Biofísica para(didático) Biologia

Acesse o livro!

Ao longo dos últimos 10 anos, fui professor da disciplina Biofísica Geral para o curso de graduação em ciências biológicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tendo sido também aluno desse mesmo curso 20 anos atrás, eu acredito que possuo uma perspectiva única sobre ele, que me motivou a organizar um livro.

Há 20 anos não havia internet e nem redes sociais. Não havia telefones celulares e muito menos os smartphones e todas as possibilidades que eles oferecem hoje. Não havia o mesmo número de computadores nos domicílios brasileiros que existem hoje, as notícias circulavam em jornais impressos e ainda que a biblioteca da UFRJ se parecesse muito com o que é hoje, ela tinha um papel mais importante já que toda informação científica publicada em periódicos estava armazenada nas suas estantes e para descobrir o que havia de novo tínhamos de vasculhar guias como o Current Contents por artigos a partir de palavras chaves do título e resumo. Eu usei muito os leitores de microfilmes, onde podíamos buscar quais os periódicos, volumes e números estavam disponíveis em quais bibliotecas do Brasil. Havia umas poucas livrarias no Rio de Janeiro onde podíamos comprar livros importados, apenas em inglês, com as últimas novidades da ciência. Eram os últimos suspiros de uma era. Hoje tudo está diferente.

(…)

Estamos expostos diariamente a uma quantidade de informação proporcional ao conteúdo de 6 jornais. No entanto, nosso cérebro não pode armazenar mais informação do que armazenava antes. Sabemos sobre mais coisas, mas somos mais superficiais.

Esse volume todo de informação começou a estimular fortemente a pesquisa científica nas áreas da neurociência da cognição. Nunca se publicou tanto sobre emoções, memória, visão, audição e aprendizagem. Sabemos hoje mais sobre como aprendemos do que em nenhuma outra época. Ainda assim, nossos métodos de ensino e estudo permanecem os mesmos. Estamos preparando as novas gerações com métodos obsoletos para um mundo obsoleto. Enquanto a tecnologia avança e os computadores e robôs substituem os seres humanos em trabalhos braçais e repetitivos, temos uma necessidade crescente de mão de obra para trabalhos intelectuais, aquele que as máquinas (ainda?) não podem nos substituir.

A criatividade, no entanto, ainda que seja uma habilidade inata dos seres humanos, uma propriedade emergente do nosso cérebro complexo, como a nossa consciência, depende fortemente do nosso conhecimento das coisas. Para criarmos inovação, nos baseamos naquilo que já sabemos, naquilo que temos em nossas cabeças, em nossa memória de longa duração e não aquilo que temos armazenado nas nossas estantes de livros, pendrives ou nos HDs virtuais da Google e da Amazon.

(…)

Vivemos em um mundo de caos. Nosso papel não é resistir a ele, mas sim abraçá-lo. Nesse novo mundo, não há mais espaço para o professor da minha época. E nem para o aluno que eu fui.

O professor há 20 anos era o único que dominava o conteúdo. Fora os anos de experiência, era o único que oportunidade de uma vez ao ano ir a um congresso no exterior, comprar livros atualizados e preparar aulas com as últimas informações disponíveis sobre determinado assunto. Se o aluno nas aulas se dedicasse a prestar atenção, teria a oportunidade única de ser exposto a um conteúdo que, de outra maneira, seria praticamente impossível de acessar. Mas hoje tudo está acessível ao toque dos dedos, em diferentes mídias, linguagens, línguas. Tanto que é difícil decidir qual informação é a mais viável ou correta. O aluno não pode mais confiar plenamente no professor como fonte porque não há como o professor estar atualizado. O aluno tem que decidir por si só em quem confiar e para isso, mais do que interesse e atenção, vai precisar de organização e autonomia. Nesse mundo, o papel do professor é ensinar o aluno a ter critério é selecionar a informação mais importante.

(…)

Ao longo desses 10 anos, ficou claro que os alunos chegam ao 4º período do curso de biologia sem ter uma ideia clara do que seja biofísica. É possível que a biofísica tenha sido a primeira, talvez após a bioquímica, das ciências que foram formadas pela união de duas outras categorias mais básicas. Hoje temos a bioinformática, bioengenharia, bioeconomia… Mas como decidir o conteúdo para ser colocado em um período limitado de tempo e espaço?

É o momento no qual cabe ao professor fazer escolhas e assumir compromissos.

Foi o que fizemos nesse livro, criando uma nova ementa, da maneira que explicamos no texto de abertura. Esperamos que, mais do que ‘o que é biofísica’, você aprenda sobre como devemos estudar e aprender nesse admirável mundo novo.

O livro foi feito com a colaboração de muitas pessoas, inclusive da turma do Scienceblogs, edição da Numina Labs e apoio da FAPERJ.  Acesse preferencialmente de dispositivos móveis conectados a internet.

O que são ‘órbitas’? O que são ‘elípticas’? O que são ‘planetas’?

