Todos os posts de Isis Nóbile Diniz

Sou jornalista com pós-graduação em divulgação científica. Cresci em um ambiente de cientistas malucos. Até pensei em ser inventora, mas não deixaria minha outra paixão, o jornalismo. Aqui, combino o útil ao agradável.

Dia Mundial da Água: o que você está fazendo com ela?

Hoje é o Dia Mundial da Água. Vale lembrar que o Brasil tem a maior reserva de água doce disponível do mundo, o que corresponde a 12% da água doce líquida do planeta. O país tem os maiores aquíferos, o maior rio, o Amazonas, e um litoral de mais de 8 mil quilômetros. Será que valorizamos e manejamos sustentavelmente toda essa oferta? Um estudo coordenado pelo analista ambiental Rafael Magris, do ICMbio, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, em parceria com universidades internacionais e patrocinado pelo CNPq, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, mostrou que os sedimentos contaminados do desastre da barragem que rompeu em Mariana, em 2015 em Minas Gerais, atingiram o Rio Doce, o Arquipélago de Abrolhos, na Bahia, o Espírito Santo e bancos de algas calcárias da região. A intensidade dos impactos da destruição diminuirá, mas a área total de ecossistemas em risco ou afetados tende a aumentar com o passar do tempo, segundo a pesquisa. São mananciais e litorais contaminados por substâncias químicas nocivas para nossa saúde como metais pesados. O que prejudica ou inviabiliza o uso dessas águas. Temos que colocar em prática no Brasil o hábito de planejar o modo que empregamos os nossos recursos naturais, inclusive analisando e evitando os riscos dessas atividades.  

IMG_20190306_085146175_HDRAgora, após a tragédia de Brumadinho, a Agência Nacional de Mineração publicou uma resolução determinando o fim de todas as barragens do tipo “a montante”, como as duas que romperam em Minas Gerais.

A poluição do ar está acima dos padrões da OMS

Olá! Bom dia! Pare e respire fundo… Você sabe o que tem nesse ar que respira? O IEMA, Instituto de Energia e Meio Ambiente, lançou a plataforma da qualidade do ar que reúne dados do monitoramento feito em todo o Brasil e também indica as ultrapassagens das recomendações feitas pela ONU. Dos 27 estados brasileiros, apenas nove realizam o monitoramento da qualidade do ar. São eles: Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Distrito Federal. Nesses locais, os poluentes material particulado fino e o ozônio seguem em alta. O material particulado fino é um dos maiores responsáveis por doenças respiratórias e cardiovasculares no mundo. Ele é emitido pela queima de combustíveis e formado lá na atmosfera a partir de reações químicas. Já o ozônio pode ser causador de doenças pulmonares e a asma. Ele aparece nos dias ensolarados a partir da reação química de outros poluentes. A concentração dele no Parque do Ibirapuera, por exemplo, chegou a ser o dobro do que a OMS recomenda. Mas uma notícia boa: a maioria dos poluentes apresenta uma tendência clara de queda. Isso graças a programas como o de controle veicular (Proconve) que regulamenta a tecnologia dos motores e a qualidade dos combustíveis. O negócio é olharmos para aquilo que a gente não vê.

*Este texto foi falado por esta palpiteira oficial no programa Desperta, da Rádio Transamérica, apresentando pelos queridos Carlos Garcia e Irineu Toledo.  Uma vez por semana, minha coluna vai ao ar por volta das 6h15 da manhã! Geralmente, às quintas-feiras. Beijo!

Lugar de mulher é na ciência!

