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Para que serve um blog?

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Lembro como se fosse ontem. O Atila Iamarino e o Carlos Hotta tiveram a incrível ideia de unir os cerca de (no máximo 15?) blogueiros que escreviam sobre ciência, há dez anos. Você vê que o empreendedorismo de ambos praticamente nasceu com eles, não? A maioria de nós se conhecia pela internet. Um comentava no blog do outro. Assim, eles me chamaram para conversar.

Na época, tornou-se bem comum condomínio de blogs. Os mais populares até foram incorporados por grandes portais como o iG (Interney pode falar mais sobre). Eu, capira de Telêmaco Borba e precavida, fiquei com receio. “Será que são dois doidos?” Achei prudente marcar o encontro em um café movimentado da Vila Madalena. Avisei minha mãe assim que cheguei e combinei de informar quando estivesse longe deles, em segurança, destino minha casa.

Ao chegar no café, me deparei com duas pessoas agradabilíssimas, inteligentes e que até pareciam um pouco tímidas! Eles foram super gentis e explicaram a ideia. Percebi o pioneirismo de ambos naquela hora. E a força para realizar sonhos. Bom, como se pode ver, migrei para o ScienceBlogs. Eram dois doidos, sim. Mas doidos por mudar este país para melhor.

Agora, vou te contar um segredinho: o mais incrível em fazer parte deste grupo é conhecer pessoalmente pessoas tão fantásticas e conversar com elas em um e-mail de bastidores. Ah, se os bastidores falassem… Posso afirmar (e deixar aqui a curiosidade) que a troca de ideias mais maravilhosa acontece por e-mail. Qualquer conversa pode ser muito profunda e cômica ao mesmo tempo. Sagaz.

Pela percepção de quem tem blog desde antes da maioridade, de quem trabalha na área e que, por afinidade ou encantamento pelas possibilidades (boas) que a internet traz, vou tentar contar um pouco sobre a evolução do blog e usar minha bola de cristal para apontar onde estamos e para onde vamos.

 

De onde vieram os blogs

Muito resumidamente, para não ser cansativo, os blogs foram: um diário pessoal, um diário sobre um tema que gostamos, um diário sobre um tema que gostamos com opinião, uma coluna de opinião. Meio que nessa ordem. Muitos blogueiros publicaram livros. Foram até ao Faustão!

Aí, as empresas perceberam o poder da blogagem. E começaram a contratar blogueiros para escrever sobre suas marcas. Elas já haviam cedido aos publiposts e os jornais também inseriram blogueiros em seus veículos. Em seguida, as empresas criaram seus próprios blogs.

Com a crise na imprensa impressa, entre um dos motivos, devido à publicidade migrando para o Google e, atualmente, Facebook, as empresas perceberam que poderiam ser o próprio veículo de comunicação. Afinal, já tinham sites. Bastava transformar releases em notícias para vender o próprio peixe e colocar a notícia com as lentes voltadas para elas.

Em 2005, o YouTube começou a ganhar mais força. Eles incentivaram a migração de blogueiros pagando (bem) para vídeos com mais visualizações. Em 2011, quando eu trabalhava em uma empresa internacional da área de internet, as mensagens de fora já imploravam: “Por favor, façam vídeos, será o ‘novo’ blog”. Se você for ao meu canal do YouTube, verá que me arrisquei algumas vezes. Tenho até formação em locução e apresentação de televisão (olhe o jabá)!

Como estão os blogs

Bom, as empresas começaram a usar os blogs para divulgar suas marcas. Perceberam que quanto mais notícias, mais links para os seus sites, mais relacionamento com futuros clientes, mais vendas. O próprio YouTube disse, recentemente, que ele é uma enciclopédia em vídeo. Acho que queria ser uma televisão, mas se tornar uma enciclopédia é mais pesado no bom sentido, não? E o Google, de certa maneira, virou um Oráculo.

