Teste de relevância

Preciso falar sobre isso porque é algo que tomou grande parte do meu tempo esse ano. Essa semana começa o meu módulo no curso de especialização em Gestão em Educação a distância da Universidade Aberta do Brasil.

Uma das aulas que escrevi, trata do papel do professor em um mundo saturado de informação. É uma aula muito boa, que vem sendo bastante elogiada e da qual eu estou muito orgulhoso. Para essa edição da disciplina que se aproxima, bolei uma atividade online bastante simples, mas tão interessante e rica, que resolvi dividí-la com vocês.

O texto a seguir é um trecho da discussão entre o prof. Coleman Silk e a profa. Delphine Roux, personagens do livro “A Marca Humana” de Philip Roth (pp. 246-247).

“O grau de conhecimento desses alunos é, sacou, tipo assim, zero. Depois de quarenta anos lidando com esse tipo de aluno – e a senhorita Mitnick é bem típica – posso lhe afirmar que nada poderia ser pior para eles que uma leitura de Eurípides com uma perspectiva feminista. Apresentar aos leitores mais ingênuos uma leitura feminista de Eurípides é uma das melhores maneiras que se pode imaginar de desligar o raciocínio deles antes mesmo de ter oportunidade de começar a demolis o primeiro ‘tipo assim‘ deles. Chego a achar difícil de acreditar que uma mulher instruída, com uma formação acadêmica francesa como a sua, seja capaz de acreditar que existe uma leitura feminista de Eurípedes que não seja pura bobagem. Será que você realmente se converteu em tão pouco tempo, ou será apenas uma manifestação do tradicional carreirismo ditado pela medo das suas colegas feministas? Porque se for mesmo carreirismo, por mim tudo bem. É uma coisa humana, eu compreendo. Agora, se for um compromisso intelectual com essa idiotice, então eu estou pasmo, porque você não é nenhuma idiota. Porque você é uma pessoa instruída. Porque na França ninguém na École Normale levaria essa bobajada a sério. Será possível? Ler duas peças como Hipólito e Alceste, depois ouvir uma semana de discussões em sala de aula sobre cada uma delas, e no fim não ter nada a dizer sobre as duas peças além de que são ‘degradantes para as mulheres’ – isso não é perspectiva coisa nenhuma meu Deus – isso é abobrinha. Abobrinha da Moda”

Após a leitura, proponho a pergunta: Qual a informação mais relevante desse texto? E as seguintes opções de resposta, pedindo que escolham apenas uma:

  1. O professor Coleman é machista e a professora Delphine é feminista.
  2. Quando um professor fornece uma interpretação de um texto ele direciona a interpretação que o próprio aluno pode fazer do texto.
  3. O público alvo de ‘alunos burros’ não deve ser tratado com burrice.
  4. Não há informações relevantes nesse texto ou não posso identificar informações relevantes nesse texto sem haver lido o livro e os clássicos gregos.

Eu proponho essa pergunta também a vocês, para responderem na nova enquete colocada no blog (veja ao lado). Sim, por favor, respondam antes de continuarem a leitura.

Em um mundo saturado de informação e com tecnologias que aprimoram a cada dia o armazenamento e o acesso das pessoas a essa informação, não há mais sentido na figura do professor como o detentor do conhecimento. Ou pelo menos, como o único detentor do conhecimento. Como disse Cristovão Buarque em entrevista a revista Isto É no ano passado:

O aluno que navegou a noite na internet, chega de manhã na aula sabendo coisas que o professor desconhece”.

Acredito que o papel do professor será cada vez mais de orientar o aluno na busca e seleção da informação. O professor será um especialista em relevância e o que ele ensinará para os alunos, independente da disciplina, é relevância: a arte milenar de separar o Joio do trigo. O problema é que os professores ainda não chegaram lá e eles próprios têm um problema para determinar relevância. Vamos analisar as respostas desse questionário.

