Ei, George, acho que esse anúncio é pra você! Ouça... [gravura de PUNCH, OR THE LONDON CHARIVARI. Vol. 156. May 7, 1919., via gutenberg.org]

Ei, George, acho que esse anúncio é pra você! Ouça… [gravura de PUNCH, OR THE LONDON CHARIVARI. Vol. 156. May 7, 1919., via gutenberg.org]

Esse negócio de publicar anúncios sob anonimato em busca de amores à primeira vista é mais velho do que se pensa. Talvez tão antigo quanto a imprensa, o ato de descrever alguém e fazer-lhe uma proposta (com ou sem segundas intenções) acontecia nos murais de redes sociais de 1700 e pouco: as páginas dos classificados.

Os seguintes exemplos são apresentados por Henry Sampson em A History of Advertising from the Earliest Times, Illlustrated by Anecdotes, Curious Specimens and Biographical Notes [Uma História dos Anúncios desde os Tempos mais Antigos, Ilustrada por Anedotas, Espécimes Curiosos e Notas Biográficas] (1874). O primeiro encontra-se no General Advertiser de outubro de 1748:

Considerando a lady que, na noite do último sábado no teatro de Drury Lane, em um dos camarotes à esquerda, foi observada a tomar particular interesse de um gentleman que sentava-se perto do meio da plateia; como sua companhia seria estimada com o maior dos favores, ela humildemente deseja mandar-lhe instruções de como e de que maneira pode ser encontrada. Mandar a referida carta aos cuidados de P.M.Z., na Cafeteria Portugal, próxima à Bolsa de Valores.

O próximo também saiu nas folhas do General Advertiser em 1748, embora a data exata da edição seja incerta:

Considerando a jovem lady que estava no teatro de Covent Garden na noite da última Quinta-feira, e que recebeu um golpe com um pedaço de madeira quadrado em seu busto; se a moça for solteira e encontrar-me às duas da tarde de Domingo, no Calçadão do St. James Park, ou mandar uma mensagem aos cuidados de A.B. para Mr. Jones, na Sun Tavern em St. Paul Churchyard, onde e quando eu estarei esperando por ela, para informá-la de algo que lhe será muito vantajoso, nos mais honrosos termos, sua companhia será um prazer duradouro ao seu mais obediente servo.

Jogar um pedaço de madeira no seu alvo para tentar ser percebido: quem nunca?

Parece haver alguma relação entre esses dois anúncios, não é mesmo? Ambos estão ambientados em teatros. Num, é a moça quem procura; noutro, é o rapaz. Nos dois casos, as mensagens deviam ser encaminhadas aos cuidados de taberneiros. Entretanto, como Londres já era uma metrópole, com cerca de 750.000 habitantes, é pouco provável que o “mais obediente servo” do segundo anúncio estivesse à procura justamente da “lady” do primeiro. Mas também não é inteiramente impossível que um casal tenha se formado ao ler anúncios um do outro.

O próximo exemplo, do General Advertiser de 6 de janeiro de 1752, é meio estranho. Ou ousado:

Considerando que duas jovens damas, de figura graciosa, membros delicados e aspecto nobre, que ultimamente se afastaram de seus admiradores e são suspeitas de ter mandado um grande Pacote, contendo quatro Palavras indecentes em várias Línguas, para um cavalheiro [que vive] próximo da Hanover Square: Este é para informar que quem quer que possa induzir essas damas a se renderem àquele cavalheiro receberá uma recompensa adequada. As damas podem confiar na discrição do cavalheiro.

Para alguns galhardos cavalheiros não basta uma: é preciso ter duas damas de uma vez só. O nosso cavalheiro parece ser gentil-homem até, mas talvez seja um stalker tarado mesmo. De que outro modo ele saberia que as moças estavam recém-separadas? Poderia até ser um conhecido, mas então porque ele ofereceria uma recompensa em troca do contato com elas? E a pergunta que não quer calar: quais eram aquelas quatro palavras indecentes em várias línguas? Como ele poderia saber que foram elas que enviaram o sórdido pacote e não um sacana qualquer?

Na mesma edição do General Advertiser, é possível encontrar um anúncio bem mais claro. Exceto, talvez, por um detalhe:

Uma alta, bem-vestida, bela jovem mulher, por volta dos dezoito anos, com uma bonita flor em seu semblante, uma marca em um de seus olhos, vagamente discernível, um nariz bem torneado, cabelo castanho-escuro liso, esvoaçante, na altura de seu pescoço, que parecia ter sido recém-cortado; andava no último dia de ano-novo, por volta das três da tarde, bem depressa por Long Acre, e perto da curva para Drury Lane encontou um jovem gentil-homem, vestido num casaco azul, para quem ela olhou bastante detidamente: Ele acredita que já teve o prazer de lhe conhecer: Se ela mandar-lhe uma mensagem aos cuidados de H. S., Esq., a ser entregue no bar da Cafeteria Prince of Orange, no canto de Pall Mall, informando-lhe onde se pode falar com ela, ela será informada de algo que lhe é grandemente vantajoso. Ela andava num vestido de cor escura, chapéu escuro e capuzinho; uma pequena senhora de meia-idade, vestida ordinariamente, e um pedestre que a seguia de perto pareciam servi-la.

Obviamente, o que havia sido recém-cortado nessa moça foi o “cabelo castanho-escuro liso” e não o “pescoço”. E “grandemente vantajoso”? Sei…

Infelizmente, porém, não sabemos como essas buscas terminaram. Talvez nunca saberemos.

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