parto centrífugo

A senhora está grávida, mas acha que não tem forças para botar seu filho no mundo? Apesar disso, a senhora não quer passar por uma cesariana? Acha o fórceps muito invasivo? Que tal usar uma combinação de força centrífuga e gravidade para por fim à gravidez? Parece uma ideia radicalmente absurda, mas já faz meio século que um casal nova-iorquino inventou um Apparatus for facilitating the birth of a child by centrifugal force [Aparelho para facilitar o nascimento de uma criança por força centrífuga], cujo principal objetivo é

proporcionar um aparato que auxiliará a mulher sub-equipada [sic] através da criação de uma força gentil, uniformemente distribuída, apropriadamente controlada e precisamente direcionada e que age em uníssono e complementa os próprios esfoços dela. De acordo com a invenção, é dado um aparelho rotável capaz de submeter a mãe e o feto a uma força centrífuga direcionada para assistir e suplementar os esforços da mãe de modo que tal força centrífuga e seus esforços [musculares] atuem em concerto para superar a ação de forças resistentes e facilitar a libertação da criança.

Parece brincadeira, mas George B. Blonsky e Charlotte E. Blonsky (presumivelmente sua esposa) estavam falando bem sério. Afinal o USPTO não patentearia, sob nº. 3.216.423, uma ideia que parece ter saído da mente dos criadores da série Jackass. O pedido de patente deu entrada em 15 de janeiro de 1963 e, após uma longa gestação, foi aprovado em 9 de novembro de 1965.

Quando falam em “mulheres sub-equipadas”, os Blonsky estão sendo bem literais. Isso fica bem claro logo no segundo parágrafo do texto:

Sabe-se que, devido às condições anatômicas naturais, o feto necessita da aplicação de considerável força propulsória para lhe permitir abrir as paredes vaginais que se contraem, para superar a fricção das superfícies uteral e vaginal e para neutralizar a pressão atmosférica que opõe-se à emergência da criança. No caso de uma mulher que um sistema muscular plenamente desenvolvido e tenha passado por amplo esforço físico ao longo de toda a gravidez, como é comum entre os povos mais primitivos, a natureza provê todo o equipamento e a força necessária para um parto normal e rápido. Esse não é, entretanto, o caso de mulheres mais civilizadas, as quais frequentemente não tem a oportunidade para desenvolver os músculos necessários durante o parto.

Só que, em vez de recomendar um retorno aos métodos ancestrais de dar à luz — como o parto de cócoras — ou a prática constante de excercícios físicos antes e durante a gravidez, os Blonsky oferecem uma solução típica da sociedade industrial: uma máquina. Aliás, uma bem complexa e que tomaria bastante espaço nos hospitais e maternidades.

Resumidamente (ou não), o parto físico-mecânico funciona assim: a mulher grávida em trabalho de parto é pesada e depois colocada em um suporte, ao qual será, por razões óbvias, fortemente amarrada com as pernas abertas. Esse suporte é levado de maca à sala de parto, onde fica o resto da máquina. Lá, o suporte é fixado a uma plataforma giratória movida, através de grandes polias, por um grande motor elétrico. Essa plataforma fica por trás de grades ou dentro de uma espécie de gaiola. A cabeça da parturiente fica próximo do centro de rotação. Um contrapeso é enchido com uma massa de água equivalente ao peso da grávida.

A máquina é então acionada por duas pessoas, um ginecologista e um operador. A velocidade é lentamente aumentada e calculada de acordo com o peso da mulher e o peso estimado do bebê. Para que o recém-nascido não saia voando, uma rede elástica é presa entre as pernas da mãe. Quando o bebê sai da vagina e cai nessa rede, seu peso pressiona um botão sob o suporte. Esse botão, por sua vez, aciona uma campainha que informa ao ginecologista e ao operador que o parto foi bem sucedido e que a máquina pode ser desacelerada.parto centrífugo 2

A velocidade máxima de rotação, segundo a patente, é de 82,3 rpm, o que geraria uma força equivalente a 7 g(!). Geralmente, a plataforma giratória é mantida na posição horizontal. Se houver necessidade de força adicional, a plataforma pode ser inclinada em ângulos pré-determinados através de cálculos para que a gravidade também dê uma forcinha. Nesse caso, é preciso levar em conta que a força extra tem que ser a resultante da gravidade com a força centrífuga.

Como era de se esperar, os Blonsky não consideram os riscos do equipamento que inventaram. O primeiro e mais óbvio é a própria força centrífuga (ou psedoforça). Como ela seria calculada? Com base no atrito do útero e da vagina? Da força de contração muscular? Esse atrito não seria facilmente neutralizado pelos líquidos amnióticos da bolsa estourada? O casal de inventores parece sobreestimar a participação do atrito mãe-filho. Até a pressão atmosférica foi considerada entre os fatores de resistência!

Ainda que proponham um meio simples (e relativamente engenhoso) para deter a máquina logo após o nascimento, sempre há a possibilidade de falhas humanas e mecânicas. A rede de proteção onde o recém-nascido cai, por exemplo, pode se soltar. O botão de alarme que seria acionado pelo peso do bebê pode não funcionar ou travar.

E a saúde da mãe, como fica? Graças aos perigos de uma plataforma giratória, não há nenhum espaço previsto para que algum médico, enfermeiro acompanhe a parturiente ou algum equipamento que a monitore. Se ela sofrer uma parada cardíaca, por exemplo, seria necessário esperar a máquina inteira parar para socorrê-la. Também por isso, não é possível avaliar o estado de saúde do bebê antes que ele e a mãe parem de girar. Se o pimpolho tiver uma parada respiratória por sair enrolado no cordão umbilical também não terá atendimento imediato. Até o clássico tapa na bundinha ficaria pra depois.

Por fim, o próprio fato de mãe e filho ficarem confinados dentro de uma espécie de gaiola demonstra certa falta de confiança dos próprios inventores. Os Blonsky parecem ter previsto que as amarras podem se romper e uma parturiente e/ou um recém nascido poderiam sair voando pela sala de parto…

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