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(Professor – “Como vocês podem ver, a órbita de um planeta é elíptica”. Aluno #1 – O que é uma órbita?; Aluno #2 – O que é um planeta?; Aluno #3 – O que é elíptica?. Retirado do livro “Good practice in science teaching: what research has to say’ de Jonathan Osborne e Justin Dillon)

Assisti Jonathan Osborne na Academia Brasileira de Ciências em novembro de 2013 no simpósio ‘Educação Científica: um desafio para a sociedade’ falando sobre a importância e os desafio do ensino de ciências. No ano passado tive o privilégio de conversar com ele em sua sala na Universidade de Stanford sobre o que motiva os alunos: “Mauro, as pessoas buscam duas coisas: Felicidade e Significado. Em geral, quanto mais temos de uma, menos temos da outra.”

Isso por sí só já tornaria qualquer empreitada de ensino um desafio gigantesco para um professor em uma sala de aula com 60 alunos.

Mas não para por aí. Na palestra de 2013, ele mostrou a grande diferença entre o que os professores ensinam e o que os alunos querem aprender, e que isso também varia de meninos para meninas. Em seu livro ‘Good practice in science teaching: what research has to say’ (Boas práticas no ensino de ciências: o que a pesquisa tem a dizer) ele mostra quais são os 5 principais tópicos que os alunos querem aprender:

  • Meninos
    • Produtos químicos explosivos
    • Como se sente ao ficar sem peso no espaço
    • Como funcionam as bombas atômicas
    • Armas químicas e biológicas e o que eles fazem com o corpo humano
    • Os buracos negros, supernovas e outros objetos espetaculares no espaço exterior
  • Meninas
    • Por que nós sonhamos quando estamos dormindo e o que os sonhos podem significar
    • Câncer – o que sabemos e como podemos tratá-lo
    • Como realizar os primeiros socorros e uso básico de equipamento médico
    • Como exercitar o corpo para mante-lo forte e em forma
    • Doenças sexualmente transmissíveis e como se proteger contra elas

Em um mundo perfeito, esses seriam os desafios de um professor de ciências. No mundo real, no entanto, temos outros problemas. O principal deles, que os alunos chegam até a universidade com grandes diferenças entre o que sabem e o que deveriam saber. É de se esperar que essa diferença tenha aumentado com as cotas, mas ela já existia antes delas.

Em uma enquete simples que realizei com alunos do 4o período do curso de Biologia da UFRJ prestes a cursar a disciplina de biofísica, os resultados foram muito esclarecedores e mostram o enorme desafio dos professores, não só no dia a dia na sala de aula, como na discussão de um curriculo base (até mesmo sobre a ‘possibilidade’ de um currículo base). A enquete tinha 3 perguntas objetivas:

“Enuncie 3 coisas que você ACREDITA que PRECISA saber para aprender BIOFÍSICA e que você JÁ SABE?”
“Enuncie 3 coisas que você ACREDITA que PRECISA saber para aprender BIOFÍSICA e que você NÃO SABE?”
“Enuncie 3 coisas que você GOSTARIA DE APRENDER em BIOFÍSICA?”

A primeira coisa que aparece na enquete é a dificuldade dos alunos se expressarem. São perguntas objetivas e ainda assim, grande parte deles deu respostas vagas (artigo da sonia no bioletim). Na primeira pergunta, ‘o que você já sabe’, as respostas que mais apareceram foram “Física Básica” (27), “Biologia Básica” (24) e “química básica” (13) . A quarta foi: “Não sei” (12).

Não precisamos entrar no mérito da discussão do significado de ‘básico’ e o que eles quiseram dizer com isso, porque, logo depois, na pergunta ‘o que precisa saber mas não sabe’, eles responderam: “Física avançada”, “Biologia avançada” e “Química avançada”. As vezes ‘mais física’ e ‘mais química’. Ainda que as palavras sejam vagas, o contra-ponto sugere que eles tem critério o suficiente para saber que o seu conhecimento do assunto é insuficiente. Isso deveria ser um grande motivador para a aprendizagem, mas como essa atitude não aparece em sala de aula, o que será que está errado?

De 130 conceitos que os alunos listaram (veja tabela em anexo), 87 deles já deveriam ser do conhecimento dos alunos. De todos eles! Seja do ensino médio como de outros dos primeiros períodos de biologia. No entanto, pelo menos uma pessoa afirma não saber pelo menos 63 desses conceitos. Só que 53 deles são conceitos de importância fundamental! Que precisam saber! Sem esses conceitos, até a comunicação em sala de aula fica prejudicada (como mostra a charge acima). Um exemplo da enquete deixou isso claro. A Cinesiologia é o estudo do movimento animal (humanos incluídos). Ainda que 13 pessoas tenham falado do seu interesse em aprender sobre “como nos movimentamos” ou “como se movimentam os animais”, nenhuma tinha o termo preciso com o significado correto no seu vocabulário.

