Conheça o único fiorde brasileiro
Ando meio sumida por aqui, né? Por enquanto, farei posts mais espaçados devido ao tempo dedicado ao trabalho (http://revistapesquisa.fapesp.br/) e a outros projetos tomara rentáveis – preciso pagar o financiamento no fim do mês! Mas saiba que assuntos para compartilhar não faltam. Por exemplo, você já ouviu falar sobre o único “fiorde” brasileiro?
Em junho, viajei com amigos para o Saco do Mamanguá, em Paraty, no litoral do Rio de Janeiro. O local é conhecido por ser o único “fiorde” brasileiro – fiorde é uma formação geológica em que o mar passa entre altas montanhas. A paisagem é comum em países próximos à Antártida ou ao Ártico como a Noruega e a Nova Zelândia.
Segundo uma matéria na revista Mundo Estranho, essas formações foram criadas pela ação do degelo. Há milhares de anos, quando a temperatura do planeta esquentava, a água derretida avançava pelo vale “cavando” ainda mais a terra. Resultado: nesses locais, as montanhas são altíssimas e a água pode ter mais de um quilômetro de profundidade.
Logo… não existe fiorde no Brasil. De acordo com um “informativo sobre o Saco do Mamanguá” que recebi dos donos da casa que alugamos – fino, não? -, o local é uma formação conhecida como “ria”, ou seja, um leito de rio que foi invadido pelo mar. Mesmo assim, o Mamanguá é incrível.
Imagine um braço de mar com água transparente, calma e com tons que variam do verde-esmeralda ao azul-calcinha. Esse braço de mar avança entre duas cadeias de montanha de 11 quilômetros de comprimento e recobertas pela Mata Atlântica bem preservada. Ao fim do braço de mar, uma cachoeira desagua no mangue. Ah, detalhe, a areia das praias é dourada.
Em frente à casa alugada, entre o íngreme morro e o mar, duas tartarugas-marinhas todo dia colocavam o rosto para fora da água – lá a profundidade máxima é de 9 metros no centro do braço de mar. Para atravessar de uma margem à outra, bastavam alguns minutos remando em uma canoa – a distância entre as margens opostas deve ser de um quilômetro ou mais.
Bom, cerca de 100 famílias caiçaras vivem no Mamanguá – entre as salpicadas mansões. Os habitantes prestam serviços para os turistas e aos donos das casas – como fazer o transporte das pessoas para o local usando barcos, já que é inacessível de carro -, pescam e praticam a agricultura de subsistência, o extrativismo e o artesanato.
Duas unidades de conservação se sobrepõem na região: Área de Preservação Ambiental de Cairuçu (em âmbito federal) e a Reserva Ecológica da Juatinga (estadual). Detalhe: os barulhentos jet-skis não são bem-vindos no lugar onde a Bella e Edward, protagonistas do hit adolescente Crepúsculo, passaram a lua de mel.
Veja pequeno documentário sobre a história da rua Augusta
Participe da conferência em gestão ambiental sobre o Semiárido
A amiga “mãos-à-obra” Maira Begalli está organizando a I Conferência Internacional em Gestão Ambiental Colaborativa – Cigac Semiárido. A ideia do evento é propor discussões entre as ciências da gestão ambiental e a inovação espontânea presente nas maneiras com que a população que vive no Semiárido – mais conhecido como Sertão e por suas secas – lida com as condições do local. Quem sabe nascem parcerias e soluções bacanas? Se você, pesquisador ou interessado, tem alguma proposta de experimento ou trabalho científico na área inscreva-se! Porém, atenção, a data limite para as inscrições é dia 16 (segunda-feira) de abril (este mês).
“Ah, mas no centro do sertão, o que é doidera às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo!”
Picos dos Andes aparecem em frente ao avião
Sempre quando estou nos ares, literalmente e não em pensamento como gosto de me deixar levar, procuro saber o local que o avião sobrevoa. Primeiro, porque a curiosidade faz parte do meu âmago. E, além das paisagens aéreas incríveis, essa é a chance de visualizar a geografia do nosso belo planeta. Um conhecimento a mais sobre o mundo em que vivemos. Antes de embarcar para o Chile, em dezembro, eu estava ansiosa: queria ver de pertinho a Cordilheira dos Andes! Um acontecimento por si só.
