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Quase dez anos depois o solo que sustentava as Torres Gêmeas em Nova York continua deserto. O Marco Zero continua sendo um pólo atrativo para turistas e polemistas. Nada foi levantado lá até hoje por uma razão simples: não há consenso sobre o que construir no lugar do WTC. E as controvérsias e teorias conspiratórias que surgiram desde então voltam à tona com a proposta de construir uma mesquita perto dali — e a aprovação dada pelo presidente Obama.
Suspeitas e indecisão
Sempre houve aqueles que defendessem a reconstrução nos moldes originais ou os que desejavam um projeto novo para esquecer do antigo. Em meio a esses, havia quem defendesse, independente do projeto vencedor — houve vários concursos arquitetônicos — deveria haver no local algum ponto intocado, alguma ruína preservada, um memorial e/ou museu. Também havia defensores da criação de um parque ou de um centro de convenções internacional, um fórum para discutir os problemas do mundo (como se já não houvesse a ONU, ali mesmo, em NY).
Em meio a essa indecisão toda, não poderia faltar uma coisa tipicamente americana: o conspiracionismo. Surgiram diversas explicações sobre o que aconteceu na manhã de 11 de Setembro. Todas buscavam negar a participação, ao menos direta, de terroristas suicidas islâmicos. Teria sido coisa do governo americano, dos serviço secreto israelense, dos Illuminati, da “nova ordem mundial”, etc. O evento teria sido previsto por Nostradamus, mas curiosamente não houve nenhuma palavra, ou melhor, data dos maias, nem participação de forças alienígenas. Era só o que faltava para uma teoria de tudo em termos de conspiração.
Uma mesquita no sapato de Obama
Agora, todas essas controvérsias e suspeitas — além de outras mais recentes — voltam à tona após o Presidente Obama anunciar seu apoio à construção de uma mesquita e um centro cultural islâmico de 15 andares a duas quadras do terreno do World Trade Center. Para o New York Times, o novo empreendimento seria apenas um “monumento à tolerância”. Mas a obra pode não ser assim tão inofensiva e tolerante.

Sam Harris notou, num artigo no The Daily Beast, que “a construção da mesquita sobre as cinzas dessa atrocidade também será vista por muitos milhões de muçulmanos como uma vitória — e um sinal de que os valores liberais do Ocidente são sinônimos de decadência e covardice”.

Declaração favorável de Obama
pode trazer mais problemas do que ele imagina
Obama está claramente ignorando essa possível reação no mundo islâmico. Não podemos esquecer da mais forte evidência contra todas aquelas teorias conspiratórias: milhões de muçulmanos comemorando o maior ataque suicida da história como uma final de Copa do Mundo. Seria impossível haver tantas pessoas envolvidas numa conspiração que as incriminaria. 
Outra coisa que o presidente norte-americano parece ter esquecido deve ser a reação de seus próprios opositores. Foram levantadas fortes suspeitas, durante as eleições de 2008, de que ele seria  estrangeiro e muçulmano e teria, inclusive, ligações perigosas. O presidente negro pode ser muito popular no mundo, mas nem tanto nos EUA. Para muitos, Obama ainda não resolveu todos os problemas — a economia não se recuperou totalmente e muitos continuam sem emprego. Uma declaração favorável a um empreendimento tão polêmico às vésperas das eleições para o legislativas deve complicar ainda mais a vida de Barack Obama.
Um impasse paradoxal
Mas a questão que Harris levanta é: deve-se permitir tal empreendimento? Dado o contexto, há uma situação paradoxal: se for permitido, pode ser uma vitória para os extremistas; se não for permitido, pode haver sentimentos de perseguição e isso também pode levar a reações violentas. E, mais uma vez, tudo isso por causa de crenças religiosas e crentes que se recusam a mudar suas crenças.
Harris argumenta que a violência e o terrorismo são características intrínsecas do islamismo. Ele cita passagens do Corão que convencem seus fieis à guerra santa. Embora o livre-pensador americano generalize neste ponto, uma de suas críticas é muito válida: os muçulmanos moderados e tolerantes são indiferentes, apáticos, silenciosos.
O silêncio dos inocentes
Os moderados jamais se levantaram para defender aquilo que os extremistas odeiam — o secularismo, a separação entre Estado e Igreja, a liberdade de expressão e de culto, a livre crítica da fé e o respeito aos direitos humanos. 
Muito pelo contrário, eles se calam diante de questões como a emancipação femininas, a mutilação sexual de meninas e a perseguição aos homossexuais. Ou você já viu algum muçulmano comum vindo a público manifestar-se contra a pena de morte (apedrejamento ou enforcamento) por adultério ou homossexualismo que há no Irã? Algum grande líder islâmico censurou Ahmadinejad por negar o holocausto ou negar-se a dialogar sobre a questão nuclear?
Mesmo os não-muçulmanos buscam defender seus irmãos maometanos tirando-os da cena terrorista com teorias mirabolantes. Certamente muitos conspiracionistas são apenas teístas que não acreditam em pessoas capazes de matar estrangeiros do outro lado do mundo por que deus assim deseja.
Alguém tem que ceder
Nada fere mais a credibilidade de um credo religioso do que suas atitudes perante os outros. Seja entre judeus e cristãos, seja entre muçulmanos, se não há tolerância não há boas ações. O americano médio já percebeu que a guerra é um atoleiro sem vencedores. Mas e quanto ao islamita comum e sua jihad? Não é a mesma coisa?
Como conclui Harris, os muçulmanos americanos têm o direito de construir seus templos onde quiserem. Mas, como muçulmanos, deveriam estar mais preocupados em reformar suas crenças e em abraçar valores como os direitos humanos e a igualdade feminina.
Não vai ser uma nova mesquita que vai resolver os desentendimentos entre Ocidente e Oriente. Assim como na corrida nuclear, não há vitória possível: ambos os lados têm que ceder se quiserem sobreviver.
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