Você pergunta, o Google responde. Literalmente. As empresas perceberam isso. E começaram a aplicar em seus blogs Search Engine Optimization (otimização para mecanismos de busca). O tal do SEO. Agora, cá estamos. Pesquisas mostram que os primeiros quatro links que aparecem no Google são os mais clicados. Começaram os caça-cliques mais acirrados do mercado.

Você já clicou em um texto péssimo na fluência que tem mais “palavras-chave” (que ajudam os robôs do Google a entenderem que aquela página é mais relevante que outra) do que outra coisa no texto? Ou seja, que não diz nada? Pois é. Isso tem sido bem comum. Aí, quem vai ler tanta notícia?

Temos bons blogs. Blogueiros que migraram para outras mídias. Blogueiros que foram fazer outra coisa da vida – e não têm mais tempo para blogar. Temos muito conteúdo (não necessariamente em blog) “cozinhados” como chamamos no jornalismo, ou seja, reescritos sem novidades. Sabe o que falta?

Curadoria para os conteúdos bons. Além do ScienceBlogs, claro. ;) Juntar em um único endereço de internet os canais, sejam eles de redes sociais ou de blogs escritos. Afinal, esqueci de mencionar. Muitos blogueiros ou que seriam possíveis blogueiros usam seus perfis das redes sociais, como o Instagram, como blog. Migraram.

 

Como serão os blogs

Acredito que haverá uma seleção natural. Parte feita pelo grande irmão Google. Que irá, assim espero, punir descendo nas buscas os blogs que “cozinham” outros textos ou que apelam nas palavras-chaves sem trazer conteúdo de qualidade.

Tenho notado também que há uma tendência em reunir em uma única notícia/ blogagem texto, vídeo, áudio, foto e o que mais caber. Os blogs podem ficar mais complexos, mais ricos, com conteúdo em diversas mídias para agradar a todos os fregueses.

Creio que nunca se leu tanto na face da Terra. Mas quem não gosta de um conteúdo bom? Quando a gente vai a uma loja e é mal atendido ou o produto entregue não é de acordo com a propaganda, a gente faz o quê? Evita voltar. Dessa forma, espero que os bons blogs permaneçam ou revivam.

Posso dizer por mim. Estou tentando fazer o Xis-xis voltar. Mas tenho mais uma boca a mais para alimentar em casa. Por isso, nas horas vagas, cuido desse ser e o meu foco é colocar os alimentos na geladeira. Mas estou aqui. Querendo-te. ;)

Já pensou em lagartear sob o Sol?

Toda vez que visito um local paradisíaco natural muito frequentado por humanos em temporadas, mas com pouca ou quase nula fauna silvestre, penso: “Cadê os bichinhos que estavam aqui?” Existiriam animais que ainda frequentam o lugar? Quais seriam? Em qual quantidade? Em quais épocas do ano esses animais vêm para cá? A natureza sempre nos surpreende.

Passei o último fim de semana em São Sebastião (litoral norte de São Paulo) e, já que não tinha compromisso na capital, aproveitei para emendar mais dois dias na praia. Quando tenho a possibilidade de fazer isso é comum me deparar com animais marinhos. Estes devem ficar escondidos – onde? -, enquanto o tumulto toma conta da praia.

Certa vez, quando só avistava no máximo dez pessoas em toda uma praia de cerca de três quilômetros, quase pisei em uma arraia enquanto entrava no mar. Paulistanos sabem o quanto isso é raro aqui no litoral do Sudeste. Em outra ocasião, durante um deslumbrante pôr do sol no qual a maioria dos humanos já havia se evadido da areia, vi duas tartarugas no raso (a água estava abaixo do meu joelho) dançando e se alimentando de restos de vegetais conforme o balanço das ondas.

Muitas outras vezes encontrei siris de diversas cores e estampas, caranguejos rosa-choque, uma quantidade surpreendente de maria-farinha, de mergulhões, de golfinhos, de ermitões, etc. É o que se espera de um ambiente litorâneo, certo? Nem sempre! Desta vez… os lagartos estavam por todas as partes!

