Adianta greve de professor?

A greve dos professores, que começou há duas semanas, me mobilizou para escrever um post sobre a distância entre a sociedade e a universidade, motivado por uma frase dita pela jornalista Eliane Brum em um programa de televisão. Mas para isso, precisei falar primeiro da greve em si.

Eu sou um cientista. Já disse que isso não é o que eu faço, é o que eu sou, e por isso não consigo evitar a abordagem científica momento algum. Se acredito que o método científico é a melhor maneira para se resolver um problema, como posso aplicá-lo no laboratório mas não aplicá-lo em casa, quando tento entender porque um souflé não funcionou ou porque uma lâmpada queima recorrentemente? Como posso aceitar a fé como fonte de explicação na minha vida pessoal, quando sei, pela experiência, que só as evidências científicas criam um saber consistente, coerente e permanente? Talvez outros possam, mas eu não posso. É por isso que quando meus colegas professores começam a se mobilizar por uma greve, eu não consigo me mobilizar ou aderir. Pela simples razão de nunca uma greve de professores ter dado qualquer resultado em função dos danos causados pela paralisação em si. Por que daria agora?

Avanço nos transportes, nas comunicações, na medicina, no ambiente… Talvez, nunca antes na história da civilização a sociedade tenha sentido tanto o efeito do saber que é produzido na universidade. Mas, sem uma população educada, é também provável que nunca antes a sociedade tenha se sentido tão afastada dessa instituição. Por que isso acontece é o argumento do meu próximo texto. O fato é que o governo primeiro contribui para essa distância ao investir na formação de doutores, mas cortar financiamento para pesquisa. Ao criar programas de treinamento para jovens, mas não fomentar o ensino fundamental e médio que prepare esses jovens para a universidade. Ao promover o aumento de vagas nas universidades sem dar infraestrutura. E depois o próprio governo usa a universidade abandonada como justificativa para não investir mais na universidade.

Os professores e pesquisadores, com todo o amor que tem pelo que faze, tem de matar uma manada de leões por dia para dar conta de ensinar em salas de aula quentes, sujas, mal equipadas uma geração de jovens super conectada e dispersa.

A classe jornalística, ao invés de denunciar isso, faz pouco, como no ‘causo’ que vou relembrar agora: No final de 2010, ia para a universidade ouvindo a CBN no Rádio quando o Carlos Alberto Sardenberg comentou que o prestígio do Mercadante estava baixo porque havia sido indicado para o MCT&I, na opinião dele, “um ministério menor”. Ainda que o MCT&I não tenha importância política (que advém da sua inexpressão econômica, que advém do Brasil apostar que o seu crescimento depende apenas da replicação de indústrias antigas – sujas e insustentáveis – com modelos e tecnologias importadas), é inadmissível que um jornalista desse porte faça esse comentário sem que seja acompanhada de uma crítica feroz e a exaltação da sua importância estratégica

É um triste exemplo do quanto os diferentes setores da sociedade pouco se importam com o que acontece na universidade. Como podemos esperar algum efeito de uma greve?

A motivação da greve é mais do que justa. Os professores universitários são os profissionais mais mal remunerados do serviço público federal, trabalham em péssimas condições em universidades sucateadas por anos de abandono, e ainda é tratado como palhaçada pelo governo na proposta de aumento salarial. Na prática, o salário de um professor adjunto da UFRJ, com 10 anos de casa, doutorado e pós-doutorado, com não sei quantos artigos publicados e alunos de graduação e pós-graduação, foi de R$13,00.

Além do papel na formação de cabeças pensantes e trabalhadores qualificados na universidade, o Brasil só pode contar com os professores universitários para movimentarem um sistema de inovação no país. É que sem uma indústria de transformação, aquelas pequenas empresas capazes de transformar o conhecimento produzido na academia em protótipos e produtos para a indústria (e sem uma política econômica e social que possibilite o desenvolvimento dessas empresas – o que inclui a falta de jovens com ensino fundamental, médio e superior de qualidade), essas duas tarefas caem nas mãos dos professores universitários. E não sou eu que estou dizendo isso não: é o próprio governo. Ou porque vocês acham que o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) virou MCT&I (de Inovação)? O Brasil está fazendo de bobo a categoria mais importante no seu plano de se tornar um país com uma posição mundial de liderança no século XXI.