Olá! Bom dia! Lugar de mulher é onde? É na ciência! O CNPq lançou a sétima edição do Pioneiras da Ciência, uma iniciativa que homenageia pesquisadoras brasileiras com trabalhos importantes para o avanço do conhecimento científico e tecnológico no país e no mundo! As homenageadas desta última edição são: a entomóloga, especialista que estuda os insetos, Alda Lima Falcão; a física Beatriz Alvarenga; a historiadora e ativista Maria Beatriz Nascimento; a física Ewa Wanda Cybulska; a linguista Leda Bisol; a física Linda Viola Ehlin Caldas; a geógrafa Maria Adélia Aparecida de Souza; a cientista política e escritora Paula Beiguelman; a física Ruth de Souza Schneider; e a bióloga Yocie Yoneshigue Valentin. A homenagem é importante porque mostra para as meninas e mulheres em geral que nós podemos exercer um papel relevante na sociedade. Segundo um estudo feito por pesquisadoras do CNPq, da UNICAMP, Universidade Estadual de Campinas, e da Universidade de Brasília, o total de bolsas de estudo concedidas pelo CNPq a homens e mulheres é igual. Mas a participação das mulheres diminui à medida que o nível das bolsas é maior. Ou seja, há a sub-representação feminina em postos mais avançados da carreira e em posições de prestígio. Isso reflete o preconceito contra as mulheres. E também mostra o fato de ter menos tempo para produzir pesquisas e, assim, subir de posto. Mas juntas e juntos podemos mudar isso. E será melhor para todas e todos. Um beijo!

*Este texto foi falado por esta palpiteira oficial no programa Desperta, da Rádio Transamérica, apresentando pelos queridos Carlos Garcia e Irineu Toledo. Uma vez por semana, minha coluna vai ao ar por volta das 6h15 da manhã! Geralmente, às quintas-feiras. Ouça aqui!

Imagem: CNPq

Como levar energia elétrica para comunidades na floresta

Até o fim deste ano de 2019, o ISA, Instituto Socioambiental, e a Associação Terra Indígena Xingu  em parceria com o Instituto de Energia e Ambiente da USP vão levar sistemas de energia solar para 55 escolas, 22 postos de saúde e para mais 12 pontos comunitários da Amazônia. O projeto Energia Limpa no Xingu pretende se tornar uma referência em soluções de energia renovável e descentralizada em comunidades isoladas. Cerca de 760 mil brasileiros dependem dos sistemas desconectados daqueles fios de transmissão do Sistema Interligado Nacional. Aliás, até Boa Vista, capital de Roraima, usa sistema independente de geração de energia. Muitas comunidades isoladas da Amazônia, por exemplo, contam com geradores a diesel. Mas geradores a diesel são barulhentos, dão muita manutenção e custam caro para o bolso dos contribuintes e para o meio ambiente por serem extremamente poluidores. Usar torres de energia solar é uma alternativa. Energia solar tem um custo alto na instalação, mas compensa economicamente e ambientalmente ao longo do uso. O IEMA Instituto de Energia e Meio Ambiente está analisando os impactos do projeto piloto dessa instalação. Ao que parece, todas e todos sairemos ganhando.

*Este texto foi falado por esta palpiteira oficial no programa Desperta, da Rádio Transamérica, apresentando pelos queridos Carlos Garcia e Irineu Toledo. Uma vez por semana, minha coluna vai ao ar por volta das 6h15 da manhã! Geralmente, às quintas-feiras. Beijo!

Foto: IEMA

Carnaval: pode usar glitter?

Está chegando, em alguns locais como na Bahia e nas capitais paulista e carioca já chegou, uma das épocas do ano que mais adoro: o Carnaval! E a cada ano aumenta a polêmica em torno de um brilho muito usado pelos foliões: o glitter. A maioria do glitter é feito de pequenos pedaços de plástico que demoram mais de 400 anos para se decompor. E, por serem tão pequenos, passam direto pelos filtros das estações de tratamentos de esgoto das cidades (quando há tratamento). Assim, caem nos rios e córregos que, mais cedo ou mais tarde, desembocarão no mar. Muitos animais aquáticos como ostras, pequenos peixes e até baleias ingerem esse glitter. Ele pode ser confundido com os plânctons, organismos bem pequenos que fazem parte da base da cadeia alimentar aquática. Então, surge a dúvida: o que usar no lugar do glitter comum? Escolha o glitter biodegradável, que não prejudica o meio ambiente. No Brasil, existe até glitter vegano biodegradável. O problema é que esses produtos ainda são caros. Assim, deixo a dica para quem quer sair ecologicamente purpurinado: use glitter comestível para brilhar. No YouTube, dá para encontrar receitas caseiras. Outra opção é comprar glitter comestível com atenção ao rótulo: ele deve ser livre de plástico e de metais. E bom carnaval!

