Há exatos 20 anos, Isaac Asimov saía de cena. Filho de russos emigrados para os Estados Unidos, e com um nome que sempre teve cara de pseudônimo para os americanos, Asimov começou sua brilhante carreira de escritor no que para muitos, especialmente para seus fãs, é a idade de ouro da Ficção Científica: os anos 40 e 50 [do século XX]. Ao longo do quase meio século que se seguiu, Asimov escreveu sobre praticamente tudo — da Bíblia aos robôs. Na ocasião da morte de Asimov, em 1992, Carl Sagan, cientista e outro grande divulgador científico, escreveu o seguinte artigo para a Skeptical Inquirer:

Uma Celebração de Isaac Asimov: Um Homem para o Universo

Carl Sagan, Skeptical Inquirer, Vol. 17.1, Outono de 1992

Isaac Asimov foi um dos grandes explicadores de nossa época. Como T. H. Huxley, ele era motivado por impulsos profundamente democráticos a comunicar a ciência ao público. “A Ciência é importante demais”, disse ele, parafraseando Clemenceau, “para ficar apenas com os cientistas”. Nunca saberemos exatamente quantos cientistas ativos hoje em dia, em diversos países, devem sua inspiração inicial a um livro, artigo ou conto de Isaac Asimov — nem quantos cidadãos comuns são simpáticos aos empreendimentos científicos pelas mesmas razões. Por exemplo, Marvin Minsky, do MIT [Instituto de Tecnologia de Massachussets], um dos pioneiros da inteligência artificial foi apresentado à sua área de estudo pelos contos de robôs de Asimov (inicialmente concebidos para ilustrar parcerias humano/robô e contrabalançar a noção, presente desde Frankestein, de que robôs são necessáriamente malignos). Numa época em que a Ficção Científica estava inteiramente voltada para a ação e a aventura, Asimov introduziu histórias com esquemas enigmáticos, que ensinavam como é a ciência e como pensar.

Muitas de suas frases e ideias têm se incorporado à cultura da ciência — como sua simples descrição do sistema solar resumido a “quatro planetas [i.e., os gigantes gasosos] e o resto” e sua noção de que um dia será possível levar icebergs dos anéis de Saturno até os sertões de Marte. Ele escreveu muitos livros de ciência para jovens e, como editor de sua prórpia revista de ficção científica, fez esforços para encorajar jovens escritores.

Sua obra foi prodigiosa, aproximando-se dos 500 volumes, sempre em sua sintaxe característica, plana e direta. Parte do motivo do sucesso de sua série Fundação sobre o declínio de um império galáctico é que ela é baseada numa leitura aproximada do Declínio e Queda do Império Romano, de Gibbon: o tema principal era o esforço de manter a ciência viva durante o desenrolar da Era das Trevas.

Asimov falava alto a favor da ciência e da razão e contra a psedociência e a superstição. Ele não tinha medo do criticar o governo dos EUA e estava profundamente comprometido com a estabilização do crescimento populacional do mundo.

Infelizmente, a sonda microscópica que ele descreveu em sua Viagem Fantástica — capaz de entrar na corrente sanguínea humana e reparar danos nos tecidos — ainda não estava disponível na época de sua morte. Nascido numa dura pobreza, e com uma paixão vitalícia pela escrita e pela explicação, Asimov levou uma vida feliz e bem-sucedida pelos seus padrões. Num de seus últimos livros ele escreveu: “Minha vida está prestes a encerrar seu curso e eu realmente não espero viver muito mais”. Entretanto, ele prosseguiu e o amor por sua esposa, a psiquiatra Janet Jeppson e o dela por ele, sustentou-o. “Foi uma vida boa, e eu estou satisfeito com ela. Então, não se preocupe comigo.”

Eu não me preocupo com ele. Em vez disso, preocupo-me com nós, sem nenhum Isaac Asimov por perto para inspirar aprendizado e ciência nos jovens.

Hoje, porém, estamos em situação muito mais preocupante. Sagan se foi, ainda jovem (com menos de 60 anos), apenas quatro anos depois de escrever o obituário de Asimov.

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