Não sei se é época de reprodução, mas na estrada que dá acesso à praia vi um teiú correndo para o meio das árvores. Achei sorte. Até comentamos no carro! Seguimos em frente. Caminhando para a praia, vi mais dois teiús em momentos diferentes e de diferentes tamanhos correndo para o mato. Ok.

Na segunda-feira, quando voltamos à areia da praia, notei que ela estava repleta de pegada de lagartos! E um teiú com mais de um metro e meio (não é história de pescador) correu para dentro de uma pequena caverna na praia! Ficamos de tocaia esperando ele sair para vê-lo de perto. Conseguimos!

Em seguida, ao virarmos a cabeça para o caminho que acaba na praia, observamos um teiú pequeno, parecia jovem, correndo e saltando mais de dois metros! Um lagarto sal-tan-do. Nunca vi isso. Mas analisando a anatomia do bicho, um rabo grande e patas com dedos longos, dá para entender que o corpinho deles deve ter se adequado para a modalidade salto à distância.

https://www.instagram.com/p/BZecYg3Aq4Z

Era tanto lagarto tomando sol próximo da gente que até a novidade perdeu a graça. De ambos os lados. Nem mais os lagartos corriam de nós como nem as crianças queriam saber de correr atrás dos bichos para vê-los mais de perto.

Olhando para o lado direito, a moça deitada sobre a canga com o braço protegendo os olhos, e para o lado esquerdo, o lagarto parado nos fitando ao longe, deu para entender a expressão. Lagartear ao Sol. Aliás, o sol estava tão forte, a brisa tão fresca e branda e o céu tão azul que ninguém resistia ao lagartear. Nada melhor para dar aquela esquentadinha no sangue e liberar endorfina. Que o Sol brilhe para todos.

Por que se chama Terra do Fogo

IMG_1857Um post da leva “mas por quê?”. Essa é uma boa pergunta, já que o lugar é tãooo frio. Bom, Terra do Fogo é sinônimo para o Fim do Mundo, se refere à região ao sul da América mais perto da Antártida do que do Brasil!

Quando os “descobridores” da América passaram por lá – eles usavam a região como ligação comercial entre o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico 400 anos antes do Canal do Panamá ser inaugurado, mas essa história vale outro post – observaram um monte de luzinhas de fogo.

Um monte, mesmo. Acredita-se que o litoral da região austral era habitada por 2.500 índios da etnia Yámana – e não sobrou um para contar história. Para suportar o frio, eles faziam fogueiras. Se espalhavam pelas ilhas ao sul e passavam bastante tempo em canoas.

Aliás, os Yámana andavam pelados! Depois publicarei um post explicando sobre como eles suportavam o frio. Afinal, uma fogueirinha daria conta dos graus negativos?

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Fonte dos dados: Museo Yámana, em Ushuaia. Fonte do mapa: Google Maps.

Por que se chama Patagônia

IMG_1707Vou começar pelo começo, pela origem do nome – apesar de ter descoberto o significado apenas no penúltimo dia. Segundo o museu Centro de Interpretación Histórica Calafate, localizado na cidade de El Calafate (Argentina), “Patagônia” foi um nome dado pelos espanhóis, “descobridores” daquela terra.

 

Na época das Grandes Navegações, início do “descobrimento” da América, havia uma novela espanhola onde os mocinhos eram os espanhóis e os malvados eram os patagônicos – o nome é esse ou parecido, não sei se traduzi corretamente do castelhano. Esses patagônicos eram homens grandes e robustos.

 

IMG_2443Ao chegar à região da Patagônia, os espanhóis se depararam com alguns índios grandes e fortes. Muitos usavam arco e flecha para caçar. Além disso, algumas “etnias” eram lutadoras. Tanto que os Yámanas, habitantes do litoral da Terra do Fogo (região mais ao sul da América), não entravam muito para dentro das terras com medo de encontrar outras tribos da região.

