A bicicleta é a solução para o trânsito?

Não. E sim. Essa é uma discussão que a cada dia tem se tornado mais frequente nas conversas de bar, nas redes sociais e em meios de comunicação como jornais e programas de televisão. Quem morou ou passou um tempo em cidades interioranas com cerca de 100 mil habitantes, se não usou a bicicleta para se locomover, deve ter observado muita gente pedalando. O mesmo é válido para quem vive ou viveu na periferia da cidade de São Paulo. E engana-se quem pensa que a bicicleta é utilizada apenas agora como meio de locomoção.

Desde criança eu observava as pessoas pedalando ao trabalho, quando morava em um bairro da periferia de São Paulo. Os porteiros do meu condomínio, por exemplo, com frequência chegavam de bicicleta. Uma pesquisa feita pelo Metrô de São Paulo sobre o uso delas na região metropolitana da cidade (de 2007, ok, desatualizada), gentilmente cedida para este blog, mostra que seu principal uso nos dias úteis é como locomoção ao trabalho (dito por 71% dos entrevistados). Quem mais pedala nesse período são as pessoas dos distritos do: Grajaú (10 mil), Vila Maria (9 mil), Jardim Helena (8 mil), Jaçanã (7 mil), Vila Medeiros (6 mil) e Tremembé (5 mil). Parte desses ciclistas escolheram a bicicleta por considerarem outros métodos de condução caros (22%) e a maioria usa para percorrer pequenas distâncias pedalando por até 30 minutos.

 

Eu sempre quis empregar a bicicleta como meio de transporte, mas como cheguei a me locomover até cerca de 30 quilômetros para ir e voltar ao trabalho, era inviável seu uso. Além disso, no bairro onde morava as ruas eram de mão única, com ônibus passando no limite máximo de velocidade e algumas calçadas não tinham a largura mínima exigida de 1,20 m. Se não havia espaço nem para os pedestres, imagine para uma ciclista (lembrando que pelo Código de Trânsito Brasileiro as bicicletas devem usar a rua, pois são veículos).

 

Assim, em grandes distâncias, a bicicleta poderia ser usada como um meio de ligação entre a sua casa e o metrô. Entre o seu trabalho e o principal terminal de ônibus da região. Atravessar a cidade todo dia sobre duas rodas, vamos combinar, exige um incrível preparo físico. O que nem todos têm. Quem mora perto do trabalho, até cerca de 10 quilômetros de distância, é um sortudo que pode usá-la como opção. E até – por que não? – intercalar com o metrô, ônibus, moto, carona e carro.

Hoje em dia, com pessoas com maior poder aquisitivo e formadores de opinião usando a bicicleta como meio de transporte, as discussões sobre o espaço destinado às magrelas têm se tornado mais frequente. Acontecem debates que já deveriam ter ocorrido há muitos anos. Felizmente, essa força – independente da classe social, afinal a ideia é todos podermos compartilhar do desejo de ir e vir como nos convém sem, claro, prejudicar a liberdade do outro – já obteve avanços. Nem que seja como forma de lazer, como as ciclofaixas aos domingos e feriados, para apresentar a vida sobre duas rodas para aqueles que só tem a perspectiva de dentro do carro.

A ideia não é demonizar os carros e outros veículos motorizados. Nem impor o uso da bicicleta para todos. Mas pensar em alternativas de locomoção. Em integrar os meios de transporte. Se pode haver no metrô estacionamento para veículos motorizados, por que não podem existir bicicletários? Precisamos melhorar a nossa qualidade de vida para sermos mais felizes. Tomar as ruas, seja de bicicleta ou a pé, significa ter mais segurança e fazer parte da vida que passa pela janela.

Aqueles que nos insultam enquanto ciclistas – ou também pedestres – pensem em duas coisas. Graças aos ciclistas e pedestres, há menos carro na rua para transitar mais livremente. E menos fumaça prejudicial à saúde. Quem pensa que fechado dentro do carro ou de casa está protegido das emissões de gás carbônico está enganado. Algumas pesquisas afirmam que os poluentes se concentram nesses lugares.

 

A rua tem espaço para todos. Vamos tomar o espaço público como o próprio subjuntivo diz.

Obs.: Quase a metade das viagens (49%) é realizada por pessoas entre 23 e 39 anos e por homens (91%), via pesquisa feita pelo Metrô.

