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Esta “parábola contra a perseguição” era a favorita de Benjamin Franklin (1706-1790), que muitas vezes apresentava-a como um texto bíblico, “o capítulo 51 de Gênesis”. Os fiéis mais fervorosos vão afirmar que tal capítulo inexiste. Mas eles não sabem a grande lição que perdem e que está fora de suas bíblias:

51 E após passar por todas essas coisas, Abraão sentou-se à porta de sua tenda ao por do sol. 2. Eis que um homem, encurvado pela idade e apoiado em um cajado, caminhava pela floresta. 3. Abraão levantou-se e foi ao encontro do homem e disse-lhe: “Entrai, achegai-vos, pois lavarei vossos pés. Velarei por ti a noite toda e vos acordareis na alvorada e vós seguireis então vosso caminho.” 4. Mas o homem disse: “Não, pois eu me abrigarei sob esta árvore.” 5. E Abraão insistiu ainda mais e o homem cedeu; e eles entraram na tenda. Abraão cozeu um pão ázimo e eles cearam. 6. E ao ver que o homem não agradecera a Deus, Abraão disse-lhe: “Vós adorais o mais alto Deus, o criador do céu e da terra?” 7. E o homem respondeu, dizendo: “Eu não adoro o deus de que falais, nem o chamo por tal nome. Pois criei para mim um deus e ele habita em minha morada e me provê todas as coisas.” 8. E o zelo de Abraão foi ferido e fê-lo levantar-se. Ele lançou-se contra o homem, arrancando-o para fora, bufando. 9. E à meia-noite, Deus chamou por Abraão, dizendo: “Abraão, onde está o forasteiro?” 10. E Abraão respondeu: “Senhor, ele não vos adorava, nem chamava vosso nome, por isso lancei-o para a escuridão, para longe da minha face.” 11. E disse Deus: “Eu o suportei durante seus cento e noventa e oito anos, alimentei-o e dei-lhe de vestir, apesar de sua rebelião contra mim. E tu, tu que também é um pecador, não pudeste suportá-lo por uma noite?” 12. E Abraão respondeu: “Que a ira do Senhor não se derrame sobre seu servo. Pai, eu pequei e vos imploro perdão.” 13. E Abraão levantou-se e saiu à escuridão; procurou diligentemente pelo homem, encontrou-o e conduziu-o de volta à sua tenda. E após hospedá-lo gentilmente, despediu-se dele ao alvorecer, entregando-lhe presentes. 14. E Deus se dirigiu a Abraão, dizendo: “Por teu pecado, tua descendência sofrerá por quatrocentos anos em terra estrangeira. Mas por teu arrependimento, eu irei libertá-los e eles retornarão com poder e com gratidão no coração.”

Não se sabe ao certo se é um capítulo realmente apócrifo ou uma alegoria, uma fan-fiction bíblica. Geralmente, o texto é atribuído ao poeta persa (e muçulmano) Saadi (1184-1283). Seja como for, se esse único capítulo fosse incluído na Bíblia, na Torá e no Corão, e fosse igualmente ensinado pelas três grandes religiões monoteístas desde a antiguidade, milhares, quiçá milhões, de vidas teriam sido salvas. Judeus, cristãos, muçulmanos, índios e negros e até os ateus jamais teriam sido perseguidos. 
Mas, cegos pela fé e pela tradição, ninguém ousou admitir que é possível alterar a Palavra de Deus — seja ela qual for, seja qual for o deus —, nem mesmo para torná-la melhor ou para enriquecê-la. Pois ensinar essa lição levaria à perda do poder político e da influência dos líderes religiosos, fossem eles papas, rabinos ou imãs. Por mais piedosos que muitos tenham sido, nenhum quis reconhecer seu erro e abrir sua tenda e aceitar o forasteiro, o estranho, o anormal ou o diferente em sua morada. Nem mesmo por uma noite.
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