Espertamente, os descobridores espanhóis chamaram os índios de patagônicos, sendo a terra onde eles viviam… a Patagônia. Como os patagônicos eram “do mal”, deveriam ser combatidos até o fim. E, claro, os mocinhos ficariam com a nova terra. Final feliz para quem?

Historiadora explica os “apenas” 20 centavos

Ansiosa e agitada com as manifestações, eu sentia ânsia por escrever algo sobre este momento lindamente histórico em que vivemos. Mas, nada… Nenhuma vírgula, verbo, adjetivo ou substantivo descreveria um pouco do significado da manifestação “Não são apenas pelos 20 centavos”, “Revolta do Vinagre” ou chame como quiser. Ela é muito maior do que qualquer palavra. O que fazer, então?

Liguei – agora! – para uma amiga historiadora e fiz o pedido: “Dá um depoimento sobre as atuais manifestações para meu blog?” Afinal, ela estudou, e muito, tem uma bagagem incrível para analisar o que acontece. A historiadora aceitou, mas preferiu não se identificar. Segue, abaixo, um resumo da nossa alegre conversa de mais de uma hora. Ah, antes de ler, quero ressaltar o que ela repetiu: “Desde a primeira passeata, eu não li o que a imprensa publicou, nem os colunistas que acompanho. Desta vez, quis construir o momento com outro olhar”.

O Brasil não está mudando, ele já mudou:

 

“O sentimento não estava parado: essa história de que o brasileiro é pacífico não existe. Esta manifestação mostra um amadurecimento político e assusta porque está bem consistente. Assusta, inclusive, os governantes. Além disso, este movimento nasce na ausência de uma esquerda articulada.

O brasileiro estava ansioso por ser representado pela esquerda porque se sentia cansado de receber imposições. Porém, após eleita, ela não fez mudanças significativas. Como consequência, o povo ficou politicamente órfão em uma ‘revolução inacabada’, onde há um espaço político vazio.

As pessoas começaram a se manifestar pela questão do aumento das tarifas do transporte público. Só que a tarifa é um rótulo. Há muito mais do que isso. Observando a manifestação, vemos diversas bandeiras de movimentos e cartazes com pedidos de várias áreas. Aí, alguns começaram a se dar conta: ‘Opa! A coisa está se pulverizando’. O que é mais importante desta manifestação é a articulação. Não existe falsa ideologia ou ausência de ideologia no movimento.

Durante este movimento, quando o governo deu abertura ao diálogo com os manifestantes, se mostrando disposto a conversar com os organizadores, confirmou o poder desses grupos. Quando você topa dialogar é porque acredita no que o outro está falando. Se você não acredita, não chama para conversar. Será que essa é a nossa Primavera Árabe? O que vai ser?

A manifestação irá ocupar o espaço da esquerda (e o da direita também!). Estou eufórica acreditando que, talvez, esteja acontecendo uma releitura da esquerda na América Latina. Eu tenho a impressão – pode ser que não seja isso – que, novamente, o Brasil está na frente falando aos quatro cantos da América Latina.

‘Não tem partido político nenhum por trás do movimento’, disse um dos rapazes que ajudaram a organizar a manifestação. Claro que, agora, haverão os oportunistas. Por isso, é preciso tomar cuidado para evitar uma futura desilusão. Pode ser que partidos políticos, vendo a força do movimento, afirmem: ‘Fui eu quem elaborei’. Além disso, também é perigoso quando o governo chama os manifestantes para definirem o trajeto da passeata. Isso porque ele tenta usar a geografia como manipulação de poder.

Na época da Ditadura, em 1964, os ditadores acabaram com as praças. Pode reparar, São Paulo praticamente não tem praça. Colocaram bancos nelas e muros de concreto para dificultar a reunião dos manifestantes nesses locais antes amplos e muitos simbólicos historicamente. No Vale do Anhangabaú, por exemplo, aconteceu em 1984 o último comício antes da votação da emenda Dante de Oliveira, a favor das Diretas Já – e eu estava lá! Os viadutos, por sua vez, são uma herança nazista usados para desagregar. Muitos não têm nem calçada para pedestres. Nós herdamos essa geografia.