  1. O texto diz que ele é contra uma leitura feminista do texto de Eurípides enquanto sugere que ela é a favor. Sim, há um tom autoritário e irônico no discurso de Coleman, mas não há elementos suficientes no texto para classificá-los, respectivamente, como machista e feminista. Porém, mais importante que isso é que esse não é o núcleo do discurso, e por isso não pode ser a informação mais relevante do texto. Quem marcou essa opção, fez uma leitura pessoal, que não pode ser sustentada pelas informações contidas no texto.
  2. Thomas Kuhn dizia que o ‘manual’ era um dos maiores inimigos do aprendiz de ciências, porque ao dar o procedimento final pronto, ele impedia que o aluno passasse pelo processo da descoberta, que tanto favorece a sua compreensão e aprendizagem. Essa é, para mim, a informação mais relevante do texto: o grande prejuízo de um professor fornecer para os alunos um raciocínio já pronto.
  3. O mesmo conteúdo pode ser ensinado para alunos com diferentes potenciais, mas certamente não da mesma forma, nem com as mesmas estratégias. Alunos que já sabem ‘pensar’ por si próprios podem começar a discussão de uma peça ou um autor, por uma de suas releituras. Alunos que ainda não sabem, precisam primeiro aprender a ter uma leitura. Dar uma leitura pronta para esses alunos, é auxiliar o ‘sistema’ no processo de exclusão educacional e social dessas pessoas. Não dar o conteúdo dos clássicos, porque ele é ‘difícil’ e tratá-las como burras. Nivelar por baixo. Um bom professor não pode fazer nenhuma das duas coisas. Nunca! Para mim essa não é a informação nuclear do texto, mas ainda assim é um acessório muito relevante.
  4. Esse fragmento de texto contém um discurso rico, independente do contexto em que foi pronunciado. É verdade que existem textos com lacunas demais, onde é praticamente impossível identificar o núcleo conceitual ou as prioridades do autor; mas na maior parte das vezes, não precisamos saber o todo para entender uma parte. As colocações contundentes certamente permitem que preenchamos algumas lacunas com precisão. Quem marcou essa opção, ou estava muito desatento, ou tem uma séria dificuldade para estabelecer relevância.

Outro dia vi no “Sem Censura” um gerente de RH falando que atualmente o que vale é inovação. É isso que se vende, é isso que se compra (ou pelo menos se vendia e se comprava antes das bolsas quebrarem) e é isso que as empresas querem dos seus empregados. Inovação. Mas para criar algo inovador e importante, é fundamental saber determinar o que é relevante entre o que já existe. Com os computadores ai para guardarem e procurarem a informação com uma eficiência maior do que qualquer ser humano jamais (?!) será capaz, o diferencial do professor, e de qualquer outro profissional, estará na sua habilidade de determinar a relevância da informa

Sei ou não sei? Eis a questão!

O tema do Roda de Ciência desse mês é ‘A importância da comunicação da incerteza para o público leigo’.


Eu não tenho certeza, mas foi com o prof. Paul Kinas, e não com Heisenberg, que eu passei a perceber a incerteza do mundo. Ele era um mago da estatística Bayesiana que ensinava estatística como filosofia de vida. Filosofia que eu adotei.

Marcelo Gleiser começa o livro ‘Dança do Universo‘ falando da importância da dualidade para o ser humano: Dia e Noite, Claro e Escuro, Quente e Frio, Certo e Errado! O meu professor de estatística dizia que o problema é que nós não fomos educados a conviver com a incerteza. Durante toda nossa educação formal, fomos obrigados à escolher entre o ‘certo’ e o ‘errado’. Não nos ensinaram que as coisas, muitas delas, eram (e sempre serão) ‘incertas’. Aprendemos a fazer aproximações, aprendemos a escolher entre o ‘certo’ e o ‘errado’. Mas não aprendemos que entre os dois existe o ‘incerto’. Aliás, é muito pior, aprendemos a ignorar o incerto, ou tortura-lo até que se torne ‘certo’ ou ‘errado’. O resultado é desastroso: a grande incapacidade da maioria das pessoas de entender a ciência.

O Kinas dizia que deveríamos poder, na escola, escolher o certo apontando nosso grau de certeza relacionado com a escolha: “Acho que está certo, mas tenho com 70% de certeza!” Não seria lindo poder dar uma resposta dessas no vestibular?

Bom, ele nos deu uma prova assim. Lembro até hoje de algumas das perguntas:
“Qual cidade tem maior área urbana, Rio de Janeiro ou Buenos Aires?” Bairrista, respondi ‘Rio’ sem titubear. 95% de certeza! Mas como a geografia não se dobra a emoção, errei e perdi muitos pontos. Porém, mais pontos perdia quem dissesse que ‘sim’ ou que ‘não’ com 50% de certeza (que reflete não só a ignorância, mas o descaso e o descompromisso com a questão). Isso trás outra questão: a importância de escolher. O fato de existir incerteza não nos exime de ter de tomar decisões frente à ela.

Os psicólogos vão dizer que sempre fazemos escolhas, pois mesmo quem não escolhe, está fazendo uma escolha. E está mesmo. Só que as pessoas acham que têm de estar seguras do ‘certo’ pra escolher, quando o que nos diferencia do todo são justamente nossas escolhas frente ao incerto. Já escrevi aqui que acreditar no óbvio é fácil. Tomar decisões quando se tem todas as informações também é. Já quando a gente não sabe…

Bem, quando a gente não sabe, pode sempre recorrer ao ‘Cálculo de utilidades’ e as muitas outras ferramentas de ‘Tomada de decisão’ e ‘Análise de risco’, que a estatística tem a nos oferecer. E que, diga-se de passagem, deveriam ser matéria obrigatória na escola, porque podem ajudar muito a escolher a melhor opção frente a incerteza. Da mesma forma que companhias de seguro e cassinos fazem (e ganham rios de dinheiro com isso).

