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Como diria o tio Ali: é uma cilada, Bin!

Terroristas sequestradores de avião só se tornaram mainstream há pouco mais de 12 anos. Isso não significa que a ameaça não existisse antes de 11 de setembro de 2001. Como já vimos certa vez, o temor de piratas aeronáuticos capazes de perturbar tanto a segurança do voo quanto a segurança nacional inspirava inventores nos anos 1970. Um desses inventores foi Gustano A. Pizzo (sim, Gustano mesmo, com um n no lugar do v habitual), criador do Anti Hijacking System for Aircraft [Sistema Anti-Sequestro para Aeronaves]:

Um sistema anti-sequestro para um aeroplano para ser operado durante o voo. Uma partição ou barreira localizada imediatamente depois da cabine dos pilotos é adaptada para ser elevada, dividindo essa seção longitudinalmente em áreas a bombordo e estibordo, cujos pisos entram em colapso sob comando para descer o sequestrador até uma cápsula na barriga do avião. A cápsula é liberável através de portas de bombardeio abertas e conta com um pára-quedas para retorno seguro do sequestrador, dentro da cápsula, para a terra.

Como ocorre com a maioria das patentes, esta não chamou muita atenção ao ser aprovada pelo U.S. Patent Office em 21 de maio de 1974, sob 3.811.643 [pdf]. Mas nesta semana o sistema de Pizzo saiu do esquecimento. Da maneira patética, porque o sistema não foi implantado por uma grande companhia aérea ou recomendado pela CIA. Não, Pizzo ganhou algo melhor que isso — ele é o vencedor do IgNobel 2013 na categoria Segurança/Engenharia.

No brevíssimo texto da patente — uma única página de texto, duas de ilustrações, além da capa — Pizzo é categoricamente objetivo quanto a seus objetivos: “Um objetivo da invenção é promover um sistema de construção único para uma aeronave, projetado para tocaiar e abortar tentativas de sequestro”. Os outros objetivos, bem, podem “ser apreciados pela leitura da seguinte descrição”. Ou seja: o segundo objetivo do inventor de Jackson Heights, Nova York, não é defender a segurança aérea e nacional — é exibir sua engenhosidade.

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Para quem ainda não entendeu as figuras (se é que isso é possível) ou quer uma amostra da engenhosidade de Pizzo, o seguinte trecho da descrição deve bastar:

Sob cada zona da área de serviço encontra-se uma cápsula liberável 34 na forma de uma rede com um fecho por corda 36, cada uma sendo apoiada na área 12 da barriga do avião por ganchos retráteis que se projetam debaixo do deque 14. O fecho de corda 36 de cada cápsula é anexo a um pára-quedas 40, que é aberto automaticamente pelo peso do sequestrador enquanto ele cai em uma das cápsulas 34, liberando a corda de fecho 36 dos ganchos 38 e fechando a cápsula sobre ele pelo convencional e bem conhecido dispositivo de corda anexo. Simultaneamente, as portas de bombardeio 42 são abertas pelos cilindros de ar 44, permitindo que a cápsula 34 e seu pára-quedas 40 caiam por ali, como mostrado pelas linhas pontilhadas da FIG. 2.
Em particular, o piloto, ao ser notificado de uma tentativa de sequestro por uma comissária de bordo levanta a partição 16 para isolar o perpetrador em uma das zonas bombordo ou estibordo da área de serviço. Assim separado dos demais na aeronave, inclusive da comissária, ele é derrubado dentro de uma das aberturas superiores de uma das cápsulas 34, no que as portas de bombardeio se abrem e a cápsula 34, com sua carga humana, é parachutada [parachuted, i.e., lançada de pára-quedas] com segurança até a terra.

É engenhoso ou ingênuo? Se, além de sequestrador, o sujeito for um homem-bomba é engenhoso. Se o cara se vê como bomba porque não tratá-lo como uma? O problema é que, bem, uma bomba humana pode muito bem decidir se detonar antes de ser ejetada pelo alçapão.

Mesmo que o sequestrador não tenha, literalmente, um pavio-curto, a coisa ainda pode falhar miseravelmente. A cordinha do fecho pode não se fechar (ou pode ser cortada pelo sequestrador antes do bombardeio, se ele ainda for ninja). A portinhola da bomba também pode emperrar — e assim o sequestrador poderia se desvencilhar facilmente da fossa aérea forçando o alçapão.

Se bem que o alçapão poderia ter emperrado em primeiro lugar e o sequestrador poderia simplesmente prosseguir com seus planos malignos. Talvez nem seja necessária uma falha mecânica: nosso terrorista poderia simplesmente se pendurar com as mãos no teto (se possível, é claro) ou fazer algo que até uma criança poderia fazer: dar um pulinho pra frente ou pra trás assim que o chão se abrisse.

Segundo o inventor, o alçapão empacotador de vilões pode ser acionado tanto mecânica quanto manualmente. Em qualquer caso, o sistema parece depender do piloto. E o comandante poderia muito bem se equivocar, mandando pelos ares (ou pro saco, o que dá no mesmo) a comissária de bordo com uma bomba de chocolate em vez do criminoso com uma bomba muito mais calórica.

Poderíamos discorrer pelo resto do dia sobre os possíveis defeitos do sistema de Pizzo e suas implicações técnicas (e se o páraquedas não abrir?), geopolíticas (e se o terrorista cair num território de outro país, a polícia é obrigada a capturá-lo sem ter um mandado? e se o terrorista fugir antes de ser capturado em solo?) e jurídicas (e se o empacotado não for um terrorista, ele tem direito a processar a companhia aérea caso sobreviva? se ele morrer, a família tem direito a uma indenização?).

Mas vamos deixar passar, caro leitor. Gustano Pizzo finalmente teve sua genialidade reconhecida. E nós não poderíamos fazer algo muito mais longo que sua patente.

***

O IgNobel não tem uma categoria dedicada exclusivamente às patentes patéticas (o que é uma pena), mas já agraciou algumas invenções apresentadas nesta série. Uma delas foi o Aparelho para facilitar o nascimento de uma criança por força centrífuga, do casal Blonsky, laureado em 1999 com o IgNobel de Física. Os Blonsky foram homenageados novamente com uma mini-ópera em quatro atos apresentada em meio às demais premiações deste ano.

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