Sem exceção, todo mundo que sobrevoa os Andes fica admirado com sua altura e extensão. Nunca esqueci o que uma amiga comissária de bordo, acostumada com as paisagens aéreas, me disse: “Depois de sobrevoar os Andes, percebemos que um avião pequeno teria muita dificuldade para fazer essa travessia. Seria difícil ele conseguir”. Essas palavras ficaram por cerca de cinco anos no meu imaginário. E, enquanto esse tempo passava, todos os meus amigos – conhecendo minha paixão pela geografia do mundo – voltavam maravilhados desses mágicos minutos sobre a maior cadeia de montanhas do mundo em comprimento. Eu perguntava o porquê. “Parece que o avião vai encostar nelas”, diziam eles.
Observando as fotos, como as que ilustram este post (clique nelas para ampliar), parece mesmo que os Andes estão próximos da aeronave. Mas há uma distância muito grande entre quase encostar nas montanhas e estar perto delas. Apenas voando consegui entender o que todos me diziam. E olhe que não foi fácil, eu apresentava o início dos sintomas de uma infecção intestinal. Tremia com febre. Estava em um tempo paralelo dentro daquele avião lotado com dez fileiras de assentos. Sabe quando você toma vários remédios, alguns contra enjoo, e não se sente nem acordada e nem dormindo? Era nesse limbo que me encontrava. Mesmo assim, tenho certeza que as pontas das montanhas aparecendo na telinha em frente à minha poltrona não eram alucinações.
O avião levava uma câmera na parte de baixo dele. Eu poderia sintonizar o canal dessa câmera na tela em frente ao meu assento. Ao menos seis vezes, naquela câmera que mostrava o horizonte em frente à aeronave, eu vi os picos das montanhas mais altas dos Andes. Toda vez que um pico aparecia, o avião fazia uma leve curva para a direita ou esquerda. Tirei forças da minha curiosidade para ficar em pé no corredor – na ida ao Chile, estava no assento central, na volta, vim na janela (!) – para olhar a infinita cadeia de montanha.
O rio (não) pede passagem
O silêncio do rio Mapocho, que corta Santiago do Chile, atraiu o meu olhar quando estive na cidade em dezembro passado. Ele passava imperceptível por diversos bairros residenciais e turísticos, inclusive em frente ao famoso Mercado Central de Santiago. Suas águas barrentas tão rasas não eram vistas ao dar três passos de distância do muro que o separa da calçada. Ao encostar no parapeito, era possível observar as margens pedregosas e secas.
Santiago nasceu ao lado do Mapocho, mas acabou “engolindo” e canalizando parte do rio no fim do século XIX. Isso lembra alguma cidade brasileira chamada São Paulo? Apesar dessa semelhança na ocupação do local por meio do entorno das águas, o rio Mapocho é diferente do Tietê ou do Pinheiros que banham a capital paulista. Estes são de planície, ou seja, lentos e pouco profundos o ano todo. O Mapocho é um “rio de época”.
No verão, de tão seco, se torna quase um córrego. No inverno, com as chuvas seu volume começa a aumentar. Mas o ápice do Mapocho, que nasce nas Cordilheiras dos Andes, começa em setembro com o degelo delas. E, aí, a água desce com toda a velocidade montanhas abaixo levando muita terra e pedra. O rio vai que vai pelo interior do país até chegar à capital. Lá, pode quase transbordar. Quase.
Segundo informações que obtive no Chile, em algum museu que não lembro mais o qual, o Mapocho transbordou apenas duas vezes no último século. Uma em 1900 e bolinhas e outra há cerca de 20 anos. Não tenho mais informações sobre esses causos, mas lá no nosso vizinho contaram que é destinado um espaço fixo para o rio faça chuva ou sol. Afinal, no verão ele pode ser esbelto, mas no inverno é caudaloso.
