O beco sem saída

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O resultado do concurso para professor adjunto na minha instituição na semana passada deixou clara para mim uma coisa: o meu enorme desalinho com rumo que a universidade está tomando. Ou que tomou. Ou que sempre teve, não sei mais. De qualquer forma, fico me perguntando como não percebi isso antes. Não creio que tenha sido um estudante idealista pra ficar cego contra algumas obviedades, e muito menos um adulto idealista: como é que me escapou então?

Meu problema não foi, ou não tem sido, com os candidatos. Meu problema é com as bancas, que insistem em perpetuar um sistema que ultrapassado, que claramente não funciona mais, ainda que todo mundo faça o maior esforço pra fazer de conta que sim.

Mas eu não quero insistir, nesse texto, no ponto do concurso; quero insistir no desalinho. As vezes, muitas vezes, fico me perguntando se é possível que apenas eu veja que tudo está errado, que nossos professores estão desmotivados e despreparados; que nossos alunos estão além disso, desatentos; que nossas pesquisas não tem impacto…

Você não concorda comigo? Eu aprendi cedo na minha vida acadêmica que a única coisa, talvez capaz de convencer pessoas inteligentes a mudar de opinião, são argumentos técnicos. Afinal, como diz o canastrão  da série de televisão CSI – Miami, Horatio Caine: – “Pessoas mentem, evidências não”.

E nesse caso as evidências são sólidas, consistentes e aterrorizantes

– Alunos entram na universidade sem conhecimentos fundamentais de diversas disciplinas

– Na região norte do país, menos de 1% dos professores do ensino fundamental tem graduação. Qualquer graduação, em qualquer área.

– Apenas 14% dos jovens brasileiros entre 19 e 24 anos estão na universidade (menos que a Bolívia e muito, muito menos que Argentina e Venezuela)

– índices de evasão em cursos da UFRJ variam entre 50 e 90%

– A produção científica no país cresceu mas ela não tem impacto

– Os alunos do CsF voltam para casa por falta de proficiência em inglês

– Professores com doutorado ocupam 2 faixas da pista + o acostamento + as duas faixas da contramão na hora do rush na saída do campus do Fundão.

– 85% dos CEOs no Brasil dizem que sua maior preocupação para o crescimento é a disponibilidade de recursos humanos de qualidade.

Poderia continuar com mais argumentos.

Enquanto pesquisas e mais pesquisas em neurociência e psicologia evolutiva mostram, consistentemente, que as metodologias de ensino tradicionais são ineficientes e impossíveis de serem aplicadas em escala; eu gostaria de entender porque professores pesquisadores se recusam a aplicar em sala de aula as verdades científicas que outros cientistas produzem. Deve ter a ver com o que Dan Pink fala na excelente palestra TED sobre porque nos recusamos a aplicar verdades cientificamente comprovadas na gestão de recursos humanos nas empresas,

Na verdade, não preciso de Dan Pink, eu sei a resposta: porque vai dar trabalho, porque quem era o melhor professor antes não será mais o melhor professor, porque vai custar caro, porque não queremos aceitar que estacamos fazendo errado em primeiro lugar.

Enquanto isso, nossos alunos continuam passando em branco pela universidade, chegando despreparados no mercado de trabalho e achando que fizemos a nossa parte porque ganhamos uma avaliação positiva depois de uma aula (ou um curso) ou porque um ou dois alunos deram uma resposta excelente em uma prova.

Será que ninguém vê que assim não vamos conseguir educar os milhões de jovens que precisamos para começar, apenas começar a retirar o atraso do Brasil nesse setor? Será que ninguém vê que esse bonde  caminha em
 um beco sem saída? Não, ninguém vê.

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Adianta greve de professor?

A greve dos professores, que começou há duas semanas, me mobilizou para escrever um post sobre a distância entre a sociedade e a universidade, motivado por uma frase dita pela jornalista Eliane Brum em um programa de televisão. Mas para isso, precisei falar primeiro da greve em si.

