De uns tempos pra cá, a historiografia latino-americana tem se esforçado para mostrar que os nativos americanos não foram tão ingênuos nem tão inocentes na Conquista da América. É verdade que algumas tribos e etnias aliaram-se aos espanhóis e portugueses durante os primórdios do período colonial. Mas isso não anula os esforços de resistência por parte de outros povos indígenas. Das diversas rebeliões de ameríndios, pode-se dizer que a Revolta Pueblo ou Revolução de Popé foi uma das mais bem-sucedidas.

Em 1680 os índios Pueblo, nativos da atual região do Novo México, levantaram-se contra os colonizadores espanhóis que haviam se estabelecido algumas décadas antes em seu território. Estimulados por uma série de condições naturais e humanas adversas, os Pueblos revoltosos mataram 400 espanhóis e expulsaram outros 2000 colonos hispânicos a partir de 10 de agosto de 1680.

Antecedentes Históricos

A ocupação europeia do vale do Rio Grande e do Novo México havia sido iniciada em 1598, com a chegada de Juan de Oñate (1550-1626), acompanhado de 129 soldados, 10 missionários franciscanos, além de mulheres, crianças, escravos e gado. Em contrapartida, cerca de 40 mil índios Pueblo já habitavam a região há milhares de anos. Inicialmente, as aldeias locais ofereceram pouca ou nenhuma resistência aos invasores. A única exceção foi o Pueblo de Acoma, que se revoltou pouco depois da chegada dos espanhóis. Oñate sufocou a revolta ao escravizar centenas de índios e mandar que os 24 mais revoltosos tivessem o pé esquerdo amputado. O assim chamado Massacre de Acoma instalaria ódios que explodiriam algumas décadas mais tarde.

O revide dos índios só ficou pra mais tarde porque, a princípio, os espanhóis até introduziram alguns benefícios. Graças aos colonizadores, os indígenas passaram a lidar com novas culturas, como trigo, pera e melancia, além da pecuária, que ainda desconheciam. Ferramentas agrícolas como o arado também foram adotadas. Vez por outra, havia assaltos de tribos nômades como os Apache e os Navajo e os Pueblos eram protegidos pelos espanhóis. No entanto, muito desses assaltos de nativos nômades eram em parte causados pelos próprios espanhóis em suas caçadas para apresamento e escravização de outras tribos.

A cooperação, portanto, não durou muito. Logo as doenças trazidas da Europa começaram a se manifestar entre os índios, causando grande número de mortes. O governo instituído pelos espanhóis não foi menos cruel. Os vilarejos Pueblo foram transformados em verdadeiras teocracias pelos missionários franciscanos.

No começo, até havia alguma tolerância por parte dos católicos espanhóis. Tudo o que exigiam dos Puebloanos era que frequentassem a missa semanalmente e participassem das cerimônias e celebrações públicas da Igreja Católica. Entretanto, por volta de 1660, o Frei Alonso de Posada proibiu as danças Kachina dos Índios Pueblo e ordenou que os missionários confiscassem todas as máscaras, bastões cerimoniais e efígies e as queimassem. Alguns líderes espanhóis, como Nicolas de Aguilar (1627-1666?), tentaram impedir os excessos da Igreja. Aguilar temia reações indígenas, mas acabou acusado de heresia e (provavelmente) executado pela Inquisição. Os temores de Aguilar eram justificados: para os Pueblo abrir mão de suas crenças religiosas era o mesmo que abrir mão da própria vida.

A situação começou a piorar mesmo na década de 1670. Houve uma seca intensa na região e os ataques dos Apaches tornaram-se mais frequentes e intensos. Em muitos casos, os espanhóis e os pueblo não foram capazes de coordenar suas defesas. Para os Pueblo, a gota d’água veio em 1675, quando o governador do Novo México, Juan Francisco Treviño condenou 47 curandeiros puebloanos sob a acusação de “feitiçaria”. Destes, quatro foram condenados à morte na forca; três foram executados, enquanto o quarto cometeu suicídio. Os demais foram publicamente açoitados e presos sem julgamento.

Ao serem informados disso, os líderes pueblos reuniram-se e foram para Santa Fé, onde os seus curandeiros estavam detidos. Como um grande número de soldados espanhóis estava longe, defendendo assentamentos hispânicos de novos ataques apaches, Treviño foi forçado a libertar os prisioneiros. Um deles chamava-se Popé.

