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Não importa se você é um artista numa gloriosa noite de autógrafos ou um chefe de repartição  numa inglória tarde de assinaturas de cópias e mais cópias do mesmo documento: escrever à mão cansa. Pode até mesmo doer. Se não dá pra parar para o cafezinho, seria bom poder ter ao menos uma massagem na mão ou no braço. Seja qual for o seu caso, se você sofre por escrever demais, o Vibrating writing instrument [Instrumento de escrita vibrátil] pode ser seu sonho de consumo:

Um instrumento de escrita, como uma caneta esferográfica, que inclui mecanismo vibratório de relé que inclui um braço que se move entre uma primeira posição em contato com um invólucro e um segunda posição espaçada do invólucro. Quando o braço se move para a primeira posição, o impacto entre o braço e o invólucro envia um choque que é transferido ao usuário para aliviar as tensões associadas à fadiga do escritor [writer’s cramp]. Um mecanismo de controle controla [sic] a operação cíclica do braço do relé vibratório e uma fonte de energia que inclui uma bateria armazenada no invólucro.

Nada mais relaxante que um pequeno choquinho, não é mesmo? Uma ideia que acabaria sendo aplicada a mouses. Mas a primeira a pensar nisso e aplicar o conceito a “instrumentos de escrita” foi uma mulher com um nome que parece um trocadilho infame para se referir a uma latina budista (ou uma budista latina): Donita Buda.

Donita Buda, saiu de Jupiter — uma vila da Flórida e não o planeta — e foi a Washinton para entrar com o pedido de patente no USPTO em 16 de janeiro de 1992. Ela tinha, claro, as melhores intenções:

Muitas pessoas sofrem do que é genericamente chamado de “fadiga do escritor”. Para a maioria das pessoas, esse incômodo aparece após longos períodos de escrita ou de escrever em posições espasmódicas [cramped positions; i.e., em posições estreitas ou constrangidas]. Também aparece rapidamente em pessoas que sofrem de artrite ou outros problemas similares em suas mãos.

Para Dona Buda, mesmo com “barris [cilindros] especiais”, os instrumentos de escrita comuns — como uma bic — não são o bastante para evitar ou aliviar as dores de uma secretária velhinha, por exemplo. “Alguns instrumentos são até superdimensionados em consideração desse problema. A arte [estabelecida] também inclui acessórios especiais como ranhuras para os dedos que se ajustam ao instrumento de escrita”.

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Ao contrário do que pode parecer, o choque proposto como solução não é elétrico, mas mecânico. Segundo a inventora jupiteriana:

A vibração é transferida para a mão do usuário e serve para aliviar os efeitos da fadiga do escritor. A vibração pode ser ajustada pelo usuário para se adequar à situação de suas necessidades. Assim, por exemplo, um usuário pode desejar vibrações rápidas enquanto outro quer vibrações lentas. Longos períodos de uso podem requerer vibrações lentas ou mesmo intermitentes ao passo que usos breves podem ter vibrações rápidas como maneira mais efetiva de aliviar a fadiga do autor.

O pessoal do USPTO deve sofrer muito desse tipo específico de lesão por esforço repetitivo¹. Deve ter sido por isso que levaram menos de um ano para aprovar, em 24 de novembro de 1992, a caneta vibratória de Buda² sob número 5.165.814 [pdf].

Ainda assim, por melhores que sejam as intenções de Dona Donita, isso não significa que a coisa realmente funciona. A caneta pode até vibrar — talvez até dar choquinhos elétricos, considerando que é alimentada por uma pilha —, mas a inventora não apresenta nenhuma comprovação científica de que isso realmente alivia a tal fadiga do escritor. Mesmo que haja tal alívio, ele pode decorrer mais do misto de surpresa e efeito placebo criado pelo choque do que por motivos puramente fisiológicos.

Pior ainda: mesmo se funcionar e aliviar dores, a caneta vibratória de Buda ainda é risível por dois motivos práticos. A não ser que você não esteja escrevendo, ao vibrar ela vai, obviamente, interferir na escrita. Nada mais irritante que uma garatuja involuntária no meio de um documento importante. E essa irritação pode causar mais dor. E essa dor pode ainda ser intensificada só pelo cansaço causado pelo peso do instrumento de  escrita. Não deve ser nada confortável escrever com uma caneta equipada com uma pilha, um interruptor e um motorzinho.

E se você é maior de idade, não é difícil perceber outro uso — digamos, mais íntimo — para uma caneta vibratória…

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¹ Quando você acha que a coisa não pode ficar mais patética, descobre que o USPTO ainda aprovou outras três patentes (nºs. 5.244.299, 5.688.063 e 6.802.818) para coisas parecidas “inventadas” por chineses taiwaneses entre 1993 e 2004. Talvez a invenção de Bonita Bunda Bonita Duda Donita Buda não tenha sido muito efetiva…

² “A caneta vibratória de Buda” — isso não parece título de um filme B místico-paranormal?

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