A certa altura de Things not Generally Known, Familiarly Explained. A book for old and young [Coisas pouco conhecidad ordinariamente, com explicações familiares. Um livro para jovens e velhos] (1866), John Timbs apresenta um pequeno carnaval de teorias — ora mais cosmológicas, ora mais teológicas — sobre o surgimento do planeta Terra:

“A Terra”, diz Burnet, “foi primeiro revelada com uma crosta leve e uniforme que cobria os abismos do mar e que, sendo rompida para a produção do Dilúvio, formou as montanhas com seus fragmentos.” — [Telluris] Theoria Sacra [1681].

Thomas Burnet [1635?-1715] foi um teólogo britânico que propôs uma cosmologia baseada numa espécie de ovo planetário, que só foi rompido durante o dilúvio. Será que Deus foi a galinha que o botou e o chocou?

Falando em dilúvio,

“O dilúvio”, segundo Woodward, “foi ocasionado por uma suspensão momentânea da coesão entre as partículas dos corpos minerais. O globo inteiro foi dissolvido e a pasta assim formada tornou-se salpicada com conchas.” — [An Essay toward a Natural History of the Earth and Terrestrial Bodies, especially Minerals, &c., 1695]

Com sua matéria dissolvente para explicar conchas enterradas no solo, o naturalista inglês John Woodward [1665-1728] parece até esses teóricos do criacionismo do séc. XXI, pra quem os fósseis são mero acidente do dilúvio. Ou então trollagens divinas. Ou, ainda, armadilhas do tinhoso.

“Deus”, explica Schenekzer, “elevou as montanhas para o propósito de permitir que as águas que haviam produzido o dilúvio escoassem; e selecionou aqueles locais nos quais eram maiores as quantidades de rochas, sem as quais as montanhas não poderiam ser suportadas.” — Mém[oires] de l’Académie.

É óbvio que as montanhas tenham sido formadas onde mais se acumularam rochas! Duh! Schenekzer poderia muito bem passar por Dr. Óbvio. Pena que sua identidade não seja tão óbvia: quem é esse tal de Schenekzer?

A New Theory de Whiston é que “a Terra foi formada da atmosfera de um cometa e inundada pela cauda de outro. O calor que reteve de sua origem foi a causa que excitou seus habitantes a pecar; por isso, todos foram afogados, com exceção dos peixes que, felizmente, haviam sido protegidos do calor e permaneceram inocentes.”

Agora bem velha, a teoria do teólogo, historiador e matemático britânico William Whiston [1667-1752] não deixa de ser contraditória e bisonha. Primeiro porque a atmosfera de um cometa forma a superfície de um planeta que só será inundado pela cauda de outro cometa. Seriam assim tão diferentes a atmosfera da cauda de um cometa? Segundo porque, embora não explique a origem do calor interno do planeta, Whiston atribui a a esse calor infernal a raiz de todos os males humanos.

Por outro lado, o matemático e filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz [1646-1716] quase acerta:

“A Terra”, afirma Leibniz (Protogoea, [1693]), “é um sol extinto, um globo vitrificado, sobre os quais os vapores, caindo novamente após se resfriarem, formaram os mares, nos quais posteriormente depositaram-se formações calcárias.”

Mas essa teoria não resolve muito, já que apenas posterga a verdadeira origem do material planetário. Se a Terra já foi um sol, como este se formou antes de se resfriar? Leibniz não explica.

“O globo inteiro”, declara Demaillet, “foi coberto por água por muitos milhares de anos. As águas retrocederam gradualmente. Todos os animais terrestres eram, originalmente, habitantes do mar. O homem era inicialmente um peixe; e ainda há  peixes que se podem encontrar nos oceanos e que são semi-humanos, em seu progresso para a perfeita forma humana, e cujos descendentes, com a marcha dos tempos, tornar-se-ão homens.”

Até afirmar que o planeta já foi largamente coberto por oceanos e que neles surgiu a vida, o diplomata e naturalista francês Benoît Demaillet [1656-1738] vai bem. Daí, ele derrapa ao fazer do homem descendente direto dos peixes e capota ao sugerir a existência de seres sireniformes como o elo perdido entre homens e peixes.

A Théorie de Buffon é: “A Terra era um fragmento do sol, golpeado e incendiado pelo choque de um cometa; junto com todos os outros planetas, que também eram fragmentos ferventes. A idade do mundo pode, portanto, ser calculada do número de anos que levaria para resfriar uma massa incandescente tão grande até sua presente temperatura. Evidentemente, ela está esfriando a cada ano; como todos os planetas finalmente será um globo de gelo.”

Matemático, naturalista e escritor francês, Georges-Louis Leclerc, o Conde de Buffon [1707-1788], é o que mais parece se aproximar do modo como a astronomia de hoje entende a formação do sistema solar: planetas como estilhaços solares. É uma possibilidade. Mas em vez de um cometa, seria necessária a aproximação de outra estrela em relação ao sol para tirar-lhe os fragmentos proto-planetários. Se trocasse a Terra pela Lua, o Sol pela Terra e um cometa por um planetoide, Buffon teria antecipado a teoria hoje mais aceita sobre a criação da Lua. So close!

Lamarck escreve: “Todas as coisas eram originalmente fluidas. As águas deram à luz os insetos microscópicos; os insetos, no curso das eras, agigantaram-se em animais maiores; os animais, no decorrer das eras, converteram uma porção da água em solo calcário; os vegetais converteram outra em argila! As duas substâncias, no passar das eras, converteram-se em sílex; e assim as montanhas silicosas são as mais velhas de todas. Todas as partes sólidas da Terra, portanto, devem sua existência à vida. E sem vida, o globo seria inteiramente líquido.”

Lamarck fazendo lamarquice!

“A Terra”, diz Patrin, Dict[ionnaire]. d’Histoire Naturelle, “é um grande animal; está viva; um fluido vital nela circula; cada uma de suas partículas tem vida; tem instinto e volição, mesmo em suas mais elementares moléculas que atraem e repelem umas às outras de acordo com simpatias e antipatias. Cada mineral tem o poder de converter imensas massas em sua própria natureza, como convertemos alimentos em carne e sangue. As montanhas são os órgãos respiratórios do planeta! Os xistos são os órgãos da secreção; os veios minerais são os abscessos e os metais são produtos de doenças, razão pela qual a maioria deles tem um odor repulsivo.”

O mineralogista francês Eugène Louis Melchior Patrin [1742-1815] já descrevia o planeta Terra como um grande organismo vivo com dois séculos de antecedência! Chupa, James Lovelock!

Por fim, a mais sintética mas não mais esclarecedora das opiniões veio do naturalista alemão Lorenz Oken [1779-1851]:

Oken diz: “Tudo é feito por polarização.”

OK, Oken.

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