Outro exemplo, ainda mais sério – Uma pessoa responde no que SABE: “apenas um pouco de biologia”. No que NÃO SABE: “física, química e como a física afeta das funções dos seres vivos” e no que GOSTARIA DE APRENDER: “mecânica animal; como funciona o cérebro e pensamento multidisciplinar para que meus conhecimentos se completem”. Vejam que essa pessoa ‘sabe’ que sabe menos do que precisa saber, ‘sabe’ que não sabe coisas importantes e ‘sabe’ que coisas,  importantes ou interessantes, tem curiosidade de aprender. Mas não parece saber que, sem o básico, ela não pode relacionar e conteúdos, que é a principal ferramenta para o aprendizado, e completar seus conhecimentos.

Dos 71 conceitos que eles que querem saber, 32 eu considerei ‘interessantes’ e tem um maior potencial para despertar a atenção do aluno em sala de aula e para permitir diferentes abordagens de ensino ao professor. No entanto, 7 não tinham a ver com biofísica. Dos 20 conceitos que marquei como ‘fundamentais’ e que tiveram interesse manifestado dos alunos, 2 não tinham a ver com biofísica.

Uma análise mais cuidadosa das respostas fala muito sobre o público na sala de aula: temos sempre alguns engraçadinhos (JÁ SEI: “Que as rãs pulam”), os que tem conceitos equivocados (JÁ SEI: “Que a luz é a transmissão de elétrons”) e os que não dá pra entender (QUERO SABER: “Interdependência das coisas que permite a existência” -?!?). Sempre tem aqueles que não querem pensar: seja porque respondem o óbvio (NÃO SEI: “Biofísica” – que é justamente o que vão aprender), porque copiaram suas respostas de outras pessoas, ou porque repetiram coisas que eu mesmo havia falado antes de passar a enquete (como a diferença entre sentir e perceber). Temos sempre os pretensiosos (JÁ SEI: “origem da vida”, “Origem do universo”) e os mais ambiciosos (QUERO SABER: “Por que tudo existe?”, “Com funciona o universo?”). Até “Se Deus existe?” os alunos queriam saber.

Uma pessoa perguntou: “Como é possível os organismos possuírem uma programação que define o que fazem?” É muito preocupante que essa pergunta apareça no 4o período de biologia, já que o conhecimento da resposta, o DNA, deveria ser a razão que leva uma pessoa ao curso. Talvez o desconhecimento da ‘biologia’ pelos alunos de biologia explique o enorme percentual de evangélicos, que negam a teoria da evolução, o principal pilar da biologia, nas salas de aula desse curso.

Fiquei feliz ao ver que muitos alunos queriam saber como diferentes coisas FUNCIONAM (30). Richard Feynman dizia que “o que não podemos criar, não podemos entender”. Por isso, entender o funcionamento é fundamental para podermos criar novas coisas, que é o que o século XXI precisa que nossos cientistas façam. Outros queriam verificar SE (5) algumas premissas eram verdadeiras e outros queriam saber o por quê (5) de coisas.

Também fiquei feliz ao ver que alguns alunos queriam aprender a ‘pensar’ melhor: pensar com mais eficiência, pensar sobre o que não sabe, pensar de maneira multidisciplinar.

Finalmente, não pude deixar de perceber que os conceitos que alguns alunos dizem não saber ou querer saber, são dominados por outros. Mesmo quando são conceitos fundamentais e algumas vezes difíceis, como ‘termodinâmica’ (7 sabem, 12 não sabem e 9 querem aprender). Essa é a chave para resolver o problema da apatia na sala de aula, mas vou deixar para concluir abaixo, no final do texto.

Antes de terminar, me permitam enunciar algumas das curiosidades que os alunos querem saciar:

  • Como a borracha apaga o lápis?
  • Como funciona o cérebro apaixonado? (dá uma aula incrível sobre química a anatomia do cérebro)
  • Como é feito leite em pó?
  • Como uma árvore constata seu tamanho exato para o equilíbrio?
  • O que é o De ja vu? (dá uma aula bacana de percepção, memória, atenção e como nossos sentidos nos enganam)
  • Deus existe? (Não é uma questão científica)
  • Sobre Fenomenos sobrenarurais? (Não é uma questão científica, mas dá pra falar um monte de coisas sobre estatística e método científico)
  • Sobre a Física no dia a dia do biólogo
  • O que são as Marés?
  • O que é preciso para entender uns aos outros? (se alguém soubesse…)
  • Qual a Origem de tudo? (se alguém soubesse…)
  • Por que a Terra é o único planeta com H2O líquida? (Não é!)
  • Por que a voz soa diferente no gravador?
  • Por que raio X não imprimi papel?
  • Como tudo acontece? (se alguém soubesse…)
  • O que leva a tudo isso?  (se alguém soubesse…)
  • Por que existem coisas? (se alguém soubesse…)
  • Como funciona o Telefone Celular?
  • O Teletransporte é possível?
  • Questões relacionadas a ‘Vida’ que eu agrupei em: definição, componentes, origem, funcionamento, relação com universo.

