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Cuidado: arqueólogos trabalhando

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Toda vez em que passo pela região do Largo de Pinheiros, próxima à estação Faria Lima do Metrô (na cidade de São Paulo), fico curiosa em saber o que tanto escavam atrás daquelas placas de proteção – coisas que só percebe quem anda a pé, e não de carro. Várias vezes vejo algumas pessoas com água na mão, mochila nas costas, chapéu de tecido bege ou capacete branco nos quais se leem a palavra: “Arqueologia”. Uniforme diferente dos macacões dos operários.

 

Há mais de um ano, lembro-me de ter lido que as obras atrasariam um pouco mais porque acharam algumas peças arqueológicas, mas as matérias sobre o assunto nunca diziam com detalhes que tipo de peças eram, em quais condições estavam ou quais as esperanças dos arqueólogos. Aliás, dizem as “más línguas” que a maioria das empresas envolvidas com obras do tipo não gosta quando encontra resquícios arqueológicos. Afinal, nestes casos, obrigatoriamente a obra deve parar para começar a pesquisa – leia aqui uma matéria bacana, da Pesquisa FAPESP, sobre escavações no porto do Rio de Janeiro.

 

DSC00740A curiosa de plantão, aqui, se delicia com essas pesquisas. Não é fantástico escavar um quintal e encontrar resquícios de alguém que viveu no mesmo lugar que você? Portanto, semana passada não resisti. Parei em frente a um dos locais que estavam sendo escavados e vi um rapaz com o capacete mágico escrito “Arqueologia”. Como uma típica conversa informal que antigamente travávamos na rua com desconhecidos, ação cada vez mais incomum, falei “olá” para o arqueólogo e perguntei: “Tudo bem? Olhe, estou super curiosa, já encontraram bastante peça interessante aí?”.

 

Gente boa, o arqueólogo contou que, em épocas de chuva, antigamente o rio Pinheiros chegava até aquela região – isso explica a areia preta, bem típica de rio e ótima para adubo, debaixo dos nossos pés (foto logo acima). Quase peguei um punhado para colocar nos vasos das minhas plantinhas! Como lá era uma área alagável, quase um pântano, algumas peças não sobreviveriam à umidade. Por enquanto, ele disse que encontraram fragmentos na casa do milhar (se não me engano, mais de 110 mil).

 

A maioria das peças, inclusive as mais inteiras, eles acreditam que sejam de cerca de 1890 e 1950. São louças como pratos, um até com a suástica nazista e tanques pintados (!), garrafas de leite antigas, entre outros. Segundo o arqueólogo, ainda é necessário analisar a idade de cada objeto encontrado para ter certeza e aferir mais informações. Eles também encontraram ossos de animais, ainda não se sabe ao certo qual animal e de que época. E descobriram que, em uma ruela, a galeria de esgoto é de 1950.

 

Eu adoraria ver as peças, mas conforme são encontradas, elas são encaminhadas para estudo, claro. Questionei o que farão, depois, com elas: “Acredito que serão realizadas mais pesquisas sobre elas e doadas a museus”. Aí, o grand finale: “Dizem que uma tribo indígena, lá pelos idos do ‘descobrimento do Brasil’, vivia bem aqui no local. Vocês já encontraram algo sobre ela?”. O olhar do arqueólogo encheu de brilho: “Nós estamos buscando, mas devido ao tipo de solo, não sabemos se haverá algo preservado”. Voltar ao passado é sonhar.

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Obs.: A obra de reforma da região começou em 2007 (!), saiba mais sobre o projeto nesta matéria publicada na Folha de S. Paulo. Ah (suspiro), essas escavações me lembraram de Roma. Quando estive lá, em 2007, a obra de extensão do Metrô estava parada porque eles encontraram mais resquícios dos antigos impérios. <3 Em Roma, eu também coloquei o cabeção sobre os tapumes para ver, claro! Aliás, até peguei um ônibus na área para observar as escavações do alto!

 

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3 ideias sobre “Cuidado: arqueólogos trabalhando”

  1. Thomas, que máximo! Obrigada pelas informações! Diga aos arqueólogos que sou uma espectadora empolgada com o trabalho deles!

    Laerte, imagino, mesmo!

  2. olá
    bem legal…
    sempre acompanho os blogs aqui do Scienceblog e fiquei bem feliz quando reconheci essa foto, de cara, pois conheço quem trabalha nela e já a visitei!

    Tenho a contribuir que existe muita coisa além da escavação mesmo, como você apontou.

    Tudo que aí é coletado vai até um laboratório, onde será limpo, etiquetado e depois analisado… Cores, marcas, medidas, tudo será classificado e quantificado, permitindo que o arqueológo, em equipe multi-disciplinar, consiga depois explicar ou estimar a formação do sítio arqueológico, quem ali estava, quando estava… criando corpo para a história e pré-história do Brasil e nossa identidade como uma população.

    Depois, tudo é escrito em relatórios (públicos, como prevê a lei, basta pedir para o IPHAN ou próprio empreendedor da obra) e enviados ao IPHAN, que falará para o órgão licenciador da obra se ela pode ou não ser prosseguida, ou se será necessário mais estudos.

    É porque estes estudos fazem parte do licenciamento ambiental de qualquer obra, que segue o rito: inicialmente um estudo de prospecção (localização) e depois de resgate (a retirada do material e seu envioo para laboratório).

    Após o resgate e a análise, todo o material, por lei, é obrigado a ser enviado para uma instituição museológica. Infelizmente a maioria está em péssimas condições e o material ficará esquecido em caixas…. Outras peças, no entanto, terão a sorte de serem expostas – atitude cade vez mais incentivada.

    Muitos empreendedores ficam irritados com o atraso (que custa dinheiro) que a Arqueologia – e outros estudos ambientais – acarreta, mas no fim todo mundo tem curiosidade de saber que embaixo de nossos pés pode ter existido milhares de anos de vida!

    Muito bom o seu texto!

  3. Só posso dizer que as pessoas que estão à frente de obras torcem ferozmente para que não sejam encontrados “caquinhos” nos levantamentos arqueológicos obrigatórios.

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