Onde estão os alunos? Para onde vão os alunos?

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Assim estava a minha sala de aula ontem, mais de 30 minutos depois do horário do início dos trabalhos.

Me senti como Dan Ariely no video abaixo (não precisa assistir o video todo – propaganda do curso dele no coursera – que é sensacional, diga-se de passagem – so o início já ilustra o meu ponto). A diferença é que… no meu caso… eles nem online estavam. O semestre vai terminar e ainda tenho alunos reclamando que não conseguiram se inscrever no site da disciplina. Se fosse o facebook…

Essa foto não é uma exceção… ao longo de todo o semestre, já há alguns anos, os alunos em sala de aula vão diminuindo. Eu já falei sobre o porquê em diversos textos no blog (veja “De muitos para muitos”).

Mas estou dessa vez não fiquei só irritado. Fiquei preocupado mesmo. Tinha acabado de voltar do evento ‘Educação Científica – Um desafio para a sociedade’, onde assisti uma palestra incrível de Jonathan Osborne, professor da Universidade de Stanford, que mostrou dados alarmantes sobre a diferença entre ‘o que’ e ‘como’ os alunos querem aprender, e ‘o que’ e ‘como’ os professores estão ensinando.

Mas é sinistro! NADA é capaz de mobilizar esses jovens. Tá bom… nada é exagero… Não temos recursos espetaculares (só tenho internet na sala de aula se levar meu cabo de rede e se for no subsolo… nem pensar), mas o problema vai além disso. Depois de anos e anos e anos de ensino equivocado (tudo bem, a gente não sabia o quanto equivocado era o ensino, mas já tem alguns anos que sabemos), agora temos uma geração que, mesmo se dermos as oportunidades, novas formas de ensino… eles não conseguem abandonar a indiferença com relação a formação deles.

Algo do tipo “já que eu não vou aprender nada mesmo… então não vou nem tentar mais”. 

Ouvi dizer que há uns anos, jovens americanos estavam com essa atitude com relação a AIDS. “Há, se todo mundo diz que um dia a gente vai ter mesmo, então um dia a mais ou a menos não vai fazer diferença e vou transar agora sem camisinha”. É por isso que eu não gosto de abordagens alarmistas para combater desinformação e descompromisso: você arrisca criar indiferença.

Os alunos aceitaram o pacto pela mediocridade que reina na universidade, na educação brasileira, hoje. Professores completamente desmotivados ‘acham’ que ensinam enquanto os estudantes desmotivados e indiferentes fingem que aprendem. Uma catástrofe que marcará o nosso país por gerações!

Vejam esse vídeo (agora sim, até o final, juro que vale a pena), que é muito bem chamado de ‘Ignorância Plural’. Os alunos ouvem por vários minutos, sem saber, um texto produzido pelo computador para soar corretamente mas NÃO fazer SENTIDO ALGUM. E ninguém, ninguém se manifesta.

 

Não me contive, dei um esporro.

“O transito…”, “O bandejão cheio…”, “minha mãe tá doente…” todos tinham uma justificativa. Mas quando for o dia da entrevista para entrar na pós-graduação, ou para seleção de uma vaga de emprego, nenhuma dessas explicações servirá de explicação.

Enquanto explicava que a principal diferença entre nós e os outros animais é que conseguíamos pensar não apenas em recompensas imediatas, com os cães que farejam qualquer coisa por um biscoito e os golfinhos que fazem piruetas por sardinhas, mas conseguíamos ludibriar, com muita abstração, os nossos instintos primários de recompensas imediatas (jogar videogame, ficar no telefone brincando no FB, bater papo) com o valor das recompensas a longo prazo (ser incluído sócio-economicamente na sociedade).

Mas parece que a única coisa que eles aprenderam foi o conselho de David Dobel, personagem de Woody Allen no Filme ‘Anything Else’: “Ao longo da sua vida Falk, não faltarão pessoas pra te dizer como viver. Elas terão todas as respostas, o que você deve fazer, o que você não deve fazer. Não discuta com elas. Diga ‘Sim, brilhante, brilhante idéia”, e, em seguida, faça o que você quiser.”

E eles não querem fazer nada!

Sim, as aulas podem ser melhores, os cursos podem ser melhores. Mas como ouvi a psicóloga Rosely Sayão falar: sem disciplina, foco e trabalho, não há aprendizagem!