*Este texto foi falado por esta palpiteira oficial no programa Desperta, da Rádio Transamérica, apresentando pelos queridos Carlos Garcia e Irineu Toledo.  Uma vez por semana, minha coluna vai ao ar por volta das 6h15 da manhã! Geralmente, às quintas-feiras. Beijo!

Foto: Carnaval de 2018/ Isis Diniz

Tem um parque perto de você, talvez você nem saiba

Hoje, trago uma boa notícia no estilo: “antes tarde do que nunca”. O Ministério do Meio Ambiente lançou nestas férias o aplicativo para celular chamado Parques do Brasil. Ele ainda está na versão beta. O aplicativo traz fotos das unidades de conservação, as atividades e as atrações de cada uma delas. Também mostra as unidades de conservação que estão mais perto de você. As unidades de conservação são áreas naturais criadas e que deveriam ser protegidas pelo Poder Público. Duas conhecidas são: o maravilhoso Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha e o Parque Nacional do Iguaçu, uma das sete maravilhas do mundo. O Brasil tem atualmente mais de 2200 unidades de conservação. E parte delas, aliás, está em risco. Segundo um recente relatório do Imazon, Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, o desmatamento em unidades de conservação da Amazônia em relação ao total da floresta quase dobrou em dez anos: passou de 7%, em 2008, para 13%, em 2017. Por isso, precisamos estar por perto do que é nosso para preservar e curtir este país bonito por natureza.

*Este texto foi falado por esta palpiteira oficial no programa Desperta, da Rádio Transamérica, apresentando pelos queridos Carlos Garcia e Irineu Toledo.  Uma vez por semana, minha coluna vai ao ar por volta das 6h15 da manhã! Geralmente, às quintas-feiras. Beijo!

Foto: Fernando de Noronha/ Isis Diniz

2019: este pode ser o ano mais quente

Uma falante novidade: sou colunista de sustentabilidade do programa Desperta, da Rádio Transamérica, apresentando pelos queridos Carlos Garcia e Irineu Toledo.  Uma vez por semana, minha coluna vai ao ar por volta das 6h15 da manhã! Aqui, publico o que falei por lá.

Está calor aí? Aqui está muito quente! E parece que esse calorão todo vai permanecer. É bom se preparar: pesquisadores têm alertado que 2019 deve ser o ano mais quente já registrado! Isso porque a temperatura do planeta tem aumentado continuamente devido ao aquecimento global. As pesquisas mostram que as ações humanas como uso intensivo de combustíveis fósseis e queimadas de florestas lançam na atmosfera gases que retém o calor dos raios solares, esquentando o planeta mais do que deveriam. Somado a isso, desde dezembro de 2018 o fenômeno El Niño tem elevado a temperatura da superfície do mar do Pacífico. E qualquer mudança na temperatura do oceano afeta diretamente o tempo do planeta todo, em menor ou maior quantidade. O El Niño pode contribuir com uma seca mais intensa no Nordeste, por exemplo. Além disso, as regiões Sudeste, Sul e o estado do Mato Grosso do Sul devem ficar com temperaturas acima da média até junho. Essas informações são do INPE, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

Aproveite para sintonizar, todo dia entre 5h e 7h da manhã, na rádio para saber as últimas notícias e ainda ouvir música! :) 

Foto: Welcomia/ Freepik

Por que escolheu ser jornalista?