Hoje, as pessoas, entre muitos motivos, vão à avenida Paulista porque ela é ampla. Ela permite a reunião de muita gente. Assim, o governo quer usar a geografia como instrumento de poder quando o governo tenta ditar o caminho que os manifestantes devem percorrer. Não deve combinar nada e, sim, deixar o pessoal passar.

As manifestações, em vários estados do Brasil, vão assustar. Aparentemente, existiam várias temáticas que incomodavam o brasileiro e que pareciam estar perdidas. Parecia que a sociedade não queria participar por uma qualidade de vida melhor. Mas não era isso. Virá um novo movimento que terá destaque maior com relação à ideologia do Século XXI. E o Brasil é o protagonista.”

Documentário analisa o mundo capitalista em que vivemos

Está com vontade de ver um filme grátis sem sair de casa e, ainda de quebra, ganhar argumentos para uma visão mais crítica sobre o mundo capitalista em que vivemos? Indico o “The Corporation”, vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival Sundance de Cinema.

Resumidamente, o documentário conta como as grandes empresas multinacionais que conhecemos hoje se formaram, qual a força política delas e mostra para onde devemos caminhar. Afinal, essa “cultura” de extrair as matérias-primas da natureza, utilizá-las e, em seguida, descartá-las poderá acelerar o fim do homo sapiens.

Abra a sua mente, prepare a pipoca e ajuste as nádegas no sofá porque o documentário tem quase 2h30 (com legenda em português):

Obs.: Enquanto eu via esse documentário, feito basicamente nos Estados Unidos, eu me perguntava, “será que no Brasil conseguiríamos produzir um documentário desses sem sofrermos represálias”? Pense nisso.

Cuidado: arqueólogos trabalhando

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Toda vez em que passo pela região do Largo de Pinheiros, próxima à estação Faria Lima do Metrô (na cidade de São Paulo), fico curiosa em saber o que tanto escavam atrás daquelas placas de proteção – coisas que só percebe quem anda a pé, e não de carro. Várias vezes vejo algumas pessoas com água na mão, mochila nas costas, chapéu de tecido bege ou capacete branco nos quais se leem a palavra: “Arqueologia”. Uniforme diferente dos macacões dos operários.

 

Há mais de um ano, lembro-me de ter lido que as obras atrasariam um pouco mais porque acharam algumas peças arqueológicas, mas as matérias sobre o assunto nunca diziam com detalhes que tipo de peças eram, em quais condições estavam ou quais as esperanças dos arqueólogos. Aliás, dizem as “más línguas” que a maioria das empresas envolvidas com obras do tipo não gosta quando encontra resquícios arqueológicos. Afinal, nestes casos, obrigatoriamente a obra deve parar para começar a pesquisa – leia aqui uma matéria bacana, da Pesquisa FAPESP, sobre escavações no porto do Rio de Janeiro.

 

DSC00740A curiosa de plantão, aqui, se delicia com essas pesquisas. Não é fantástico escavar um quintal e encontrar resquícios de alguém que viveu no mesmo lugar que você? Portanto, semana passada não resisti. Parei em frente a um dos locais que estavam sendo escavados e vi um rapaz com o capacete mágico escrito “Arqueologia”. Como uma típica conversa informal que antigamente travávamos na rua com desconhecidos, ação cada vez mais incomum, falei “olá” para o arqueólogo e perguntei: “Tudo bem? Olhe, estou super curiosa, já encontraram bastante peça interessante aí?”.

 

Gente boa, o arqueólogo contou que, em épocas de chuva, antigamente o rio Pinheiros chegava até aquela região – isso explica a areia preta, bem típica de rio e ótima para adubo, debaixo dos nossos pés (foto logo acima). Quase peguei um punhado para colocar nos vasos das minhas plantinhas! Como lá era uma área alagável, quase um pântano, algumas peças não sobreviveriam à umidade. Por enquanto, ele disse que encontraram fragmentos na casa do milhar (se não me engano, mais de 110 mil).