Será que se o Mapocho fosse aqui, em São Paulo, o seu espaço ocupado em tempos de cheia também seria respeitado?
Pelo o que andei pesquisando – me corrija se eu estiver errada – foi feito um esforço para eliminar os dejetos domésticos do rio Mapocho. Apesar dele não feder mesmo quando faz um calor fluminense de mais de 35 °C em Santiago e um tempo seco, dizem que há resquícios químicos no rio.
Nem toda montanha dos Andes é de “pedra”
Quem observa a Cordilheira dos Andes da janela do avião (clique nas imagens para ampliar), além de sentir euforia misturada com frio na barriga por voar entre os picos, tem a sensação de que todas suas montanhas são parecidas. Geralmente, olhando de lá de cima, o topo das montanhas está coberto de neve e suas rochas refletem uma homogênea cor escura. Já no Chile, da cidade de Santiago, é possível observar os magníficos paredões quando a poeira e poluição baixam. Porém, ainda parece que suas montanhas são todas iguais. Ledo engano.
Entendi o que o simpático chileno quis mostrar. Cada montanha – próxima, grudada ou nascendo na outra – tem uma cor diferente. Sério, as tonalidades são muito e perceptivelmente diversas. Algumas montanhas são verdes, outras avermelhadas, outras amarelas (acredite!), outras pretas, outras marrons claras, marrons escuras ou esbranquiçadas. Isso significa que, apesar dos Andes emergirem do fundo do mar, a proveniência das suas rochas é variada.
O guia, pertencente a uma família de mineradores – a principal atividade econômica da região -, sabe “do que a montanha é feita” só de olhar para um pedrisco. Tropecei numa rocha com discretas listras verdes. “Nessa pedra tem cobre”, disse o guia. Entramos em termas com água esbranquiçada. “Nessa montanha deve haver gesso”, conta. Percebi que, principalmente, o vulcão San José e o Cerro El Mirador del Morado com glaciar (um gelo que permanece muitos mil anos sem descongelar, imagem à esquerda) têm cor preta. Ou seja, sua composição tem basalto – uma rocha vulcânica de cor escura.
O chileno não sabia dizer qual a composição do Cerro Amarillo (montanha de cor amarela, claro, foto acima), localizado em frente ao Parque Nacional El Morado – ainda vou falar sobre esse lugar divino neste blog. Mas contou que ele era bem maior. A cada verão a montanha se desfaz, sendo levada abaixo pelas águas do degelo. Assim, sua observação somada ao seu antigo trabalho como minerador e sabedoria popular indica qual a melhor montanha para praticar alpinismo, caminhar, encontrar traços de civilizações já extintas e por aí mundo afora. Não é incrível? Proteger a natureza é viver. Boa semana colorida!
Onde nascem as águas
Em tempos de águas de março, saiba que o líquido que sai transparente da torneira da sua residência desceu muita serra. Haja corredeira! A dica é de uma exposição permanente do Parque Estadual de Campos do Jordão, vulgo Horto Florestal, localizado na linda Serra da Mantiqueira. Segundo o parque, “mantiqueira” significa “lugar onde nascem as águas” em tupi – as mina pira na semiótica. A água que passarinho bebe em algumas cidades dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais é proveniente da Serra da Mantiqueira, da Cantareira e do Mar.
Já o nome Serra da Cantareira não tem origem indígena, mas também remete ao precioso líquido. De acordo com o Parque Estadual Serra da Cantareira – outra dica de passeio incrível e, o melhor, não é preciso nem sair da cidade de São Paulo para conhecê-lo – “o nome ‘Cantareira’ foi adotado por conta da grande presença de tropeiros entre os séculos XVI e XVII que guardavam seus cântaros [vasos] de água em móveis chamados ‘cantareiras‘”. Essa água, como é de se imaginar, era retirada da respectiva serra.