Mas será que a greve é a forma de reinvidicar melhores condições de trabalho?

Hoje em dia, qualquer manifestação na INTERNET vai mobilizar muito mais a opinião pública do que uma passeata de 50 pessoas. Ou mesmo de 500, ou mesmo de 5000 pessoas. Vejam só o ‘Veta Dilma’. Escrever 1, 2, 10, 50 blogs mostrando dia após dia, de forma consistente, de forma crítica, de forma direta os problemas e os responsáveis pelos problemas na universidade, denunciem no jornal, no rádio, na TV, sensibilizem um ator global para fazer um pronunciamento, façam um vídeo viral na internet… era isso que as associações de trabalhadores e sindicatos deveriam estar fazendo no século XXI, mas não… E o movimento grevista contagia até mesmo os alunos, que resolveram entrar em greve também. Greve de aluno é uma incoerência, é uma ingenuidade. É claro que os alunos tem o direito de, e devem, se manifestar contra as péssimas condições da universidade, mas chamar de ‘greve’ (é um direito trabalhista e aluno não é trabalhador) e se recusar a assistir aula como forma de protesto é uma estratégia muito pouco eficiente. É antiga, sensibiliza negativamente a opinião pública e prejudica, em última instância, e principalmente, os próprios manifestantes: os alunos, já tão prejudicados por tantas outras coisas.

Talvez a única maneira dessa greve funcionar fosse justamente o contrário: Ou até o contrário: lutar para ter aulas seria a melhor forma de transformar a greve dos professores em algo que viraria notícia. Se os principais prejudicados pela greve dos professores fazem greve também…. ninguém vai se incomodar com mais nada.

Ou… como tantas vezes… talvez estejam todos certos e eu esteja errado. Se os professores universitários que estão sendo solicitados a fornecerem a inovação que o Brasil tanto precisa, não conseguem sequer bolar uma forma nova de protesto que não seja uma greve, talvez não mereçam reconhecimento mesmo.

Razão e sensibilidade

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Não costumo a publicar citações, mas essa do Dobzhansky continua atual e tem tudo a ver com a causa dos blogueiros de ciência, o combate ao avanço da pseudociências e a exclusão científica.
“Nos gostaríamos de acreditar que se conseguíssemos adequar com segurança dados em relação a qualquer problema científico, então qualquer pessoa com uma inteligência normal, que se da ao trabalho de tomar conhecimento desses dados, deveria necessariamente chegar a mesma conclusão sobre o problema em questão. Nos gostamos de falar de conclusões demonstradas, estabelecidas, provadas e aprovadas. Parece, no entanto, que nenhuma evidencia cientifica é forte o suficiente para forçar a aceitação de uma conclusão que é emocionalmente não aprazível”
Se não aprendermos a tocar o emocional das pessoas com a ciência, nos servirá de muito pouco a razão.

Quando é legítimo uma descoberta científica ser divulgada publicamente?

