Jesus e a ciência da arte da restauração de Afrescos

“A maior parte das pessoas, quando vê uma representação qualquer pintada em uma parede, chama de ‘Affresco‘. Uma pintura na parede, a óleo, tempera, acrílica ou cera, é somente um mural. ‘Affresco‘ é oooooutra coisa”

 

Minha querida amiga Francesca Radiciotti é restauradora. A visita que fiz ao canteiro de obras de uma igreja na pequena vila de Sermoneta na Lazio em 2010, além de uma tarde agradabilíssima (me dá água na boca só de lembrar do Carpaccio de Buffalla com Azeite de Oliva de primeira prensada) foi uma aula de história da arte.

“A técnica dos afrescos é antiquíssima, nascendo na Itália com os afrescos romanos, e terminando (a não ser por um episódio nostálgico do facismo) no séc XIX. Os afrescos são encontrados quase exclusivamente na Itália (também no oriente médio, mas apenas afrescos bizantinos). Mesmo aqueles encontrados em outros lugares, foram feitos por um italiano ou por um bizantino. A particularidade está na execução de uma técnica genial, responsável pela sua conservação até os dias de hoje: é o único caso onde a cor é aplicada na parede sem o uso de um fixador (protéico, oleoso, acrílico etc..), mas aproveitando a reação química da carbonatação do cimento para fixar, para sempre, o pigmento simplesmente diluído em água”.

Até então, tinha para mim que restauradores eram artistas. E artistas, como sabemos, são a antítese dos cientistas. Será que são mesmo? Ou um artista também é um cientista? Veja a explicação, sempre da Radiciotti, que se segue:

“O processo químico é idêntico àquele da formação dos mármores coloridos, onde o óxido de ferro e vários outros metais de cores variadas são englobados no material carbonato durante a sua formação. Sobre o reboco úmido, formado de areia e cimento (hidróxido de cálcio) e água, são espalhados os pigmentos (mas só aqueles adequados, ou seja, que resistem ao ambiente fortemente alcalino) diluídos em água. Durante de secagem, ou seja, da evaporação do H2O, o hidróxido de cálcio reage com o oxigênio do ar e forma CaCO2, englobando dentre de si o pigmento, fixando ele para sempre sempre. É o único caso onde o pigmento não está aderido a superfície (a parede) por um fixador aderente, mas sim ‘dentro’ da própria superfície (de novo, a parede), formando com ela uma unidade, da mesma forma que uma pedra colorida”

Eu estou lendo o interessantíssimo ‘Proust foi um neurocientista‘, presente da minha amiga neurocientista Silvana Allodi, que fala de como alguns artistas, mesmo sem conhecimento científico, apenas (sic) da natureza humana, anteciparam a ciência e algumas das mais modernas e atuais teorias científicas. Será que a antitese não é verdadeira? Ou será que os artistas, mais que os alquimistas, foram os primeiros químicos, antecipando a ciência que estava por nascer?

“É por isso que o pintor tinha tão pouco tempo para pintar. (…) A pintura tinha que ser feita velozmente (…) ou a obra poderia se tornar apenas pó. É uma técnica que não admite erros e hesitação. O traço deve ser conciso e decidido. Não é possível apagar nada (a não ser colocando todo o reboco a baixo e recomeçando do zero). A grandeza do artista pode ser vista ainda na medida das porções de reboco pintado: quanto maior o afresco, mais rápido foi o artista (o da capela Sistina de Michelangelo é  enorme!) O artista que pintava ‘a fresco’ era o melhor de todos (o mais capaz e o mais bem pago), porque deveria saber quando o reboco estava pronto para ser pintado e quando deveria suspender a pintura: eram inúmeras variáveis com a massa, a espessura do reboco (os romanos  chegavam a fazer 9 camadas de reboco), o microclima do ambiente etc…. Mais que arte, era uma ciência!”

E ela continua “Você pode se perguntar para que tanto trabalho: porque não simplesmente aderir a tinta na superfície? Não era só porque a técnica aumentava em muito a durabilidade das pinturas, mas principalmente porque um reboco pintado dessa maneira, refletia e refratava a luz em uma maneira impressionante. Talvez somente subindo nos balcões próximos ao teto da Capela Sistina para compreender verdadeiramente: Michelangelo trabalhava os afrescos de uma maneira tal que ao final a matéria parecia se desmaterializar e transformar-se em luz pura. E portanto, espírito puro, qualquer coisa de sobrenatural”.

Sobrenatural, para mim, era o talento desses homens. A dificuldade era enorme. Eram montados andaimes e o artista passava muitas e muitas horas deitado próximo ao teto, desenhando e pintando.

Quando chegaram a Sermoneta, os restauradores começaram os testes para fazer a restauração. Pequenas áreas da pintura são tratadas com diferentes substâncias químicas para identificar qual pode ter a melhor resposta (veja a foto abaixo). Foi ai que tiveram uma surpresa: riscos que sugeriam uma figura que não era a figura aparente. Enquanto o desenho mostrava a manga da vestimenta de nossa senhora, mas as incisões sugeriam a presença de uma mão.

Haveria alguém riscado o sagrado afresco? Muito pior.

“Uma das formas de se transportar para a parede o desenho preparado antecipademente, era riscar no reboco fresco as formas que seriam pintadas. Nem sempre foi assim. Essa prática é usada desde o renascimento, mas antes disso, os romanos e os bizantinos desenhavam diretamente as figuras com pincel. Não é preciso que haja riscos para que seja um afresco. Mas se os riscos estão lá… com certeza é um”.

Nesse caso, os riscos eram uma evidência mais marcante da presença de um afresco do que a pintura aparente. Alguém, ainda muito tempo atrás, resolvera pintar um mural em cima do afresco verdadeiro e original. O espírito humano é tão poderoso quando as intempéries mais duras e, com certeza, muito mais rápido. Mas apenas as incisões não bastavam como evidência e era preciso mais para ter certeza de qual era o desenho original.

” É quando entram em cena os cientistas da restauração: os químicos, físicos e biólogos que determinam as causas da degradação da obra de arte. Nesse caso coletamos uma amostra do reboco para análise estratigráfica no microscópio óptico de polarização, de camadas finas e opacas, para determinar a composição mineralógica dos extratos de cores (e descobrir se o que havia sob a pintura era verdadeiramente um afresco) e a posição estratigráfica relativa (para verificar se o que havia sobre era uma pintura a óleo). Outra opção seria fazer uma FTIR (espectrofotogrametria) para analisar a composição dos fixadores orgânicos que mostram que você não está em frente a um afresco, mas simplesmente a frente de um mural”.

As análises mostraram que realmente havia um afresco sob a pintura a óleo e começou então o trabalho artístico de restauração. Minha amiga é uma artista! Aos poucos as mãos de Maria Madalena aos pés de um Jesus crucificado foram aparecendo, como na figura abaixo.

