Um vampiro, um lobisomem, um saci-pererê

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Aaaaawwwwwmmmmnnnn… Minha amiga Leila, 36 anos, pós-doutorado em Genética, geme no cinema ao ver Taylor Lautner, o ator que faz o lobisomen Jacob Black, tirar a camisa no filme Eclipse. Ela e mais outras 332 meninas, várias com suas mães, pareciam estar apenas por esse motivo. Mas quando no dia seguinte, sábado a noite, eu estava guiando na estrada pra São Pedro da Aldeia e ouvi quase 1h de debate na BandNewsFM, com psicólogas, pedagogas e jornalistas sobre os ‘efeitos’ da saga nos adolescentes, eu achei que tinha de fazer alguma coisa.
Eu não vou criticar o filme. Particularmente, como fantasia e amor impossível, o ‘Feitíço de Áquila‘ é imbatível. E cá pra nós, a Michele Pfeiffer virando lobo é bem mais legal.
Mas o que eu poderia fazer de útil com todo esse afã em torno da saga ‘Crepúsculo‘? Explicar a bioquímica por trás do mito do Vampiro e do Lobisomem, é claro. Sou ou não sou NERD?!
Vocês já devem ter ouvido falar da Hipertricose Lanuginosa Congênita, aquela doença que deixa a pessoa com o corpo TODO coberto de pelos. Sim, ela poderia ter sido a origem do mito do lobisomem, mas o problema é que ela é muito rara e existem apenas 50 casos documentados no mundo. Se hoje com a internet ainda é difícil encontrar alguém com essa doença, imagina na idade média.
Um candidato mais forte para a origem do mito são as ‘Porfirias’, um conjunto de doenças que afetam uma via metabólica importantíssima para o organismo, porque produz um dos principais componentes do sangue: o Heme.
Digo um conjunto de doenças porque é mesmo: se for ao site da ‘Associação brasileira de porfiria’ poderá aprender mais sobre cada uma delas. Na verdade isso acontece porque a via metabólica que sintetiza o heme tem 8 etapas e dependendo de qual etapa apresentar problema, a porfiria será uma diferente.
Uma via metabólica tem reações em cadeia, em sequência, onde o produto da primeira reação serve de matéria prima para a segunda. Se dá um problema na primeira reação, o produto não é consumido pela segunda e se acumula. Apesar de simples, o problema é grande.
Vou usar os nomes das enzimas, porque assim meus alunos vão poder usar esse texto pra estudar, mas você, que não tem aula de biofísica comigo, vai entender de mesmo jeito, e nem vai achar chato.
Você se lembra do Ciclo de Krebs, não é?! Vai, desse todo mundo se lembra nas aulas de biologia do ensino médio. A Glicose dos alimentos é quebrada em pequenos pedaços chamados de Piruvato, que depois viram um composto super versátil chamado Acetil-CoA, que pode entrar em um ciclo que permite tirar dessa molécula vários elétrons para depois gerarem ATP (a moeda energética da célula) na famosa ‘cadeia transportadora de elétrons’.
Bom, isso tudo foi pra dizer que o primeiro composto da via metabólica da síntese do Heme, é a Succinil-CoA, que é um dos compostos intermediários do ciclo de Krebs. Juntamos esse composto com o aminoácido Glicina e temos o primeiro produto intermediário: o ácido delta-aminolevulínico (ou ALAd).
Depois o ALAd é desidratado, perde duas moléculas de água e vira um composto de nome bem estranho: porfobilinogênio. Esse composto possui um anél pirrólico, que nada mais é do que um pentágono de carbonos com um nitrogênio na ponta (olha a figura).
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Bom, na próxima etapa (que é dividida em duas) formamos um círculo de anéis pirrólicos. Juntamos 4 porfobilinogênio para formar o uroporfirinogênio III (primeiro o I e depois o III). Eu arriscaria dizer que esse é o composto chave, porque ele já tem cara de Heme, só falta colocar o átomo de ferro lá dentro.
E isso é feito na seguinte ordem: uroporfirinogênio III vira coproporfirinogênio III, que vira protoporfirinogênio III, que vira protoporfirina III, que ganha o Fe2+ e vira Heme. Foram oito reações mesmo, confere?
Bom, o 5o estágio, que é quando o uroporfirinogênio III vira coproporfirinogénio III. Essa reação é feita por uma enzima chamadade Uroporfirinogênio descarboxilase, mas vamos chamala de UROD que é como todo mundo chama. Essa etapa é crucial porfíria (a doença, caso você já tenha se embaralhado com tantos nomes) e para os nossos vampiros e lobisomens da idade média.
O trabalho das enzimas é meio chato. Elas são aqueles funcionários que aparecem em linhas de produção apertando parafusos, como num filme do Orson Welles, mas como elas sabem só fazer isso, elas em geral fazem muito bem. Bom, isso sem ninguém atrapalhar. Bom, as vezes a UROD vem com um defeito de fábrica, uma mutação genética que pode ser passada de pai para filho, e ai não há o que fazer: ela não consegue ‘apertar os parafusos’ direito e ai teremos Porfiria. As enzimas geralmente são mais chatas com exclusividade do que as mulheres e só o coproporfirinogénio III, e apenas ele, pode seguir na via metabólica para virar Heme.
Mas como eu disse antes, essas doenças genéticas são sempre raras (porque as mutações são raras) e dificilmente podem dar origem a qualquer mito que seja. O que mais, que não seja genético, pode atrapalhar a UROD?
A resposta é Dioxina. Ah, você não sabe o que é dioxina? É um composto orgânico muito tóxico que ficou famoso por causa do ‘Agente Laranja’ usado na guerra do Vietnã para desfolhar as florestas e mais recentemente por ter sido usado como arma no atentado ao candidato a presidente da Ucrânia em 2004 Victor Yushchenko.
Além da dioxina ser tóxica, ela está muito mais difundida no ambiente do que as mutações genéticas. A mais famosa é o TCDD. Esse composto quando entra na célula é ativa uma via metabólica especial, chamada de AhR (lembre-se de Arght!) cuja função é mandar para o xixi todas essas porcarias orgânicas que entram no nosso corpo. O AhR faz isso, nesse caso, em parte, através de um composto chamado CYP1a2, e é ai que mora o perigo.
O CYP1A2 é capaz de interferir na via metabólica do Heme, naquele 5o passo fundamental, convertendo o uroporfirinogênio III em uroporfirina III ao invés de coproporfirinogênio III. Se pelo menos as enzimas não fossem tão específicas… poderíamos fazer alguma coisa com esse composto, mas a verdade é que não podemos e a uroporfirina III começa a se acumular no fígado e na pele, causando todos os sintomas da porfíria:

  • Anemia profunda – que levava as pessoas a uma dieta de carne, muitas vezes crua, e até mesmo sangue
  • Fotosensibilidade – uroporfirina absorve a luz do sol, mas depois não sabe o que fazer com a energia, por isso ela produz radicais livres que atacam o tecido da pele, causando manchas e feridas. Causava ainda despigmentação da pele e sangramentos nos olhos e gengivas
  • Hirsutismo – pra minimizar o efeito da luz, o corpo responde produzindo pelos nos locais mais expostos e normalmente desprotegidos, como as costas das mãos, as bochechas e testa

Desses sintomas para o mito, realmente não precisa muito, não é?
Resta ainda uma pergunta. Mas se a Dioxina foi criada pelo homem na era industrial, como ela poderia afetar as pessoas na idade média? Acontece que a TCDD não é a única substância a ativar os mecanismos de biotransformação do AhR (lembra, o arght!) e a iniciar a produção do CYP1A2. Outros compostos como o benzopireno, o BaP, que se formam simplesmente com a queima de carvão e madeira (tá cheio de BaP na carne de churrasco que a gente come, no cigarro que alguns fumam e na fumaça de carro que todos respiramos) também ativam. E muito.
Na idade média as pessoas cozinhavam com fornos a lenha dentro de casa, e a concentração de Hidrocarbonetos poliaromáticos, a classe de compostos que ativam o AhR e da qual o BaP faz parte, devia ser alta o suficiente para induzir muitos casos de uroporfiria. Então parece que por causa dos fornos a lenha da idade média, hoje em dia temos que conviver com os gemidos das adolescentes por monstros criados pela poluição. Menos o Saci Pererê.
PS: Se você se interessou a ponto de querer saber mais, pode acompanhar esse “Lancet Student Seminar: Porphyria” ou esse artigo da Scientific American “Born to be purple”. Ambos em inglês.

Smith AG, Clothier B, Carthew P, Childs NL, Sinclair PR, Nebert DW, & Dalton TP (2001). Protection of the Cyp1a2(-/-) null mouse against uroporphyria and hepatic injury following exposure to 2,3,7,8-tetrachlorodibenzo-p-dioxin. Toxicology and applied pharmacology, 173 (2), 89-98 PMID: 11384210

Modelos

Se o tempo muda e começa a fazer frio, você coloca um casaco. Se o tempo muda de vez, quando entramos em uma era glacial, os animais que não tem casaco… vão se extinguindo até que aparece um com uma pelugem mais encorpada e que consegue sobreviver e deixar descendentes.

Com nosso cérebro podemos decidir em instantes qual a melhor estratégia de adaptação ao ambiente. Em última instância, a seleção natural faz exatamente a mesma coisa. Porém ao longo de tempo geológico.

Parece muito doido? Então você pode ficar meio confuso com esse texto.

Eu não sou o primeiro a sugerir (quanta modéstia) que a seleção natural poderia atuar como uma forma de ‘mente’, tomando decisões da mesma forma que nosso cérebro. Mas foi só pouco tempo atrás que descobri isso, quando li que Maynard-Smith já admitia essa idéia nos anos 60.