 

A maioria das peças, inclusive as mais inteiras, eles acreditam que sejam de cerca de 1890 e 1950. São louças como pratos, um até com a suástica nazista e tanques pintados (!), garrafas de leite antigas, entre outros. Segundo o arqueólogo, ainda é necessário analisar a idade de cada objeto encontrado para ter certeza e aferir mais informações. Eles também encontraram ossos de animais, ainda não se sabe ao certo qual animal e de que época. E descobriram que, em uma ruela, a galeria de esgoto é de 1950.

 

Eu adoraria ver as peças, mas conforme são encontradas, elas são encaminhadas para estudo, claro. Questionei o que farão, depois, com elas: “Acredito que serão realizadas mais pesquisas sobre elas e doadas a museus”. Aí, o grand finale: “Dizem que uma tribo indígena, lá pelos idos do ‘descobrimento do Brasil’, vivia bem aqui no local. Vocês já encontraram algo sobre ela?”. O olhar do arqueólogo encheu de brilho: “Nós estamos buscando, mas devido ao tipo de solo, não sabemos se haverá algo preservado”. Voltar ao passado é sonhar.

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Obs.: A obra de reforma da região começou em 2007 (!), saiba mais sobre o projeto nesta matéria publicada na Folha de S. Paulo. Ah (suspiro), essas escavações me lembraram de Roma. Quando estive lá, em 2007, a obra de extensão do Metrô estava parada porque eles encontraram mais resquícios dos antigos impérios. <3 Em Roma, eu também coloquei o cabeção sobre os tapumes para ver, claro! Aliás, até peguei um ônibus na área para observar as escavações do alto!

 

Veja pequeno documentário sobre a história da rua Augusta

Tenho um carinho muito grande pela rua Augusta, via da cidade de São Paulo, por vários motivos pessoais. Um deles diz respeito ao documentário “Augusta a 120/h”, realizado em 2003. Somado à monografia, o vídeo é o resultado do nosso – meu e de mais três amigas – trabalho de final de curso (faculdade de Jornalismo) quando, na ocasião, a cidade de São Paulo completava 450 anos. Foi a nossa homenagem para a querida Terra da Garoa.

 

Na época, o “Baixo Augusta” estava lotado de puteiros e “saunas”. Ratos passavam pelos nossos pés, mendigos nos ameaçavam, seguranças de portas de teatro nos impediam de gravar a via pública. Os porteiros das “casas de diversão” nos conheciam e nos cumprimentavam – passávamos o dia inteiro caminhando em busca de personagens e boas tomadas. Bons tempos.

 

Frequentamos todas as principais bibliotecas da cidade em busca do passado da rua. Assim, descobrimos que nosso trabalho era o primeiro a abordar apenas a rua Augusta. Uma pesquisa inédita e feita antes de mudar o perfil dos frequentadores do local. Apenas dois anos depois (em 2005), seria inaugurada a primeira casa noturna, o Vegas, que ajudou na mudança de perfil da região.

 

Divirta-se com o primeiro documentário realizado com o intuito de buscar a história da famosa rua – focamos nos anos 1960 quando os “brotos” saíam para paquerar na rua. O vídeo tem, apenas, cerca de 15 minutos. Boa sessão!
Obs.: O documentário tem menos de dez anos, mas repare como ele parece bem mais antigo! Na época, não existia Google Maps, por exemplo. Gravamos um mapa impresso. Incrível como a cidade e a tecnologia mudaram em tão pouco tempo.

Com a cabeça nas nuvens

Adivinhe onde tirei esta foto? Na varanda da minha casa (suspiro). Aliás, a primeira coisa que faço ao chegar no apartamento é abrir a cortina – faça chuva ou sol, seja dia ou noite. Tenho necessidade desse respiro profundo: admirar a Serra da Cantareira, observar a mudança de tempo e do clima, ver a vida. Sinto que a maioria dos moradores de grandes centros urbanos, ou seja, mais da metade da população do país, perde essa relação com a natureza por vontade própria ou sem querer.

