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Lembranças de um tempo em que a Natureza ainda dominava o homem:

Em 1774, um navio perdido foi descoberto na região ártica coberto de gelo e neve. O descobridor foi o capitão de um navio baleeiro da Groenlândia chamado Warrens. Ele, ao subir a bordo do navio encontrado achou, em uma das cabines, o corpo de um homem perfeitamente preservado pelo frio glacial, com exceção de uma mancha de mofo esverdeado que apareceu em volta dos olhos e na testa. O cadáver estava sentado numa cadeira e ligeiramente afastado da mesa. Na mão direita, ainda havia uma caneta e em diante dela estava o diário de bordo. O morto estava escrevendo no momento em que faleceu. A última sentença completa do diário inacabado era a seguinte:


“11 de Novembro de 1762. Nós já estamos presos no gelo por dezassete dias. O fogo extinguiu-se ontem e nosso mestre tentou desde então reacendê-lo, mas sem sucesso. Sua esposa morreu hoje de manhã. Não há sinal de alívio”

O Capitão Warrens e seus homens retiram-se em solene silêncio e, ao entrar na cabine principal, encontraram numa cama o corpo de uma moça, com todo o seu frescor juvenil, em sua posição e sua atitude. Sentado no chão, com um pedaço de aço nas mãos, como que num último ato, o cadáver de um jovem homem. Nenhuma provisão ou combustível foi encontrado no navio fantasma.

The World of Wonders [O Mundo das Maravilhas], 1883

Agora os papéis se inverteram. Hoje um navio jamais desapareceria assim tão facilmente, mesmo em pleno deserto Ártico. Mas isso não aconteceria por causa dos nossos sistemas de comunicação — que pareceriam mágicos aos olhos de explorador do século XVIII. Nem por que temos, atualmente, possantes navios quebra-gelo.

Não.

Tal fato não deve se repetir pela simples falta de matéria-prima: gelo no Ártico. Sim, o Pólo Norte está derretendo. E em ritmo assustadoramente rápido. Nesta semana, cientistas ingleses divulgaram uma péssima previsão para o verão de 2019: será o primeiro verão com o degelo completo do Oceano Ártico. Resultado: temperaturas e mares em elevação.

Mas, pelo menos, poderemos navegar livre e seguramente da Inglaterra (ou do Canadá) até o Alasca (ou até a Rússia). Isso sem falar em estimadas reservas petrolíferas que teriam um valor ainda não calculado. O preço, porém, pode ser muito maior do que a morte de alguns intrépidos exploradores que um dia, num passado não tão distante, ficaram perdidos e presos no gélido deserto setentrional.
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