É triste, mas estes já estão perdidos. Como é que vamos salvar a próxima geração?

As melhores universidades do mundo!

Turma de 89/1 (Com alguns agregados) no Interbio de 1990 na Universidade Federal de São Carlos.

“O Brasil tem, hoje, as melhores universidades do mundo!”

Eu, Ricardo Prado e Alex Pinheiro ficamos um pouco atônitos com a declaração de Domenico De Masi. Tivemos o prazer de almoçar com o ilustre sociólogo italiano na sua mais recente passagem pelo Rio de Janeiro. Eu já tive o privilégio de assistir uma das suas disputadíssimas (e caríssimas) palestras e já li diversos dos seus livros, o que me fazia pensar que conhecia bem sua opinião sobre as coisas. Mas a declaração das universidades brasileiras me pegou desprevinido: Como as nossas sucateadas instituições de ensino poderiam ser as melhores do mundo? Eu não tenho ‘complexo de vira-lata’ – aquele sentimento de que tudo que vem de ‘fora’ (leia-se EUA e Europa) é melhor – não, mas vivo a realidade da universidade diariamente e não tinha como concordar com isso.

“É claro, vocês brasileiros não vêem isso por que olham para os ‘rankings’. Nos rankings, Stanford, Harvard, Berkeley… são as melhores. Mas são as ‘Stanfords, Harvards, Berkeleys’ que FAZEM os rankings. E é claro que de acordo com os critérios ‘deles’, eles serão os melhores.”

Fazia todo o sentido.

“A universidade brasileira tem alegria, tem sensualidade, tem beleza. Essas as características mais importantes para o sucesso na sociedade pós-industrial. Para ter criatividade e para inovar.” E completou:

“Se o número de relações sexuais que ocorrem em um dia fosse o critério para determinar a melhor universidade, a UFRJ seria a número 1 do mundo!”

Todos rimos. Lembrei do Butão e do FIB, o índice de ‘Felicidade Interna Bruta’. Domenico disse que passa pelo menos 4 dias por ano no pequeno país encravado nas cordilheiras do Himalaia e que chamou atenção do mundo ao trocar o parâmetro de avaliação da qualidade de vida da sua população do PIB para o FIB.

“O Butão é um lugar maravilhoso. Até mesmo as empresas agora adotam critérios de bem-estar para avaliar a sua produtividade.”

Eu já tinha pensado sobre o Butão e o FIB, mas não seriamente. Eu gosto da idéia de se rebelar contra os critérios estabelecidos pelas classes (ou países) dominantes para avaliar qualidade, mas tinha parado por ai. Por outro lado, eu já escrevi aqui como me parece impossível para um povo sem problemas sociais, como os Noruegueses, fazerem inovação. Mas não tinha conectado as duas idéias.

“Mas o Butão é muito pequeno. Só o Brasil está em posição de mudar o mundo: é grande, é rico em recursos naturais, é uma democracia, é politeista e não tem conflitos nem internos, nem com seus vizinhos. Que outro país no mundo tem isso?”

Lembrei da minha turma da faculdade. Fomos a todos os Interbios (a olimpíada das universidades de Biologia), ENEBs e EREBs (encontros nacionais e regionais de estudantes de biologia), congressos, seminários, reuniões. Organizamos competições de Voley de praia na Barra, mostra de talentos, campeonato de truco. Passamos Festas Juninas, Carnavais do Rio e de Salvador, Natal e Ano Novo juntos. A beleza (como vocês podem ver), a diversão e a sensualidade (medida por enormes quantidades de beijos na boca e relações sexuais que se estabeleceram) foram sempre as forças motivadoras de todos esses eventos. E TODAS as pessoas nessa foto, uma amostra diversificada e representativa da turma 89/1, estão hoje entre os profissionais mais criativos e bem sucedidos que eu conheço.

É, pensando bem, Domenico está certo: Eu estudei na melhor universidade do mundo!

Fantasia e Concretude

Essa semana voltei aos meus tempos de adolescente e dei uma de tiete, igual aqueles malucos que vão pra fila da Madonna, 3 dias antes do show, pra pegar o primeiro lugar na fila. O show era a palestra do sociólogo italiano Domenico de Masi, em Curitiba.