Cheguei a e conclusões:

  1. Precisamos, PRECISAMOS, fazer palestras sobre o Instituto de Biofísica na Biologia e nos outros Institutos da UFRJ. Até chegarem ao 4o período, nenhum aluno tem, sequer, uma vaga idéia do que seja a Biofísica.
  2. Direcionar o curriculo para cobrir lacunas ou diferenças no conhecimento dos alunos, é impossível, porque são muito diferentes e os temas em que são diferentes variam de ano a ano. Não é novidade que existem mais temas para serem tratados em biofísica do que tempo para tratar deles e por isso é preciso estabelecer quais são os conceitos fundamentais, que os alunos precisam saber para que possam depreender o maior número possível de novos conceitos, o que permitirá a eles aprenderem novos conceitos (e responderem as perguntas especificas de interesse geral ou individual). É preciso determinar quais são os conceitos básicos que eles precisam saber (e saber corretamente) ANTES de iniciar o curso, sem os quais a aprendizagem será praticamente impossível.
  3. É fundamental, para aumentar a eficiência do processo de ensino e aprendizagem, que o professor, em sala de aula, envolva os alunos que JÁ SABEM conceitos fundamentais ou interessantes no ensino dos que ainda não sabem esses conceitos (veja De muitos para muitos). E, fora da sala de aula, que disponibilize conteúdo original ou ‘não-formatado’ para que os alunos possam preencher as lacunas de conhecimento básico que trazem consigo.

Onde estão os alunos? Para onde vão os alunos?

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Assim estava a minha sala de aula ontem, mais de 30 minutos depois do horário do início dos trabalhos.

Me senti como Dan Ariely no video abaixo (não precisa assistir o video todo – propaganda do curso dele no coursera – que é sensacional, diga-se de passagem – so o início já ilustra o meu ponto). A diferença é que… no meu caso… eles nem online estavam. O semestre vai terminar e ainda tenho alunos reclamando que não conseguiram se inscrever no site da disciplina. Se fosse o facebook…

Essa foto não é uma exceção… ao longo de todo o semestre, já há alguns anos, os alunos em sala de aula vão diminuindo. Eu já falei sobre o porquê em diversos textos no blog (veja “De muitos para muitos”).

Mas estou dessa vez não fiquei só irritado. Fiquei preocupado mesmo. Tinha acabado de voltar do evento ‘Educação Científica – Um desafio para a sociedade’, onde assisti uma palestra incrível de Jonathan Osborne, professor da Universidade de Stanford, que mostrou dados alarmantes sobre a diferença entre ‘o que’ e ‘como’ os alunos querem aprender, e ‘o que’ e ‘como’ os professores estão ensinando.

Mas é sinistro! NADA é capaz de mobilizar esses jovens. Tá bom… nada é exagero… Não temos recursos espetaculares (só tenho internet na sala de aula se levar meu cabo de rede e se for no subsolo… nem pensar), mas o problema vai além disso. Depois de anos e anos e anos de ensino equivocado (tudo bem, a gente não sabia o quanto equivocado era o ensino, mas já tem alguns anos que sabemos), agora temos uma geração que, mesmo se dermos as oportunidades, novas formas de ensino… eles não conseguem abandonar a indiferença com relação a formação deles.

Algo do tipo “já que eu não vou aprender nada mesmo… então não vou nem tentar mais”. 

Ouvi dizer que há uns anos, jovens americanos estavam com essa atitude com relação a AIDS. “Há, se todo mundo diz que um dia a gente vai ter mesmo, então um dia a mais ou a menos não vai fazer diferença e vou transar agora sem camisinha”. É por isso que eu não gosto de abordagens alarmistas para combater desinformação e descompromisso: você arrisca criar indiferença.

Os alunos aceitaram o pacto pela mediocridade que reina na universidade, na educação brasileira, hoje. Professores completamente desmotivados ‘acham’ que ensinam enquanto os estudantes desmotivados e indiferentes fingem que aprendem. Uma catástrofe que marcará o nosso país por gerações!

Vejam esse vídeo (agora sim, até o final, juro que vale a pena), que é muito bem chamado de ‘Ignorância Plural’. Os alunos ouvem por vários minutos, sem saber, um texto produzido pelo computador para soar corretamente mas NÃO fazer SENTIDO ALGUM. E ninguém, ninguém se manifesta.

 

Não me contive, dei um esporro.

“O transito…”, “O bandejão cheio…”, “minha mãe tá doente…” todos tinham uma justificativa. Mas quando for o dia da entrevista para entrar na pós-graduação, ou para seleção de uma vaga de emprego, nenhuma dessas explicações servirá de explicação.

Enquanto explicava que a principal diferença entre nós e os outros animais é que conseguíamos pensar não apenas em recompensas imediatas, com os cães que farejam qualquer coisa por um biscoito e os golfinhos que fazem piruetas por sardinhas, mas conseguíamos ludibriar, com muita abstração, os nossos instintos primários de recompensas imediatas (jogar videogame, ficar no telefone brincando no FB, bater papo) com o valor das recompensas a longo prazo (ser incluído sócio-economicamente na sociedade).

Mas parece que a única coisa que eles aprenderam foi o conselho de David Dobel, personagem de Woody Allen no Filme ‘Anything Else’: “Ao longo da sua vida Falk, não faltarão pessoas pra te dizer como viver. Elas terão todas as respostas, o que você deve fazer, o que você não deve fazer. Não discuta com elas. Diga ‘Sim, brilhante, brilhante idéia”, e, em seguida, faça o que você quiser.”

