Sendo um dos mais famosos matemáticos franceses de sua época, era natural que Jacques Hadamard (1865-1963) recebesse várias correspondências de aspirantes a matemáticos cheias de dúvidas ou de teorias malucas. Boa parte daquelas cartas geralmente era ignorada por Hadamard, até que ele recebeu uma prova brilhante de um tal André Bloch. Hadamard ficou tão fascinado pela elegância da prova que decidiu conhecer aquele sujeito e convidá-lo para um jantar. Uma vez que eles só mantinham contato através de cartas, Hadamard escreveu de volta para o endereço do remetente: 57, Grand Rue, Saint-Maurice. Em resposta, Bloch só informou que estava impossibilitado de sair, mas convidou o grande matemático a lhe fazer uma visita.

Foi só ao chegar ao endereço que Jacques Hadamard descobriu porque o brilhante colega não poderia sair: o que ficava na 57, Grand Rue, Saint-Maurice não era uma casa, mas um hospital. Ou melhor, um hospício, o Asilo de Lunáticos de Charenton. Apesar da imensa surpresa, Hadamard foi ao encontro de Bloch e em meio a uma longa conversa sobre temas matemáticos, ele conheceu a história do matemático lunático.

Racionalidade ou Loucura?

Filho de um relojoeiro judeu da Alsácia e de sua esposa, André Bloch nasceu em Besançon em 20 de novembro de 1893. Seus pais morreram durante sua infância, mas ele ainda tinha a companhia de dois irmãos. André vivia colado com Georges, o irmão mais velho. Tanto que, apesar da diferença de idade, os dois estudavam na mesma classe. Não era um simples caso de dependência: a inteligência de André era precoce mesmo. Apesar disso, Georges sempre foi mais bem-avaliado que o irmão.

Os dois, inseparáveis, entrariam juntos na École Polytechnique. Mas logo após o fim do primeiro ano, Georges e André foram separados pela eclosão da I Guerra Mundial em 1914. Ambos foram convocados. André acabou servindo como segundo-tentente na artilharia num quartel-general em Nancy. Ambos também seriam feridos em combate: Georges perdeu um olho e André se feriu seriamente ao cair de um posto de observação. Apesar disso, só Georges foi liberado em 7 de outubro de 1917 e pôde retomar os estudos. André foi hospitalizado diversas vezes, mas em vez de ser dispensado só receberia algumas licenças médicas temporárias.

Foi então que, em 17 de novembro de 1917, durante uma dessas licenças, a vida de André Bloch teve uma reviravolta digna de suspense. Enquanto visitava uns tios que viviam em Paris, ele atacou Georges, a tia e o tio durante um jantar. Após esfaquear todos até a morte, ele saiu gritando e correndo pela rua e acabou preso sem oferecer resistência. Como a França estava em guerra e o caso envolvia dois militares, o processo foi rápido e discreto. André acabou sentenciado a uma detenção vitalícia no Asilo de Charenton.

A real motivação para o crime nunca foi exatamente esclarecida ou confirmada. Surpreendentemente, o crime não teria sido passional mas sim racional. Bloch sempre se justificava dizendo que havia cumprido um dever — um dever eugênico. Como ele explicava calmamente, as leis da eugenia eram inquestionáveis e, dado o histórico de doença mental em sua família, ele foi obrigado a agir pelo bem dela.

Fora esse detalhe mórbido, André Bloch parecia perfeitamente lúcido e vivia trabalhando em diversas provas matemáticas. Isso é ainda mais notável porque ele era completamente autodidata: tudo que ele sabia, havia aprendido sozinho lendo os livros que tinha e as revista especializadas que assinava (entre elas, a renomada Bulletin des Sciences Mathematiques). Além de se corresponder com Jacques Hadamard, Bloch também manteve contato com outros matemáticos importantes, entre os quais o húngaro George Pólya (1887-1985) e os franceses Georges Valiron (1884-1955), Charles Émile Picard (1856-1941) e Paul Montel (1876-1975). [Haja longevidade!]. Ele sempre escrevia do endereço do hospital psiquiátrico, mas nunca revelava sua real condição. Curiosamente, Pólya recordava que, independente da data, Bloch sempre datava as cartas como escritas a 1º. de abril, um detalhe que também passou despercebido para muita gente. Muitas dessas cartas ainda existem e são uma fonte fascinante sobre as contribuições matemáticas de Bloch.

“Racionalidade mórbida”

Além de quatro artigos sobre funções holomorfas e meromorfas que se tornariam clássicos, André Bloch também é o autor de diversos papers nas áreas de teoria das funções, teoria dos números, geometria e equações algébricas. Mesmo isolado, ele acompanhava com grande interesse a vida acadêmica francesa e vivia de olho nas eleições para a Academie des Sciences. Bloch sonhava com uma permissão para apresentar pessoalmente seus trabalhos no Collège de France e na Universidade de Estrasburgo.

Mas ele também sabia que “com todas as possibilidades, não vai ser assim tão cedo.” De acordo com os registros da instituição, o matemático era, apesar de tudo, um paciente modelo, que vivia monasticamente e pouco interagia com outros internos ou funcionários. Ele evitava até passeios no jardim interno dizendo que “matemática é o bastante para mim.”  As obras de Bloch foram todas escritas numa mesa instalada a seu pedido no fundo de um corredor. Fora a matemática, seu único passatempo eram jogos de xadrez com um ou outro funcionário ou interno que soubesse jogar.

Mas ele nunca demonstrou qualquer remorso pelo crime que o levou à internação. A história de Bloch só chamaria a atenção após a publicação do livro de memórias Des Homes Come Nous (1977), do psiquiatra do asilo de Charenton, Henri Baruk (1897-1999). No livro, Baruk dedica um capítulo inteiro ao estudo do caso de André Bloch (mas o nome do matemático foi omitido). O médico comenta a “racionalidade mórbida” do paciente e descreve como os assassinatos teriam sido necessários para eliminar o que seria um ramo defeituouso na árvore genealógica dos Bloch.

Mesmo em idade avançada, o matemático continuava a se defender, dizendo que seus atos foram uma “questão de lógica matemática. Havia doença mental na minha família. É claro que a destruição de um ramo inteiro teve que se seguir.” Quando Baruk protestava, André o acusava de usar “linguagem emocional” e insistia que suas ações foram baseadas em sua filosofia de “pragmatismo e absoluta racionalidade.”

Porém, é difícil culpar apenas a racionalidade de Bloch por seus crimes. Sua filosofia dificilmente pode ter sido o único motivo para se tornar assassino. Como muitos jovens de sua geração, André deve ter voltado traumatizado da Grande Guerra. Além disso, desde os tempos da escola, ele sempre viu o irmão ser favorecido. Georges pôde voltar aos estudos após uma baixa mais “fácil” enquanto André, mesmo ferido, só recebia algumas folgas. Não seria absurdo concluir que o crime foi, também, uma vingança.

O fim de sua vida foi bastante irônico. Durante a ocupação nazista, ele teria que se esconder de um regime eugênico, mesmo estando internado. Bloch continuava a escrever e a publicar, mas sob os pseudônimos de René Binaud e Marcel Segond para não chamar a atenção das autoridades sobre suas raízes judaicas. Após a guerra, ele teve leucemia e pôde enfim sair do sanatório — para acabar em outro hospital. André Bloch faleceu aos 54 anos após uma operação no Saint-Anne Hospital em 11 de outubro de 1948. Pouco antes de morrer, ele soube que a Academie des Sciences lhe entregaria um Prêmio Becquerel (a entrega seria realizada postumamente).

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