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Em 1858, William Ewart Gladstone percebeu algo peculiar em Homero: as cores relatadas em suas obras parecem estranhas demais. Tanto o gado quanto o mar, por exemplo, são descritos como tendo a cor do vinho. As ovelhas são “violetas”, o mel é “verde” e, embora seja descrito como estrelado, amplo, grande, de ferro e de cobre, o céu nunca é azul. Gladstone conjecturou que “o órgão da cor e suas impressões eram apenas parcialmente desenvolvidos entre os gregos do período homérico”.
É uma hipótese bastante interessante, mas é igualmente improvável — afinal, como provar que uma população, quiçá a humanidade inteira foi daltônica em certa época? William Gladstone (1809-1898) pode ter sido facilmente enganado pela noção da Terra jovem, i.e., a teoria de que o planeta (e tudo que nele existe) tem mais ou menos seis mil anos. Mesmo que não fosse criacionista, o futuro premiê do Reino Unido por quatro vezes deve ter pensado que os homens de poucos milênios atrás eram tão primitivos que mal distinguiriam as cores.

Dizer que todo mundo era cego para as cores no tempo de Homero era absurdo, mas vinte anos depois de Gladstone fazer sua conjectura, a teoria ainda persistia. Em 1878, o engenheiro e cientista William Pole (1814-1900) escreveu na Nature que
Seria um fato dos mais interessantes na fisiologia e na óptica se pudéssemos demonstrar, dessa forma, que o dicromatismo foi um estágio inicial da visão humana, a partir do qual a atual, mais perfeita e compreensiva capacidade tem sido gradualmente desenvolvida no curso de alguns milhares de anos.
Odisseu (a.k.a. Ulisses) preso ao mastro para resistir ao canto
 das sereias. (vaso grego , circa 450 A.E.C.)

A verdade talvez nunca venha a ser conhecida. Há diversos fatores possíveis para explicar a discrepância observada por Gladstone e Pole — do uso de drogas por Homero a erros persistentes e sobrepostos ao longo de séculos de cópias, transcrições e traduções.

A tradicional cegueira homérica, entretanto, seria uma explicação mais simples: sendo cego, Homero não tinha muita noção de mundo quando se tratava de cores e, assim, suas descrições cromáticas nos parecem descabidas por que sabemos que o mar é azul e que bois e mares não têm (ao menos normalmente) a mesma cor do vinho. Sem falar na possibilidade de licença poética. Afinal, por que não poderia haver uma dose de surrealismo em um poema da antiguidade? Ou será que o surrealismo só seria possível no século XX e os gregos antigos não tinham imaginação?

Homero e seu guia. Pintura de
 William-Adolphe Bouguereau, 1874

Ou, se quisermos ser bem chatos (e talvez incrédulos demais), basta explicar que Homero sequer existiu: ele teria sido um personagem quase mítico inventado para ser apresentado como autor de poemas que já existiam há muito na Grécia Antiga e que teriam sido obras de criação coletiva. Sua cegueira, portanto, seria igualmente fictícia, criada apenas para reforçar o heroísmo do autor da Ilíada e da Odisséia. As discrepâncias de cores poderiam ser explicadas por essa hipótese. Mas então, por que esses erros sobreviveriam em uma obra que, ao longo dos séculos seria extensivamente estudada e revisada?
Por outro lado, a hipótese de que a cegueira de Homero tenha sido apenas cromática seria uma grande prova a favor da existência individual do autor grego. Como Pole ressalta no mesmo artigo na Nature, se pudessemos comprovar isso, nós teríamos “a mais forte prova possível, por evidência interna, da existência de um autor único, a quem se deve todos os poemas”.
O retorno de Odisseu. Pintura de Claude Lorrain, 1644
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