O resultado desse belíssimo trabalho de investigação científica e habilidade artística, vocês viram na imagem que abre esse texto. Lindo, avassalador!

Tudo fica mais bonito quando se sabe a ciência que está por trás.

A natureza humana

Plaza Major, 2a feira a noite, chovendo

Na semana passada estava jantando com uma amiga em Madrid (‘Muito chique!!!’ diria a Petra Gil) e conversando sobre a inevitabilidade das falhas de caráter humano. Uma em particular, enquanto quantidades cavalares de Pata Negra e Tempranillo eram consumidas.
Penso constantemente sobre isso. A idéia de que o homem é ‘bom’ por natureza e que a ‘moral’ pode ser imposta aos nossos instintos de sobrevivência sem um alto custo me faz arrepiar. Ou melhor, me faz rir. A natureza humana não é boa. E ainda que essa seja talvez a nossa melhor característica, aquela que nos faz tão divertidos, tem tanta gente que não acha isso bom.
Falhamos, todos. E falharemos, ainda. E quanto mais assumirmos compromissos de ano novo que agridam fortemente os nossos instintos, em pro do politicamente correto ou moralmente adequado, mais falharemos.
Abre parênteses: As manifestações de solidariedade para com as vítimas da maior catástrofe natural que o país já enfrentou não me comovem. Quase me preocupam! Talvez sejam elas as falhas de caráter. Algo como a exceção para justificar a regra, que é o fato que vou para o trabalho todos os dias, pelas linhas amarelas e vermelha no Rio de Janeiro, olhando o mar de favelas que se estende até a onde a vista alcança. As casas em áreas de risco podem ser observadas de qualquer ponto do Rio de Janeiro. De alguns, até mesmo por diferentes ângulos. Mas ninguém (inclusive eu) faz nada até que o mundo venha abaixo. O que mais me preocupa é que daqui a pouco vão dizer que é culpa do ‘aquecimento global’, das ‘mudanças climáticas’, e continuar pensando em alguma outra coisa que não podemos medir com precisão, para justificar não fazer nada quanto aos parâmetros super precisos que podemos medir todos os dias: 5 milhões de pessoas vivendo em áreas de risco no Brasil com o estímulo, aval ou a conivência das autoridades. Fecha parênteses.
Luto por uma definição mais humana de natureza humana. Que acolha as suas falhas, que seja mais amoral.
Pensei nisso ainda na semana passada, no Rio, quando li o comovente ensaio de Fernanda Torres na Veja Rio de 5 de Janeiro. Começa assim:
“O homem é uma realidade finita, que existe por sua própria conta e risco. O homem irrompe no mundo e depois é que se define, mas no princípio, ele é nada. Ele não será nada até o que fizer de si mesmo: logo, não há natureza humana, porque não há Deus para concebê-la. Esse é o primeiro princípio do existencialismo, tido equivocadamente como uma filosofia negativa, de angústia e do fracasso. Não! É uma teoria que afirma que o homem está lançado e entregue ao determinismo do mundo, que pode tornar possíveis ou impossíveis as suas iniciativas. Essa contingência é a liberdade na relação do homem com o mundo. O acaso é quem tem a última palavra.”
O começo não é dela. É a abertura da peça “Viver sem tempos mortos” de Fernanda Montenegro, onde ela vive Simone de Beauvoir. O texto da Fernanda é comovente, como eu disse, mas um pouco ambíguo, sem deixar claro a sua opção pela crença no Deus do acaso.
Talvez quisesse, fico imaginando, apesar de saber que tentar decifrar a ‘intenção do autor’ de um texto é o caminho mais rápido para a incompreensão do mesmo. Olhei de novo a abertura da peça. É isso, a Fernanda Torres está certa. “Não há razão ou porquê. Não existe lógica ou justiça suprema nos julgando. Deve-se aceitar que é assim e pronto”. É Sartre quem está errado!
Eu também não sou, nem grande fã, nem grande conhecedor de filosofia. Meus leitores sabem que sou um guerreiro, mas também um escravo, da ciência. Tento controlar minha ânsia por desconstruir Sartre, mas não consigo. É que para negar Deus, ele nega a existência de uma natureza humana, que teria sido moldada por Ele, mas que na verdade é inequívoca, apesar de ter sido moldada por bilhões de anos de seleção natural.
Um cirurgião que abre um paciente não precisa procurar todas as vezes aonde está o fígado, porque o fígado está no mesmo lugar em todos os pacientes. Assim começa o ‘Rainha Vermelha’, um dos grandes livros que já li na vida, e que fala justamente da existência de uma natureza humana como base para as nossas grandes, importantes e fundamentais diferenças.
Negar essa natureza humana, herdada em parte dos nossos parentes primatas (gorilas, bonomos, chimpanzés) mas também dos coelhos, serpentes, peixes, fungos e bactérias; em prol de uma filosofia onde o homem é capaz de fazer de si o que puder, é negar a teoria da evolução.
Não resisto ao impulso egocêntrico de reescrever Sartre. Ainda que reescreva só (só?!) Fernanda Montenegro:
“O homem é uma realidade finita, que existe por sua própria conta e risco. O homem irrompe no mundo e depois é que se define, se o acaso contribuir, ou pelo menos não atrapalhar. Mas no princípio, ele é apenas homem. E o que fizer de si mesmo poderá ou não permanecer. Há uma natureza humana que não foi concebida por Deus, mas sim pela seleção natural (e a deriva gênica também). Esse não é exatamente o primeiro princípio do existencialismo, tido equivocadamente como uma filosofia negativa, de angústia e do fracasso. Talvez porque afirma que o homem está lançado e entregue ao determinismo do mundo, quando a teoria do Caos já provou que não há tal coisa como o determinismo, e o mais provável é que a autora quisesse sugerir com essa frase que o homem está lançado a sua própria sorte, sem a a ajuda do mundo, o que pode tornar possíveis ou impossíveis as suas iniciativas. Essa contingência é a liberdade na relação do homem com o mundo. O acaso é quem tem a última palavra.”
E para não parar por ai, reescrevo a própria Fernanda Torres ao citar Jorge Mautner: “A maior prova de que o acaso existe, é que ele acontece.”