“Como vou ligar o rádio hoje de manhã?” Estava preocupada ontem, como milhares de brasileiros. Afinal, após sintonizar na Transamérica cedinho, todo dia seguia ao trabalho ouvindo a BandNews FM. Minha filha ficou doente e, por dar atenção a ela, cheguei mais tarde. Pode ser impressão, mas parecia que os outros motoristas estavam dirigindo mais silenciosamente e passageiros quietos, em luto no trânsito.

Ambientalmente falando, sabia que este ano, de 2019, seria um desafio. Eu me preparei para atravessá-lo com firmeza, generosidade e buscando mais conhecimento como base. Jamais imaginaria que seria tão trágico. Brumadinho, Flamengo, Rio de Janeiro e tantas outras aflições. Até que perdemos um dos melhores e mais necessários jornalistas do momento: Ricardo Boechat.

Infelizmente, não o conheci pessoalmente. Mesmo assim, o tinha como uma pessoa íntima do cotidiano, que ouvia todos os dias por anos. Além disso, sempre admirei o modo como ele escutava as pessoas em geral, dava voz a todos e buscava um local mais justo para se viver. Parecia ser uma pessoa transparente e íntegra.

Além de gostar de me comunicar, escolhi cursar jornalismo por ter aquela inocência de tornar o planeta uma casa mais equitativa. Eu achava que poderia mudar o mundo para melhor. Rapidamente, descobri que sozinha seria impossível. Aliás, acompanhada já é difícil. E até passei por muitos momentos de desilusão. Inclusive, recentemente – o, praticamente, fim do Museu Nacional foi muito desanimador para mim.

Agora, perdemos um grande profissional. Tornou-se quase uma unanimidade por ser tão jornalista, verdadeiro no sentido mais nobre dessas palavras. Uma estrela. Ninguém é substituível – ao contrário do que diz o ditado. E neste momento o chamado aparece novamente. Se faz presente.

Todas (os) nós, principalmente jornalistas, não importando onde estivermos atuando, precisamos colocar em prática ainda mais as características tão esperadas das profissão. Sermos curiosas (os), prevenidas (os), precisas (os) e éticas (os). E, acima de tudo, humildes.

Não que tenhamos deixado essas qualidades de lado. Mas quem sabe, unidas (os) sob essas características, ressaltando simplicidade e verdade com nós mesmas (os), possamos ser uma poeira de estrela montando uma Terra mais igualitária, justa e fraterna. Muito amor para todas (os) nós.

Museu Nacional pega fogo. Fim.

Minha filha, infelizmente, não conhecerá o Museu Nacional do Rio de Janeiro como eu o visitei na minha infância. Aliás, esse era um grande sonho que vou ter que dormir com ele. Acabar o domingo com esse fim.

WhatsApp Image 2018-09-02 at 22.41.26O Museu Nacional,  vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, era a mais antiga instituição científica do Brasil. Um dos principais museus da América Latina, quiçá o mais relevante. Simplesmente, isso. As chamas levaram embora a nossa história brasileira e parte do passado da Terra.

Para se ter uma ideia da sua importância, a Luzia, o esqueleto mais antigo das Américas, estava lá. Durante a sabatina que fiz ao Walter Neves, pesquisador que descobriu a importância desse achado, perguntei para ele: “Posso ver a Luzia”? Ele sorriu: “Ela não fica exposta ao público, esta lá no Rio de Janeiro. Quando for para lá, quem sabe?”

E eu estive, em agosto, no Rio de Janeiro. No estado. Por motivos pessoais, não fui até a capital. Que pena. Era a chance da minha filha ter conhecido o Museu Nacional. Mas ela não verá o Museu Nacional que eu vi.

A importância do Museu Nacional
Fui algumas vezes ao meu Museu Preferido, principalmente, antes de cursar faculdade. Mas uma dessas vezes, quando eu tinha cerca de 14 ou 16 anos, foi inesquecível. Quando me dei conta da sua imponência (pausa para as lágrimas).

Estava com meus pais e meu irmão. Acho que minha madrinha foi junto. Passamos um dia todo no museu – quem dera se pudéssemos ficar a noite para ver tudo “acordar”.

