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O Sol nasce e se põe no mesmo lugar

11 horas da manhã
11 horas da manhã

A qualquer momento do dia em que eu olhava ao Sol na cidade de Ushuaia, Argentina, principalmente para ter ideia de que horas eram, ele marcava cerca de quatro horas. E estava sempre acima das montanhas. Aquilo começou a me encafifar de tal maneira que observava de canto de olho só para ter certeza de que o astro não estava me trolando. Sério, não podia ser! Nunca estava a pino.

16 horas
4 horas da tarde

“O Sol anda em linha reta! Ele nasce em uma montanha e se põe na ao lado! É sempre assim?”, lá vai eu perguntar à dona da pousada. “Isso porque você não viu no auge do inverno, ele nasce e se põe sobre a mesma montanha”, ela respondeu. No pico do inverno, há poucas horas de luz (veja neste site). Já no verão, ela me disse que o dia começa às quatro da matina e termina lá pelas 11 horas da noite. O Sol nasce no centro do Canal Beagle (que fica em frente à cidade). E que é lindo. Deve ser.

Matutando sobre o Sol, tive uma luz – rá. Como eu não pensei nisso antes… Ushuaia está bem ao Sul do planeta. A Terra é inclinada, isto gera as estações do ano. No inverno, a parte virada mais para longe do Sol se “esconde” do astro. No verão, ela permanece mais tempo perto do Sol (veja no vídeo abaixo). Agora, o curioso é ver o Sol andando em linha reta na região noroeste e de repente sumir nas montanhas onde ele nasceu. Muito doido.

Ah, eu ouvi dizer por lá que Ushuaia significa algo como “de onde vem o Sol”. Não lembro a fonte, mas faria sentido.

Patagônia austral: posts sobre o Fim do Mundo

IMG_3201Acabei de voltar de uma viagem pelo tempo. Uma viagem sobretudo geológica, glaciológica, paleontológica e antropológica. Fui para a Patagônia austral chilena e argentina! Um sonho realizado! Lá é o último lugar da Terra, exceto pela Antártida, onde o homem chegou. Isso há 15 mil anos. Uma data recente se você pensar que o planeta tem mais de quatro bilhões de anos. Engraçado que, ano passado, fui para a África do Sul, lugar onde o homo sapiens “apareceu” cerca de 200 mil anos atrás. Um ciclo fechado! Como deu para perceber, tenho muuuuita história para contar.

 

Nem acabei de publicar todos os posts que queria sobre a África (ao menos alguns vídeos vou colocar no ar) e já quero partir para a Patagônia. Achei que fosse “apenas” contemplar paisagens deslumbrantes, caminhar muito, comer e beber bem, mas, no Fim do Mundo, consegui caçar muita informação sobre os primeiros habitantes daquela inóspita região. Sem contar a paleontologia do nosso continente que consegui entender melhor – mas eu já imaginava que veria dados sobre os extintos animais como dinossauros e grandes mamíferos graças ao livro “A Viagem do Beagle”, do mestre Darwin. Recomendo!

 

Enfim, estando no Fim do Mundo deu para perceber porque Darwin conseguiu coletar tanta informação sobre geologia e como aquelas terras incríveis o ajudaram a formular a famosa Teoria da Evolução. Se você pode, não deixe de ir à Patagônia (me mande e-mail se precisar de dicas e informações). Ela me ajudou a entender mais sobre o nosso planeta, sobre o nosso continente, sobre os nossos vizinhos e sobre eu mesma. Uma viagem ao passado e ao nosso futuro.

 

IMG_3070Apesar desse não ser um blog de turismo, vou compartilhar algumas dicas ao fim de cada post (seria um dever meu, porque há pouca informação em português sobre como conhecer a região). Dica de museu para quem curte antropologia: Museo Yámana, em Ushuaia. Para quem gosta de palentologia, Centro de Interpretación Histórica Calafate; e para quem quer entender sobre glaciologia, Glaciarium, ambos em El Calafate.

 

Outras dicas básicas. A Aerolineas Argentinas pode cancelar voos de última hora ou adiantar o voo sem avisar. Portanto, chegue com folga ao aeroporto. Apesar de a Argentina e o Chile serem vizinhos, o transporte entre eles é complicado fora de temporada (depois quero fazer um post sobre o ranço entre ambos). A maioria dos passeios duram o dia todo, vá com tempo e reserve com antecedência. Leve roupas sintéticas para o frio, eu (sou muito friorenta) peguei -15 ºC sem reclamar. Roupas ideais: segunda pele de tecido polar, blusa de tecido polar, corta vento e impermeável. A calça deve ser segunda pele de tecido polar e calça corta vento. Tênis impermeável de caminhada. E aproveite o frio do mundo!

 

Você sabia que existe a aurora austral?

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Não vamos cometer a injustiça de sempre desejarmos ver pessoalmente a longínqua aurora boreal. Para quem não sabe, existe a mais-perto-da-gente aurora austral! A aurora boreal é o fenômeno que acontece no norte do planeta – nome batizado por Galileu Galilei em 1619, em referência à deusa romana do amanhecer Aurora e ao seu filho Bóreas, representante dos ventos nortes. Já a aurora austral é o mesmo fenômeno que pode ser observado no Hemisfério Sul, em locais como Nova Zelândia, Austrália, Antártida (claro) e… Argentina! Juro. Dá para ver aurora no nosso vizinho hermano. E você estava, aí, juntando moedinhas para viajar até os países nódicos. Tsc, tsc.

Segundo o Laboratório de Paleomagnetismo e Magnetismo das Rochas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP), a aurora polar é um fenômeno óptico observado em zonas de maior latitude quando há o impacto de partículas de vento solar e de poeira espacial com a alta atmosfera da Terra (entre 60 km e 100 km acima da superfície terrestre), canalizadas pelo campo magnético do planeta. Assim, como as partículas de vento solar que “batem” na Terra dão origem ao maravilhoso fenômeno, quanto maior a atividade do Sol, maior a chance de vermos a aurora.

Agora que já sabe que existe uma aurora perto de você, vem a fatídica pergunta: “Qual a melhor época para vê-la?” Bom, nos meses de inverno – seja a aurora boreal ou a austral. Isso porque, em latitudes muito altas (mais perto dos pólos) há luz solar quase o dia todo no verão. Aliás, em algumas épocas, o Sol não se põe! Ele desce em um lado do horizonte e já sobe em direção ao outro. Trata-se do famoso “Sol da meia-noite“. A luz solar impede de vermos as luzes da aurora, simplesmente por causa da claridade emanada pelo astro.

Então, se quiser caçar a aurora, prepare-se para passar frio. As auroras são mais visíveis durante a noite e quando o céu está sem nuvens. Agora, tome nota dessa super dica: o Instituto de Geofísica da Universidade do Alasca em Fairbanks, nos Estados Unidos, tem um site que monitora ambas as auroras! A imagem acima, por exemplo, mostra os locais onde será possível ver a aurora austral no dia 11 de setembro (a Argentina está para a esquerda e a Austrália, à direita). No site, há até uma escala de 0 até 9. Quanto maior for o número, mais forte será o fenômeno.

Olhe que espetacular a aurora austral passando pelos países de Madagascar e Austrália em um vídeo feito da Estação Espacial Internacional (ISS) e divulgado pela Nasa:

Se você fosse sincera
Ô ô ô ô Aurora
Veja só que bom que era
Ô ô ô ô Aurora