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Quando recebi um e-mail ontem convidando para o evento acima, fiquei entusiasmado. O tema de grande importância e o time é de feras.
Isso me lembrou de parte do texto que escrevi na proposta para solicitar fundos para o II EWCLiPo (o encontro de blogueiros de ciência em português). É sobre a diferença no enfoque da ciência pelo cientista e pelo jornalista.
Um artigo publicado na revista Nature (vol 458, Março de 2009) mostra que muitos jornais estão fechando suas seções de ciência enquanto jornalistas científicos ficam sobrecarregados e cada vez mais dependentes dos press releases de RPs. Isso tem acontecido nos estados unidos, Europa e também no Brasil.
Apesar das queixas dos jornalistas de ciência, as redações dos jornais mostram duas coisas: primeiro que as seções de ciência não dão lucro (e por isso estão fechando). O público tem uma grande afinidade com a ciência, mas não busca ciência todos os dias (uma tendência medida nos sites dos grande jornais do mundo). A segunda, e bem mais triste, é que os jornais perceberam que podem capturar audiência com ciência de má qualidade e sensacionalismo. Na maior parte dos casos, seria melhor não ter ciência alguma.
Hoje grande parte do jornalismo científico é feito com base em press releases e existem algumas agências de notícias que se especializaram até mesmo em publicar citações de cientistas famosos, para que os jornalistas possam ‘referenciar’ os press releases. Para que se dar ao trabalho de perguntar ao cientista se uma agencia já coloca na sua mão o que ele disse?
O artigo da nature continua dizendo que a ciência, como toda empreitada humana, está sujeita a (e cheia de) falhas, preconceitos e egos inflados; e precisamos muito de jornalistas para filtrar esse tipo de coisas. Mas o diálogo entre pesquisador e jornalista é muito difícil. Enquanto o jornalista quer a contundência, o cientista não abre mão da incerteza; enquanto o jornalista tem pressa, o cientista tem cautela. Os jornalistas querem que os cientistas reconheçam suas necessidades, mas não querem reconhecer as necessidades dos cientistas.
O resultado é que quem escreve os press release tem grande influência sobre o que o público vai ler sobre ciência, e por isso as instituições de pesquisa estão contratando os jornalistas científicos e montando assessorias de imprensa e escritórios de relações públicas científicas. Para escapar desse tiroteio, os cientistas estão mirando no grande público através da internet. Não só para publicar/divulgar seus trabalhos, mas também para ‘traduzirem’ os temas científicos para o público leigo, principalmente através de blogs (como esse!).
Os (nós) blogueiros se consideram uma fonte de informação científica confiável para o grande público. E são! Atualmente, mais que os jornalistas.
Mas vejam, os blogueiros não querem substituir (e nem poderiam) os jornalistas. Principalmente porque querem ter compromisso apenas com eles mesmos e publicarem o que quiserem. E por mais essa razão, sempre será necessário ter jornalistas profissionais sendo pagos para escreverem sobre o que está sendo publicado em um determinado momento.
De qualquer forma, em um país de tantos excluídos, a “exclusão científica” da população é uma das mais graves, porque as pessoas estão ouvindo falar de genoma, vacina gênica, transgênicos, mutantes, clones, células tronco… sem ter noção de como avaliar o quanto as informações que chegam até elas são verdadeiras.
Acredito que a descoberta científica é um processo e que esse processo possui marcos e que é legítimo que o cientista divulgue o processo e os marcos, mesmo antes da descoberta. Para aumentar ainda mais a credibilidade, seria importante que esses marcos fossem determinados a priori, no momento em que se estabelece o desenho de um experimento ou de um projeto, evitando rompantes de exibicionismo. Mas não deve haver a menor dúvida da importância de se divulgar essas descobertas, tanto para prestar contas a sociedade (que é a grande financiadora da atividade científica) quanto para mostrar a sociedade a importância do pesquisador.
Espero que esses assuntos sejam discutidos amanhã, e estarei lá pra ver.

Não sou blogueiro


Acabo de voltar do encontro de Blog de Ciência em Língua Portuguesa, em Ribeirão Preto. O encontro foi muito legal. Especialmente a parte da confraternização no Pinguím, o (dito) melhor chopp do Brasil.

Mas minha primeira conclusão é que eu não sou blogueiro. Tenho um blog, mas não sou blogueiro. Meu viés acadêmico de professor e pesquisador é forte demais e me vi com preocupações diferentes daquelas dos blogueiros.

Na minha opinião, o tema central do encontro foi para quem e para que blogar ciência. E os blogueiros tinham respostas para ambas perguntas. Diferentes das minhas.

Os blogueiros queriam blogar para os blogueiros! O blogueiro é o público alvo do blogueiro. Os blogueiros de ciência querem blogar para que os blogueiros de política, humor, variedades, leiam ciência; e se tornem melhores blogueiros de política, humor, variedades. São pontos importantes, mas para mim, não é suficiente.