Quem me apresentou Domenico foi meu amigo Milton Moraes e depois que eu li ‘A emoção e a regra’, minha vida não foi mais a mesma. Comecei a me interessar muitíssimo pelas razões que tornam um grupo criativo e o interesse apenas aumentou com o tempo. Hoje eu já li quase tudo que Domenico de Masi publicou e como eu escrevi aqui, ainda estou no meio de Fantasia e Conretude, um calhamaço de 1000 páginas sobre a criatividade.

Apesar de Domenico vir com regularidade ao Brasil, assistí-lo não é fácil. Como um dos homens que previu a falência do sistema de trabalho industrial no mundo pós-industrial, hoje ele é requisitadíssimo por grandes empresas para falar para executivos de alto nível sobre como eles devem gerir seus recursos humanos. Assistir uma palestra do Domenico de Masi pode custar R$1.500,00!

Mesmo assim, de vez em quando eu entro no seu site (www.domenicodemasi.it) pra dar uma olhada na agenda dele. Quando fiz isso no sábado passado, vi que ele estava no Brasil, mais especificamente no Paraná, e que falaria em Curitiba na 4a e 5a feira. Fiquei agitadíssimo, como fiquei para a palestra do Richard Dawkins anos atrás, como fico toda vez que a Madonna vem ao Brasil. Sem pensar muito, cancelei minhas aulas, comprei uma passagem e fui pra Curitiba, determinado a dar um jeito de assistir meu ídolo. Aos 42 minutos do segundo tempo, consegui a confirmação que poderia assistir a palestra exclusiva para professores da PUC – Paraná e gestores da Volvo do Brasil que ele daria na própria universidade.

No auditório cheio, resolvi dar um gostinho pra quem não estava lá e minha primeira transmissão ao vivo pelo twitter. Sei que pelo menos @alesscar e @srehen seguiram 🙂 Ao contrário do Richard Dawkins, Domenico é uma simpatia, conquistou a platéia, deu uma palestra interessantíssima e no final foi rodeado por uma orda de professores (principalmente professoras) querendo fotos e autógrafos. Eu fiquei com vergonha, achando que era mico, mas fui lá apertar a mão dele e convidá-lo para participar da próxima edição do PRIMO’s next, a escola internacional de pós-graduação que organizamos todos os anos.

Pra quem ainda não acompanha o @vcqebiologo ou não conseguiu seguir a transmissão #domenicodemasipucpr, eu resolvi compilar os twitts, algumas pérolas, aqui no VQEB. Espero que vocês aproveitem.