Um ponto de vista sobre o aborto

ResearchBlogging.org
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O aborto não é uma questão moral ou religiosa. É uma questão médica e científica. E se há uma razão para ele ser uma questão política, é essa: ser um problema de saúde pública, de saúde da mulher. E é uma vergonha ver nossos candidatos a presidente abrindo concessões e compactuando com crenças que colocam em risco a vida das mulheres.
Eu não sou médico e talvez devesse ficar quieto quanto ao assunto, mas acho que a ciência pode contribuir para esse debate, desmistificando a divindade da vida.
De tudo aquilo que a teoria da evolução nos ensinou sobre a vida, e ela nos ensinou muita coisa, uma eu considero extremamente importante. Que a ontologia imita a filogenia. Essas duas palavras complicadas querem dizer simplesmente que o desenvolvimento da vida imita a evolução da vida, e que quando o embrião e o feto de qualquer espécie está se desenvolvendo, ele passa por estágios que lembram formas ancestrais daquela espécie. É a teoria da recapitulação. Quer um exemplo? Durante o nosso desenvolvimento, no final do primeiro mês de gestação, os fetos humanos possuem arcos branquiais, como os peixes.
Uma outra semelhança é o próprio zigoto, a primeira célula do corpo, formada pela união do espermatozóide com o óvulo. Assim como a vida na Terra teria surgido de uma célula, cada nova vida também surge de uma célula.
Mas como surgiu a primeira celular?
Os filósofos gregos acreditavam que a origem era divina, e por isso não se preocupavam com o ‘como’ a vida apareceu e se contentavam apenas em classificá-la em ‘bichinhos’ e ‘plantinhas’. Mesmo hoje em dia, acredito que a física conheça melhor o que acontece com o início do universo do que a biologia o que acontece com o início da vida. Ainda assim, sabemos o suficiente para desmistificar o fenômeno: existem evidencias suficientes para mostrar que as primeiras células não tinham membrana plasmática, fruto de uma bioquímica de lipídeos complexa e que apareceu muito depois na evolução do metabolismo.
As teorias mais aceitas atualmente, não apontam mais para uma ‘sopa primordial’ feita de molecular orgânicas formadas por descargas elétricas em atmosferas de metano e CO2, mas sim para a origem de um código genético primordial a base de adenina (uma das bases nitrogenadas que formam o DNA), que tem estrutura química simples e é encontrado em TODO o universo. O suporte para esse código genético, que no DNA ‘moderno’ é um ‘esqueleto’ de açúcar e fosfato seria, acreditem, a superfície de cristais de argila. Parece que no final das contas a Bíblia não está tão equivocada ao dizer: “E formou o Senhor Deus o homem do barro da terra” (Gen 3, 7).
A bioquímica, termo que eu aqui uso no seu sentido etimológico, se formou a partir de uma química pré-biótica dentro de compartimentos rochosos de Sulfito de ferro no fundo do oceano. Ao que parece, as primeiras ‘células’ não eram de vida livre e tinham uma casca de pedra.
A ontogenia recapitula a filogenia. Ate hoje, todas as formas de vida que conhecemos são feitas de células (bom, isso pode causar arrepios nos virólogos, mas não vou entrar nesse mérito agora). E o que todas as células tem em comum é que são compartimentos, isolados do meio externo através de uma membrana semipermeável. E através dessa membrana, possuem os mesmos tipos de gradientes que existem (e existiram) no fundo do oceano Hadeano (a era geológica em que a Terra se resfriou), por bilhões de anos, há bilhões de anos.
Existem muitas evidencias que a vida surgiu no fundo do mar, em condições bem simples: um gradiente de eletricidade, que passava de um líquido hidrotermal reduzido (rico em elétrons) através de uma fina crosta terrestre para um oceano oxidado (que não quer dizer exatamente com oxigênio, o que não era ocaso, mas sim ‘pobre’ em elétrons); um gradiente de prótons do mesmo líquido hidrotermal que era alcalino para o oceano que era ácido e, finalmente, também um gradiente de calor, onde algo com 60oC passavam do líquido hidrotermal para o oceano.
Só isso? Bom, mais umas duas ou três coisas, mas isso era o fundamental.
A ontogenia repete a filogenia. O animado repete o inanimado. O conceito é que fenômenos complexos podem ser explicados por sub-fenômenos mais simples. Essa também é uma idéia antiga, um princípio descrito, vejam só, por um monge, no século XIV. Bom, é verdade que Guilherme de Occam era monge, mas naquela época, em que os poderosos dominavam haréns gigantescos, e apenas os primogênitos tinham ‘direito’ a se casar, um segundo filho não tinha muita opção, por lei ou por disponibilidade de parceiras, para se casar, restando apenas o monastério.
Mas como eu ia dizendo, o principio da economia da natureza, ou ‘navalha de Occam’ como ficou conhecido, foi muito bem enunciado por Einstein: “as coisas devem ser o mais simples possível. Mas não mais simples ainda”, e diz que sim, as coisas que vemos como complexas são frutos de coisas simples, porque a natureza é econômica (porque energia, a moeda da natureza) é uma coisa ‘cara’. E vai CONTRA a principal idéia da religião: de que algo complexo, como a vida e o ser humano, teria de vir de algo ainda mais complexo: Deus.
Duas palestras do TED que assisti recentemente, essa e essa, argumentam muito e muito bem em favor da simplicidade como fonte de complexidade.
Mas eu não espero que meus leitores leiam o excelente artigo de Martin & Russel que está anexo, ou que se debrucem sobre os escritos de Prigogine para se convencerem, ou apenas acreditarem, que a vida é uma inevitabilidade termodinâmica e não há nada de divino nisso.
Uma vez me pediram para escrever sobre aborto e eu tenho certeza que não era esse o tipo de resposta que estavam esperando. Mas eu guardei essa resposta para o final. Para mim, o principal argumento para convencer os religiosos da não divindade da vida, vem da freqüência com que os abortos naturais acontecem. Sim, porque abortos naturais são causados por Deus, não são?
Estimasse que 15 a 20% das gestações terminem em abortos espontâneos, aqueles que acontecem antes da vigésima semana de gravidez. Mas o número pode ser muito maior. Primeiro porque eles podem acontecer também depois da 20a semana, mas ai não recebem mais o nome de ‘aborto’: são natimortos ou óbitos fetais tardios. E depois, porque um percentual desconhecido acontece mesmo antes da 4a semana de gestação, em casos que a mulher nem mesmo sabe que está grávida e o aborto pode se passar por um ciclo menstrual um pouco mais dolorido. Com isso, os abortos espontâneos podem chegar a 50% das gestações! Provavelmente a causa mortis mais freqüente da humanidade!
Os abortos espontâneos ainda são responsáveis por 15% dos casos de morte materna por aborto (os abortos induzidos são responsáveis por 85%).
Homens e mulheres tem estratégias reprodutivas diferentes, ainda que colaborem para alcançar um objetivo comum. Mas é provável que por essas diferenças, os homens se preocupem mais com o risco de perderem suas parceiras do que com o risco de perderem uma gestação por aborto: espontâneo ou induzido.
Aposto que nenhum dos carolas que protesta contra o aborto induzido e a santidade da vida viu sua mulher se esvaindo em sangue por um aborto espontâneo.
Martin, W., & Russell, M. (2003). On the origins of cells: a hypothesis for the evolutionary transitions from abiotic geochemistry to chemoautotrophic prokaryotes, and from prokaryotes to nucleated cells Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 358 (1429), 59-85 DOI: 10.1098/rstb.2002.1183
Bruno Gil de Carvalho Lima (2000). Mortalidade por causas relacionadas
ao aborto no Brasil: declínio e
desigualdades espaciais Pan Am J Public Health, 7 (3), 168-172