Estacionamento para bikes parece “as europas”

Noites e manhãs frias em pleno dezembro de verão, casas com arquitetura alemã, pinheiros plantados em passeios públicos, florestas circundado a cidade e estacionamento para bicicletas no centro comercial. A descrição não parece de uma cidade brasileira, não é mesmo? Deixando o gosto duvidoso da arquitetura e da introdução de espécies exóticas de lado, ter um lugar para parar as magrelas no principal centro comercial turístico de Campos do Jordão, no interior de São Paulo, é um mínimo apoio aos ciclistas (foto). Acho civilizado. E o povo usa. Quem vai trabalhar. Quem vai comer ou comprar. Quem é turista. É para todos. As quatro bicicletas da foto tiraram quatro carros das entupidas ruas do badalado “centrinho”. Melhor se exercitar do que ficar dentro do possante meia hora dirigindo a 5 km/h até encontrar uma vaga na rua ou no estacionamento – e dirigir por no máximo 6 quilômetros para chegar ao tal centro, distância da maioria dos hotéis. Todas as cidades brasileiras deveriam ter um lugar destinado às bicicletas nos centros comerciais. Isso, sim, é ser “phyno”.

Obs.: Conhece mais cidades tupiniquins com estacionamento para bikes? Conte aí!

Dois olhares sobre a ciclorrota

Tenho passado frequentemente pela ciclorrota da Zona Oeste de São Paulo usando o carro e a bicicleta. Acho divertido, confesso que fiquei toda emocionada ao pedalar sobre a marca de uma bicicleta feita pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) no asfalto logo na semana em que foi anunciada a nova ciclorrota de ligação entre os parques da Água Branca e do Villa-Lobos. Antigamente (há uns três anos), eram os ciclistas quem pintavam no chão as bicicletinhas como protesto por uma qualidade de vida melhor. Vamos chegar lá.

Enquanto o sonho não se realiza, tenho duas observações a fazer. A primeira é uma visão de quem está na bicicleta. Pedalei pela rua Turiaçu (foto), em Perdizes, pertinho do Parque da Água Branca. Como muitos carros estavam estacionados ao lado direito, o espaço na estreita rua era apertado para os veículos em circulação. Segundo a Lei de Trânsito, os carros devem manter um 1,5 metros de distância das bicicletas durante seu trajeto – incluindo a ultrapassagem.

Mas não foi o que aconteceu. Quando não havia carro vindo na outra mão, alguns motoristas até ultrapassaram por cima das duas faixas amarelas contínuas para dar vez aos ciclistas. Porém, a maioria não estava nem aí, tirava fininha de quem passava de bicicleta. Fique tensa. Ambas as ações estão em desacordo com o Código de Trânsito Brasileiro. Quer dizer, os motoristas infringiram a lei e arriscaram a vida dos ciclistas.
Já, quando dirigia meu carro pela região, algumas placas específicas chamavam a atenção conforme se aproximavam do veículo: “Ciclorrota na transversal”. A palavra transversal, que pode ser óbvia para você, deveria ser trocada. Nem todo mundo entende o seu significado, ou seja, um corte inclinado sobre uma linha reta – dê um Google para ver “imagens matemáticas” sobre a tal transversal. Não seria mais intuitivo colocar algo como: “Ciclorrota no cruzamento”?

Bom, se quer saber o que significa ciclorrota e a diferença que existe entre ela, a ciclovia e a ciclofaixa clique aqui. Aliás, saiba também que quase 10% dos brasileiros usam a bicicleta como meio de transporte. E boa pedalada!

Gaste sua sola do tênis

Hoje, deixarei o carro estacionado. Vou aproveitar para circular a pé. Observar o cheiro, os sons e o gosto da cidade. Pasmar no cotidiano. De quando estive na Europa, uma das coisas que mais senti falta ao voltar ao Brasil foi caminhar pela cidade. Durante o dia, durante a noite… Sem medo e com transporte público para me levar para onde precisasse.
Bom, não é uma boa ideia numa terça-feira “comemorar” o Dia Mundial Sem Carro. Mas 22 de setembro foi eleito o dia em questão em 1998 1997. Cerca de 35 cidades da França participaram com passeios ciclísticos e outras atividades. A ideia foi espalhando, espalhando, até chegar no Brasil em 2001.
De acordo com o Instituto Akatu, uma pessoa que circula 10 km por dia de carro emite, por ano, 75 toneladas de CO2. Para ter uma ideia do montante, de acordo com o Prêmio Época de Mudanças Climáticas de 2008, a farmacêutica Roche no Brasil – uma empresa, não uma pessoa – emitiu 5.593 toneladas de CO2 em um ano.
Sei que, em cidades como São Paulo, as opções de transporte público são péssimas e escassas. Então, vamos usar este dia para protestar. Por um ar, um trânsito, uma qualidade de vida melhor. Para entrar na rede social sobre assunto, clique aqui. Para saber o que vai rolar de especial em São Paulo, veja aqui.

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