Vejo três problemas em visar um público de blogueiros. O primeiro é que é um público pequeno; o segundo é que é um público restrito (um nicho que, se já não está saturado, vai saturar) e o terceiro é que esse não é o público que acessa, massivamente, os blogs de ciências atualmente.

Eu acho que a principal razão para escrever para os blogueiros, é porque é mais fácil. São os ‘pares’. Fácil porque acredito que os blogueiros sejam, em geral, leitores com critério. Certo, tem a grande massa de adolescentes, de Miguxos (juro que nem sabia o que eram), criando blogs para contar “com quem ficou na festa de ontem”, usando uma linguagem própria. Não estou levando esses em conta. Os blogueiros a quem me refiro podem não saber ciência, mas tem, na sua maioria, senso crítico para aprender ciência. Ou pelo menos para entender uma explicação sobre o porquê das coisas. O problema para o blogueiro de ciência, passa a ser, então, despertar a atenção do blogueiro não cientista para coisas que ele acha legais. Por isso que um dos temas mais falados no encontro foi a importância de um título controverso, do posicionamento da ciência em uma boa polêmica. E isso, despertar atenção para a ciência, não é fácil. A ciência básica pode ser muito chata e as controvérsias interessantes, muito difíceis, mesmo para os iniciados.

Será que vale o sacrifício para esse público que, no Brasil, é pequeno, muito pequeno? E pior, que não tem para onde crescer?

Sim, não tem para onde crescer. Não temos um público consumidor de ciência porque não temos um público capaz de consumir coisas muito menos difíceis do que ciência.
Abre parênteses: É por isso, inclusive, que acredito que a outra preocupação levantada no encontro, a pseudociência, é tão alarmante. A pseudociência é construída de acordo com as expectativas do leitor. É mais intuitiva, tão mais fácil quanto falsa. Fecha parênteses.

O PISA do ano passado mostrou que estamos entre os piores países avaliados no que tange leitura, matemática e ciências. Como querermos que as pessoas leiam blogs de ciências? Como podemos querer que as pessoas leiam?

Ainda que seja mais fácil, não podemos escrever apenas para o nosso pequeno público consumidor de blogueiros, por que, em breve, esgotaremos ele. Precisamos criar o público! Precisamos escrever não só para informar, mas para criar um público para informar. Se escrevermos apenas para que os blogueiros se tornem melhores blogueiros, não teremos público no futuro, quando (se) a moda dos blogs passar. Temos que criar uma massa de leitores ávidos por ciência. Ávidos pelo poder do saber. Temos que criar leitores com critério.

Os blogs podem ser uma ferramenta poderosa para criar esse público. Vai dar trabalho, mas ciência quase sempre é difícil. Ciência sempre dá trabalho. Não vamos partir para o mais fácil na hora de escrever, não é?!

Mas sabe qual é a melhor razão para isso? São os leitores dos blogs, hoje.

A massa de leitores de blogs de ciências, considerando o VQEB (mas o testemunho dos outros blogueiros sugere que é um fenômeno amplo), são estudantes em busca de informação para fazerem trabalhos da escola ou faculdade. Temos vários indicativos disso:

  • 80% do tráfego do VQEB chega através do Google e outros mecanismos de busca, usando palavras chaves relacionadas com ciências.
  • Entre as páginas mais acessadas do VQEB estão textos didáticos, como o sobre seleção natural, publicado em 2002.
  • O acesso ao blog é flutuante, com picos as 4as feiras e o vales aos sábados (quando, felizmente, parece que as pessoas ainda tem coisa melhor pra fazer do que ficarem grudadas na tela do computador).
  • A outra é uma flutuação anual, com picos em Abril e Outubro e quedas em Julho, Dezembro e Janeiro.
Outro parênteses: entre 10-15% dos acessos são oriundos de links em outros textos (a comunidade blogueira) e os 5% restantes são acessos diretos, nossos poucos leitores fieis que chegam a saber o nosso endereço. Fecha parênteses

Verdade que entre os 80% ainda temos os “paraquedistas“: aqueles internautas que entram na página e ficam poucos segundos. Que são trazidos por alguma manchete ou fotografia e saem sem nem mesmo ler o texto. Ou que digitaram ‘sexo selvagem’ na espera de encontrar alguma ponografia quente e encontram, no VQEB, um exemplo de reprodução sexuada de morcegos. O fenômeno acontece também nos blogs de ciência para grandes massas, como o do jornalista científico Reinaldo Lopes, que escreve para o G1.