  • Sou NERD mesmo… Parece que vou ver a Madonna, mas é o Domenico de Masi
  • Será que ele vai falar alguma coisa que não esteja nas 1000 páginas de ‘Fantazia e Concretezza’?
  • Quantas vezes as autoridades vão repetir o título antes do início da palestra?
  • Criatividade é começar! Não tentem produzir o processo completo. Ajustes são feitos no caminho. (Jaime Lerner)
  • De onde viemos, p/ onde vamos e o que temos p/ o Jantar? W Allen Ñ adianta pensar gde problemas se ñ resolvemos os pq
  • A luta entre Tesis e Metis. A luta entre Corbusie e Niemyer. A luta entre a reta e a curva.
  • Qdo Marx escreveu ‘o capital’ 94% dos trabalhadores de Manchester trabalhavam com as mãos
  • A principal característica da sociedade industrial é o colonialismo: quem produz coloniza quem consume
  • 5 fatores de inovação: globalização, difusão da escolaridade, perdi os outros
  • Mesmo quem nasceu em uma sociedade industrial vive hoje já em uma sociedade pós-industrial
  • Hoje apenas 1/3 dos trabalhadores usa as mãos. 1/3 trabalho intelectual repetitivo e 1/3 trabalho intelectual criativo
  • Hoje a palavra ‘trabalho’ se aplica a diferentes atividades. Mas tratamos todos os trabalhadores do mesmo jeito
  • ‘como explicar a minha mulher que qdo olho pela janela estou trabalhando’?
  • Gestores de recursos humanos das empresas não evoluíram da sociedade industrial para a pós industrial
  • as pessoas estão sempre infelizes n trabalho
  • Nos países latinos apenas os homens fazem carreira. As convenções parecem o gay pride
  • vale ainda o princípio do iluminismo onde o que vale é a racionalidade. O que é emotivo é ruim e… Feminino
  • o homem que tanto se dedica ao trabalho… Morre mais cedo!
  • Marília Zaluar e Silvana Allodi iam adorar isso
  • assim como neurônios não crescem: estabelecem novas conexões, como serão as conexões entre os 7bi de cérebros em 2020?
  • não se é velho enquanto não se perde a vontade de seduzir e de ser seduzido. O que nao acontece aos 60 anos
  • a cultura enriquece as coisas de significado. Quando sei que o pêssego veio da China, Japão e Pérsia, ele parece + doce
  • no mundo, aprendemos a produzir cada vez mais com cada vez menos trabalho. Isso é difícil de explicar no Brasil
  • difícil explicar no Brasil: quanto mais riqueza em um pais: menos trabalho
  • o aumento da tecnologia tira o trabalho. Para resolver o problema, temos que diminuir as horas de trabalho
  • em 2020 a tecnologia tornará o adultério impossível! 🙂
  • gdes empresas farmacêuticas estão investindo em drogas ante-ciúmes!!!
  • Enquanto a sociedade industrial pensava em organizar o trabalho, agora temos que organizar o tempo livre
  • Berlusconi, por exemplo, só tinha ‘problemas de tempo livre’
  • o carnaval do Rio é um grande exemplo dessa ‘organização’
  • Produção contemporânea de riqueza, saber e alegria: isso é o ócio criativo – Não a preguiça
  • em 2020 a sociedade será andrógina. Mulheres cada vez mais masculinas. Homens mais masculinos
  • a sociedade pós-industrial depende fortemente da ética e respeito, pq depende de serviços, que dependem de confiança
  • os ‘analógicos’ principalmente os anciões tem medo de tudo que é novo: computadores, redes, gays, tudo que é novo
  • Eraclito: é no repouso que as coisa se acomodam. É importante incorporar a inovação com ‘leveza’
  • se dependesse de mim seria sempre imaturo no relacionado as idéias -Rob Freire. Estar sempre abertos a novas idéias
  • não se pode pedir aos homens, ou a quem não esta no poder, de deixar o poder
  • fazem carreira as mulheres que tem mentalidade andrógina. O desafio das mulheres e mudar a organização das empresas
  • as empresas são lugares de sofrimento. A mulher tem que mudar a organização e até lá é melhor ter homens no poder
  • o poder é tomado com ‘graça’ ou com a revolução
  • os bancos nasceram na Itália, no séc XII, junto ao purgatório, para gerir os recursos do ‘indulto’ pago a igreja
  • o paraíso é um paradoxo: todos querem ir pra lá, mas o mais tarde possível!
  • “não digo a vocês como é o paraíso de Maomé, porque senão todos se converterão ao islamismo”
  • em nenhum ‘paraíso’ se trabalha!
  • O futuro é dos humanistas. Bastam poucos engenheiros pra planejar e poucos operários para produzir, mas…
  • … Precisamos de milhares de humanistas para colocar conteúdo lá dentro. O outros milhões para usa-lo.
  • escola de música de Antônio Abreu na Venezuela. Platão já dizia que o mais importante a ensinar, é a música
  • Bolschoi Brasil em Joinville, escola em foz do iguaçu, músicos do sertão brasileiro. Todos exemplos do futuro da escola
  • governo Berlusconi foi a primeira ditadura mediática do mundo: a violência nãoo é física. A tortura é intelectual
  • na ditadura mediática, o governo faz o que o povo quer, que faz o que a TV sugere, que sugere o que o governo quer
  • a genialidade é feita de grande fantasia e grande concretude. Hoje temos muitos com excesso de um ou outro. Ñ de ambos
  • a bossa nova no Brasil é um grande exemplo de criatividade pós-industrial
  • em foz do Iguaçu, a natureza das cataratas competem com o humanismo da hidrelétrica de Itaipu. Eu já tinha dito!
  • na universidade há sempre a luta entre a inteligência e a imbecilidade. Ambas são infinitas! Ainda que com ‘violência’
  • o maior inimigo do criativo é o burocrata. Os burocratas são sempre seguros pq pensam ao passado
  • os burocratas são sempre amigos de Burocratas. Deus foi criativo! (como deus nao existe…)
  • a única arma contra os burocratas é a ironia: a arma dos gênios e dos criativos

Pra quem ficou com gosto de ‘quero mais’, se tudo der certo, teremos ele novamente no Brasil em Outubro, dessa vez patrocinado pelo VQEB.

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