Terminei de ler… O andar do bêbado

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“Alguns anos atrás, um homem ganhou na loteria nacional espanhola com um bilhete que terminava com o número 48. Orgulhoso por seu feito, ele revelou a teoria que o levou à fortuna.
“Sonhei com o número 7 por 7 noites consecutivas”, disse, “e 7 vezes 7 é 48”
O primeiro parágrafo de O Andar do Bêbado de Leonard Mlodinow da um exemplo de quão grande é a nossa capacidade de abstrair a realidade em prol da nossa percepção da realidade.
Se você acha que uma coisa é, então ela será, não importa que ela não seja.

Entre os bons livros que tenho lido nos últimos tempos, esse é o que eu mais recomendaria, para um maior número de pessoas. Não importa se você é cientista, jogador e futebol, analista da bolsa de valores, advogado, jornalista, médico ou professor. Ao contrário do que prega Kardec, o acaso existe sim, e além de ser um fator determinante nas nossas vidas, é provavelmente o que menos pessoas conseguem entender.
Mas Leonard consegue te explicar sem nenhuma equação, em 90% do tempo sem nenhuma fórmula, ainda que use bastante números. Mas são números interessantíssimos e nada daquela chatice de dados e urnas (ainda que sim, esteja cheio de dados e urnas nos exemplos do livro).
Por exemplo, você sabia que a análise matemática das demissões de técnicos após o fracasso de seus times, em todos os grandes esportes, mostrou que, em média, elas não tiveram nenhum efeito no desempenho da equipe?
O maior desafio à compreensão do papel da aleatoriedade na vida é o fato de que, embora os princípios básicos dela surjam da lógica cotidiana, muitas das consequências que se seguem a esses princípios provam-se contraintuitivas. Que em qualquer série de eventos aleatórios, há uma grande probabilidade de que um acontecimento extraordinário (bom ou ruim) seja seguido, em virtude puramente do acaso, por um acontecimento mais corriqueiro.
Outro ponto importantíssimo levantado por Leonar é a importância da quantidade de informações. Enquanto a falta pode levar à concorrência entre diferentes interpretações, o excesso pode diferenciar o vencedor. Se os detalhes que recebemos em uma história se adequarem à imagem mental que temos de alguma coisa, então, quanto maior o número de detalhes, mais real ela parecerá (isso porque consideraremos que ela seja mais provável, muito embora o ato de acrescentarmos qualquer detalhe do qual não tenhamos certeza a torne menos provável)
O livro ainda faz pouco das pseudo-ciências que tentam ignorar o acaso. No caso da astrologia, o exemplo veio da Roma Antiga:
“Cícero, (…) Irritado com o fato de que, apesar de ilegal em Roma, a astrologia ainda continuasse viva e popular, (…)observou que [quando] Aníbal (…) trucidouum exército romano (…), abatendo mais de 60 mil de seus 80 mil soldados. “Todos os romanos que caíram em Canas teriam, por acaso, o mesmo horóscopo?”, perguntou? “Ainda assim, todos tiveram exatamente o mesmo fim”.
Mas acho que Leonard encontrará também bastante resistência, porque ele acaba com muitas das estatísticas dos esportes. Todos eles! Veja essa passagem e imagine como se aplicaria ao campeonato brasileiro:
“Se um dos times for [55%] melhor que o outro (…), ainda assim o time mais fraco vencerá uma melhor de 7 jogos cerca de 40% das vezes (…). E se o time superior for capaz de vencer seu oponente em 2 de cada 3 partidas, em média, o time inferior ainda vencerá uma melhor de 7 cerca de uma vez a cada 5 disputas. (…). Assim, as finais dos campeonatos esportivos podem ser divertidas e empolgantes, mas o fato de que um time leve o troféu não serve como indicação confiável de que realmente é o melhor time do campeonato.:
Que foi claramento o que aconteceu com o Flamengo no Brasileiro e com o Botafogo no Estadual. 😉
Mas a sacaneada mais bacana está nos médius:
[em uma roleta] O trabalho do apostador é simples: adivinhar em qual compartimento cairá a bolinha. A existência de roletas é uma demonstração bastante boa de que não existem médiuns legítimos, pois emMonte CarIo, se apostarmos USD 1,00 em um compartimento e a bolinha cair ali, a casa nos pagará USD 35,00 (além do USD 1,00 que apostamos). Se os médiuns realmente existissem, nós os veríamos em lugares assim, rindo, dançando e descendo a rua com carrinhos de mão cheios de dinheiro, e não na internet, com nomes do tipo Zelda Que Tudo Sabe e Tudo Vê, oferecendo conselhos amorosos 24h, competindo com os outros 1,2 milhões de médiuns da internet.”
Mas falando mais sério, o livro é uma aula de matemática, história, estatística e ciências. Ele explica o ‘Triangulo de Pascal’, as ‘Provas de Bernoulli’, o ‘Teorema Áureo’, o surreal ‘Teorema dos pequenos números’, a ‘Distribuição Normal’ e o ‘Teorema do Limite Central’. E de forma que a gente entende.
Um fato que me chamou atenção, porque relacionei com a educação e com a avaliação de alunos, é ilustrado abaixo:
“Um diretor de empresa que tenha 60% de anos de sucesso, deve apresentar 60% de sucessos em um Periodo de 5 anos (que seriam aproximdamente 3)? Na verdade não! (vai ler o livro pra ver a explicação!) Na verdade é mais provável que 2/3 dos diretores tenham um resultado mais guiado pelo acaso do que pelas suas habilidade. Nas palavras do matemático Bernoulli: “Não deveríamos avaliar as ações humanas com base nos resultados:”. E sim nas suas habilidades

Um dos monstros da estatística praticamente desconhecido do público geral e louvado no livro é Bayes. Esse monge jamais publicou um único artigo científico e provavelmente realizou seu trabalho para satisfação própria. Bayes desenvolveu a probabilidade condicional em uma tentativa de resolver o problema: como podemos inferir a probabilidade subjacente a partir da observação?
Ou como traduziu Leonard: “Se um medicamento acabou de curar 45 dos 60 pacientes num estudo clínico, o que isso nos informa sobre a chance de que funcione no próximo paciente?
Novamente, não é uma questão fácil. Assim como eu que já fiz umas duas disciplinas de estatística Bayesiana garanto a vocês: Bayes é demais, mas é difícil demais.
Para Leonard, uma das pequenas contradições da vida é o fato de que, embora a medição sempre traga consigo a incerteza, esta raramente é discutida quando medições são citadas:
“Se uma policial de trânsito um tanto exigente diz ao juiz que, segundo o radar, você estava trafegando a 60km/h numa rua em que a velocidade máxima permitida é de 55km/h, você provavelmente será multado, ainda que as medições de radares com frequência apresentem variações de muitos quilômetros por hora.”