São os “internautas sem critério” que o Luli Radfaher falou na palestra do ‘Oi Futuro’, ou os “excluídos com Orkut” como disse a Sonia Rodrigues no projeto ‘Rio Biografias’. Uma nova classe de personagens do ambiente virtual que são os excluídos funcionais do sistema educacional, aquelas pessoas que tem pouco potencial para desenvolver sua própria opinião porque tem pouca capacidade de identificar elementos em um texto, interpretar em função do que está sendo lido ou não dos seus próprios pré-conceitos; mas que agora começam a participar do ambiente virtual. Mas só para circular, consumir. Parece a rua das Pedras em Búzios: todo mundo vai e vem, e ninguém come ninguém.

Mas essa é a grande massa de pessoas que entra no blog! A gente não precisa chamar eles. E seria uma irresponsabilidade, além de um desperdício, não escrever para eles. Eles são o público que pode crescer. Eles são o público que a gente pode criar.
Que darão não 20 mil, mas 20 milhões de acessos por dia! Uma dia (eu espero).

O que eu acho bacana é que escrever para eles também pode ser escrever para os blogueiros. “Só se escreve para nós, ou para todo mundo” me disse hoje a Sonia Rodrigues. Por que o importante não é a informação que você dá no seu texto, mas a pergunta que o cara faz quando lê o seu texto. Essa é universal, porque cada uma faz a sua, na linguagem que quiser, na linguagem que entende. Quem faz perguntas, aprende critérios. Se inclui. Vira público. Vira leitor. I EWCLiPo

PS: O II EWCLiPo será em Agosto de 2009 em Búzios, no Rio de Janeiro.

Modelos

Se o tempo muda e começa a fazer frio, você coloca um casaco. Se o tempo muda de vez, quando entramos em uma era glacial, os animais que não tem casaco… vão se extinguindo até que aparece um com uma pelugem mais encorpada e que consegue sobreviver e deixar descendentes.

Com nosso cérebro podemos decidir em instantes qual a melhor estratégia de adaptação ao ambiente. Em última instância, a seleção natural faz exatamente a mesma coisa. Porém ao longo de tempo geológico.

Parece muito doido? Então você pode ficar meio confuso com esse texto.

Eu não sou o primeiro a sugerir (quanta modéstia) que a seleção natural poderia atuar como uma forma de ‘mente’, tomando decisões da mesma forma que nosso cérebro. Mas foi só pouco tempo atrás que descobri isso, quando li que Maynard-Smith já admitia essa idéia nos anos 60.

Mas por que a seleção natural como uma ‘mente’ seria uma coisa importante? Atualmente, cultura e comportamento social são tidos como muito mais importantes para o sucesso adaptativo do homem ao meio ambiente do que os aspectos biológicos selecionados durante os milhões de anos de existência dos hominídeos. A ‘mente’ do homem é (seria então) mais eficiente que a ‘mente’ da seleção natural. Mas quem foi que disse?

A sociedade moderna é jovem. Na verdade, a humanindade é jovem. Como cultura podemos dizer que temos o que?!? Uns 5.000 anos (considerando já a pré-história – escrita)?!? Tá, mas vamos ampliar ainda mais esse número, porque senão não podemos nem começar uma comparação com tempo evolutivo. Vamos colocar, justamente, que a cultura como a conhecemos nasceu quando o homem começou a falar. Ainda assim ficamos com algo em torno de 100.000 anos, um número irrelevante quando comparado com a origem da vida (3,8 bilhões de anos), a última grande extinção de espécies em massa (65 milhões de anos) ou mesmo o aparecimento dos hominídeos (6 milhões de anos). O tempo que temos vivido sob o comando da mente e da cultura humana não é suficiente para que a seleção natural determine se as estratégias antropogenicas e antropológicas de comportamento ético e cultural são evolutivamente estáveis (ou seja, se elas podem trazer sucesso em longo, longo prazo).

