O malandro! Aquele gavião que se finge de pombo pra atacar depois, ou o pombo que se finge de gavião e depois sai correndo.


Na verdade o próprio Maynard já havia descrito mais 3 estratégias além do gavião e o pombo: o atrevido, que se faz de gavião mas na verdade sai correndo como o pombo se o oponente é do tipo gavião; o retaliador, que se faz de pombo mas ataca como gavião se o oponente também o é; e o experimentador, que se comporta quase sempre como um retaliador, mas eventualmente pode começar atuando como gavião para testar a força do oponente.

O reino animal está cheio de exemplos que comprovam essas estratégias. Entre os humanos não é diferente. E ao que parece, somos até uma espécies pacífica (acho que quem escreveu isso não mora no Rio).

A teoria é tão bacana que até leva em conta a agressão não realizada nunca. Uma forma de guerra fria. O que conta para cada um dos opoentes é o tempo gasto durante a batalha. O tempo, com a gente bem sabe, é um bem precioso.

Em princípio, toda população vai ter um lutador de Jiu-Jitsu que se comporta como gavião (até encontrar um gavião com um “trêsoitão”). E sempre haverá um jovem que não sabe se defender, ou um animal doente, que se comportará como pombo. A questão é que nada disso está escrito nos seus genes. Ninguém nasce gavião ou pombo! Ou experimentador. Isso a gente aprende. Basta querer experimentar ser algo diferente do que a gente sempre foi.
Por isso, a não ser que você goste do gosto de sangue da mesma espécie, saber a hora de desistir e… abandonar a luta, ainda que você seja o mais forte, te devolve um bem muito precioso: seu tempo! Pena de quem não sabe reconhecer quem é da mesma espécie, e fica brigando até a morte à toa.

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