A Revolução

Após sua libertação, Popé (também conhecido como Po’pay) juntou-se a outros líderes indígenas e passou a planejar o levante de todos os pueblos. Popé estabeleceu-se no Pueblo Taos, longe de Santa Fé e, discretamente, passou os cinco anos seguintes costurando acordos e angariando apoio entre as 46 cidades puebloanas. Ele garantiu o apoio das aldeias de Tiwa, Tewa, Towa, Tano, ao norte, e dos Pueblos falantes da língua Keres, do vale do Rio Grande, ao sul. A leste, os Pecos também concordaram com a revolta, bem como os Zuni e os Hopi, a oeste. Quatro pueblos não juntaram-se à revolução. Os Tiwa do Sul (ou Tiguex) e os Piros que viviam próximos de Santa Fé e de Socorro não se envolveram. Estas tribos haviam sido mais absorvidas pela cultura hispânica do que os demais grupos.

A colônia espanhola tinha, então, uns 2400 habitantes, muitos dos quais eram mestiços ou índios escravizados. Eles haviam se estabelecido esparsamente pela região e apenas Santa Fé se aproximava de algo que podia ser considerado um núcleo urbano. Os espanhóis tinham apenas 170 homens armados, enquanto os Pueblo contavam com pelo menos 2000 guerreiros, a maioria dos quais eram arqueiros. É possível que alguns apaches ou navajos também tenham tomado parte na revolta.

Dado o forte componente religioso da tensão entre nativos e colonizadores, não chega a ser surpreendente o messianismo indígena criado por Popé. Como líder dos rebelados, Popé prometia — quase profetizava — que uma vez que os espanhóis fossem expulsos ou mortos os velhos deuses recompensariam os pueblo com saúde e prosperidade. Em termos militares, o plano de Popé era simples: cada vilarejo pueblo iria expulsar e matar todos os espanhóis em sua área. Depois, os pueblos juntariam suas forças e marchariam sobre Santa Fé para expulsar ou exterminar os espanhóis que ainda sobrassem. Pelo calendário católico, o levante geral estava combinado para começar no dia 11 de agosto de 1680.

Pouco antes do lançamento da revolução, Popé enviou mensageiros corredores a todas as tribos aliadas. Esses mensageiros levavam cordas com diversos nós. Esse era o código: a cada manhã uma liderança local desatava um nó da corda para avisar que estava pronta. O ataque unificado só seria lançado quando o último nó fosse desamarrado. Apesar de discreta, a movimentação chamou a atenção dos espanhóis, que já haviam sido alertados por caciques de Tiwa do Sul. Em 9 de agosto os hispânicos capturaram um par de jovens mensageiros e suas cordas. Eles foram torturados para revelar o significado daqueles nós.

Ao saber disso, Popé precipitou a revolução. Em 10 de agosto os pueblos pilharam os assentamentos espanhóis, aprisionaram os colonizadores e roubaram seus cavalos antes de partir para Santa Fé. Os índios mataram cerca de 400 pessoas, inclusive mulheres e crianças. Dos 33 missionários franciscanos do Novo México, 21 foram mortos. Os sobreviventes fugiram para Santa Fé e para a aldeia de Isletta (ou Ysletta), 10 milhas ao sul de Albuquerque e que não havia aderido à revolta. Em 13 de agosto todos os assentamentos espanhóis estavam destruídos. Santa Fé estava cercada e teve seu fornecimento de água cortado.

Sem mantimentos nem reforços, a resistência espanhola durou apenas alguns dias. No dia 21, o governador do Novo México forçou uma reação. Desesperado, Antonio de Otermín (1630?-?) — que, numa tentativa de apaziguamento, havia sido nomeado substituto de Treviño em 1679 — saiu do Palácio do Governador acompanhado de todos os seus homens e forçou os Pueblo a se retirar, com pesadas baixas. Não foi, porém, uma vitória: Otermín conduziu a retirada da população espanhola em direção ao sul, para o vale do Rio Grande, e depois decidiu refugiar-se em El Paso del Norte. Os pueblo perseguiram os espanhóis mas não chegaram a atacá-los. Os cerca de 500 espanhóis que haviam se refugiado em Isletta também foram fugindo, aos poucos, para o sul entre 15 de agosto e 6 de setembro. Como estavam em retirada, também não foram molestados pelos pueblos.

Independência

Após a derrota relativamente simples e rápida dos espanhóis, Popé viajou por todas as aldeias aliadas, com ordens para que os pueblo retornassem ao estado de seus ancestrais. Os índios foram orientados a purificarem-se em banhos rituais e usar seus nomes nativos. Todos os vestígios da religião católica e da cultura hispânica deveriam ser completamente destruídos — inclusive o gado e as árvores frutíferas. Dizem ainda que Popé também proibiu o plantio de trigo e mandou que os índios casados pela Igreja Católica abandonassem suas esposas e contraíssem novos casamentos com outras mulheres de acordo com as antigas tradições nativas.

