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Quem nunca ficou rascunhando ideias no fim de um caderno ou fez desenhos aleatórios enquanto fala ao telefone? Leonardo da Vinci rascunhava copiosamente em folhas avulsas, cadernos e diários. Entre um desenho e outro, o polímata italiano esboçava noções de astronomia e perspectiva, cálculos matemáticos, ideias filosóficas e projetos de engenharia ou de pintura. Com ou sem desenvolvimento, a maioria de nós tende a descartar essas ideias embrionárias. Embora não as tenha publicado, Leonardo as preservou muito bem.

Após a morte de da Vinci, em 1519, Francesco Melzi (1491-1570) — pupilo (e suposto amante) de Leonardo — ficou com as anotações do mestre. Após a morte de Melzi, seus herdeiros venderam os tesouros herdados — afinal, a maioria não passava de rascunhos e muitos eram quase indecifráveis. O criador de Monalisa, numa espécie de criptografia caligráfica, fez suas anotações num script espelhado.

No século XVII, parte da coletânea de anotações do mestre florentino chegaria às mãos de Thomas Howard (1585-1646), segundo Conde de Arundel e ávido amante das artes. No século XIX, os manuscritos leonardinos de Arundel passaram à British Library. Desde que foram criadas, essas inscrições consideradas geniais passaram a maior parte do tempo ocultas e praticamente inacessíveis — primeiro nas mãos do próprios Leonardo, que nunca teve intenção de publicá-las, depois nas prateleiras de colecionadores como Arundel  e da biblioteca nacional da Grã-Bretanha.

As anotações continuam muito bem guardadas, mas a British Library acaba de concluir a digitalização integral das notas de da Vinci feitas entre 1478 e 1518 e reunidas no chamado Codex Arundel. E agora quem se interessar pode acompanhar a imaginação de Leonardo registrada em 570 imagens. Para os mais apressados, há uma exposição virtual resumida, com textos de apoio e traduções de trechos.

Apesar da disponibilidade on-line, os manuscritos por si só são mais uma curiosidade estética ou histórica do que uma leitura reveladora ou talvez até mesmo uma fonte de inspiração. Mas isso não é necessariamente ruim ou frustrante. Ao contrário, pode ser uma demonstração clara do valor das ciências humanas.

Como notou a revista americana The Atlantic, sem uma boa contextualização histórica, “há uma inescrutabilidade fundamental destes textos aos olhos destreinados.” Quem for ler as notas de Leonardo inevitavelmente vai ter que lidar com uma linguagem estranha, antiquada e intencionalmente obscura. Mas também vai se perguntar se determinada ideia saiu ou não do papel, ou quando ou como ela surgiu. Perguntas como essas é que são enriquecedoras e as respostas não estão nos manuscritos, mas em suas interpretações.

Uma vez digitalizados, os documentos antigos — como as relíquias leonardinas — não fazem sentido para o leitor comum. Ainda mais nestes tempos de textos e leituras rápidas e superficiais. A digitalização de tais obras tem demonstrado que a análise e os estudos de historiadores, biógrafos e especialistas são insubstituíveis na explicação daquilo que sai dos arquivos e vai para as telas de computadores, tablets ou celulares.

Nada impede, porém, a admiração pura e simples (e quiçá ociosa) dos rascunhos per se. Há uma inegável beleza nos velhos papeis de Leonardo. Como em todo rascunho, há alguma desordem: algumas páginas são bem cheias, enquanto outras mal são traçadas. O longo segredo em torno desses volumes e a disparidade de assuntos na mesma página são igualmente sedutores. Em meio a projetos e estudos há coisas banais como listas de despesas e lembretes. É uma pena que (ainda?) não possamos apreciá-los integralmente, sentindo suas texturas e seus aromas.

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