Eu sou um cientista. Já disse que isso não é o que eu faço, é o que eu sou, e por isso não consigo evitar a abordagem científica momento algum. Se acredito que o método científico é a melhor maneira para se resolver um problema, como posso aplicá-lo no laboratório mas não aplicá-lo em casa, quando tento entender porque um souflé não funcionou ou porque uma lâmpada queima recorrentemente? Como posso aceitar a fé como fonte de explicação na minha vida pessoal, quando sei, pela experiência, que só as evidências científicas criam um saber consistente, coerente e permanente? Talvez outros possam, mas eu não posso. É por isso que quando meus colegas professores começam a se mobilizar por uma greve, eu não consigo me mobilizar ou aderir. Pela simples razão de nunca uma greve de professores ter dado qualquer resultado em função dos danos causados pela paralisação em si. Por que daria agora?

Avanço nos transportes, nas comunicações, na medicina, no ambiente… Talvez, nunca antes na história da civilização a sociedade tenha sentido tanto o efeito do saber que é produzido na universidade. Mas, sem uma população educada, é também provável que nunca antes a sociedade tenha se sentido tão afastada dessa instituição. Por que isso acontece é o argumento do meu próximo texto. O fato é que o governo primeiro contribui para essa distância ao investir na formação de doutores, mas cortar financiamento para pesquisa. Ao criar programas de treinamento para jovens, mas não fomentar o ensino fundamental e médio que prepare esses jovens para a universidade. Ao promover o aumento de vagas nas universidades sem dar infraestrutura. E depois o próprio governo usa a universidade abandonada como justificativa para não investir mais na universidade.

Os professores e pesquisadores, com todo o amor que tem pelo que faze, tem de matar uma manada de leões por dia para dar conta de ensinar em salas de aula quentes, sujas, mal equipadas uma geração de jovens super conectada e dispersa.

A classe jornalística, ao invés de denunciar isso, faz pouco, como no ‘causo’ que vou relembrar agora: No final de 2010, ia para a universidade ouvindo a CBN no Rádio quando o Carlos Alberto Sardenberg comentou que o prestígio do Mercadante estava baixo porque havia sido indicado para o MCT&I, na opinião dele, “um ministério menor”. Ainda que o MCT&I não tenha importância política (que advém da sua inexpressão econômica, que advém do Brasil apostar que o seu crescimento depende apenas da replicação de indústrias antigas – sujas e insustentáveis – com modelos e tecnologias importadas), é inadmissível que um jornalista desse porte faça esse comentário sem que seja acompanhada de uma crítica feroz e a exaltação da sua importância estratégica

É um triste exemplo do quanto os diferentes setores da sociedade pouco se importam com o que acontece na universidade. Como podemos esperar algum efeito de uma greve?

A motivação da greve é mais do que justa. Os professores universitários são os profissionais mais mal remunerados do serviço público federal, trabalham em péssimas condições em universidades sucateadas por anos de abandono, e ainda é tratado como palhaçada pelo governo na proposta de aumento salarial. Na prática, o salário de um professor adjunto da UFRJ, com 10 anos de casa, doutorado e pós-doutorado, com não sei quantos artigos publicados e alunos de graduação e pós-graduação, foi de R$13,00.

Além do papel na formação de cabeças pensantes e trabalhadores qualificados na universidade, o Brasil só pode contar com os professores universitários para movimentarem um sistema de inovação no país. É que sem uma indústria de transformação, aquelas pequenas empresas capazes de transformar o conhecimento produzido na academia em protótipos e produtos para a indústria (e sem uma política econômica e social que possibilite o desenvolvimento dessas empresas – o que inclui a falta de jovens com ensino fundamental, médio e superior de qualidade), essas duas tarefas caem nas mãos dos professores universitários. E não sou eu que estou dizendo isso não: é o próprio governo. Ou porque vocês acham que o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) virou MCT&I (de Inovação)? O Brasil está fazendo de bobo a categoria mais importante no seu plano de se tornar um país com uma posição mundial de liderança no século XXI.

Mas será que a greve é a forma de reinvidicar melhores condições de trabalho?