E eles não querem fazer nada!

Sim, as aulas podem ser melhores, os cursos podem ser melhores. Mas como ouvi a psicóloga Rosely Sayão falar: sem disciplina, foco e trabalho, não há aprendizagem!

É triste, mas estes já estão perdidos. Como é que vamos salvar a próxima geração?

Broadcast yourself or die!

Será que é possível, atualmente, dar uma disciplina na universidade sem que os alunos morram de tédio e  o professor de desgosto? E ainda mais, que os alunos estudem, trabalhem em grupo e sejam criativos? E ainda mais, que o material didático seja de qualidade, disponível na internet e acessível a todo mundo?

Parece sonho, mas com um pouco de disposição, muita coragem e o apoio do meu amigo e coordenador de graduação Marcelo Einicker, conseguímos fazer exatamente isso na disciplina de Biofísica da graduação em Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Apesar da apatia que sempre reinou, mesmo com meus esforços mais hercúleos, eu sempre soube que meus alunos (porque eu fui um deles anos atrás) tinham potencial (veja aqui a resposta sensacional a uma questão de prova criativa, postada por um aluno há dois semestres). Mas foi só quando eu vi o vídeo do Piruvato, feito por um ex-aluno meu, que eu percebi que estava apontando eles na direção errada. Discuti isso em um post no início do semestre e propús aos meus alunos a mudança do rumo do navio, mesmo com ele em curso.

invertemos tudo: as provas foram publicadas na internet e a cada semana uma das questões era discutida em sala de aula. Os alunos tinham até as 22h do dia anterior a aula para postarem na internet, no site da disciplina baseado em MOODLE, conceitos, idéias e materiais multimídia que pudessem auxiliar na construção da resposta em sala de aula no dia seguinte. A nota… era baseada simplesmente na presença em sala de aula durante a discussão da resposta: postou argumentos no site e estava presente durante a aula, ganhou o ponto!

A lista de chamada… uma foto da turma tirada com o celular. Começaram a sair de sala? Dormiram? Outra foto. Como eu já discuti aqui, quem não consegue disposição para estar 2h por semana na minha sala de aula lépido e faceiro, não merece educação pública de qualidade e gratúita. Mas todo mundo queria ‘sair bem na foto’ e, e eu tive a maior frequencia em sala de aula desde 1849.

É claro que ainda tinha gente que não ia, que só assinava a chamada e escapava, que só ficava pra foto… que comia, que dormia, que namorava… Mas tinha um monte de gente trazendo conteúdo, tirando dúvidas, perguntando, explicando.  E transformarmos aquele momento que era frustrante para todo mundo, a aula presencial, em ‘um momento de qualidade’.

Mas o ponto máximo foi a aula de hoje, quando eles apresentaram seus “Projetos Artístico Científicos Culturais Criativo Educacionais”. No início do curso, eles receberam uma tarefa, que seria a principal nota do curso: Produzir um material didático alternativo, que pudesse ser disponibilizado na internet para todo mundo, que ensinasse um (qualquer um) tema ou aspecto da biofísica. O material deveria:

  • Ser publicado na internet (videos no youtube, textos em blog) com uma licença creative commons (utilizado, copiado e distribuido gratuitamente)
  • Videos não poderiam ter mais de 10 min. Os blogs não poderiam ter menos de 20 textos e cada texto não poderia ter mais de 500 palavras. Foto novelas e histórias em quadrinhos também eram permitidas.
  • O material poderia, deveria, ser engraçado, irreverente, bonito, provocante, surpreendente, sensual, criativo… mas como isso tudo é difícil de avaliar, o critério objetivo era: tinha que ensinar biofísica. E tinha que ter ensinado biofísica a quem tivesse preparado o material.

Ninguém estava acostumado a fazer isso, e ninguém deveria nascer produtor de cinema. Por isso, as idéias foram transformadas storyboards, os storyboards discutidos e transformados em roteiros, os roteiros discutidos e finalizados. Depois ensaiados, gravados, editados, finalizados e ‘subidos’ para a rede.

O resultado foi surpreendente. Todos cumpriram as instruções e levaram nota máxima (e ganharam livros “A Verdade Sobre Cães e Gatos“. Os vídeos estão na página da disciplina no Facebook. Vale a pena conferir!

Certamente existem outras soluções para o problema da apatia na sala de aula, mas posso dizer que fiquei muito satisfeito com essa. Estamos no caminho certo: Broadcast yourself or die!

 

O ritmo contagiante do Kuduro conquistou a todos. A letra dessa versão é brilhante: correta, inteligente, divertida… Notem os pequenos detalhes como a transferência dos ‘elétrons’ bolinha, a rotação da bomba de prótons e a distribuição dos ATPs. Mas quando Francisca Paiva entra em cena como ‘energia luminosa’… ninguém consegue se segura e as palmas explodem no salão!

Engraçadíssimo… Os ancoras Arthur Santana e Bruna Maria… a ‘contra-rega’ Camila Puga… o professor Pedro Feio… E claro… os sensacionais Poraquês! Dr. Chagas ficaria encantado com o vídeo.

