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Durante essa semana, todo mundo sobreviveu e nem percebeu. Não, não se trata da sobrevivência pura e simples, aquela da luta diária. Foi uma sobrevivência especial, extraordinária e da qual poucas pessoas se deram conta, apesar das notícias.
Na terça-feira, 30 de março de 2010, nós fizemos uma (ainda pequena) réplica do Big-Bang no Grande Colisor de Hádrons (LHC), a maior máquina do mundo. Às vésperas da páscoa, o renascimento para judeus e cristãos, nós acabamos de sobreviver à criação de um (ou até mais de um) míni-universo-paralelo.
Ou não.
DO FIM DO MUNDO PARA O COMEÇO
Durante os últimos dois anos, o LHC esteve em evidência na mídia. Para variar, sempre se destacavam seus aspectos negativos — como os altíssimos custos de construção e manutenção — ou até mesmo catastróficos — as experiências feitas lá acabariam com o planeta (ou, pelo menos, com a vida). Infelizmente, pouco esforço foi feito para explicar o que estava acontecendo e o que iria ser feito no LHC, tanto por parte dos cientistas como por parte da imprensa (especializada ou não).
Nas duas vezes em que não funcionou por motivos técnicos, a “máquina do fim-do-mundo”, como muitos a chamavam, rapidamente passou a ser motivo de chacota e críticas. Passou a haver tanto descrença e quanto reforço da crença no poder apocalíptico do LHC.
Quem acreditava numa desgraça de proporções cósmicas dizia que a máquina não funcionava por intervenção divina; deus não permitiria que nós fizéssemos uma coisa dessas: descobrir como o Universo começou. É claro que deus só estava tentando defender o pouco que lhe resta do papel de criador todo-poderoso. Ou, então, a máquina funcionaria e o apocalipse viria inevitavelmente — mas só em 2012.
Então, durante os meses de preparação para um novo recomeço no LHC o mundo continua como dantes: bebês nasceram; pessoas morreram ou se mataram de todas as formas possíveis; casais se juntaram e se separaram; terremotos, enchentes e nevascas catastróficos; padres comedores de criancinhas; escândalos políticos; atentados terroristas com motivações religiosas seguidos de mais discórdia entre judeus e palestinos, etc.
Nesse turbilhão todo que se chama Planeta Terra, foi fácil todo mundo se esquecer do LHC — exceto talvez a comunidade científica e os poucos que a acompanham. As pessoas continuam a acreditar no fim do mundo, de um jeito ou de outro, mas uma hora seria através de terremotos, outra hora nós seríamos sufocados pelo aquecimento global, ou então morreríamos nos matando mutuamente em atentados que se estenderiam indefinidamente em réplicas, tréplicas e n-réplicas.
“NOVOS CÉUS E UMA NOVA TERRA”?
Então, o LHC finalmente funciona e, subitamente… nenhum buraco negro incontrolavelmente voraz aparece. Nenhuma matéria estranha capaz de aniquilar a tudo e a todos. Nada. Simplesmente nada. Mais um fim-do-mundo passou em branco. A não ser que a possível “criação” de um míni-big-bang — ou “Novos Céus e uma Nova Terra” — não seja nada.
E talvez não seja. Uma vez terminada a sub-atômica explosão (e bota sub nisso), mesmo que um universozinho tenha realmente sido criado, nós já não teríamos contato com ele. Não seria mais parte do nosso universo, e portanto estaria inacessível. Tudo, enfim, não passa de uma possibilidade. Mesmo que algo tenha sido criado, levaremos anos até saber, se é que poderemos saber.
O que quer que venha a ser esse universozinho (se é que ele existe) nós nunca saberemos, até por que ele talvez leve outros bilhões de anos para evoluir. E mesmo que evolua, pode ser que vá numa direção que não permitiria a existência de vida. Para o bem ou para o mal, não teríamos responsabilidade alguma. Os cientistas do CERN não seriam — como nunca foram — deuses. Mas há algo mais por aqui: e se o nosso universo começou do mesmo jeito, com uma experiência similar? Eram os deuses físicos nucleares?
Certamente que não. Mesmo que fossem, eles igualmente não teriam qualquer influência sobre o nosso universo, pelo mesmo motivo que não temos sobre o nosso universozinho recém-explodido. E, no fim das contas, quem os teria criado? Outros deuses em uma “máquina do fim do mundo”? E esses outros deuses? Outros outros deuses? E os outros outros deuses? Outros outros outros deuses, ad infinitum? A única forma de escapar dessa armadilha de recursividades é admitir que deuses não existem, mesmo quando mais parece.
Mesmo com medo, o mundo não parou. Nem sequer prendeu a respiração. De uma hora para outra, o LHC deixou de ser visto como uma ameaça apocalíptica para virar um “grande salto para a humanidade”. Não surpreende. O que surpreende mesmo é que um experimento tão profundo não tenha provocado qualquer tipo de mudança ou de reflexão. 
Mas que besteira! Se “Novos Céus” não surgiram, por que é que haveria de aparecer uma “Nova Terra”? E mesmo que surgissem, talvez o mundo não iria parar; continuaria como dantes: bebês nasceram; pessoas morreram ou se mataram de todas as formas possíveis; casais se juntaram e se separaram…
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