Hoje em dia, qualquer manifestação na INTERNET vai mobilizar muito mais a opinião pública do que uma passeata de 50 pessoas. Ou mesmo de 500, ou mesmo de 5000 pessoas. Vejam só o ‘Veta Dilma’. Escrever 1, 2, 10, 50 blogs mostrando dia após dia, de forma consistente, de forma crítica, de forma direta os problemas e os responsáveis pelos problemas na universidade, denunciem no jornal, no rádio, na TV, sensibilizem um ator global para fazer um pronunciamento, façam um vídeo viral na internet… era isso que as associações de trabalhadores e sindicatos deveriam estar fazendo no século XXI, mas não… E o movimento grevista contagia até mesmo os alunos, que resolveram entrar em greve também. Greve de aluno é uma incoerência, é uma ingenuidade. É claro que os alunos tem o direito de, e devem, se manifestar contra as péssimas condições da universidade, mas chamar de ‘greve’ (é um direito trabalhista e aluno não é trabalhador) e se recusar a assistir aula como forma de protesto é uma estratégia muito pouco eficiente. É antiga, sensibiliza negativamente a opinião pública e prejudica, em última instância, e principalmente, os próprios manifestantes: os alunos, já tão prejudicados por tantas outras coisas.

Talvez a única maneira dessa greve funcionar fosse justamente o contrário: Ou até o contrário: lutar para ter aulas seria a melhor forma de transformar a greve dos professores em algo que viraria notícia. Se os principais prejudicados pela greve dos professores fazem greve também…. ninguém vai se incomodar com mais nada.

Ou… como tantas vezes… talvez estejam todos certos e eu esteja errado. Se os professores universitários que estão sendo solicitados a fornecerem a inovação que o Brasil tanto precisa, não conseguem sequer bolar uma forma nova de protesto que não seja uma greve, talvez não mereçam reconhecimento mesmo.

Os mortos-vivos


Winston Churchill disse que a “A democracia é o pior sistema de governo existente, excluídos todos os demais”
O problema da democracia, além do favorecimento da corrupção, é que as pessoas criam a ilusão de que todos têm oportunidade e força. De que todos têm direito a opinião e a ser ouvido. Não é assim nem quando todos tem direito a voto. Imagina então quando não tem.
Pela enésima vez, porque venho ouvindo isso desde que sou estudante de pós-graduação, ouço um professor estabelecido me dizer que a falta de representatividade da massa de professores (e profissionais e alunos) em uma instituição (na nossa instituição) não é culpa do sistema de governo (um híbrido de conselho tribal com reunião de condomínio) e sim da apatia das pessoas.
“Existe um monte de vagas para representantes em diferentes instâncias da universidade. Quantas pessoas se candidatam ou preenchem essas vagas?”
A apatia é uma justificativa para a falta de participação, é verdade. No entanto, quando essa justificativa parte daqueles que se beneficiam, ainda que inconscientemente, da falta de participação das pessoas nos processos decisórios, ela perde a validade como argumento.
Tá na lei: “ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece”. O ônus da informação está em quem a demanda. Mas a informação tem de ser transparente para que aja democracia. Se já é difícil se informar quando a informação está publicada, imagine quando ela não existe, a não ser na cabeça dos chefes tribais?
Em situações particulares, com nas relações de consumo onde há uma reconhecida vulnerabilidade do consumidor, o princípio legal do ‘ônus da prova’ (aquele que diz que a prova deve ser fornecida por quem faz a acusação) é invertido.
Mas será que dá pra colocar o ‘ônus da apatia’ em quem é apático? Enquanto eu voltava pra casa num tremendo congestionamento, uma palestra do TED me deu a resposta: NÃO! Quando eu vi o título ‘Como combater a Apatia’ eu achei que pudesse ser alguma coisa de auto-ajuda. Mas não. Na palestra, Dave Meslin diz que “a apatia, como nos a concebemos, não existe realmente. Ao contrário, as pessoas se importam, mas nós vivemos em um mundo que ativamente desencoraja a participação das pessoas, por colocar obstáculos e barreiras constantemente no nosso caminho”.
Se você é um lider e quer uma participação efetiva dos membros da sua equipe, cabe a você fazer com que os mecanismos de informação sejam transparentes e velozes.

A apatia atrapalha a participação. Mas é a falta de transparência que gera a apatia
.