Ah… um capítulo a parte é o papel do acaso na avaliação de vinhos (também tem um sobre vodcas e outro sensacional sobre o efeito placebo da glicosamida), mas esses são tão bons que merecerão um post a parte
Finalmente ele aborda a questão com a qual inicia o livro: nossa habilidade para reconherce padrões, chamada de Heurística. Para Leonard, “Buscar padrões e atribuir-lhes significados faz parte da natureza Humana”.A heurística é muito útil, mas assim como nosso modo de processar informações ópticas pode levar às ilusões ópticas, a heurística também pode levar a erros sistemáticos. Ou erros de vieses.
“Todos nós utilizamos a heurística e padecemos de seus vieses. E o que é pior, temos o costume de avaliar equivocadamente o papel do acaso em nossas vidas, tomando decisões comprovadamente prejudiciais aos nossos interesses.”
Um desses exemplos é a ‘Falácia da Boa Fase’, experimentada por atletas de qualquer esporte (mas principalmente os mais assistidos); mas o mais chocante é o ‘Viés da confirmação’.
“Quando estamos diante de uma ilusão – ou em qualquer momento em que tenhamos uma nova ideia -, em vez de tentarmos provar que nossas ideias estão erradas, geralmente tentamos provar que estão corretas.”
Essa tendenciosidae representaria um grande impedimento à nossa tentativa de nos libertarmos da interpretação errônea da aleatoriedade. Como afirmou o filósofo Francis Bacon em 1620,
“a compreensão humana, após ter adotado uma opinião, coleciona quaisquer instâncias que a confirmem, e ainda que as instâncias contrárias possam ser muito mais numerosas e influentes, ela não as percebe, ou então as rejeita, de modo que sua opinião permaneça inabalada”.

Se o acaso é inevitável e a sorte é fundamental, então o diferencial pode não ser o talento (ainda que ele seja necessário), mas a persistencia.
“O primeiro Harry Potter, de J.K. Rowling, foi rejeitado por nove editores e o manuscrito de “A firma’, de John Grisham só atraiu o interesse de editores depois que uma cópia pirata que circulava em Hollywood lhe rendeu uma oferta de US$600 mil pelos direitos para a produção do filme.
Como observou Thomas Edison “muitos dos fracassos da vida ocorrem com pessoas que não perceberam o quão perto estavam do sucesso no momento em que desistiram!”
Não deixem de ler, absolutamente!

Celebridades

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Depois de recusar vários convites para desfilar no Fashion Week, o cientista Mauro Rebelo foi fotografado no seu laboratório, no circuito OFF-Fashion, com seu tradicional look descolado casual‘. Mauro usava camiseta Hering verde exército, calça Redley (comprada 10 anos atrás quando ele ganhava em euro) e sapato Mr. Cat.
O detalhe fica por conta da sua chiquerérrima bolsa Diesel vermelha.
O paparazzi que flagrou o cientista disse que ouviu o borburinho logo que ele chegou. Os comentários variavam de ‘Que linda a sua bolsa‘ até o ‘Tá podendo hein professor!‘.
O cientista disse que a bolsa, vinda direto de Nova Iorque, tinha sido um presente… especial.
O comentário no laboratório era um só: “Quem dá um presente desse, tá querendo alguma coisa“.
Será?

Antena de celular e hierarquia na internet

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No início do ano recebi um e-mail do meu querido amigo Edu perguntando o que eu achava sobre os riscos da instalação de antes celulares no alto de edifícios. Caramba… era pergunta de prova! Eu prego que os cientistas sabem resolver qualquer problema, então não pude me furtar de tentar resolver o problema dele também. Fiquei meses querendo postar a resposta, mas sempre aparecia um tema mais interessante, porque no final das contas, resolver o problema dele foi simples: era uma questão de critério.
Mas será que meu amigo advogado não tem critério? Claro que tem, mas certamente não os mesmos que eu. Por isso, quando tenho um problema legal ligo pra ele e quando ele se defronta com um problema técnico liga pra mim.
Eu não entendo de emissões eletromagnéticas de telefones antenas de celular, mas confiei que o que eu sabia sobre energia eletromagnética em geral seria suficiente para ler alguma coisa. Eu sabia que era suficiente para saber que o vídeo da internet que mostra um ovo sendo cozido no meio de dois telefones que falam entre si é furado.
Além disso eu sei bastante sobre os efeitos biológicos das radiações. Já era o suficiente. Mas foi outro conhecimento que me ajudou mais. Eu conheço um pouco sobre o mercado editorial de revistas científicas, a qualidade duvidosa de algumas delas, os critérios que elas usam para selecionarem um artigo.
O Edu me enviou uma página no site da ABRACON, onde desfilam uma série de argumentos científicos que comprovam os males causados pelas radiações eletromagnéticas.

  • Lai et al (1989): influência da radiação de microondas de baixa freqüência no sistema nervoso central
  • Funkschau (1992): efeitos no mecanismo de transporte do sódio e do potássio através da membrana celular
  • Kues (1992): aumento do efeito colateral de medicamentos para glaucoma por REM
  • Persson (1997): aumento da permeabilidade da barreira hematoencefálica em ratos expostos a campos eletromagnéticos usados na comunicação sem-fio

