Diário de um biólogo – Quarta, 23/03/2011 – Igreja

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Me pegou de surpresa. Eu não esperava. Não tamanha cara de pau. Não ali, na sala de aula, na MINHA sala de aula.
Primeiro dia, turma nova do curso de Biofísica para Biologia, pelo qual eu tenho enorme afeição e que fiz questão de remodelar e renovar assim que assumi a coordenação. Passo duas horas tentando entreter, com cuspe e giz, uma moçada que está acostumada com iPhone e Facebook, cinema 3D e videogame. Passo duas horas intercalando histórias engraçadas do James Watson, que foi para a Inglaterra porque era tão feio e chato que não consegui arrumar namorada nos EUA (e tinham dito pra ele que lá era mais fácil, mas nem assim ele se deu bem) e acabou descobrindo a dupla-hélice do DNA; contando o esforço de caras como Schrödinger, para mostrar, como já discuti aqui, que ainda que não possamos explicar a vida com o conhecimento que possuímos hoje, não há nenhuma razão para não acreditar que ela não possa ser explicada pela física e pela química. Falo de astrobiologia, cito os filósofos gregos e as últimas teorias sobre a auto-consciência da neurobiologia. Discuto a dificuldade, como já falei aqui e aqui, para definir vida, já que o melhor que podemos fazer é enunciar seus atributos.
Termino a aula com a garganta arranhada, mas com a sala cheia e o sentimento do dever cumprido. E quando um aluno pede aos colegas que não saiam e me pede para falar, eu não poderia imaginar o que vinha pela frente. Achei que ele ia anunciar uma festa, ou o grupo de estudo para a prova de bioquímica. Que nada, ele deve ter ficado ali, fora do meu campo visual, sentado na 1a carteira da primeira fila da esquerda, para que eu não conseguisse ver suas expressões ao longo da aula. Subiu no tablado, o MEU tablado, e mandou:
“Eu tenho uma definição para a vida”
e sacou o celular para ler
“João, capítulo 14, versículo 1: Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.
E ainda me agradeceu pela oportunidade. Mas que cara de pau!
E, como professor, o máximo que pude fazer, foi voltar e falar novamente sobre o método científico e tentar minimizar o dano. Mas que já estava feito, porque o cara foi preciso, cirúrgico. Entrou no momento certo, no final, quando podia falar o que quisesse e se mandar. Fiquei pensando se na escola de pastores eles ensinam essas coisas.
Não dá pra baixar a guarda com eles, nunca. Mas na minha igreja, não!

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