Os titulares e os reservas

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“Por que você quer ser um titular?”
Foi a única pergunta que a banca repetiu a todos os candidatos do concurso para professor titular onde foi selecionado Stevens Rehen. Nenhum deles estava realmente preparado para essa pergunta e as respostas variaram de um pífio “porque eu tenho o perfíl” até tentativas mais objetivas, mas que demonstravam claramente a falta de familiaridade com a função mais privilegiada da universidade.
Passei os últimos dois dias me debatendo com essa pergunta, porque ao tentar formular qual seria a minha resposta, descobri que também não sei e-x-a-t-a-m-e-n-t-e o que faz um titular. Se eu paro e olho a minha volta para ver os exemplos que conheço, não consigo encontrar um padrão de atitudes que possa caracterizar a função. Não um que justifique o título.
  • Não os vejo organizarem eventos que divulguem o nome do instituto para a academia ou a sociedade, tanto nacional quanto internacionalmente; certamente não mais do que seus colegas adjuntos e associados.
  • Não os vejo trazerem projetos e recursos que ampliem o capital e as fontes de financiamento da instituição; pelo menos não mais do que seus colegas associados e adjuntos.
  • Não os vejo criando espaços físicos e recuperando infra-estrutura; definitivamente não mais do que seus colegas professores sem o título.
  • Não os vejo estimulando jovens talentos a ingressar na carreira ou a assumir grandes responsabilidades na vida acadêmica. Ao contrário da maioria dos seus colegas adjuntos e associados, muitas vezes os vemos tolindo esses jovens.
  • Não os vejo utilizarem seu título e prestígio para trazerem talentos reconhecidos, do nível de um laureado Nobel, para dar cursos e conferências. Nada além do que conseguem trazer seus colegas associados e adjuntos.
  • Não os vejo vendo o futuro, estabelecendo estratégias de ação, criando vias de desenvolvimento e mecanismo de gestão, reconhecendo novas oportunidades, estimulando competências; definitivamente não mais do que qualquer um de nós, professores mortais.

Eu queria um titular que fizesse isso. Mas não tenho.
O título de titular concede acesso a instâncias e discussões privilegiadas. Ser titular se tornou a principal forma de administrar e fazer política universitária, geralmente em causa própria ou do próprio feudo. Na melhor das hipóteses, visão se manter na frente na corrida com seus pares pela mais alta qualidade das produções científicas, ou cargos administrativos em colegiados superiores como a FINEP e o CNPq. Em uma outra hipótese… não fazem nada… e vão curtir o seu título em suas escrivaninhas ou em uma casa nas montanhas. A vaga de titular virou moeda de barganha política nos institutos e não mais parte de um programa para realizar uma missão institucional.
Esses titulares estão merecendo mais é ir para reserva.

Fila, basta de banco. Lista, só de supermercado.

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A seleção de Stevens Rehen para Professor Titular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ na última 5a feira lavou a alma e deu esperança a toda uma geração.
Cientista brilhante, selecionado pela revista Época como um dos brasileiros mais promissores da atualidade e meu grande amigo, ele concorreu, juntamente com a também brilhante e também minha amiga Suzana Herculano, não só contra outros candidatos, mas contra o ‘sistema’. Contra uma aristocracia acadêmica que impregna os institutos de pesquisa brasileiros (bom, e do mundo afora também) e que trata seus grupos de pesquisa como pequenos feudos, mas que se intitula ‘Vanguarda’.
A competência venceu o ‘acordão’. Vamos torcer para ser o fim das listas e filas de espera de vagas para titular.