Mas a lista começava com a declaração do “cientista armênio Avakian do Instituo de Física de Telecomunicações e de Eletrônica” sobre o “efeito dipólo das moléculas orgânicas” que faz com que “se orientem e girem sob um campo elétrico”.
Gente, vocês não precisam ser cientistas para saber que a Armênia não é especialmente famosa pela ciência que produz ou pela academia de ciências que possui. Além disso, a maior parte das moléculas orgânicas é apolar e não se orientam em um campo elétrico. Já a água sim, possui um dipolo (uma lado positivo e outro negativo). Passei a vista nos outros artigos, mas já sabia que, do ponto de vista científico, não havia nenhuma conclusão séria ou consenso geral sobre efeitos de baixas doses de radiações eletromagnéticas (quem quiser se informar em maior profundidade, aqui vai um resumo produzido por uma agência de advogados americana).
Pouco depois ganhei um celular da minha operadora e no manual do proprietário vinha importante informação ao consumidor:
Limite de tolerância da radiação não-ionizante de aparelhos celulares
Vejam que são informados não só o limite de exposição permitido pela agência internacional de radiação não-ionizante, como também os valores que foram apresentados pelo aparelho nos testes conduzidos pela empresa. Isso é mais informação do que vocês encontrarão em alguns artigos científicos de qualidade duvidosa (e eu garanto, existem muitos). Mas eu acho que mais que isso é o compromisso que esse papelzinho faz a empresa assumir com o seu consumidor (perante um juiz se for necessário) de que aquilo não é mentira. É com o meu critério de cidadão, é um compromisso maior que o dos editores de revista com o que é publicado nelas.
Escrevi pro Edu dizendo que, do ponto de vista do cientista, não havia nenhum impedimento. Agora ele poderia aplicar o critério de advogado dele a vontade.
Lembrei desse assunto e resolvi voltar a esse texto hoje por causa da polêmica que levantou a proposta do Leandro Tessler de um mecanismo de controle e hierarquização da informação na internet, comentada pela Sonia Rodrigues no Inclusão Digital.
Escrevi até aqui algo como 600 palavras, mas a quantidade de referências que deveriam ser verificadas para que esse post tenha 100% de credibilidade já é enorme. Atualmente são publicados muito mais de 10.000 artigos científicos por dia. Só o mecanismo de buscas ScienceDirect possui mais de 2500 revistas científicas indexadas.
Mais um problema: atualmente o maior problema do conteúdo é a sua indexação. Colocar um conteúdo online é fácil, mas classificá-lo é difícil porque os computadores não podem fazê-lo, só humanos. Isso significa que custa caro. Pergunte a qualquer gestor de portal.
Então como, como poderemos pensar em verificar, validar e certificar a informação na internet? É impossível, e não devemos gastar nosso precioso tempo tentando.
O que temos de fazer não é certificar a fonte, mas certificar o receptor! Temos que mudar imediatamente o ensino de conteúdo que ainda damos nas escolas e universidades e começarmos a ensinar critérios para os nossos alunos. Apenas assim eles poderão passar de consumidores de vídeos duvidosos na internet para produtores de vídeos que desmistificam o mito dos ovos que são assados por telefones celulares.

O segundo dia do II Encontro de Blogs Científicos

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Domingo começou com a apresentação da neurocientista Suzana Herculano. Com 6 livros sobre neurociências para leigos publicados e uma esquete no programa Fantástico, ela é uma cientista pop e o melhor exemplo de cientista bem sucedido na tarefa de divulgar ciência. Suzana, que tem dois blogs (O cérebro nosso de cada dia e A neurocientista de plantão) chamou atenção dos cientistas blogueiros para que não fiquem apenas na internet porque existe um mercado real para livros de divulgação científica. Ela ainda defendeu a publicação de livros de ‘auto-ajuda científica’: “afinal, o objetivo da ciência não é tornar a vida das pessoas melhor?”. E isso ai.
Talvez pelo clima aprazível de Arraial e o aconchego do encontro, quando a jornalista Alessandra Carvalho (do Karapanã) subiu no palco com seu belo sotaque paraense não havia mais nenhuma dúvida de que jornalistas e cientistas devem divulgar ciência, que cada uma tem o seu espaço, mas que só tem a ganhar com a convivência. Ela relatou várias experiências bem sucedidas onde jornalistas ajudaram os cientistas a divulgar seus trabalhos.
Depois do intervalo, a jornalista Lacy Barca (que escreve no Minha amiga Jane) fez um incrível e delicioso panorama da ciência na TV, com apenas 8,5h por semana de programação (comparados a 50h de esporte e, acreditem, 190h de religião). Depois de trabalhar em programas como Globo Ciência ela é responsável pela recuperação do arquivo na Rede Brasil e mostrou pra nós trechos de vídeos dos primeiros programas de ciência na TV brasileira, remontando a década de 70, e falou sobre a mudança da linguagem na comunicação.
Foi a vez de Maria Guimarães (Ciência e idéias), cientista e jornalista da Revista FAPESP apresentar a sua visão de como cientistas escolhem seus temas de pesquisa e como jornalistas escolhem seus temas de reportagem: “minha paixão pela ciência não cabia em um só tema de pesquisa”. A platéia se encantou com a caçadora de roedores no doutorado que agora escreve até sobre astronomia. Para mim ficou o recado de que cientistas precisam aprender a contar, mesmo que só para os jornalistas, a história por trás de suas pesquisas, e os jornalistas não podem nunca esquecer a paixão por trás do tema de pesquisa de um cientista.
As meninas da Ciência Hoje não resistiram ao sol e fizeram muito bem ao almoçar camarão frito na praia enquanto alguns foram para as suas pousadas fazer o check-out e outros para o Saint-tropez se despedir da Muqueca de Dourado e da Lula Doré.
Mas as 15:30 estavam todos de volta para assistir Fábio Almeida, do Ciêncine falar sobre a importância dos documentários cinematográficos na divulgação científica. Mostrou trechos da entrevista com José Reis, ex-diretor do do Instituto Biológico de São Paulo e um pioneiro da divulgação científica rápida e eficiente. Fábio foi muito didático ao mostrar como a atividade científica e cinematográfica tem a ‘observação’ do mundo como ponto de partida e portanto, nada mais normal que os biólogos, ao registrar imagens em movimento para estudar fenômenos naturais, sejam os verdadeiros criadores do cinema. Aproveitou para mostrar o risco da divulgação irresponsável, que atribui aos irmãos Lumiére, criadores do cinema como espetáculo, a invenção do cinema como método. E terminou com uma alfinetada: os blogueiros tem que pensar em usar todo o potencial de outras mídias, porque ainda estão postando como se fossem uma revista impressa!
As 17h, sem tempo para uma despedida apropriada de todos os novos amigos que ser formaram ali, o ônibus partiu para o Rio levando convidados e agregados. Foram dois dias estimulantes e tenho certeza que todos voltaram pra casa com novas idéias para colocarem em prática nos seus blogs. Agora é esperar pelo próximo.
Obrigado a todos que ajudaram a tornar o evento um sucesso.