Muito boa a mistura de Escolinha do Professor Raimundo, Chaves e Casseta & Planeta. Destaque para Isabela Espasandin fazendo a “Loira Burra” morena, carioca e inteligente. E para os malucos diversos do Interbio 2012. Ficou ótimo o efeito de ‘película’ na imagem. Tratamento professional!

Outro grupo criou o blog Teorias do Envelhecimento para discutir e explicar as teorias sobre o envelhecimento. Os textos são ótimos! Stevens Kastrup Rehen iria adorar! Tomara que eles continuem publicando.

Os personagens no estilo South Park são caricaturas dos alunos do grupo. A platéia não resiste e bate palmas no ritmo do refrão “onda, onda, olha onda – clap, clap”

Caras e caretas viram um alerta sobre os sintomas e problemas da contaminação por mercúrio em uma rodinha de violão.

A ecolocalização explicadinha. Chamar Batman e Aquaman para explicar o fenômeno comum em golfinhos e morcegos foi uma excelente idéia. Os personagens de massa de modelar ficaram ótimos!

O projeto foi feito para ajudar os alunos do vestibular comunitário da UFRJ e o destaque é a trilha sonora de Fernando Tuna.

Cerveja, Piruvato e novidades na sala de aula

Dia 17 de março foi dia de São Patrício (St. Patrick). Eu não saberia disso se não estivesse fora do Brasil, porque aqui não se comemora tanto o dia do padroeiro da Irlanda. E porque se comemoraria? Bom, porque a festa do padroeiro da Irlanda acabou virando a festa da Cerveja, o produto mais associado aos irlandeses, e os brasileiros também adoram cerveja. Mas acho que o carnaval e a Oktoberfest (a nossa é a segunda maior do mundo e a segunda maior festa brasileira – não religiosa – depois do carnaval) já cumprem esse papel.

E o que isso tem a ver com biologia além do fato dos biólogos adorarem cerveja? A cerveja é um ótimo assunto para ensino e divulgação científica. Um dos meus primeiros textos foi sobre o consumo do álcool e mais recentemente escrevi sobre a toxicologia do álcool e o interesse que esse assunto desperta nos alunos. E chamou a minha atenção o vídeo feito por um biólogo sobre a biologia da cerveja:

Não é um barato?! Para fazer esse vídeo eu tenho certeza que ele aprendeu muito mais do que se estudasse para qualquer prova. Também tenho certeza que muitos alunos, ou apenas beberrões curiosos, aprenderam (e aprendem) mais com ele do que com qualquer livro didático. E contribui para isso o fato de ser um vídeo e de estar no youtube, onde as pessoas podem acessar de qualquer lugar e quantas vezes quiserem.

Fiquei me perguntado porque não temos alunos assim: criativos, divertidos, dedicados, interessados e inovadores? Ops! Mas peraê… nós temos sim!!!

O video abaixo sobre a via glicolítica foi feito por alunos da UFRJ e é um sucesso na internet:

Ainda que algumas pessoas possam questionar o bom gosto dos produtores, o ‘Piruvato’ é sensacional! Esse vídeo, essa música, deveriam ganhar prêmios! Eu queria dar um premio pra esses caras.

Ops, mas peraê de novo. Eu conheço esses caras! Eu conheço essa sala de aula! São os meus alunos, é a minha sala de aula. Esses rapazes e moças passaram pela minha disciplina sem nenhum brilho, sem nenhuma iniciativa. Provavelmente sem presença também. Por que será que esse interesse não se manifesta no dia-a-dia da sala de aula?

Porque, vamos combinar, a aula é muito chata! A escola é chata e a universidade é chata também. Não é (quase sempre) culpa de ninguém, é o fato da escola não ter acompanhado as mudanças tecnológicas da sociedade nos últimos 100 anos, como diz Seymour Papert.

“Alguns setores da atividade humana, como a medicina, os transportes e as comunicações, foram transformados drasticamente, a ponto de não reconhecermos, durante o século XX. Comparadas com essas mega mudanças, as práticas da escola permaneceram virtualmente estáticas. Isso se deve a aprendizagem não ser suscetível a mudanças? ou a tecnologia apropriada ainda não ter aparecido?”

Por melhor professor que eu seja – e eu sei que sou – não tem como a minha aula, nos moldes em que se espera que eu dê aula, possa competir com os estímulos do mundo moderno. Eu sou a favor de fazer um monte de coisas super legais em sala de aula, mas como fazer isso se temos que passar conteúdo para os alunos?

A relação com o conteúdo tem que mudar. Tem, pelo menos, que mudar o ‘momento’ de passar o conteúdo. Não pode ser mais a sala de aula. A aula tem que ser pra discutir as respostas dos alunos com eles. REspostas que eles encontraram no youtube, no google, no facebook. Que conversaram entre si, que perguntaram pra alguém ou ouviram falar no jornal, na TV, pixado em um muro. Que ouviram no video engraçado do ‘Piruvato entra e sai’.

