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Meu primeiro encontro com os guepardos

“Vocês duas esperam aqui, do lado de fora”, ordenou gentilmente um dos guias. A menina de dez anos olhou feio para ele, enquanto a que tinha cerca de cinco anos sentou conformada no banco de madeira, em frente ao ambiente cercado por grades com mais de dois metros de altura onde estavam as duas chitas (guepardos) também irmãs. Uma era fêmea e a outra, macho. Nós seis (os dois guias sul-africanos, o casal americano, o meu marido e eu) seguimos em frente.

O guia tratador das chitas tirou o cadeado do bolso e abriu a porta de metal. Entramos naquela espécie de ampla jaula e caminhamos atentos em busca dos animais. Eles são amarelos, mas imperceptíveis nas sombras nas plantas. O casal americano parou para ver como as filhas estavam do lado de fora. “Venham, temos que andar todos juntos! É perigoso nos afastarmos uns dos outros”, ordenou o guia que nos acompanhou por todo o passeio dentro do Tenikwa Wildlife Awareness Centre, localizado na capital africana do surf Plettenberg Bay. Os americanos, que já estavam um pouco assustados, seguiram mais atentos. Até que…

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Encontramos as duas maravilhosas chitas deitadas sob escassa sombra de uma árvore. Não podíamos tocá-las, apenas observar os elegantes felinos que tinham a feição de um gatinho. Enquanto o tratador contava particularidades desses animais como o fato de serem os mais rápidos mamíferos terrestres do mundo, atingindo até 120 km/h durante uma caçada, os bichos ronronavam. Sim! Ronronavam – chitas não rugem! E era porque estavam gostando de algo. As chitas são, com exceção dos gatos domésticos, os únicos felinos que ronronam na idade adulta.

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O macho deitado no chão girava o corpo para um lado, girava para o outro, enquanto passamos a observar essa engenhosidade – estrutura leve e calda comprida que atua como um leme e dá estabilidade durante a corrida – da natureza de perto. Que emoção! Eu quis chegar mais pertinho, mas fiquei receosa. Pensei: “Melhor não me aproximar muito e nem fazer movimentos bruscos para não assustar os animais”. As chitas não costumam caçar e comer humanos. Apesar dessas estarem bem alimentadas e tratadas (dá para perceber pelo pelo brilhante) e já acostumadas com a presença humana (elas foram apreendidas de forma que não podem mais serem soltas na natureza), são carnívoras. Portanto, melhor não arriscar. Os músculos pouco rasgados e uma leve saliência na barriga entregam que, apesar da amplitude do local, elas não praticam muita atividade física. Não correm atrás do alimento.

Completamente vidrada-apaixonada-encantada pela espécie, tentei tirar uma foto com as duas chitas. O guia tratador me orientou: “Pode ir atrás delas, elas não farão nada. E pode abaixar lá para a foto ficar bem bonita”. Soltei uma risada nervosa. “Será?” “Sim, elas não atacam quando o tratador delas está aqui”, informou o nosso simpático guia. Ah, olhei bem as garras delas, engoli e fui para trás. Meu marido e eu fomos os únicos que “se arriscaram”. Foi o tempo de tirar algumas fotos até a fêmea levantar e sair com o olhar fixo num ponto. Admiramos um pouco mais o irmão que acompanhava a fêmea pelo olhar (foto abaixo). “Quer apostar que ela foi observar de perto as crianças?”, disse o tratador. As chitas têm aquelas espécies de “riscos” no rosto para evitar que a luz do sol reflita nos olhos. Diferente dos leões e outros felinos que preferem caçar à noite, no início da manhã ou no finalzinho da tarde, as chitas caçam durante o dia.

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Ficamos mais uns minutos, que nunca parecerão eternos (pena!), no local ao lado do macho. No caminho de volta por dentro da jaula, encontramos a fêmea sentada com o pescoço levantado e os olhos fixos nas duas crianças do lado de fora. É a posição de atenção em que elas permanecem por horas antes de correrem atrás da comida. O tratador soltou um sorriso. Só faltou levantar a placa: “Eu avisei”. A fêmea mal piscava e as crianças lá, sentadas no banco sob o sol, balançando as pernas no ar. Neste caso, a fêmea é quem caça. E as chitas caçam crianças. Os pais voltaram rapidinho para perto das filhas. E a chita lá, impassível.

O Tenikwa, um centro de reabilitação de animais selvagens especializado em felinos, permite vermos de pertinho essas reações de cada felino enquanto o guia discorre sobre a natureza deles. Como no Brasil, na África do Sul é proibido manter animais silvestres em casa sem autorização. Mas muitas pessoas capturam os bichos, como os felinos de pequeno porte, e os tratam como se fossem animais de extimação. Devido a essa convivência e educação, esses quando resgatados não têm mais condições de sobreviverem sozinhos na natureza.

caracal

É o caso de um divino caracal (acima) que corria atrás de um tronco em forma de bola jogado pelo guia. Também pudemos ver de perto um serval (ele quase nos tocou), um gato selvagem africano que estava dormindo escondido entre as folhagens como é de costume, um leopardo, entre outros. No caso do leopardo, estávamos a menos de três metros do animal e não conseguimos vê-lo!  Não entramos na gaiola dele. É tão proibido quanto encostar na grade de proteção onde vive. Ele ataca humanos, embora na natureza foge de nós assim que sente o nosso cheiro a dezenas de metros de distância. Isso porque eles costumam comer animais criados por fazendeiros como bezerros e ovelhas.

leopardo

Durante mais de 100 anos (até hoje, apesar de proibido), os fazendeiros matam os leopardos com tiros. Aliás, existe uma história recente de que em Pretória, capital executiva do país, um leopardo atacou e matou cachorros e crianças que estavam fora de casa até ser descoberto ele o autor dos “crimes”, capturado e solto na natureza bem longe dali. Eles agem durante a noite e passam o dia poupando energia camuflados sob as sombras das árvores. Mesmo assim, bobear perto de um felino como leões e leopardos enquanto tiram aquela soneca preguiçosa da tarde é perigoso.

Se você ama “cats”, animais selvagens (eles têm outros bichos como pássaros), a natureza em geral e vai para a África do Sul, recomendo conhecer o trabalho realizado pelo Tenikwa. Seu pagamento da entrada e compras que faz na lojinha ajudarão a devolver para a natureza animais machucados ou que foram encontrados em cativeiro. Apenas chegue cedo, pois o local sempre lota e só é possível visitar os animais acompanhado de um guia. Um ótimo feriado felino para você!

Gato selvagem africano
Gato selvagem africano
Serval
Serval


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