Mas por que a seleção natural como uma ‘mente’ seria uma coisa importante? Atualmente, cultura e comportamento social são tidos como muito mais importantes para o sucesso adaptativo do homem ao meio ambiente do que os aspectos biológicos selecionados durante os milhões de anos de existência dos hominídeos. A ‘mente’ do homem é (seria então) mais eficiente que a ‘mente’ da seleção natural. Mas quem foi que disse?

A sociedade moderna é jovem. Na verdade, a humanindade é jovem. Como cultura podemos dizer que temos o que?!? Uns 5.000 anos (considerando já a pré-história – escrita)?!? Tá, mas vamos ampliar ainda mais esse número, porque senão não podemos nem começar uma comparação com tempo evolutivo. Vamos colocar, justamente, que a cultura como a conhecemos nasceu quando o homem começou a falar. Ainda assim ficamos com algo em torno de 100.000 anos, um número irrelevante quando comparado com a origem da vida (3,8 bilhões de anos), a última grande extinção de espécies em massa (65 milhões de anos) ou mesmo o aparecimento dos hominídeos (6 milhões de anos). O tempo que temos vivido sob o comando da mente e da cultura humana não é suficiente para que a seleção natural determine se as estratégias antropogenicas e antropológicas de comportamento ético e cultural são evolutivamente estáveis (ou seja, se elas podem trazer sucesso em longo, longo prazo).

Apesar de sermos algo em torno de 6 bilhões de indivíduos, ainda não houve tempo para determinar se o aparecimento da mente, da capacidade de raciocínio lógico, cultura e tudo mais que eu vou passar a chamar de ‘modelo antropológico’ é realmente mais interessante do que as estratégias do que chamarei a partir de agora de ‘modelo biológico’, caracterizadas pelos comportamentos mais instintivos cravados pelos milhões de anos de evolução em nosso DNA. O modelo biológico foi desenvolvido e vem sendo aperfeiçoado há milhões de anos. Temos os mesmos lipídeos na membrana que as bactérias tinham há 3,5 bilhões de anos. Utilizamos os mesmos açúcares e o mesmo ATP para o metabolismo energético que um ancestral delas inventou antes disso. E o nosso código genético… esse é ainda mais antigo.

Todas as estratégias biológicas e comportamentos que foram selecionados durante esse período estão representadas nos nossos fenótipos: manifestações físicas ou comportamentais dos que está nos nossos genes. Então, quando utilizamos o ‘modelo antropológico’ para explicar o comportamento e a sociedade humana, estamos utilizando um modelo pouco testado. Quando utilizamos o raciocínio, a lógica, a filosofia, a ética, para driblarmos expressão gênica, características morfológicas e instintos, estamos utilizando um modelo sem certificado de garantia. Evolutivamente, a humanidade descobriu a consciência, mas ainda não provou nada.

Não acho que usamos o ‘modelo antropológico’ só porque ele é mais bonitinho. Acho que a maior parte das pessoas é despreparada para compreender o ‘modelo biológico’, ou pior, é despreparada para aceitar a sua inevitabilidade. E como antropocentristas, além de antropológicos, temos muita dificuldade para optar por aquilo que nos tira do centro e da majestade de espécie superior. Nosso cérebro é realmente uma invenção. E temos uma capacidade de adaptação ao ambiente realmente incrível. Mais que isso, temos versatilidade e nos adaptamos à diferentes ambientes da mesma forma. Podemos até mesmo passear por alguns ambientes extremos como o fundo do mar e o espaço (que podemos – e poderemos cada vez mais – explorar por recursos).

Mas nossa espécie superior provavelmente superou a capacidade de suporte do planeta (termo que utilizamos em ecologia para designar o limite de disponibilidade dos recursos naturais do ecossistema). Somos em maior número do que o nosso limitado planeta é capaz de suportar. O cérebro foi confundido!

Confundiu perpetuação dos genes com perpetuação da consciência. Lutamos para aumentar a vida mais do que a qualidade de vida. Longevidade indiscriminadamente. Durante bilhões de anos a seleção natural viu que era complicado construir um corpo indestrutível em um ambiente inóspito e concluiu que era melhor construir organismos frágeis como uma vida útil curta, mas que pudessem passar informação de um para o outro (os genes) e se modificando sempre que o ambiente fizesse o mesmo. Melhorando a ‘maquina’ até, sempre que possível, e garantindo a sobrevivência da informação. Ahhh, mas nós não… o que nós queremos salvar são nossas preciosas consciências. Queremos viver pra sempre! Nós e mais 6 bilhões. Não dá!

Os fatores culturais têm sim importância maior que os biológicos em eventos de curto prazo. Mas, historicamente, lógica, moral e outros fatores antropogênicos serviram (e servem) principalmente aos interesses das minorias dominantes capazes de criar e manipular esses valores. Abrir mão de explicações biológicas para fenômenos que acontecem no dia a dia é desperdiçar experiência, acumulada e prontamente disponível. Se basear em explicações antropológicas para justificar ou explicar nossas escolhas é favorecer um modelo testado por 5 mil ao invés de 5 milhões de anos do ‘modelo biológico’ duramente testado pelo INMETRO do universo: a seleção natural.

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