Esquimós na pindaíba

Vitus Nielsen, ex-caçador que precisou passar a viver do anzol depois que o gelo diminuiu

Vitus Nielsen, ex-caçador que precisou passar a viver do anzol depois que o gelo diminuiu

Finn Pedersen mudou-se para a Groenlândia em 1985, para dar aulas de inglês e dinamarquês numa aldeia de 150 pessoas. Aposentado há um ano e casado com uma nativa, não pensa em voltar mais para a Dinamarca. “Tenho a melhor vista do mundo aqui.”

O “aqui” ao qual ele se refere é Upernavik, uma cidade de 2.500 almas construída num rochedo e cercada de centenas de quilômetros de nada. É o penúltimo aglomerado urbano antes do polo Norte e o último que merece tal designação (para os padrões groenlandeses de aglomerado urbano, claro). Viver aqui é uma operação logística complexa: não existe água encanada, não há hotéis nem restaurantes e tudo o que se come precisa ser caçado, pescado ou importado da Europa por navios cargueiros que às vezes ficam seis meses sem atracar por causa do gelo marinho (mas cuja frequência tem aumentado na mesma proporção em que o gelo diminui). Uma vez a cidade calculou mal seu estoque de papel higiênico. Em poucas semanas, acabou o filtro de café no supermercado. Em mais algumas, as pessoas pararam de devolver os livros para a biblioteca.

Até dez anos atrás, só se chegava a Upernavik de helicóptero, um Sikorsky S-61 N de 20 lugares que serviu na guerra do Vietnã. “Era uma aeronave muito sensível, barulhenta e insegura”, resume Pedersen. Frequentemente o mau tempo – uma constante nas altas latitudes – impedia o bicho de pousar na ilha de Upernavik e forçava os passageiros a voltar à origem do voo. Hoje existe um aeroporto no alto do morro e a Air Greenland consegue fazer voos mais ou menos regulares no verão, três vezes por semana, com duas escalas e a um preço que me impede de sentar para contar. Turistas, só de vez em nunca, a bordo de navios de cruzeiro.

Esta cidade é um dos lugares do planeta mais diretamente afetados pela mudança climática. E isso não é necessariamente ruim para seus moradores: os efeitos são mistos, com ganhos de um lado compensando perdas de outro. Pedersen conta que, nos últimos dez a 15 anos, muitas famílias que viviam da caça precisaram mudar de ramo e começar a pescar. Como o gelo tem ficado muito fino e instável, não é mais possível usar trenós puxados por cachorros durante boa parte do ano para avançar pelo mar congelado e caçar focas e baleias. O resultado é que manter os cães ficou caro demais para pouco retorno com a caça. Quem era caçador deu os cachorros e virou pescador, como Vitus Nielsen, um senhor simpático a quem Pedersen me apresenta num pequeno ancoradouro da ilha. O próprio Pedersen foi obrigado a dar seus cinco cachorros. Comprou um quadriciclo, que usa para andar pela cidade.

A pesca, em compensação, vai muito bem. A estatal Royal Greenland, que é praticamente dona do PIB da Groenlândia (o país ainda vive da pesca, sobretudo de camarão), comprou recentemente uma start-up, a Upernavik Seafood, e hoje opera em duopólio com uma cooperativa de pescadores local. Há processadoras industriais de pescado em vários assentamentos inuítes nos arredores, e o peixe chega em Upernavik pronto para ser embarcado para a Dinamarca. O halibute, estrela da economia local, continua sendo capturado no fiorde. Mas agora ele não está mais sozinho: o bacalhau, que prefere águas um tiquinho menos frias a sul de Upernavik, anda aparecendo em abundância no pedaço. E um salmonete chamado pelos locais de  “ammasit”, exclusividade do sul da Groenlândia, já deu as caras por aqui. “Há dez ou 15 anos você não encontrava ammasit nestas águas”, afirma o professor.

Não foram só eles. Começaram a aparecer jubartes, provavelmente nadando para o norte atrás de suas presas, e baleias-piloto, um tipo de golfinho preto conhecido por encalhar às dezenas no Pacífico. “O pessoal ficou feliz, porque, como era um animal novo, não tinha cota de caça”, lembra Pedersen.

Num lugar isolado como Upernavik, onde uma cebola custa R$ 3 (eu paguei) e a única agricultura é praticada por alguns moradores em vasos dentro de casa, a caça é indispensável para suprir vitaminas no inverno. E os groenlandeses atiram em tudo o que cruza seu caminho, inclusive ursos polares. “A carne é muito boa”, elogia o esquimó convertido. O petisco favorito é o mattaq, um toucinho de baleia comido cru e rico em vitaminas. Porém, a dieta local está cada vez mais dependente dos navios cargueiros, por conta de um segundo fator: o governo. Vitus Nielsen reclama de que várias restrições foram baixadas à caça de belugas (fala sério, você mataria uma fofura daquelas?) e narvais, e o preço da pele de foca despencou no mercado por causa dos limites à venda depois do embargo à pele canadense. Hoje um caçador recebe 250 coroas por pele, dinheiro que não paga duas garrafas de vinho vagabundo.

Antes de lamentar a sorte dos groenlandeses, cabe considerar que, até a 2a Guerra Mundial, os habitantes do país viviam praticamente na Idade da Pedra. Nos últimos 70 anos, eles tornaram-se perfeitos ocidentais, com as ressalvas ao ambiente onde vivem. Moram em casas confortáveis, não em iglus, e andam em barcos a motor, não em caiaques. Os groenlandeses já estão se adaptando às mudanças ambientais à sua volta. A crise econômica que arrebentou a Europa teve provavelmente um impacto muito mais sério sobre os empregos locais do que o sumiço do gelo marinho. Quanto a isso, a solução pode estar ironicamente na própria mudança climática. “No ano passado tivemos 20 navios de prospecção de petróleo por aqui”, diz Finn Pedersen. “Muita gente que ficou desempregada com a crise espera poder trabalhar nas plataformas. O governo esta pagando cursos para formar mão de obra qualificada.”

 

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