Mas enquanto isso não entra no currículo, poderíamos pelo menos parar de perguntar aos nossos alunos ‘se’ eles sabem, e começar a perguntar ‘o que’ ou ‘o quanto’ eles sabem.

Por favor, comentários aqui!

Aprender o quê?

“O que aconteceu (…) faz parte de um grande fracasso geral. No tempo de meu pai, quem fracassava era o indivíduo. Agora é a disciplina. Ler os clássicos é muito difícil, por isso a culpa é dos clássicos. Hoje o aluno afirma a sua incapacidade como um privilégio. Eu não consigo aprender essa matéria, então essa matéria deve ter algum problema. E deve ter algum problema o professor que resolve ensiná-la. Não há mais critérios, senhor Zuckerman, só opiniões”

O trecho transcrito do livro A Marca Humana de Philip Roth verbalizou o que tenho pensado ultimamente quanto aos meus alunos. Em geral!

A aceitação do fracasso está virando a regra. Quem quer ser mais, se esforça mais, consegue mais está “inflacionando” o mercado. Admiram os colegas mais esforçados e dizem… ‘Se eu fosse inteligente como ele…’

O problema é que é tudo mentira. Uma falsa humildade disfarça a arrogância escondida por debaixo da pele. Como um lobo coberto de cordeiro, pra se dar bem com as ovelhas e se esconder dos outros lobos. Lobo que é lobo veste a pele!


De nada adianta inventar novos cursos. As evasões são altíssimas! Os alunos duvidam do professor. Questionam a própria necessidade do ensinar, já que existem tantas fontes de saber. Querem criticar o conteúdo, a forma, a avaliação, mas todo seu embasamento foi conseguido em meia hora de pesquisa no Google. E se não está lá, no ‘oráculo’, então não existe! Que fracasso. Que fracassados!

O problema está na falta de vontade de aprender e não no aprender o quê.

Falta água, falta luz, falta verba, falta bolsa, falta material, falta computador, falta mesa, falta espaço. Falta, é verdade. Mas tudo isso se torna desculpa para justificar a dificuldade e o fracasso. Falta tempo, falta interesse, falta tesão, falta coragem, falta orgulho, falta amor.

Não, tem um fracasso pior do que não querer aprender, é achar que ninguém tem nada à aprender!

É proibido proibir!

A primeira tentativa de coibir a clonagem humana foi feita pelo antecessor de Mr. GW Bush, Mr. Clinton, em defesa de uma moral católica-ocidental (Israel conduz testes com clonagem humana já que ela não fere os princípios ideológicos do Alcorão), foi à proibição qualquer entidade pública ou privada que recebesse financiamento do governo de proceder tal tipo de empreitada, sob pena de perder o financiamento. Vale lembrar que no caso da ciência, mesmo da feita em entidades privadas, pelo menos alguma parte da verba é governamental. Falhou! E uma empresa totalmente privada a pouco tempo revelou o primeiro teste de clonagem de um embrião humano que sobreviveu poucos minutos.

Se você quer entrar nas discussões pseudoéticas e pseudomorais sobre clonagem tenha em mente alguns detalhes técnicos. Tá, tá, tá, eu aprendi com o Fritz Utzeri que não se deve indignar ao redigir um texto, mas sim relatar os fatos para que o leitor se indigne. No entanto eu não resisto e como não sou jornalista e estou escrevendo para uma revista que se chama “Sentando o Cacete” estou me dando esta licença jornalística. Fico indignado com essa pseudo moral, principalmente de um chefe de estado que não demonstra tal receio filosófico ao enviar tropas para os 4 cantos do mundo brigar guerras que não são dele.

Tudo bem, muitos de vocês, mas sensíveis a motivos religiosos, podem ter algo contra a clonagem. O fato é que sempre que autoridades judiciais, políticas ou eclesiásticas tentaram direcionar o desenvolvimento e o progresso da ciência o resultado foi perigoso ou desastroso (como a inquisição e a bomba atômica).

E para terminar, a ciência deve ser acessível a população para que essa possa não apenas usufruir dos seus benefícios, mas para que possa ser fiscalizada por ela também. Por isso temos que alfabetizar cientificamente nossa população e não proibir alguns tipos de pesquisa ciência.

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