sleeping congregation

“Sleeping Congragation” (William Hogarth, 1728)

Independente da religião, sempre há um momento bastante solene no culto, missa ou ritual. Pode ser um sermão ou pregação, uma oração ou a leitura da respectiva escritura sagrada. Por vezes, porém, essa solenidade toda pode ser perdida por motivos diversos. O Rev. R. Wilkins Rees relata alguns causos de sermões que deram errado no ensaio “Curious Anouncements in the Church”, publicado em Ecclesiastical Curiosities (ANDREWS, 1899). Vamos começar com um pequeno mal-entendido:

Um pároco informou sua congregação num Domingo de manhã que o serviço de batismo seria realizado à tarde, pedindo aos parentes que trouxessem suas crianças pontualmente, de modo a não atrasar a cerimônia. Imediatamente, o velho sacristão, sonolento e surdo, pensando que o anúncio tivesse a ver com um novo hinário que estava sendo introduzido na época, levantou-se e, graciosamente, informou a todos que aqueles que ainda estivessem sem [o hinário] poderiam obtê-lo no estoque da sacristia pelo módico preço de 8 pence o exemplar.

Ou então os anúncios inesperados de (anti)casamento e uma missa interrompida:

O próximo anúncio é ligeiramente similar — “Declaro público e notório o banimento de casamento entre… entre…”, anunciou um cura do púlpito. Mas se interrompeu ao perceber que não encontrava o livro com suas notas. O sacristão, vendo o apuro do seu chefe e percebendo o paradeiro do livro sumido, completou: — “Entre a almofada e o púlpito, sir!”.

O caráter único de outro comunicado justificará sua conclusão: “Tenho muito mal-estar, meus irmãos, muito mal-estar”, anunciou um pregador no sermão de uma noite de Domingo. “E assim eu os dispenso com meus gestos de hábito.”

Também havia, muitas vezes, interrupções involuntárias, por razões animais:

Assim, o Rev. Samuel Sherwen, clérigo bem-conhecido em Cumberland, anunciou numa manhã que vira, através de uma janela próxima ao púlpito, algumas vacas perdidas num milharal, requisitando que alguém saísse a recolhê-las. Em outra ocasião, disse que havia porcos no pátio da igreja que não eram dele e seu servo Peter faria de tudo para expulsá-los.

Eventualmente havia algum fiel meio vingativo, meio zoeiro. Foi o que aconteceu com o Rev. Mr. Alcock, que foi reitor de Burnsal, perto de Skipton, Yorkshire, em meados do séc. XVIII:

Deste clérigo se dá outra história que ilustra muito bem a excessiva familiaridade em que indulgiam os ocupantes do púlpito naqueles dias d’antanho. Um de seus amigos, cuja casa não havia sido visitada durante a semana, deu um jeito de descosturar e embaralhar as folhas do sermão do domingo. Durante o culto, o pregador não precisou ir muito longe na leitura para perceber o truque. “Will, teu desgraçado!” — interrompeu — “O que tu fizeste com meu sermão?” E em seguida, voltando-se ao povo: “Irmãos, Will Thornton embaralhou as folhas do meu sermão. Não tenho tempo de colocá-las em ordem. Continuarei a ler conforme entendo e vós fareis do sentido o melhor que puderem.” E leu até o fim o confuso sermão, diante de uma congregação atônita.

Outro motivo para interromper sermões, talvez o mais comum, fossem membros que acabavam dormindo no meio da pregação narcótica. Excepcionalmente, o dorminhoco poderia estar mais acordado que todo mundo:

“Estás dormindo, John.”, disse um pároco, pausando um um discurso bastante modorrento. Olhando feio para o homem, completou: “Tome algum rapé, John!” — “Bote rapé no sermão!”, replicou John. E as expressões da audiência mostravam que a resposta havia sido plenamente apreciada por todos.

Finalmente, havia sermões rocambolescos, dignos de Tristram Shandy, misturando leituras bíblicas com qualquer coisa que desse na telha do pregador. Como no caso de um pastor em Crossmichael, Galloway, que deu uma versão irreconhecível de um verso do Êxodo:

“E o Senhor disse a Moisés — feche esta porta! Não acho que eu gostaria de sentar perto dessa porta aberta. Foi justo nessa porta que o sineiro Yedam Tamson pegou a friagem que lhe trouxe a morte e eu tenho certeza, meu bom homem, que ele não gostaria de vê-la aberta — E o Senhor disse a Moisés — ponha aquele cachorro pra fora! O que é que traz os cães pra dentro da igreja, arfando? Não quero mais vê-los trazendo seus cães pra cá e se eu os ver mais uma vez, vou tomar nota e botá-los os dois pra fora. — E o Senhor disse a Moisés: — Vejo aqui um homem que não tirou seu chapéu; estou certo de que sabem que é pra deixar na porta. Tira esse boné, Tommas, e se seu coco for calvo, tu pode arranjar uma peruca grisalha feito a minha; não são caras, meu querido; o Bob Gillepsie tem um monte delas por dez pence.” E só então o pregador informou sua audiência o que havia sido dito a Moisés de uma maneira mais ou menos precisa.

Pena que, em seu ensaio, o Rev. Wilkins não nos informe, nem de maneira “mais ou menos precisa”, qual era o tal versículo do Êxodo…

Referência

REES, Rev. R. Wilkins. “Curious Anouncements in the Church”. in: ANDREWS, William (org.). Ecclesiastical Curiosities [Curiosidades Eclesiásticas]. Londres: William Andrews & Co., 1899. p. 216 e ss.
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