Apesar de sermos algo em torno de 6 bilhões de indivíduos, ainda não houve tempo para determinar se o aparecimento da mente, da capacidade de raciocínio lógico, cultura e tudo mais que eu vou passar a chamar de ‘modelo antropológico’ é realmente mais interessante do que as estratégias do que chamarei a partir de agora de ‘modelo biológico’, caracterizadas pelos comportamentos mais instintivos cravados pelos milhões de anos de evolução em nosso DNA. O modelo biológico foi desenvolvido e vem sendo aperfeiçoado há milhões de anos. Temos os mesmos lipídeos na membrana que as bactérias tinham há 3,5 bilhões de anos. Utilizamos os mesmos açúcares e o mesmo ATP para o metabolismo energético que um ancestral delas inventou antes disso. E o nosso código genético… esse é ainda mais antigo.

Todas as estratégias biológicas e comportamentos que foram selecionados durante esse período estão representadas nos nossos fenótipos: manifestações físicas ou comportamentais dos que está nos nossos genes. Então, quando utilizamos o ‘modelo antropológico’ para explicar o comportamento e a sociedade humana, estamos utilizando um modelo pouco testado. Quando utilizamos o raciocínio, a lógica, a filosofia, a ética, para driblarmos expressão gênica, características morfológicas e instintos, estamos utilizando um modelo sem certificado de garantia. Evolutivamente, a humanidade descobriu a consciência, mas ainda não provou nada.

Não acho que usamos o ‘modelo antropológico’ só porque ele é mais bonitinho. Acho que a maior parte das pessoas é despreparada para compreender o ‘modelo biológico’, ou pior, é despreparada para aceitar a sua inevitabilidade. E como antropocentristas, além de antropológicos, temos muita dificuldade para optar por aquilo que nos tira do centro e da majestade de espécie superior. Nosso cérebro é realmente uma invenção. E temos uma capacidade de adaptação ao ambiente realmente incrível. Mais que isso, temos versatilidade e nos adaptamos à diferentes ambientes da mesma forma. Podemos até mesmo passear por alguns ambientes extremos como o fundo do mar e o espaço (que podemos – e poderemos cada vez mais – explorar por recursos).

Mas nossa espécie superior provavelmente superou a capacidade de suporte do planeta (termo que utilizamos em ecologia para designar o limite de disponibilidade dos recursos naturais do ecossistema). Somos em maior número do que o nosso limitado planeta é capaz de suportar. O cérebro foi confundido!

Confundiu perpetuação dos genes com perpetuação da consciência. Lutamos para aumentar a vida mais do que a qualidade de vida. Longevidade indiscriminadamente. Durante bilhões de anos a seleção natural viu que era complicado construir um corpo indestrutível em um ambiente inóspito e concluiu que era melhor construir organismos frágeis como uma vida útil curta, mas que pudessem passar informação de um para o outro (os genes) e se modificando sempre que o ambiente fizesse o mesmo. Melhorando a ‘maquina’ até, sempre que possível, e garantindo a sobrevivência da informação. Ahhh, mas nós não… o que nós queremos salvar são nossas preciosas consciências. Queremos viver pra sempre! Nós e mais 6 bilhões. Não dá!

Os fatores culturais têm sim importância maior que os biológicos em eventos de curto prazo. Mas, historicamente, lógica, moral e outros fatores antropogênicos serviram (e servem) principalmente aos interesses das minorias dominantes capazes de criar e manipular esses valores. Abrir mão de explicações biológicas para fenômenos que acontecem no dia a dia é desperdiçar experiência, acumulada e prontamente disponível. Se basear em explicações antropológicas para justificar ou explicar nossas escolhas é favorecer um modelo testado por 5 mil ao invés de 5 milhões de anos do ‘modelo biológico’ duramente testado pelo INMETRO do universo: a seleção natural.