O primeiro dia do II Encontro de Blogs Científicos

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O ditado diz que tudo o que é bom, dura pouco.
E durou mesmo. Acabou ontem as 17h o 2o EWCLiPo. Foi organizado, num lugar lindo (Arraial) com um tempo maravilhoso, gente inteligente, discussões pertinentes e … diversão. O que mais eu poderia querer?
Tudo começou na 6a feira com Milton Moraes do ‘Confraria da Boa Companhia‘ falando sobre gastronomia e ciência. Ele usou os novos conceitos de gastronomia molecular para mostrar como a ciência vem mudando a culinária. Ferran Adrià, considerado atualmente o melhor ‘chef’ do mundo, é um químico de formação que aperfeiçoa a sua cozinha com conceitos científicos. Como um professor em uma aula prática, impressionou a platéia extraindo DNA de morango ao vivo usando apenas produtos encontrados na cozinha e aplicou conceitos da gastronomia molecular para fazer drinks como caipirinha sólida e mousse de caipirinha.
A seguir o coquetel de abertura teve um risoto de frutos do mar preparado pela chef Janaina Jan do Chez Naná. Quando os marinheiros do Hotel Ressurgência começaram a ficar nervosos com aquela movimentação toda as 11:30 da noite, nos transferimos para o Saint-Tropez, no final da Praia dos Anjos.
O dia amanheceu belíssimo, confirmando as previsões da meteorologia, apesar da chuva pesada de 5a e 6a feira e qual não foi a minha surpresa quando as 9:30, com apenas meia hora de atraso, estavam todos prontos para ouvir esse que vos conta, Mauro Rebelo do ‘Você que é biólogo…’ falar de Escrita criativa.
A palestra tratou dos 7 pontos problemáticos na escrita de alunos (e outros cientistas) no processo de autoria de textos: sejam eles respostas a perguntas de provas, ou a elaboração de artigos, dissertações e teses. Fez um paralelo com a 2a lei da termodinâmica para questionar aqueles que acreditam que escrever depende de ‘inspiração’: escrever depende de ‘investimento energético’, porque a maior parte do tempo você precisa gastar re-escrevendo o que escreveu, até ficar bom. Seja na tese, no blog e até mesmo no twitter.
Depois Sonia Rodrigues do ‘Inclusão Digital’ falou da sua experiência no ‘Poesia para físicos’, no ‘sei mais física‘ e no ‘almanaque da rede‘: iniciativas para a inclusão digital de jovens e adolescentes. Quando você tenta fazer inclusão digital para jovens, descobre que o problema é anterior a universidade, onde eles chegam dom deficiências difíceis de consertar, o que ficou claro no ‘poesia para físicos’. Foi então que ela resolveu atacar o problema em crianças e adolescentes da escola pública, se deparando com os problemas que a falta de cidadania gera para esse público, principalmente em áreas de risco. As vezes R$100 para a passagem de ônibus e 1h de acesso a internet em uma Lan House é a diferença entre uma criança com 90 pontos no índice de Raven conseguir chegar ao vestibular em física na UFF.
Foi então que blogueiro profissional Carlos Cardoso do ‘Contraditórium‘, ‘Meio bit‘ e uns outros 5 blogs subiu no palco para falar aos blogueiros de ciência sobre os desafios da profissionalização. Com 5000 visitas únicas por dia em apenas um de seus blogs e muito conhecimento do assunto, ele tinha conhecimento de causa. Só que ainda era muito divertido: “Bom dia, meu nome é Carlos Cardoso, e eu sou um NERD”. Entre as dicas para ganhar dinheiro com um blog a associação com sites de vendas de livros nos textos com resenhas foi a que mais fez sucesso com os blogueiros científicos, mas a apresentação também levantou outras questões como a perseguição de grupos fundamentalistas e outros ‘stockers’. O mesmo tema voltaria a tona no dia seguinte na palestra de Suzana Herculano.
Em seguida, Carlos Hotta do ‘Brontossauros em meu jardim‘ e Átila Iamarino do ‘Rainha Vermelha‘ movimentaram a platéia falando sobre a experiência de ‘síndicos’ do Science Blogs Brasil. As vantagens de se andar em bando são muitas, e o que suscitou a discussão foram justamente os critérios para se entrar no grupo, principalmente agora que o grupo está se aproximando do seu limite de número de blogs. Um condomínio não deixa de ser um ‘selo’, mas esse selo não deve ser o único. É importante que outros condomínios de blogs científicos se formem em torno de temas comuns, e que blogs importantes continuem em suas trajetórias individuais. Viva a diversidade! Átila ainda falou sobre o Research Blogging, uma ferramenta para aumentar a credibilidade da informação publicada que dá um ‘selo’ ao texto que é publicado fazendo referência (e disponibilizando) o artigo original ao que se refere ao informação.
Caminhada pela praia, almoço no Saint-Tropez, é incrível que novamente as 15:30 estivessem todos reunidos novamente para ouvir Osame Kinouchi do ‘SemCiência‘ falar sobre ‘Redes de informação e a blogsfera científica’. O conceito de redes complexas é fundamental para um blogueiro compreender como a informação flui na grande rede e como o qual o comportamento da informação publicada no seu blog. Ele ainda falou das mudanças na autoridade ‘technorati’ geradas pelo aparecimento do Twitter e deu um panorama da blogsfera científica brasileira, que hoje conta com aproximadamente 250 blogs, considerados como blogs ‘vivos’ aqueles que sobrevivem publicando após os primeiros 3 meses de empolgação, blogs ‘mortos’ aqueles que deixaram de publicar há seis meses e extintos os que saíram do ar.
Então Leandro Tessler do ‘Cultura Científica‘ falou da anti-ciência, o efeito negativo causado pela ciência de má qualidade publicada em jornais de grande circulação. Para ele o problema pode estar nos conflitos que a rede (internet) criou com relação a hierarquização, autoridade, e da informação. Ele acha que temos que tentar regular isso, eu acho que não dá: vamos ter que aprender a conviver com isso.
Depois de mais um intervalo, Bernado Esteves, editor da ‘Ciência Hoje on line‘ falou do espaço do blogs na divulgação de ciência e mostrou com muita clareza o papel de jornalistas e cientistas nessa divulgação, antecipando a discussão de Domingo. Para ele cada um tem sua especialidade e da mesma forma que um jornalistas não pode entrar em um laboratório e se propor a ensinar o pesquisador como operar um espectrômetro de massas, um pesquisador deveria ter mais cuidado ao propor como deve ou não deve ser o texto de um jornalista. Muita gente deveria vestir essa carapuça. Para ele, os cientistas tem um papel fundamental na divulgação ao publicar sobre o que é interessante, mas não necessariamente importante (como o funcionamento de um mecanismo molecular dentro da célula), enquanto o do jornalista é informar sobre o que é importante, ainda que não seja tão interessante (como a distribuição de verbas para a ciência no próximo ano).
O dia terminou com Osame Kinouchi distribuindo os prêmios de melhor blogs científicos eleitos por votação popular organizada pelo ‘Anel de Blogs Científicos‘.
Como a 6a feira tinha terminado tarde, resolvemos todos ir direto para o Saint-Tropez tomar uma cerveja (porque ninguém é de ferro) e tentar voltar mais cedo para a pousada. Foi uma ótima idéia, mas não funcionou. Fomos todos dormir tarde. Cardoso se apaixounou pela filha do dono do Saint-Tropez, uma loira linda com um micro shortinho que trabalhava no caixa e que ele apelidou carinhosamente de Penny, em homenagem a loirinha que anda com Nerds no seriado ‘The Big Bang Theory‘.