Por exemplo… Há alguns anos, seguia pelas estradas no interior do Mato Grosso do Sul rumo ao ocidente. Meu destino final era a cidade de Bonito. Lembro direitinho daquela paisagem como se fosse ontem: plantação rasteira de soja em ambos os lados, rodovia de mão dupla quase sem curvas que parecia infinita e, elevando os olhos um pouco acima do horizonte, o céu azul claro com nuvens salpicadas. Este era um espaço amplo, livre da interferência de extensas e unidas construções.

 

Minha tia compartilhou os seus pensamentos: “Nossa! Há quanto tempo não vejo um céu assim, infinito?” Ela – e todos nós naquele carro – ficou admirada. Mesmo morando no Rio de Janeiro, cidade que tem um lado (o do mar) com o horizonte de certa maneira livre, naquele momento sentiu e percebeu que falta o céu nos faz.

 

Eu vou perder a vista observável a partir da minha varanda – é verdade que ganharei outras condições como um parque e mais movimento de pessoas no espaço público. Por enquanto, sigo admirando o máximo possível os tons de azul que mudam a cada dia, as nuvens, as montanhas, a chuva, o sol, o clima, o tempo. É importante ter o pé no chão, mas jamais quero perder o meu céu.

Baía de Guanabara contra águas e morros?

Este é um post no estilo: você sabia? Ao menos 15% da Baía de Guanabara, aquela coisa linda circundada por cidades como Rio de Janeiro e Niterói, foi aterrada desde a “descoberta” do Brasil. Uma famosa obra do tipo é o aterro onde está inserido o Parque do Flamengo – delicioso ficar pasmando nele admirando o Pão-de-Açúcar. Bom, apesar de sua beleza, qual o limite para tal ocupação? Há muitas “estórias” para refletirmos sobre as alterações feitas por nós na paisagem.

 

Segundo um pessoal da Fiocruz, localizada no bairro de Manguinhos, antigamente o mar chegava até a avenida Brasil (veja no mapa), umas das vias expressas mais importantes de entrada da Cidade Maravilhosa e que possui a péssima fama de ser perigosa devido aos tiroteios. Também já ouvi e li rumores de que praias como a do Botafogo e Copacabana sofreram com a interferência humana.

 

Talvez a história mais triste sobre aterros na Baía de Guanabara diz respeito ao Aeroporto Santos-Dumont. Existe um bairro, no centro do Rio, chamado Castelo que ainda hoje é conhecido por alguns como “Morro do Castelo”. O local era histórico. De acordo com notícias publicadas em jornais, foi nesse morro que os portugueses, em 1500 e bolinhas, se abrigaram após expulsarem os franceses da cidade (aliás, dizem que o “r” carioca é pronunciado puxado devido ao sotaque francês). Então, foi ali que a cidade se estabeleceu.

 

Assim, vários edifícios históricos foram construídos desde a época dos jesuítas e se mantiveram de pé até o começo de 1900 – entre eles, uma fortaleza que inspirou o nome dado ao morro. Até que, nos anos de 1920, o morro foi ladeira abaixo. Sob o pretexto de melhorar a circulação de ar na cidade para as comemorações do 1º Centenário da Independência do Brasil, o prefeito Carlos Sampaio mandou demolir o local.

 

Aquele montão de terra tirada de lá foi usado, entre outros, para aterrar a área do Aeroporto Santos-Dumont. E, assim, a história literalmente se encontrou demolida. Prédios históricos, acidente geográfico natural, residências, lembranças… ao chão – ou no fundo do mar. Valeu a pena? Como disse meu marido, “parece que as pessoas tentam insistentemente deixar o Rio de Janeiro feio, mas mesmo assim não conseguem”. Tomara.