As cartomantes de bar e a exclusão científica


Abrindo alguns arquivos li a frase que separei do livro “Ciclo do tempo, Seta do tempo” do biólogo evolucionista Stephen G Gould:

“Dê-nos financiamento de deixem-nos trabalhar em paz, por que de qualquer forma vocês não entenderiam o que nós estamos fazendo”.

Não era uma apologia ao ostracionismo, mas sim uma crítica a postura de muitos cientistas modernos de não se preocuparem em traduzir os conceitos que estudam profundamente para o público em geral.

Em um país de tantos excluídos, podemos incluir a “Exclusão Científica” como uma das mais graves. Lembro do seminário que assisti em 1999 e que uma professora da USP falava de uma pesquisa patrocinada pela FeSBE que mostrava a disposição da população em pagar um imposto de R$1,00 para que a ciência no Brasil se desenvolve-se mais. No ano passado, a editora da seção de ciência do Globo me falou que “Ciência” era o assunto que mais interessa a faixa etária jovem (não me perguntem o que ela entende por, nem me peçam pra definir, jovem ;-). Mas as pessoas estão ouvindo falar de genoma, vacina gênica, transgênicos, mutantes, clones, células tronco… sem ter noção de como avaliar o quanto as informações que chegam até elas são verdadeiras.

Foi-se o tempo em que precisavamos apenas aprender a ler para sermos alfabetizados. Hoje precisamos entender de um monte de outras coisas. E a ciência, como filosofia e metodologia, é muito mais intuitiva do que, por exemplo, a informática (ou você acha fácil entender como sequencias de 0010001010100100101011101010110 – zeros e uns – se transformam nos seus jogos de computador preferidos?). Precisamos urgente de uma educação científica para facilitar a compreensão de todas as outras ferramentas que a sociedade tecnológica nos impõe.

Uma vez dei uma palestra para um grupo de ribeirinhos na Amazônia. Eu fiquei muuuuuito tempo pensando em como me comunicar com aquelas pessoas que tinham uma realidade de vida tão diferente da minha. Acabou que a ciência, ela mesma, era o vínculo perfeito pra conectar esses dois mundos (o da “internet via satélite” e o da “sem energia elétrica”):
“Todos somos cientístas” eu comecei falando (bonito, não?!).

E era verdade… Foi através de observação que eles determinaram e melhor época para colher. Era através da experimentação que eles sabiam que culturas mesclar. E da seleção artificial que determinavam as melhores sementes para plantar.

Projeto Lago Puruzinho. Foto de Márlon Fonseca
Hoje, quando li no “Buteco do Edu” que uns bares “mauricinhos” da cidade estão colocando cartomantes a disposição dos clientes para dar as “previsões” para o ano novo, vejo que apesar da ciência ter dado nos últimos 500 anos TUDO que a filosofia e a religião prometeram sem cumprir nos últimos 5000, as pessoas continuam precisando do sobrenatural para explicar nossas existências frustradas de explicações.

Me deu vontade de colocar em cada mesa do Estephanio’s um bloco para os boêmios questionarem o Biólogo sobre as abobrinhas metafísicas que inundam as mesas de bar depois do 3o chope, e que tem, todas elas, fundo científico.

Por que o chope tem de vir com espuma? Por que depois de um tempo ele fica com gosto amargo? Como um ovo deve cozinhar para que a gema fique exatamente no centro?

Duvído que a Cartomante responda!

