A senhora acabou de casar com um príncipe encantado mas teve a infeliz descoberta de que ele ronca feito um sapo asqueroso? E o senhor? Está cansado de ser rejeitado pelo ruidoso ressonar? Vossos problemas acabaram! Ao menos é o que diria Gilbert S. Macvaugh, inventor do Snoring deconditioning system and method [Sistema e método de descondicionamento de ronco], cujos princípios são

Dois procedimentos experimentais de ensino-aprendizado psicológicos resistentes e profissionalmente aceitos são aplicados nesta invenção, quais sejam, o condicionamento Pavloviano (respondente), que sobrepõe-se ao condicionamento Skinneriano (operante). O sistema de descondicionamento de ronco aqui descrito prevê as seguintes fases: (1) serão aplicados ao dormente roncoso quatro reforçadores negativos suaves e inofensivos (visual, auditivo, tátil, dor), cada qual seletivamente, os quais são incompatíveis com o comportamento socialmente irritante de roncar, de modo a elicitar a resposta de despertar; (2) a pessoa deverá, após despertar, mudar a posição de sua cabeça, braços e mãos e (3) a pessoa deverá pressionar e manter pressionado por 15 segundos um botão com a finalidade de cessar os quatro reforçadores negativos; tal botão também aplica simultaneamente dois reforçadores positivos (gustativos e auditivos) como recompensas pela exibição dos comportamentos (1), (2) e (3) supracitados. Assim, o equipamento é desativado automaticamente até que a próxima resposta de ronco seja emitida durante o sono subsequente. O sistema de descondicionamento de ronco traz meios automaticamente responsivos para um significante nível de ruído por um dormente para iniciar a primeira fase. O passo de desativação consciente e deliberada dos estímulos aversivos e ativação dos positivos é crítico para o processo de condicionamento do indivíduo a dormir sem roncar. Há uma escolha para o tipo de estimulação aversiva, que pode ser modificada caso o dormente se torne habituado a determinado tipo de estímulo aversivo.

Uau, esse é um dos mais longos resumos de patentes que já vimos! Por outro lado, nem é preciso justificar muito um invento desses. E é exatamente isso que faz Mr. Macvaugh, de Chevy Chase, Maryland (nada a ver com o ator e comediante “Chevy” Chase, da série Férias Frustradas).

Macvaugh limita-se a descrever razoavelmente bem as possíveis reações de um roncador: ele pode ter “uma vaga memória do instante em que desperta”, mas ainda assim “irá negar veementemente que estava roncando”. Ou então o desgraçado “pode perceber, de modo intelectual, que ronca, mas não acredita de forma pessoal e apaixonada, na magnitude do impacto de seu ronco sobre os outros.” O objetivo do invento, portanto, é convencer e educar o usuário que sofre de apnéia. Em seguida, Macvaugh discute os tratamentos então disponíveis quando a patente 3.998.209 (pdf) foi aprovada, em 21 de dezembro de 1976:

Por exemplo, (1) objetos desconfortáveis, como bolas, tem sido costurados na roupa de cama, de modo a prevenir que o roncador durma sobre suas costas. Isso é raramente eficaz, pois o mesmo continua a roncar, agora em uma posição desconfortável. […] Deve-se notar que o ronco pode acontecer em qualquer postura de sono.

Como outro exemplo, (2) técnicas de aprendizado pelo sono, nas quais uma mensagem gravada é tocada para o roncador enquanto ele dorme. A mensagem aconselha-o a parar de roncar e como fazê-lo. Essas tentativas não têm sido bem-sucedidas, menos ainda são aquelas que tentam instilar o conhecimento acadêmico [do assunto] através do aprendizado pelo sono.

Ironicamente, um dos estímulos propostos por Macvaugh para tratar o ronco é justamente o auditivo, na forma de “um som prontamente audível pelo dormente, cuja cabeça está em contato com o travesseiro” (estímulo negativo) e (como estímulo positivo) “a execução de uma mensagem pré-gravada, audível, através do alto-falante. A mensagem, por exemplo, pode ser do treinador(!) do paciente, dizendo: ‘Você seguiu as instruções e pressionou o botão o bastante. Bem feito.’” Entre os outros estímulos negativos, o inventor propõe o uso de uma pulseira que vibra e/ou dá choques elétricos e o acendimento de luzes projetadas sobre o rosto do infeliz; balas e “M&M” estão entre os estímulos positivos.

Evidentemente, se o uso de mensagens pré-gravadas não funciona em outros sistemas — houve outras cinco patentes similares, registradas desde 1962 —, não seria melhor no sistema Macvaugh. Se fosse, a essa altura você já teria ouvido falar no nome do cara. Como todos os sistemas de condicionamento, esse depende muito da força de vontade do usuário, algo que nem sempre é garantido: em vez de parar de roncar a reação pode ser desligar o aparelho.

Além disso (ou talvez por isso mesmo), o aparelho patenteado é relativamente complexo — a ponto de precisar de um auxiliar para regular e escolher os estímulos; no caso, a esposa —, o que certamente tornou sua comercialização inviável. Afinal, minha senhora, porque você pagaria por um aparelho que prometesse acabar com o ronco do seu marido se você tivesse que acordar para desligá-lo se seu cônjuge decide ignorá-lo? Insônia por insônia, fique com a do ronco, que pelo menos é de graça.

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