Terminei de ler… O Manuscrito de Mediavilla

manuscrito_mediavilla.jpgNa verade terminei de ler esse livro no ano passado, mas foi nesse final de semana que o meu grande amigo Milton me presenteou com a cópia que ele próprio tinha me emprestado para ler.
Eu tenho que confessar que tenho um pouco de preconceito contra cientistas sociais. Fui quase fulminado quando disse isso em uma palestra na Fiocruz semanas atrás. Não tenho nada contra eles como pessoas, mas sim contra suas hipóteses serem científicas.
O “Manuscrito de mediavilla” é o segundo romance escrito pelo professor da USP Isaias Pessotti, que é psiquiatra e estuda a história da loucura. E é um dos livros que eu gostaria de escrever. Mais ainda do que o seu primeiro romance, “Aqueles malditos cães do arquelau“, que eu dei de presente para o Edu depois de ler. Atualmente é tão, tão difícil encontrá-los a venda. Ambos são passados na itália, contam aventuras dignas de Dan Brown em ‘O código da Vinci‘, mas com a diferença que os investigadores são todos amigos que, entre uma visita a um sebo de livros do ‘medievole’ no Piemonte e um antigo claustro no Lombardia, eles param para almoçar nos lugares mais interessantes, com o autor descrevendo os menus, pedidos, receitas e vinhos que todos provam. Vejam um exemplo:
“- Posso levar as folhas para casa? Perguntei.
– Basta que você não as aproveite para embrulhar peixes ou mariscos. Tenho que passá-las a outros e Patrízia, por exemplo, não gosta de peixes.
O olhar verde-musgo de Clara se iluminou.
– Por falar em mariscos, porque não vamos almoçar? Penso num lindo
risotto al frutti di mare, na periferia. Em Affori, por exemplo.
Alberto deu-lhe um olhar severo.
– Como você ousa propor tal coisa? Só voltaremos depois de três da tarde! Aliás, um excelente horário, para quem costuma sair daqui depois das sete da noite. Mas não
e parece correto que uma pesquisadora descumpra seu horário de trabalho, por um
risotto. Seria diferente se o fizesse por um belo filé peixe-espada, com molho muito suave de atum, nata batida e alcaparras, ao lado de um Tocay geladinho. Sugiro o jardim do Sette Lune em frente ao parque Litta.”
Ela ainda adiciona, ao final da página 139, que tomaram um delicioso Grumello durante o almoço. Uma delícia!
Mas não foi o mistério, a aventura ou o festival gastronômico que me fizeram escrever esse artigo. Isaias descreve, no personagem de Vittório, o que para mim são as grandes virtudes de um chefe de departamento de uma instituição acadêmica.
Ainda que possa parecer longo, vale a pena ler o texto que transcrevo:
“Outra razão era uma qualidade rara em gente da nossa laia: com toda a sua alta reputação e o sucesso de suas publicações, ela não se envaidecia: era uma discípula de Pietro Vittori, que a tinha orientado desde os anos da graduação até o pós-doutorado. Cada discípulo de Vittori tinha algumas marcas, inconfundíveis: a consciência
de que sempre é preciso saber mais, de que a virtude não está no que se sabe, mas na busca devotada do saber, além de um inflexível senso de justiça.
(…)
Mas éramos muito respeitados pela “qualidade acadêmica” do que fazíamos. Parte
desse respeito era devida a outro motivo. Toda a Universidade sabia que o nosso Departamento jamais apoiaria qualquer iniciativa que não fosse a melhor para “os fins, impessoais, da instituição”, como dizia Vittori. Isso nos alijava das posições de decisão. Por isso, nosso Departamento era o mais respeitado, mas era também o mais pobre.
Isso não doía: tínhamos até uma certa compaixão pelos que lutavam por posições de chefia ou de direção. Quando a busca do poder importa mais que a busca do saber, as universidades morrem. Assim ensinava Vittori.
(…)
Talvez, de todos nós, o mais visado fosse Pietro Vittori, o diretor. Ele proclamava aos quatro ventos que a transmissão do saber, a formação dos estudantes, era a razão maior da Universidade. Dizia que isso era algo extremamente sério e, por isso mesmo, não era assunto para novatos que, após a formatura, não responderiam pelas conseqüências das “revoluções” que propunham. Achava que os alunos precisam distinguir entre o poder que contestam e a autoridade intelectual de seus mestres. Que o direito de contestar a universidade, se adquire cumprindo seu papel nela, o dever social de estudar com seriedade, no caso dos alunos. Mais ainda, dizia que a Universidade não tem poderes a serem disputados: ela tem, isso sim, compromissos e o maior deles, supremo, é com a razão, a racionalidade. Que os cargos universitários são deveres sociais ou institucionais, e não posições de poder. Para ele, a ambição por tais cargos como posições de mando era marca dos que estariam mais felizes fora da universidade. Tanto mais hábeis no jogo do poder, quanto medíocres no saber. Por esse caminho, pode-se concluir que os medíocres não são raros.
(…)
Uma vez, ele explicou a Alberto como entendia a função de diretor do Departamento.
– Um diretor deve ser um chefe. Alguém que assume decisões e que responde pessoalmente por elas. Ele quase soletrou o pessoalmente.
– E os docentes?
– Cada um deles pode tomar as decisões que quiser, desde que responda, pessoalmente, por cada uma delas. Somos todos adultos, responsáveis, não?
– Mas o Conselho é um órgão deliberativo…
– …que pode destituir-me da direção em qualquer momento. Mas sou eu que assino pessoalmente as decisões, assumo pessoalmente o ônus de responder por elas em primeira pessoa. Portanto, é justo que eu tenha o poder de decidir. É cômodo decidir anonimamente em grupo e depois delegar a responsabilidade da execução, agora pessoal, ao diretor.
A conversa era serena e polida. Vittori e Alberto eram amigos, acima de tudo. Por isso Alberto podia ser franco:
– Mas uma decisão democrática deve ser majoritária…
– Nisso você se engana, meu caro: a maioria pode representar a intolerância, até a prepotência. Ou você acha que a má-fé, quando é de muitos, se torna pureza?
– Penso numa decisão discutida…
– Eu jamais impedi que vocês discutam meus projetos. Não decido nada sem discutir com vocês todos. Convençam-me de que eles são errados ou inconvenientes e eu os modifico ou abandono. A discussão deve buscar racionalmente a verdade, como diria Abelardus, e não servir apenas de álibi para a prepotência das maiorias. Ser democrático não é curvar-se ao número de votos. É submeter honestamente as próprias idéias à apreciação dos outros e saber render-se a uma argumentação convincente… Que pode ser a da minoria, ou a de um só, por que não?
Alberto coçou o queixo:
– O que acontece quando a opinião da maioria é a mais acertada? A mais… convincente?
– Então, nem precisa ser majoritária, Alberto. Entre uma minoria que pensa certo e uma maioria que erra, prefiro seguir a minoria.
– Mas como saber o que é pensar certo?
– Seguramente o certo não é, necessariamente, o que uma dada maioria pensa. Poder se decide pelo voto; acerto, não.
– E então?
– O que é certo, no caso do nosso Departamento, ou do Instituto, por exemplo, é o que, num dado momento, é moralmente lícito, traz benefício ao grupo, contribui para os fins, impessoais, da instituição. A quem responde, cabe a decisão. A discussão serve para corrigir as distorções dos critérios pessoais de quem deve decidir. No caso, eu.
– Isso não é meio autoritário?
– Seria, se o poder de decidir não fosse delegado. O Conselho pode retirar essa delegação quando quiser. O poder, sim, pertence ao Conselho, que o delega ou retira, conforme a vontade da maioria.
– Agora vale a maioria? Por quê?
– É óbvio, Alberto. Agora, a questão não é a do acerto ou erro de uma decisão. Agora se trata de atribuir o poder. É uma questão de força. É o exercício da força. A decisão pode até ser errada: acerto não se decide por voto. Maioria é uma expressão de força, Alberto. E a força, raramente acompanha a racionalidade.
– Numa democracia o direito de opinar deve ser irrestrito, disse Alberto, cruzando os braços. Era o jeito dele quando decidia levar uma discussão até o fim.
– Então deixemos que os pacientes do Policlínico ou os presos de San Vittore decidam como deve ser conduzido o hospital ou o presídio. Ou, que os alunos, beneficiários transitórios da Universidade, resolvam como deve ser o ensino, a pesquisa, o estatuto. Eles não responderão pelos efeitos de tais decisões, após a formatura. Alunos,
pacientes e presos são sempre maioria, nessas diferentes instituições, como você sabe, meu caro.
– Eu disse: direito de opinar, professor.
– Pelo gosto de opinar? Ou para decidir?
Não sei como a conversa terminou. Conto isso para mostrar como funcionava o Departamento. E é bom que se diga: Pietro Vittori tinha sido eleito pela quarta vez consecutiva para a Diretoria. Por unanimidade!
Estilos à parte, confiávamos nele. Na sua dedicação “aos fins, impessoais, da instituição”. E no seu rigoroso senso de justiça.”

