Terminei de ler… A nascente

The Fountainhead (1949) from El origen del mundo on Vimeo.

É lindo quando um livro nos comove e entretem ao mesmo tempo.

A história do arquiteto Howard Roark, o homem ‘possível’ da autora e filósofa Russa Ayn Rand, cuja integridade moral, criatividade genial e inabilidade social transformam sua vida numa montanha russa, surpreende a cada página. Me fez pensar (como qualquer outra coisa faz) tanto na ciência e na ciência brasileira: Não podemos fazer concessões! Custe o que custar. Doa a quem doer. A ciência não pode fazer concessões! É tão difícil, mas não podemos nunca nos esquecer.

A Nascente foi publicado em 1943 e mas continua moderno porque é real! Troque ‘arquiteto’ por qualquer outra coisa e a história continua verossímil.

Em 1949 foi lançado o filme (acima) que, apesar de ter roteiro da própria autora, pegou leve com os conflitos morais e éticos dos personagens, com a trama e com os diálogos. É… diferente de seu personagem, Ayn Rand abriu concessões. É uma alternativa para quem não tiver fôlego para as 800 páginas do livro, mas não tem comparação. E Gary Cooper como o jovem arquiteto Irlandês de cabelos cor de abóbora… não convence.

Para aqueles que precisam só de um pequeno estímulo, aqui vão alguns trechos de um testemunho de Roark:

“Nada e dado ao homem na Terra. Tudo o que ele precisa tem que ser produzido. E esta e a alternativa básica que o homem enfrenta: ele pode sobreviver de duas maneiras: por meio do uso independente de sua mente ou como um parasita alimentado pelas mentes de outros. O criador origina. O parasita toma emprestado. O criador enfrenta a natureza sozinho. O parasita enfrenta a natureza através de um intermediário.” […] “O criador vive em função do seu trabalho. Ele não precisa de ninguém. Seu objetivo principal esta dentro de si mesmo. O parasita vive em função dos outros. Ele precisa dos outros. Os outros são a sua motivação principal.  […] “A necessidade básica do criador e a independência. A mente racional não pode funcionar sob qualquer forma de coação. Não pode ser limitada, sacrificada ou subordinada a nenhum tipo de consideração. Ela exige total independência no seu funcionamento e na sua motivação.” […] “Aos homens foi ensinado que a maior virtude não e realizar, e dar. Mas nada pode ser dado antes de ser criado. A criação precede a distribuição … ou não haveria nada a distribuir. As necessidades do criador tem precedência sabre as de qualquer possível beneficiário. Entretanto, somos ensinados a ter mais admiração pelo parasita que distribui presentes que não criou do que pelo homem que tornou os presentes possíveis. Nos elogiamos um ato de caridade e ficamos indiferentes a um ato de realização.” […] “Duas concepções foram oferecidas a ele como polos do bem e do mal: altruísmo e egoísmo. O egoísmo passou a significar o sacrifício dos outros ao ego, para beneficia próprio; o altruísmo, o sacrifício pessoal em beneficia dos outros. Essas concepções ataram irrevogavelmente o homem a outros homens e lhe deixaram apenas uma escolha de dor: sua própria dor, suportada para beneficia de outros, ou a infligida a outros, para beneficia próprio. Quando a essas concepções foi adicionada a ideia de que o homem deve se alegrar com o sacrifício pessoal, a autoimolação, a armadilha se fechou. O homem foi forçado a aceitar o masoquismo como seu ideal, sob a ameaça de que o sadismo era sua única alternativa.” […] “Graus de habilidade variam, mas o principia básico permanece o mesmo: o grau de independência, iniciativa e amor pelo seu trabalho e que determina seu talento como trabalhador e seu valor como homem. A independência de um homem e a única medida da sua virtude e do seu valor: O que um homem e, e O que faz de si mesmo; não O que fez, ou deixou de fazer, pelos outros. Não ha substituto para a dignidade pessoal. O único padrão de dignidade pessoal que existe e a independência.” […] “Em todos os relacionamentos dignos de respeito ninguém se sacrifica por ninguém”.

As travessuras dos genes egoistas

Durante uma espera de 6h no aeroporto do Rio, que me levou direto para a livraria mais próxima (e depois pra pizzaria mais próxima e pro chopp mais caro do Rio), o título do novo livro do Mário Vargas Llosa me chamou atenção: “As travessuras da menina má”. O livro foi devorado em 3 dias.