Fora umas pouquíssimas iniciativas isoladas, como a escola do Oi Futuro da qual a Samara Werner fala aqui, o professor é obrigado, ou só sabe, ou só tem instrumentos, para dar uma aula chata. É obrigado a cobrar dos alunos uma performance chata e tem de se contentar com um resultado medíocre. Todos restam decepcionados. Mas será que tem de ser assim?

Ahh… eu vou mudar isso. Vou mudar isso a partir de agora. A partir de hoje.

Quatro apoios

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“Cada descoberta e cada invenção levam a transferência de poder e a mudança de hábitos, portanto a medo, desconfiança, resistência e atraso.” diz o sociólogo italiano Domenico de Masi.
O artigo Raízes do atraso brasileiro do professor Wanderley de Souza no jornal O Globo de ontem (15/08/2001) procura mostrar os obstáculos para se fazer inovação no Brasil, mas, na minha opinião, deixa de mencionar um problema fundamental, um conflito conhecido na vida de todas as pessoas, mas velado na ciência brasileira: o choque de gerações.
Apesar de velado, esse conflito é antigo.
“O principal papel do instituto (de Biofísica da UFRJ) foi o de mobilizar apoios, governamentais e não-govemamentais, vencer resistências internas e externas dentro do espaço em que deveria legitimar-se e sobretudo, por intermédio de seu fundador, o professor Carlos Chagas Filho, criar categorias que hoje constituem tradições da ciência brasileira, mas que nem sempre estiveram ali.”

Esse depoimento foi dado pelo professor Paulo Góes Filho na abertura da autobiografia do professor Carlos Chagas Filho, fundador do Instituto de Biofísica da UFRJ, a primeira instituição universitária a fazer pesquisa científica. O livro se chama Um aprendiz da ciência.
“(…) tendo sido Raul Leitão da Cunha nomeado ministro da Educação e Saúde, chamou-me ao seu gabinete para me perguntar o que eu achava que deveria ser feito por nossa universidade. Respondi-lhe que a primeira coisa seria o estabelecimento do tempo integral, particularmente para as cátedras fundamentais. A seguir, propus a ele que se organizassem institutos de ensino e pesquisa nas várias disciplinas básicas. Era este um assunto que eu havia discutido com professores da Universidade de São Paulo, sendo que, na ocasião, fui uma minoria esmagada. Leitão da Cunha perguntou-me quais os institutos que deviam ser criados imediatamente. Física, química e matemática seriam os primeiros, com a responsabilidade de neles se ministrar o ensino dessas matérias para todos os cursos da universidade. (…) [e depois] Criar o Instituto de Biofísica, que teria função de implantar a pesquisa na Faculdade de Medicina e trazer para o nosso meio os métodos físicos que despontaram nos centros maiores depois da Segunda Guerra Mundial, e o desenvolvimento dos métodos eletrônicos.Leitão da Cunha aquiesceu imediatamente”
O livro do professor Chagas é uma fonte de sabedoria. E muitas vezes, quando o presente é incerto, muitas vezes é bom voltar a fonte, aos princípios básicos das coisas, porque com passar dos anos, as histórias chegam a nós um pouco distorcidas.
O tempo entre a posse do professor Chagas Filho como catedrático de Física Biológica na faculdade de Medicina da então Universidade do Brasil em 23 de novembro de 1937 e a fundação do Instituto de Biofísica em 17 de dezembro de 1945 (oito anos depois) dão uma idéia da resistência encontrada para as idéias de Chagas Filho. Até mesmo pelo próprio Leitão da Cunha, que era o responsável pelo curso de anatomia patológica e foi o primeiro chefe de Carlos Chagas Filho na universidade, quando este dava aulas de hematologia 3 vezes por semana, em 1934.
“O jovem professor está consciente de que é o único voto contra?” perguntou Leitão da Cunha a Carlos Chagas Filho ao final de uma sessão da congregação quando todos os professores pleiteavam por benefícios. Chagas os intitulava de os “Barões da Faculdade de Medicina”.
“Evandro passou-me vários telegramas para Paris, onde eu me encontrava, só tendo desistido do seu intento de não entregar o meu pedido (de demissão de Manguinhos) depois de uma longa conversa telefônica em que eu lhe expus a minha firme decisão de assumir a cadeira na faculdade. Impeliam-me nesse sentido, entre outros, dois motivos principais: a possibilidade de discutir com alunos a matéria ao meu encargo e, principalmente, a intenção de implantar a pesquisa fundamental na universidade, segundo o modelo de atividade que aprendera no Instituto Oswaldo Cruz.”
Vejam que enquanto encontrava resistência para estabelecer a atividade científica na Faculdade de Medicina, encontrava também resistência para exercer a atividade didática vinda de Manguinhos, principalmente de seu irmão, Evandro Chagas:
“A razão principal dessa oposição é que não se poderia jamais pesquisar na universidade e que eu me esterilizaria no Simples exercício de atividades didáticas.”
Hoje, “Ensino, Pesquisa e extensão” são o tripé que sustenta a universidade como instituição, de forma que é quase inimaginável pensar que um dia já estiveram separadas.
Por isso a minha estranheza quando vejo o professor Wanderley de Souza, titular do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, onde eu também tenho o privilégio de exercer a atividade de professor e pesquisador, protestar contra a realização da inovação na universidade.
“Em todos os países, a produção de patentes resulta da atividade de pesquisa, desenvolvimento e inovação praticada nas empresas. A título de exemplo, cabe mencionar que apenas 4% das patentes depositadas nos EUA são provenientes de suas universidades. (…) o Sistema Brasileiro de Ciência e Tecnologia foi montado ao longo de vários anos para dar apoio à pesquisa básica, e o fez com sucesso. Este sistema não foi e não se encontra preparado para lidar com o setor empresarial.”
Corretíssimo em suas duas afirmações, Wanderley discorda da política do governo, que através de movimentos como a ‘Lei do Bem’ e ‘Lei da Inovação’, estimulam a universidade a comandar, ou encabeçar, a inovação no país.
A questão,para nós, é que se nos EUA pode ser daquele jeito, aqui não. A política econômica dos últimos 20 anos, assim como a cultura trabalhista brasileira, nunca estimularam o empreendedorismo. Ainda hoje, um aluno de qualquer disciplina tem de procurar um MBA depois de se formar, porque são raríssimos os cursos (fora dos currículos de economia e administração) que ensinem a preparar um plano de negócios. O resultado é que não há como exigir de uma indústria intermediária inexistente que lidere a marcha pela inovação. A ‘inteligenzia‘ brasileira, aquela capaz de interpretar e aplicar o conhecimento científico produzido no Brasil e no mundo está na universidade. Foi criada e é mantida pela sociedade brasileira. E é por esses motivos, entre outros, que ela precisa liderar movimento pela inovação e empreendedorismo no país.
É claro que precisamos rever nossa lei de patentes. Assim como nossa política econômica de juros altos e nossa cultura social de funcionalismo público. Mas também deveríamos rever nosso modelo de ciência e tecnologia, baseado no paradigma da ciência básica e ciência aplicada do pós-guerra, para uma abordagem mais moderna que, curiosamente, remete a atividade de aplicação de ciência de Louis Paster no Séc XIX, onde a busca de soluções para problemas aplicados leva ao desenvolvimento de fundamentos da ciência. Uma história muito bem contada no livro ‘O Quadrante Pasteur‘.
Esta na hora da universidade evoluir e se apoiar em um quadripé de “ensino, pesquisa, extensão e inovação”. Mas não acredito que essa mudança convenha ou interesse aos ‘Barões da Ciência’ do Brasil de hoje.