Lindo, de novo, não é?

Quem tem medo da Física?

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No excelente texto ‘O apagão vem ai‘ de Sonia Rodrigues no Blog Inclusão Digital, ela mostra a sua preocupação com a falta de formandos de Física para suprirem a imensa carência de professores dessa disciplina no ensino médio.
Segundo os dados do INEP que ela cita, são necessários 23,5 mil professores de Física, só para o Ensino Médio, e as todas as faculdades do país formaram, nos últimos 12 anos, apenas 7,2 mil licenciados.
Para ela, essa é a explicação para tantos professores de Biologia dando aulas de ciências no ensino fundamental e de Física no ensino médio. Criou-se um ciclo vicioso: se formam mais biólogos, que se tornam mais numerosos entre os professores de ciências, que puxam a brasa para a sua sardinha nas aulas de ciências, inspirando mais alunos a se tornarem biólogos, que se tornarão também professores de ciências.
O problema é que esse raciocínio cria uma tautologia: quem veio primeiro? O aluno inspirado que vira professor ou o professor que inspira o aluno?
Comentei no texto dela em minha opinião o problema é outro: as pessoas, e os alunos, tem mais medo da física do que da biologia, independente do professor. E como vocês sabem que cientista detesta não ter elementos para apoiar suas conclusões, resolvi fazer aqui uma pesquisa. Então:

