Sinais de fumaça


Um dia fui no laboratório da minha amiga Silvana Allodi falar não sei o que (trabalhamos no mesmo instituto, co-orientamos alunos, temos projetos conjuntos, gostamos dos mesmos vinhos…) mas ela estava de saída para a ABC (Academia Brasileira de Ciências), ver a palestra do Dr. Wolpert Lewis. Ela me chamou e eu resolvi ir também. Nunca tinha ido na ABC e se ela estava indo ver o cara, apesar de eu nunca ter ouvido falar dele, ele deveria ser bom. Silvana tem bom gosto.
Foi uma decisão acertada, professor de biologia aplicada a medicina na University College London, esse engenheiro civil que resolveu estudar desenvolvimento celular depois de ouvir falar das propriedades mecânicas da membrana plasmática tinha idéias interessantíssimas.
Mas como o meu conhecimento sobre o desenvolvimento embrionário é restrito (o suficiente para não conseguir distinguir a brilhantismo dele), ele me impressionou muito ao chamar atenção para coisas óbvias em biologia as quais eu nunca tinha levado em consideração.
Uma das coisas intrigrantes da célula é a comunicação celular. A célula está isolada do meio externo por uma membrana, que é semi-permeável mas muito, muito seletiva. Mas essa barreira também é a principal ferramenta de ‘percepção’ do meio externo. Proteínas na membrana são capazes de perceber variações no meio (pH, temperatura, carga, concentração de elementos), sinais de outras células ou órgãos (citocinas, neutrotransmissores, hormônios), além de xenobióticos (substâncias estranhas ao organismo como poluentes, venenos, remédios).
A detecção dessas variações no meio externo pode (e geralmente) desencadear uma resposta no meio interno, geralmente fruto de alterações na estrutura de proteínas e na expressão gênica. Mas como o sinal não ultrapassa a membrana, ele tem que ser transmitido do meio externo para o meio interno. Para isso a célula possui uma gama enorme de proteínas e moléculas sinalizadoras que funcionam de forma encadeada, em cascatas. São as vias de sinalização celular.
Apesar da sua grande variedade, a lógica é sempre a mesma: uma coisa modifica outra, que modifica outra, que modifica outra, que modifica outra, que modifica uma mais uma outra, até que modifica uma última coisa que dispara uma resposta, uma ação, por parte da célula. Essa resposta pode ser a produção de uma proteína, a modificação de outra, a divisão ou a morte celular.
A lógica é perfeita, o problema é o quão longas e complicadas podem ser as cadeias de eventos que participam da sinalização celular. Principalmente se pensarmos no ‘princípio da economia da natureza’ (sobre o qual já falei aqui e aqui)
Apesar de não ser uma lei universal, como a 2a lei da termodinâmica, que eu adoro, a ‘Navalha de Occam’ (que é o outro nome dado ao princípio, assim como parcimônia) é também um conceito importante a bastante útil. Ele diz que na natureza, tudo é feito da mais forma mais simples possível para que o fenômeno aconteça (veja, que não é possível. Se for simples e não funcionar… não vale).
Como nos brinquedos (cujo nome genérico eu não sei) dos filminhos, tirados de um episódio de Arquivo X, a reação (o enforcamento em um e a cesta em outro) decorrentes da ação (acionar um botão) passam por uma infinidade de etapas intermediárias, que gastam energia e que são simplesmente inúteis. Sim, elas devem permitir algum nível de controle e de ajuste fino, não mas isso não explica o número enorme de etapas, o gasto de energia e nem o risco de erro em cada uma delas. Para mim a sinalização celular simplesmente não fazia sentido.

Até a palestra de Wolpert. Ele mostrou que gastamos 95% da nossa energia para produzir eletricidade. Sim, corrente elétrica. Mais uma vez, os robôs do Matrix estavam certos: nos alimentem e nos deixem quietos que nós iluminaremos o mundo! Transmissão de impulsos nervosos, contração muscular, pensamento… tudo isso depende de potenciais de ação, a forma primária de comunicação entre as células através das longas distâncias do corpo (proporcionalmente ao tamanho da célula). Com o tanto de energia que temos que gastar para levantar um copo ou para corremos 5 km em 30 min (meu melhor tempo até agora), a quantidade de ATP que gastamos nas etapas intermediárias da fosforilação nas diferentes cascatas de sinalização celular é irrelevante. Talvez por isso a ‘seleção natural’ nunca tenha se preocupado com ela.
Talvez a sinalização celular não seja tão simples como poderia ser, mas é tão econômica quando comparado a uma corrida no aterro de Flamengo, que isso nem importa.