Diário de um biólogo – Quarta, 23/03/2011 – Igreja

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Me pegou de surpresa. Eu não esperava. Não tamanha cara de pau. Não ali, na sala de aula, na MINHA sala de aula.
Primeiro dia, turma nova do curso de Biofísica para Biologia, pelo qual eu tenho enorme afeição e que fiz questão de remodelar e renovar assim que assumi a coordenação. Passo duas horas tentando entreter, com cuspe e giz, uma moçada que está acostumada com iPhone e Facebook, cinema 3D e videogame. Passo duas horas intercalando histórias engraçadas do James Watson, que foi para a Inglaterra porque era tão feio e chato que não consegui arrumar namorada nos EUA (e tinham dito pra ele que lá era mais fácil, mas nem assim ele se deu bem) e acabou descobrindo a dupla-hélice do DNA; contando o esforço de caras como Schrödinger, para mostrar, como já discuti aqui, que ainda que não possamos explicar a vida com o conhecimento que possuímos hoje, não há nenhuma razão para não acreditar que ela não possa ser explicada pela física e pela química. Falo de astrobiologia, cito os filósofos gregos e as últimas teorias sobre a auto-consciência da neurobiologia. Discuto a dificuldade, como já falei aqui e aqui, para definir vida, já que o melhor que podemos fazer é enunciar seus atributos.
Termino a aula com a garganta arranhada, mas com a sala cheia e o sentimento do dever cumprido. E quando um aluno pede aos colegas que não saiam e me pede para falar, eu não poderia imaginar o que vinha pela frente. Achei que ele ia anunciar uma festa, ou o grupo de estudo para a prova de bioquímica. Que nada, ele deve ter ficado ali, fora do meu campo visual, sentado na 1a carteira da primeira fila da esquerda, para que eu não conseguisse ver suas expressões ao longo da aula. Subiu no tablado, o MEU tablado, e mandou:
“Eu tenho uma definição para a vida”
e sacou o celular para ler
“João, capítulo 14, versículo 1: Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.
E ainda me agradeceu pela oportunidade. Mas que cara de pau!
E, como professor, o máximo que pude fazer, foi voltar e falar novamente sobre o método científico e tentar minimizar o dano. Mas que já estava feito, porque o cara foi preciso, cirúrgico. Entrou no momento certo, no final, quando podia falar o que quisesse e se mandar. Fiquei pensando se na escola de pastores eles ensinam essas coisas.
Não dá pra baixar a guarda com eles, nunca. Mas na minha igreja, não!

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