De qual materia voce tinha (tem) mais medo na escola?
Historia
Fisica
Quimica
Biologia
Matematica
Portugues
Geografia
  
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Já anuncio o meu voto: matemática!
Acontece que quando a gente entra na faculdade descobre que a Biologia não é mais fácil do que nada: quero ver encarar Bioquímica I no 3o período ou Biologia Molecular no 6o!
E como diz a piadinha: “Quando a gente entra na faculdade descobre que Psicologia é, na verdade, Biologia; que Biologia é, na verdade Química; que Química é, na verdade Física; e que Física é na verdade Matemática (e que mesmo depois de estudar anos, você não vai entender bem nada).”
Por isso acho que existe outro motivo: a Biologia se aproximou mais das pessoas nos últimos 50 anos, enquanto a Física se distanciou. A Ecologia, a Biodiversidade e até o Genoma estão muito mais próximos do homem do que a teoria das Supercordas, os buracos negros e os universos paralelos. Mesmo com todo o charme (?) de Sheldon e do Marcelo Gleiser, os físicos estão perdendo!
Porém, meu comentário suscitou uma outra questão, que eu sei que arrepia a Sonia. Eu não vejo um movimento nas universidades públicas para valorizar as carreiras de base (que formam os professores para as disciplinas do ensino fundamental e médio). Ao contrário, o REUNI exigiu que as universidades criassem novos cursos. E elas criaram cursos voltados para o futuro. Ainda que seja o futuro delas.
Na UFRJ, os exemplos são os cursos de graduação em Biofísica, Nanotecnologia, Metrologia, Bioinformática e Biologia Forense.
São cursos interdisciplinares, antenados com a modernidade de um país que quer investir em inovação e recuperar o tempo perdido no desenvolvimento de tecnologia. Precisamos de profissionais preparados para navegar em diferentes mares e para muitas cabeças pensantes, esses cursos interdisciplinares são a solução. É importante ter em mente que no nosso país, assim como em todo o mundo, o desenvolvimento de tecnologia está ligado a universidade pública (a diferença é que aqui está ligado principalmente e quase exclusivamente a universidade pública – sim, eu sei que EMBRAPA e institutos de pesquisa do CNPq são fundamentais, mas me permitam esse raciocínio). A maior universidade do país (em número de alunos) não poderia se furtar a esse compromisso!
Mas e as disciplinas de base? O número de vagas vem aumentando ao longo dos anos, como por exemplo a criação da licenciatura em Biologia no período noturno (também na UFRJ).
Abre Parênteses: Na teoria é lindo, mas na prática não funciona. Os ‘cursos modernos’ de modernos tem apenas o nome. É mais fácil pronunciar interdisciplinaridade do que praticá-la. O resultado são currículos multidisciplinares, onde as diferentes disciplinas se misturam, mas caminhando paralelas e não convergentes. Não há uma só disciplina de gestão empresarial e de recursos humanos, criatividade, estética, cultura e idiomas. Os conselhos profissionais tem resistência a registrar esses novos profissionais que podem permanecer um bom tempo no limbo. E por outro lado, meus alunos do curso noturno não conseguem chegar pontuais nas aulas porque podem levar até 3h de ônibus para chegar na Ilha do Fundão vindos de São Gonçalo ou Maricá na hora do rush. Fecha Parênteses.
A Universidade Aberta do Brasil é uma tremenda iniciativa para recuperar o déficit de jovens fora da universidade e produzir os licenciados necessários para reverter as estatísticas infames que mostram, por exemplo, que apenas 1% dos professores do ensino fundamental na região norte tem ensino superior.
Não há dúvida que precisamos trabalhar para aumentar o número de licenciandos em física e garantir que haja professores qualificados e motivados ensinando ciências para nossas crianças e adolescentes, mas sem que se comprometa a formação interdisciplinar de pessoas para as profissões do futuro, aquelas que ainda nem sabemos quais são.

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