Entretanto, como era comum a muitas etnias americanas, os pueblo não tinham tradição de unidade política. Cada tribo era politicamente autônoma, praticamente uma cidade-estado. O paraíso terrestre prometido por Popé também não se materializou: a seca e os ataques dos apaches e navajo continuaram após a revolta. Ainda que algumas tribos tenham resistido às reformas restauradoras e possivelmente centralizadoras de Popé, os Pueblo mantiveram-se unidos por alguns anos e rechaçaram uma incursão espanhola em 1681-82 além de outras tentativas de reconquista nos anos seguintes.

Quanto a Popé, pouco se sabe sua origem e sobre o que lhe aconteceu após a revolução. Há quem diga que ele morreu ou foi deposto um ano depois da revolta. Outros afirmam que ele só faleceu às vésperas da reconquista espanhola, em 1692. Como os Pueblo não tinham escrita, é difícil ter certeza. Mesmo os relatos colhidos por religiosos espanhóis mais tarde são bastante parciais e podem ter dito apenas o que os colonizadores queriam ouvir e não o que realmente aconteceu. É possível, portanto, que a breve independência dos Pueblo não tenha sido assim tão desastrosa. Ou não.

A Reconquista

Com o avanço dos franceses no vale do Mississippi, os espanhóis buscaram reforçar suas posições na América do Norte. Retomar o Novo México era fundamental. Em agosto de 1692, Don Diego de Vargas (1643-1704), acompanhado de um índio convertido chamado Bartolomé de Ojeda, além de 60 soldados, 100 índios, um missionário franciscano e sete canhões, partiu em direção a Santa Fé.

Don Diego entrou na antiga capital em 12 de setembro, praticamente sem encontrar resistência. Prometeu aos 1000 habitantes pueblos clemência e proteção se eles jurassem fidelidade ao Rei da Espanha e retornassem ao cristianismo. Por algum tempo, os Pueblo hesitaram (é possível que já estivessem sem seu líder, Popé), mas acabaram cedendo. Em 14 de setembro de 1692, Vargas proclamou formalmente a repossessão do Novo México. Ao longo do mês seguinte, ele visitaria as demais tribos que haviam se tornado independentes e ofereceu o mesmo acordo. Praticamente todas acabaram aceitando.

Embora a reconquista tenha sido pacífica e sem derramamento de sangue, os dois lados logo passaram a se estranhar. Já no ano seguinte Vargas foi ao México, de onde voltou com 800 espanhóis, entre os quais 100 militares. Ao retornar, porém, foi recebido por um grupo irado de 70 guerreiros pueblos apoiados por cerca de seus 400 familiares. Os resistentes, porém, foram facilmente subjugados e condenados a 10 anos de servidão.

Em 1696, índios de catorze pueblos tentaram organizar uma segunda revolução. Mataram cinco missionários e 34 colonos espanhóis com armas que os próprios hispânicos haviam lhes dado alguns anos antes, durante as negociações de paz. Vargas reagiu vigorosamente e, embora tenha levado alguns anos, concluiu a reconquista espanhola na virada do século. Muitos dos pueblos, porém, não aceitaram a nova situação e fugiram do Novo México. Uns juntaram-se aos navajo ou aos apache; outros, tentaram se estabelecer nas planícies centrais da América do Norte. Restos de uma tribo pueblo exilada foram encontrados em locais tão distantes quanto El Quartalejo, no Kansas.

Consequências

Apesar da breve independência do Novo México, a revolta pueblo deu resultados. Os espanhóis voltaram, é claro, mas voltaram muito mais cautelosos. Os líderes dos colonizadores retornaram dispostos a não cometer nem tolerar excessos como a erradicação cultural e religiosa dos pueblos. Os espanhóis ainda cederam a propriedade de grandes tratos de terra para os índios e nomearam um defensor público para defender cada tribo diante de cortes espanholas em caso de disputas. Os franciscanos também voltaram amansados e não tentaram impor uma nova teocracia no Novo México. Embora muitos índios tenham sido batizados e catequizados, na prática os pueblo continuaram a seguir suas antigas crenças.

A reconquista de hispânica ainda é festejada durante as Fiestas de Santa Fé. A revolução de Popé já inspirou algumas peças teatrais, como Casi Hermanos (1995), Kino e Teresa (2005, uma adaptação ameríndia de Romeu e Julieta) e Po’pay (2010).

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