Lembro como se fosse ontem dos sarcófagos e múmias egípcias que Dom Pedro II trouxe. Algumas delas foram mumificadas de um modo único, sendo um dos poucos exemplares do mundo.

Também vi algumas múmias encontradas nos Andes. Perfeitas, pareciam até que estavam vivas! Tinha cílios, roupas, cabelo comprido. Impressionante.

Tive a oportunidade de contemplar por minutos que pareciam a eternidade o maior meteorito encontrado no Brasil. E, o melhor, com explicações sobre ele dadas por um geólogo, meu pai.

Entre tanta beleza, outro item me chocou: o descaso. No ambiente onde estavam as múmias, haviam goteiras. Fungos na parede. Mofo! Muita umidade. Abandono. Itens mal cuidados. Fazem 20 anos isso. Tragédia anunciada.

Tenho certeza que o descaso não partia dos funcionários e nem dos pesquisadores. Muito menos dos frequentadores que se admiravam. Nem dos moradores orgulhosos com tanta preciosidade numa cidade tão maravilhosa. O Museu Nacional não passava vergonha frente ao Museu de História Natural de Nova York.  Não é ufanismo.

Pelo celular, vi queimar a minha infância. O nosso passado. A história de todos os habitantes do planeta água. Desde que comecei a namorar meu marido, o Gustavo, eu dizia que um dia o levaria ao Museu Nacional. Ele ia amar.

Mas, infelizmente, o Gustavo não terá essa oportunidade. Nunca saberá o que era o Museu Nacional. E nem minha filha. Desculpe, meu amor. Gostaria de deixar um país melhor para você. Ficaremos com as palavras.

Pesquisa pode ajudar na criação de remédios para combater Chagas

Foi publicada na revista internacional de renome, a PLoS Neglected Tropical Diseases, uma recente pesquisa feita por brasileiros sobre a Doença de Chagas – clique aqui para ler. Esta não tem cura e é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi. Quando o inseto barbeiro pica uma pessoa, suas fezes podem conter o protozoário. Ao coçar a região, a pessoa pode se infectar. Saiba mais sobre a descoberta na entrevista feita com Marcus Fernandes de Oliveira, professor associado do Instituto de Bioquimica Medica Leopoldo de Meis da Universidade Federal do Rio de Janeiro, chefe do Laboratório de Bioquímica de Resposta ao Estresse. Na foto, Caroline Ferreira, primeira autora do trabalho, e o pesquisador.

pesquisaxisxis1. A Doença de Chagas não tem cura. O que as pessoas devem fazer para evitar a contaminação?
Além de não ter cura quando não diagnosticada pouco tempo após a infecção, o tratamento da doença de Chagas ocasiona diversos efeitos colaterais. A única forma de se evitar a contaminação é por meio do controle do inseto vetor. Ao identificar um inseto semelhante a um barbeiro, não se deve esmagá-lo, pois isso pode favorecer o contato dos parasitos com o ambiente. O recomendado é que o inseto seja coletado com muita cautela, utilizando luvas e saco plásticos e levados até um posto do SUS para análise.

2. Atualmente, apenas trata-se os sintomas, correto?
Se diagnosticado durante a fase aguda, ou seja, durante a primeira fase da doença, o indivíduo pode ser curado. Entretanto, essa fase dura cerca de três meses e o paciente raramente apresenta sintomas, o que dificulta o diagnóstico. Após esse período, o indivíduo infectado passa a uma fase crônica da doença, que não tem cura. Nesse caso, os pacientes são tratados com drogas utilizadas para diminuir a população de Trypanosoma cruzi, que não é eliminada totalmente. Além disso, é necessário sim tratar os sintomas da doença, que na fase crônica consistem em disfunções digestivas ou cardíacas e podem levar à morte.

