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Einstein e Lévi-Strauss: quem teve mais espírito científico?


John Horgan levantou uma intrigante questão epistemológica no site da Scientific American: A Física teórica está se tornando uma ciência mais soft que a Antropologia?

Tradicionalmente há uma clara oposição entre as Ciências Exatas e as Humanas. Na ficção científica, as Exatas são chamadas de hard science enquanto as Humanas são a soft science. Mas como não há verdades absolutas na ciência, até essa oposição clássica começa a mudar — a se confundir, na verdade.

Horgan começa seu artigo pela parte soft: ele diz ter ficado intrigado com a exclusão da palavra “ciência” do estatuto da Associação Antropológica Americana (AAA). A mudança causou alvoroço entre os antropologistas, que lutaram durante anos anos para melhorar a imagem da Antropologia, descolando-a do ramo das humanas.
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John Horgan: ele acha que o
pessoal das exatas está
teorizando demais
Citando um artigo de Nicholas Wade, Horgan define as Exatas como “empíricas”, isto é, baseadas em experimentos para comprovar suas teorias; e as Humanas são estudos “analíticos, críticos ou especulativos”, cujas teorias raramente são comprovadas por experimentos.
Os antropologistas cientificistas sempre quiseram agregar seu campo não com historiadores ou críticos literários, mas com físicos, supostamente o padrão-ouro da boa ciência, a hard science. No entanto, a Física tem se tornado cada vez menos empírica e mais especulativa  que a Antropologia mais humanística. E é por isso que agora a AAA não quer mais ter “ciência” entre suas missões.
John Horgan culpa os físicos e a mídia pelo “amolecimento” da Física, que ele chama de “ciência irônica”. O colunista da SciAm não deixa de ter razão: desde a Einstein, Schröeddinger e Heisenberg, o que mais se tem visto na Física é uma bagunça de teorias concorrentes — e cada vez mais ambiciosas — capaz de fazer inveja a qualquer Departamento de Filosofia (ou até mesmo teólogos).
Ok, a relatividade e a física quântica não são “apenas teorias”, como qualquer criacionista gostaria de gritar agora. Da Era do Rádio à Exploração Espacial, todas as revoluções tecnológicas foram resultado direto ou indireto de avanços na Física que começaram como teorias bastante ousadas e distantes da realidade empírica do quotidiano. Mas ambas as teorias precisaram esperar décadas de debates e especulação antes que os físicos buscassem fazer o mais básico do seu ofício, algo que sempre fizeram após formular uma nova teoria — comprová-la empiricamente.
Enquanto isso, a Antropologia nascia, crescia e buscava se afirmar justamente com pesquisas empíricas e trabalho de campo em lugar dos ensaios teórico-acadêmicos. Como lembra Horgan, em seu artigo:
antropologistas reúnem dados — pela observação de caçadores na floresta amazônica, pela escavação de um assentamento neolítico na Jordânia, pelo datamento por radiocarbono de um maxilar de Ardipitecus encontrado na Etiópia — e tentam compreender o que tudo isso quer dizer. Esse ato envolve muita interpretação, imaginação e, portanto, subjetividade, resultando em teorias altamente especulativas […] Mas mesmo a mais hermenêutica antropologia ainda se ocupa de coisas reais: primatas de verdade em lugares de verdade.
Os físicos do mundo inteiro, por sua vez,  ficavam quietos em suas salas especulando (ainda que com números e equações) sobre assuntos e coisas cada vez mais distantes da realidade quotidiana e das experiências práticas. Mas coisas como buracos negros ou mesmo o Big Bang já foram comprovados. Então, qual é o problema da Física que tanto incomoda o colunista americano?
É o fato de que os físicos estão indo cada vez mais longe: falam agora de dimensões quânticas, de matéria escura, de mebranas ou de supercordas. Tais coisas, ressalta Horgan, não estão apenas situadas remotamente no espaço e no tempo — elas podem nem mesmo existir. A existência dessa parafernália teórica é, segundo o Horgan, “como a de Deus, que não pode ser provada ou desprovada” e portanto seu estudo não merece a denominação de ciência.
A crítica levantada por Horgan é bastante importante. Há quem reclame da má qualidade da divulgação e da educação científica, mas a verdade é que os próprios cientistas é que estão se trancando em torres de marfim — ou gigantescos anéis magnéticos subterrâneos, o que dá no mesmo. Não há nenhum problema em se perguntar ou levantar teorias sobre o que veio antes do big bang, ou qual é a partícula última da matéria (se é que há uma ou outra coisa).
Pelo contrário, a curiosidade científica deve ser incentivada. Mas curiosidade, especulação, isso só não basta para fazer ciência. Ter uma ideia ou pensar sobre um fenômeno é apenas parte de um longo ciclo de teoria-experiência-comprovação/refutação-nova teoria.
O que também não pode acontecer, especialmente se as pesquisas forem custeadas com dinheiro público, é não conseguir explicar para o cidadão comum o que está sendo feito com o dinheiro de seus impostos. É mais fácil para um leigo entender (ou, pelo menos, aceitar) pesquisas, digamos, sobre mitologia comparada ou sobre ossos enterrados em um deserto do que sobre nuvens de matéria escura misteriosa e fugidia situada a milhões de anos-luz da Terra, em condições que não podem ser reproduzidas em laboratório.
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Sheldon Cooper, protagonista
de The Big Bang Theory, é o
arquétipo do Físico Teórico.
Mais que importante, a crítica de Horgan é contundente: ela pisa no calo dos físicos teóricos, Sheldons que lutam apenas para manter seus brinquedinhos bilionários enquanto ainda há pessoas que morrem picadas por mosquitos ou até mesmo por falta de comida e/ou saneamento básico em um planeta à beira de sua mais séria crise energética e ambiental.
A solução, evidentemente, não é mandar físicos para a roça, como fez a China durante sua revolução cultural. Basta cortar orçamentos de linhas de pesquisa menos imediatas e injetar dinheiro em questões urgentes como energia alternativa. Ou será que buscar formas mais eficientes de captar e armazenar energia solar, por exemplo, é uma questão menos interessante e desafiadora do que a matéria escura? Foram os físicos que nos deram o mundo de conforto que temos hoje e são eles que têm que nos ajudar a manter e melhorar o mundo que criaram.
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