Todo mundo no mesmo barco

Não, não sou eu no barco. Como (quase) todas as outras fotos no blog, essa veio do site SXCNa última 6a feira meu 3o aluno de mestrado defendeu sua dissertação. Foi um parto.
A experiência de orientador é provavelmente a mais enriquecedora da vida acadêmica. Uma orientação nunca é igual a outra, provavelmente porque um aluno nunca é igual a outro. A minha ilusão inicial é que o trabalho nós colocasse a todos, alunos e professores, no mesmo barco, um barco onde eu levava o leme. Ledo engano.
Tem aqueles que enquanto você está no leme, levantam e baixam a vela no momento certo, tiram água quando esta entra e verificam se as amarras estão seguras quando a gente chega no porto. Mas tem também de tudo: aqueles que querem seu próprio barco, aqueles que tem medo do barco andando rápido demais e pulam na água, aqueles que não tem idéia do que fazer no barco e você tem de dizer tudo o que ele tem que fazer (Camba! Caça a vela! Não deixa emborcar). Ah, e tem os motineiros. Aqueles que querem tomar o barco de você.
Oxalá um dia incluam uma disciplina de RH no curriculo dos biólogos, mas eu tive mesmo que aprender escovando assoalho e tomando com a vela na cabeça. Não fosse o cinto de segurança (e a ginga de capoeira) tinha caído pra fora nos primeiros escorregões e o barco estaria a deriva.
O que eu tenho muita dificuldade de convencer novos alunos é de uma particularidade importante da ciência. A ciência é muito, muitíssimo, extremamente, democrática. A ciência, como já disse aqui é para todos. Está aberta para todos. Mas a ciência não é uma democracia. Aqui não vale o que fala a maioria, mas sim o que está certo (e que cada vez menos são a mesma coisa).
A ciência não faz, e nem deve fazer, concessões. Nenhuma!
Aqueles resistem, questionando a validade dessa essa exigência, ou evocando um ‘lado humano’ na ciência (que permitiria a ela abrir exceções ou fazer concessões), eu digo que são ingênuos.
Mas nosso barco é grande e pode fazer muitas coisas. E apesar de seguir uma trajetória bem definida, passa por muitos lugares. Quem quiser se juntar a nós pode ter muitas experiências diferentes nele, pode nos acompanhar na nossa longa caminhada, ou apenas percorrer o trajeto até o próximo porto. Minha exigência para um aluno é que ele aceite que a ciência não faz concessões, e no que tange esse aspecto, tampouco eu. Mas conselho é que ele invista em escolher que tipo de passeio quer e está disposto a fazer.
Ou, mudando a metáfora mas mantendo o sentido, como perguntam diriam os motoristas de Buggy das dunas do nordeste:
“Vai ser com o sem emoção?”

II EWCLiPo – Encontro de Weblogs Científicos em Língua Portuguesa

Praia do Forno em Arraial do Cabo (RJ)

O segundo encontro de blogueiros de ciência acontecerá em Arraial do Cabo (RJ) de 25 a 27 de Setembro de 2009, com financiamento do CNPq e apoio da UFRJ e do IEAPM. E você não vai ficar fora dessa, não é mesmo?!
Mas por que fazer um encontro de blogs científicos?
A WEB 2.0 mudou a forma de fazer jornalismo, negócios e política, e está ganhando agora a academia. A redução das redações de ciência nos grande jornais e o aumento dos escritórios de relações públicas em instituições científicas é o cenário onde emergem os próprios cientistas se comunicando diretamente com o grande público através de blogs e se firmando como uma importante fonte de informação científica confiável para a população, com conseqüências diretas no ensino e na aprendizagem de ciências e não só. O encontro promete, em sua reedição, discutir essas temáticas e oferecer aos participantes opções de caminhos para a blogsfera científica em língua portuguesa.
O site BlogPulse que monitora a dinâmica e o conteúdo de blogs na internet recorda 106,612,056 blogs monitorados; tendo sido 55,010 novos blogs nas últimas 24 h com 265.000 novos posts nas últimas 24 h. E a ciência é uma tema mais postado que outros concorrentes de peso como política e religião. Segundo o levantamento do “Anel de Blogs Científicos” da USP de Ribeirão Preto, existem em torno de 120 blogs de ciência no Brasil. A Revista ciência hoje publicou reportagem recentemente sobre o crescimento dos blogs científicos no Brasil.
E ainda há muito espaço para crescer. A Recente pesquisa do Ministério da Ciência e Tecnologia – MCT – mostra que ainda é incipiente a comunicação de ciência pela Internet. A população se informa mais sobre ciência primeiro pela televisão, com jornais e revistas em segundo, e conversas com amigos em terceiro. A Internet vem apenas em 4º lugar. Além disso, 77% dos entrevistados nunca leram nada na Internet. A tendência é que esses números se revertam nos próximos anos, com a inclusão digital, o avanço da educação à distância e a disponibilização de Internet em banda larga para a população.
Um artigo publicado na revista Nature (vol 458, Março de 2009) mostra que muitos jornais estão fechando suas seções de ciência enquanto jornalistas científicos ficam sobrecarregados e cada vez mais dependentes dos press releases de RPs. Ao mesmo tempo, os cientistas estão partindo diretamente para o grande público através da internet, não só para publicar seus trabalhos, mas também para ‘traduzir’ os temas científicos para o público leigo. Em um país de tantos excluídos, essa ‘Exclusão Científica'” é uma das mais graves, mas as pessoas estão ouvindo falar de genoma, vacina gênica, transgênicos, mutantes, clones, células tronco… sem ter noção de como avaliar o quanto as informações que chegam até elas são verdadeiras. Os blogueiros se consideram uma fonte de informação científica confiável para o grande público.
Mas escrever nesse meio não é trivial. Vivemos em um mundo saturado de informação e precisamos aprender a selecionar melhor a informação. A Internet facilita o armazenamento, acesso e divulgação do conteúdo, mas não a seleção do que deve ser publicado. Os conteúdos são ‘depositados’ ao invés de ‘publicados’. O presidente da Apple, Steve Jobs, diz que na internet “a maioria de nós continua apenas consumidores, ao invés de autores”. Um dos principais desafios para o aumento da qualidade dos conteúdos é a seleção da informação.
Aprender a selecionar o que divulgar é também aprender a selecionar o que investigar e o que produzir! Uma divulgação científica de melhor qualidade leva a uma melhor produção científica e acadêmica, que leva a uma divulgação científica ainda melhor, para combater a exclusão científica, digital e social.
Mais informações sobre o(s) encontro(s) na página do II EWCLiPo.

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