3. Por que é tão difícil encontrar uma maneira de eliminar a doença? Seja por vacina ou por outros meios biológicos, por exemplo?
São muitos os fatores que dificultam a descoberta de novos agentes de tratamento, entretanto, o principal deles é a falta de investimentos na pesquisa dessa doença. Por atingir principalmente a população de baixa renda, infelizmente, a doença de Chagas não representa um “mercado lucrativo” para os grandes investidores. Dessa forma, muitas pesquisas básicas são realizadas e encontram fármacos e moléculas-alvo que poderiam ser testadas como tratamentos alternativos, porém, as pesquisas raramente chegam à fase clínica devido ao grande investimento financeiro requerido neste sentido. Por isto, a Doença de Chagas, assim como inúmeras outras como dengue, leishmaniose e esquistossomose, são conhecidas por Doenças Tropicais Negligenciadas. Além disso, o T. cruzi é um parasito muito complexo e com uma capacidade enorme de mudar sua composição e estrutura, apresenta várias fases de desenvolvimento, com diferentes moléculas de superfície, habitat e metabolismo o que dificulta enormemente o desenvolvimento e a eficácia de drogas e vacinas. Soma-se a isto as reduções drásticas no financiamento a P&D que vem ocorrendo desde 2014 no Brasil.

4. Vocês descreveram a importância de um mecanismo bioquímico essencial para a transmissão da Doença de Chagas. Que mecanismo é esse?
O artigo publicado na revista PLoS Neglected Tropical Diseases representa o trabalho de graduação, mestrado e parte do doutorado da aluna Caroline Ferreira, que oriento desde 2010. Caroline atualmente vem realizando seu doutoramento no curso de pós graduação em Química Biológica do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis da UFRJ. Caroline descobriu que, ao ingerirem o sangue do hospedeiro, o barbeiro libera produtos tóxicos no interior do intestino como parte do processo de digestão do sangue. Na natureza, os insetos tem a capacidade engenhosa de cristalizar esses produtos em pedrinhas minúsculas que o inseto elimina nas fezes. Com isto, a cristalização destes produtos tóxicos impede que estes causem danos às células. Nosso trabalho demonstrou que esse mecanismo de cristalização desses produtos tóxicos permite não só que o inseto se reproduza, mas também seja capaz de transmitir o T. cruzi. Quando impedimos essa cristalização, por meio do uso de uma droga bem conhecida, a quinidina, há dano tecidual no interior do inseto que também prejudica os parasitos, que acabam morrendo antes de serem transmitidos.

5. Qual a importância da descoberta? Como ela pode ser usada para evitar a contaminação ou até tratar a doença?
Nossa descoberta descreveu a importância do mecanismo de cristalização desses produtos tóxicos, porém ainda há outros estudos a serem feitos antes de podermos utilizá-la como alternativa ao controle da doença de Chagas. Creio que o ponto mais importante do trabalho é demonstrar que o bloqueio da cristalização de produtos tóxicos serve como uma excelente plataforma para desenvolvimento de drogas que vão interferir ao mesmo tempo na reprodução do inseto vetor e na sua capacidade de transmissão do T. cruzi, amplificando a possibilidade de controle da Doença de Chagas.

6. Quais são os próximos passos agora do trabalho? Em que direção devem seguir?
O que temos que fazer daqui pra frente é testar novas drogas no laboratório e analisar as possibilidades reais disso ser utilizado na natureza. Estamos otimistas e, encontrando resultados positivos, devemos buscar novos meios de se introduzir esses fármacos como “isca” para os barbeiros, a fim de diminuir a transmissão da doença. Além disso, precisamos encontrar parceiros na academia e fora dela, que se interessem pela esta possibilidade, e eventualmente financiar estudos subsequentes. Mas a primeira coisa a se fazer é conscientizar a população de que a doença de Chagas é perigosa e que a população residente nas maiores áreas de risco é a que menos sabe sobre barbeiros e T. cruzi. São necessários novos tratamentos e vacinas mas, antes de tudo, é necessário que a população entenda que este tipo de inseto transmite uma doença grave, que as fezes contém parasitos que podem levar à morte e que devem tomar todos os cuidados necessários.