Achados e perdidos

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Um dia, assistindo House (1o episódio da 2a temporada), ouvi ele falar dos 5 estágios da perda. Eram as etapas pelas quais passavam todos os pacientes que se deparavam, por exemplo, com uma doença terminal. São eles: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Uau! Adoro quando a realidade vem assim, como pílulas de sabedoria, de forma simples e inegável. Pensei logo que os 5 estágios poderiam ser aplicados a qualquer perda, ainda as pequenas, e cheguei a conclusão que o roterista de House era um gênio e corri para o computador para escrever a respeito.
Mas não era bem assim.
Descobri então que a autora da brilhante constatação era da Dra. Elizabeth Kübler-Ross, uma médica psiquiatra Suíca, e que seu modelo dos 5 estágios havia sido publicado no livro “Sobre Morrer e a Morte” de 1965. Além disso, havia (e há) uma quantidade enorme de material sobre a médica e seu modelo na internet e muitos deles já discutindo a possibilidade de aplicação a outros tipos de perdas. Deixei meu texto então no forno, enquanto esperava outra deixa pra falar sobre o assunto.
Mas desde então vivo com os 5 estágios na cabeça (na verdade com alguns deles mais do que outros) porque é impressionante quantas perdas experimentamos no nosso dia-a-dia (ainda é assim que se escreve com a nova gramática?). Sendo que estou considerando ‘perda’ como eventos cujos resultados são diferente das nossas expectativas.
Então ontem, enquanto preparava uma questão de prova sobre ‘sinalização celular’, me lembrei novamente do modelo Klüber-Ross, mas não por causa de uma perda. Tudo que acontece dentro de uma célula (e olha, acontecem muitas, muitas coisas) é resultado, ou resulta, de um sinal, que pode ser interno ou externo. Apesar da membrana celular possuir receptores bastante específicos para um número perto do infindável de moléculas, existem basicamente uns quatro ou cinco ‘tipos’ de receptores. Isso significa que apenas uma parte deles se modifica para poder reconhecer a molécula que ativará o sinal com especificidade, mas o mecanismo de gatilho que dispara o sinal a partir dai é o mesmo em todos os receptores do mesmo tipo. Esses sinais podem ser super complexos, mas obedecem uma lógica simples: uma proteína modifica outra, que modifica outra, que modifica outra, que modifica outra, que realiza uma tarefa. Como uma cascata. Mas apesar dessa bela metáfora, sinalização celular não é linear.
O que por alguma razão me remeteu aos 5 estágios. Quando lemos sobre eles, parecem que vem sempre na mesma ordem, com a mesma intensidade e de maneira linear. Mas assim como os eventos entre a ativação de um receptor na membra da célula e a expressão de um gene no núcleo podem se espalhar horizontalmente, se cruzarem com outras vias de sinalização ou trocarem sinais com elas; não há necessariamente linearidade no modelo de Klüber-Ross e a superação de um dos estágios não significa que você não pode voltar a ele. É tudo, menos linear.
E podemos até mesmo ficar presos em ciclos de negação-raiva-negação, raiva-barganha-raiva, raiva-barganha-depressão-raiva; sem nunca chegar a aceitação.
E para cada um de nós essas emoções podem ter mais ou menos poder. Me lembro quando assisti ‘Beleza Americana‘ e o personagem de Wes Bentley fala para Kevin Spacey sobre a relutância de seu pai em aceitar que ele trafica drogas: “nunca subestime o poder da negação!”
O caminho através dos estágios deve se parecer mais como uma espiral, e da mesma forma que um fio de telefone, se enroscar em si próprio em um nó superespiral difícil de desatar.
Para deixar a situação ainda mais complexa, da mesma forma que a célula envia diferente sinais ao mesmo tempo, e também em sequência, também nós experimentamos diferentes perdas, de intensidades variadas, contemporaneamente e em sequência. E em um dado momento qualquer, vivemos um mosaico de diferentes perdas, cada uma em um estágio do modelo.
E como pode ser o nosso estado de espírito enquanto negamos uma coisa, temos raiva de outra, tentamos negociar uma terceira, estamos deprimidos com uma quarta, sentimos raiva pela terceira vez de uma quinta coisa, negociamos pela 4a vez uma sexta perda, negamos novamente uma sétima depois de já termos passado duas vezes pela raiva e pela barganha; enquanto experimentamos apenas um pouco de paz por finalmente termos aceitado uma oitava frustração?
Felizmente a vida não é feita apenas de perdas e as nossas vitórias, principalmente aquelas batalhadas, mas também, e porque não, aquelas fruto do acaso e da sorte, trabalham a favor da nossa autoestima (essa ficou sem hífen mesmo, não é?!). Só que as vitórias são só felicidade, ou alguém tem dificuldade em aceitar uma vitória?
Esse ‘mosaico das perdas’ se configura em nós como uma impressão digital móvel, que nos caracteriza de uma maneira única, mas que se modifica ao longo do tempo e com a aquisição de cada nova perda e ganho; e assim determine, através de um modelo matemático caótico e complexo no melhor estilo ‘efeito borboleta’, como responderemos a uma nova perda: se ela, ainda que menor, despertará sentimentos de raiva e depressão acumulados; ou se, ainda que maior, será mais facilmente aceita.
Mas, para o bem e para o mau, a realidade é mais parecida com a parábola do Rei Persa, que pede ao artista do reino uma obra de arte que o ajude a ficar feliz quando está triste e triste quando está feliz, e este lhe presenteia com um anel com os dizeres: “Tudo acaba”.
Quanto mais rápido aceitamos a perda, mais rápido podemos começar de novo. Essa é a beleza da vida.

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