Mas o que isso tem a ver com a biologia? O egoísmo da “menina má” e o altruísmo do bom menino, talvez pelo seu desmedimento, me levaram a pensar nessas duas características como estratégias de vida. Não, eu não sou o primeiro a pensar nisso. Existe todo um ramo da biologia chamado sociobiologia que fala muitíssimo a esse respeito. Nem sempre com muita propriedade, é verdade, mas fala (não sei se é exatamente uma falta de propriedade. Talvez apenas uma forçação de barra. Quando tentamos encontrar uma explicação para uma fato que já aconteceu, é sempre fácil encontrar uma que seja plausível). E a sociobiologia exagera.

A cooperação entre indivíduos da mesma espécie tem sido tema muito controverso. Veja as abelhas e as formigas. Parece que existe muita cooperação entre elas. Mas olhando por outro ângulo, o que existe é escravidão. E você pode pensar que a rainha é uma felizarda que come geléia real. Mas quem come geléia real mesmo são as larvas das abelhas, e a rainha é uma pobre coitada cuja única função no universo é colocar ovos. Um depois do outro! Até morrer.

Eu teria de ler novamente o “Gene egoísta” pra poder ir a fundo no tema com vocês, mas vamos tentar simplificar: O Richard Dawkins desenvolveu essa teoria de que nós somos maquinas, robôs desengonçados, controladas pelos nossos genes. E o único objetivo deles fazer maquinas cada vez melhores para desempenhas a sua função primordial: passar os genes adiante. Na verdade, essa não seria a função primordial e sim a única função! Comer, pensar, sentir… todo o resto serve apenas para gente poder passar os genes adiante. E tudo que entre no caminha desse objetivo primordial, deve ser relevado a segundo plano. Por isso, o egoísmo é a estratégia mais importante para o indivíduo. Somos egoístas por natureza, mas também por causa dos nossos genes. Então como explicar a cooperação entre os indivíduos? Como explicar o altruísmo?

A questão é que nós temos genes em comum com outros indivíduos da nossa espécie. Condividimos 50% dos nossos genes com nossos pais e irmãos, 25% com nossos primos e assim por diante. Se continuássemos na verdade chegaríamos a razões ínfimas de compartilhamento de genes (com um primo de 8º grau chegaria a 1/250), mas alguns estudos mostram que temos pelo menos 1/8 dos nossos genes semelhantes aos de qualquer outra pessoa na rua. É justamente essa semelhança que faz com que os nosso genes, “egoístas” por natureza, nos permitam esses comportamentos altruístas.

Quais comportamentos? Os pássaros que quando encontram um predador ao invés de se esconderem e salvar a própria vida, gritam, chamando atenção para si, mas salvando as vidas dos outros indivíduos do bando, por exemplo. Mas todos vocês devem ter um monte de outros exemplos de atos de altruísmo, até de heroísmo.

Não acho que precisamos dos genes para explicar os comportamentos sociais. Mas com o mundo lindo e estranho em que vivemos, é tentadora a idéia de que o altruísmo é apenas uma outra face do egoísmo. Ainda que não expliquem a “niña mala” ou o bom menino do Vargas Llosa, porque afinal não dá pra explicar maus tratos e tortura, ainda que psicológica, daria pra explicar muitas das belezas estranhas que encontramos no nosso caminho.

Somos todos egoístas. O que determina a nossa capacidade para o altruísmo é nossa história de vida. Talvez o número de “niñas malas” ou “bons meninos” que a gente encontra pelo caminho.

O importante é que você não seja apenas egoísta ou altruísta. Ser apenas egoísta ou apenas altruísta é uma estratégia ruim (por ruim devemos entender, menos eficiente a longo prazo), que uma mistura balanceada dos dois. E por isso a gente quebra a cabeça tentando determinar o equilíbrio exato entre um e outro.

O que eu acho que é mais importante é a gente não se enganar. Se você quer ser egoísta, tente não disfarçar de altruísmo. Criar confusão é uma estratégia ruim se o seu objetivo não é despistar, confundir e fugir. Pensando, pensando, vamos ver que os meninos bons devem ser mais egoísta que as “niñas malas”.

Reconhecer nossos egoísmos é reconhecer nossa humanidade. E nossa natureza animal. Mas exercitar o altruísmo, alem de bonito, e útil também.

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