Os cientistas e seus egos

Um livro de tiragem pequena, circulação restrita e edição esgotada, é um dos meus livros de cabeceira. Chama “O perfil da ciência brasileira” de Leopoldo de Meis e Jacqueline Leta. O livro trata a do que se convenciona chamar cienciometria, ou os indicadores da ciência. No caso, a brasileira. Entre outras coisas, o livro mostra que, a partir da década de 80, a produção científica brasileira aumentou vertiginosamente. Paradoxalmente, no mesmo período, os investimentos em ciência e tecnologia no país sofreram sucessivos cortes. Como explicar o fenômeno, que culminou nos anos 90, com a entrada do Brasil no seleto grupo dos 20 países que contribuem com mais de 1% da ciência mundial (e que hoje ocupa a 17 posição)?
Não é tão difícil. No mesmo período aumentaram, proporcionalmente, as bolsas de pós graduação, especialmente de doutorado. E com isso, aumentou a produtividade da ciência brasileira. Mesmo sem verba para pesquisa, aumentando o número de trabalhadores jovens, foi possível, graças a criatividade e esforço, superar as dificuldades financeiras. As estatísticas mais atuais do CNPq ou da CAPES, mostram que a correlação entre número de pós-graduandos e produção científica se mantém nos diferentes institutos de pesquisa do país: mais pós-graduandos, mais produção científica!

Desde que tomei conhecimento dessa informação, quando ainda era um estudante de pós-graduação, comecei a lutar por essa causa. Hoje fazemos parte de um grupo que defende os interesses dos jovens cientistas, definidos atualmente como os doutores com algo entre 5 e 10 anos da defesa da tese de doutoramento. Esse grupo tem sido especialmente preterido no Brasil nos últimos 10 anos. Aqui, os jovens tem de ficar mercê dos cientistas seniores, que são os capazes de determinar linhas de pesquisa e conseguir financiamento dentro do sistema de financiamento de ciência brasileiro.

O Rapto das Sabinas de Gianbologna representa a quebra de paradigmas e a vitória do novo sob o velhoIsso vai continuar acontecendo enquanto as agências de fomento a pesquisa, fundações de apoio a pesquisa em nível estadual (como a FAPERJ) e o CNPq e a CAPES em nível nacional, não possuírem jovens pesquisadores em suas instâncias decisórias (os conselhos diretores e comitês assessores). Pra entender que essa o quanto essa presença é fundamental, basta ver o quanto são insipientes e ineficientes os programas de fomento para jovens pesquisadores.

O que forma um novo paradoxo, já que é nessa fase da vida que os cientistas são mais produtivos. Basta ver que Einstien, Newton, Watson e Crick… tinham todos menos de 40 anos quando fizeram suas grandes descobertas.

“O Gabeira disse que o mundo inteiro quer paz”, essa tirada de uma amiga que assistiu o Gabeira na FLIP virou pra mim retrato daquelas coisas que são fáceis de todo mundo querer, e de todo mundo saber. Então vou dar a minha: O ego e a sede de poder são inerentes ao ser humano! Apenas me parece que naquelas profissões onde a remuneração não é compatível com o nível intelectual, a inteligência acaba sendo super valorizada, já que só sobra ele como moeda de valorização do ego. “Eu ganho pouco, mas olha aqui o que eu sei e que ninguem mais entende”! Mas ainda é impressionante ver mesmo nesses círculos super restritos, a sede por um poder minúsculo, reconhecido apenas por uma meia dúzia de pares, é grande. E as batalhas intensas. Só que os jovens são tirados fora dessas brigas pelo poder. A eles cabe trabalhar enquanto aos “Grandes” cabe decidir. Resta saber quem decidiu isso?

Na semana passada estive no Congresso da FeSBE em Águas de Lindóia e quando perguntei a um professor catedrático, chefe de um comitê assessor da CAPES, como ele explicava que os jovens cientistas serem os principais atores nos planos da CAPES para nuclear novos grupos de pós-graduação em áreas do Brasil sem tradição em pesquisa, mas não terem assento nos comitês assessores (como aquele que ele presidia no momento), a resposta dele foi: vocês ainda tem que comer muito arroz com feijão!

Como li em um artigo da Nature que não consigo mais encontrar de jeito nenhum: “É mais fácil fazer um dia frio no Inferno que os pesquisadores estabelecidos permitirem mudanças nas regras da distribuição de verbas para pesquisa”.

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