Passeie pela “mata das nuvens”
“Mata das nuvens”… Poética essa composição de palavras, não? Confesso que emprestei daquela exposição permanente sobre a Serra da Mantiqueira no Horto Florestal de Campos do Jordão, interior de São Paulo. Quem já andou no meio do mato em ambientes serranos do Sul e Sudeste deve ter reparado que alguns locais têm uma névoa quase permanente entre e sobre a vegetação. Para mim, essa paisagem remete aos sonhos ou, se existissem, aos lugares onde viveriam as ninfas. Outros já a relacionam aos filmes de terror.
Essa névoa “mágica” é resultado da umidade levada para as serras do Mar e da Mantiqueira por meio dos ventos que sopram do mar em direção ao continente. O nome “verdadeiro” desse misto de nevoeiro e chuva é mata nebular. Segundo a exposição no Horto Florestal, a mata nebular “é densa, formada por árvores de tronco retorcido, quase sempre cobertos de musgos, bromélias e orquídeas”. Mais detalhes: “Nela são encontradas árvores como o cambuí, o guamirim e o pinho-bravo”.
Os ambientes de mata nebular estão, geralmente, acima de mil metros de altitude. A foto deste post tirei em um local com “mata das nuvens”, dentro do Parque Estadual de Campos do Jordão – o vulgo Horto Florestal. Enquanto eu pasmava sentada sobre uma pedra ao som distante da maior queda da Cachoeira da Galharada, aproveitava para capturar o frescor da mata. Respirava fundo. Ai, ar puro e úmido.
Luzes misteriosas na Cordilheira dos Andes
Nem preciso dizer que adoro observar paisagens naturais e fenômenos da natureza – deve dar para perceber de acordo com o que post aqui no blog, não? Gosto de ver as nuvens carregadas de chuva se formarem, a chuva cair, os meteoros passarem, os plânctons brilharem… Esse estado de contemplação esvazia a minha mente, chega a ser uma espécie de meditação – tente também. Bom, como observar as estrelas é uma das minhas pirações preferidas, quando estava, literalmente, no meio da Cordilheira dos Andes, em dezembro no Chile, saí do chalé onde pousava durante a noite para voltar os olhos ao céu.
Enquanto entortávamos nosso pescoço encantados com aquele infinito de estrelas, vimos alguns clarões no céu. Verdade seja dita. Ele percebeu primeiro e chamou a minha atenção. Eu respondi que era impressão. Até que, observando de novo, vimos vários clarões. Não havia barulho como de trovão, nem raios, apenas uma espécie de flash iluminando o céu. Um atrás do outro, espaçadamente – por minuto, uns dois ou três. No dia seguinte, sem falarmos nada sobre o assunto, nosso guia contou em tom de novidade: “Aqui em Cajón del Maipo [a região da Cordilheira], toda noite lá pelas onze horas é possível observar luzes diferentes iluminando o céu”. “Nós vimos!”, dissemos empolgados. “E o que são essas luzes?”, claro que emendei a pergunta.
O simpático chileno não tinha certeza e elaborou uma interessante tese. Para ele, as Cordilheiras com suas montanhas repletas de variados minérios esquentam com os raios solares. Durante a noite, elas liberam o calor dos minérios emanando luzes. Em busca de uma explicação, conversei com poucos amigos pesquisadores e recorri ao Google. Nada. Será que alguém aí conhece a chave desse enigma? Kentaro Mori, do 100nexos, poderá nos ajudar? De qualquer maneira, uma lição óbvia da história: preservar a natureza nos dá a chance de nos encantamos com seus caprichos. Pense nisso e aproveite para pasmar observando o que ela oferece.
Com a cabeça nas nuvens
Adivinhe onde tirei esta foto? Na varanda da minha casa (suspiro). Aliás, a primeira coisa que faço ao chegar no apartamento é abrir a cortina – faça chuva ou sol, seja dia ou noite. Tenho necessidade desse respiro profundo: admirar a Serra da Cantareira, observar a mudança de tempo e do clima, ver a vida. Sinto que a maioria dos moradores de grandes centros urbanos, ou seja, mais da metade da população do país, perde essa relação com a natureza por vontade própria ou sem querer.




















