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Embora seja provável que esse costume tão universalmente prevalente tenha se originado de alguma superstição antiga, ele parece ter suscitado dúvidas em todas as nações.
Alguns católicos, diz [Benito Jerônimo] Feijoo [1676-1764], atribuem a origem desse costume à ordem de um papa, S. Gregório — que teria instituído uma breve bênção para ser usada em tais ocasiões. Isso numa época em que, durante uma pestilência, a crise era acompanhada de espirros e, em muitos casos, seguida de morte.
Mas os rabinos, que têm uma história para tudo, afirmam que, antes de Jacó os homens espirravam apenas uma vez e então morriam imediatamente. Eles nos asseguram de que aquele patriarca foi o primeiro a morrer de causas naturais e antes dele todos os homens morriam de espirro. A memória disto foi obrigada a ser preservada em todas as nações por um comando de cada príncipe a seus súditos, que deveriam empregar alguma exclamação salutar após o espirro. Mas esses são sonhos talmúdicos e apenas servem para provar que um costume tão familiar sempre demandou explicações.
Até Aristóteles dedicou algum considerável nonsense a tal costume; diz ele [que tal saudação] é uma honra da sede do bom-senso e do gênio — a cabeça — para se distinguir de outras duas ofensivas erupções de ar [o pum e o arroto], que nunca são acompanhadas de qualquer benedição. Em todo caso, o hábito existia muito antes do Papa Gregório. Alusões em Apuleio, Petrônio e Plínio comprovam sua antiguidade. E uma memória da Academia Francesa nota a prática no Novo Mundo, na primeira descoberta da América. Por toda parte, um homem é saudado por espirrar.
Um relato divertido das cerimônias que se seguem ao espirro de um rei de Monomotapa mostra a repercussão nacional que pode ter o espirro do despotismo. Quando acontece [de o rei espirrar], aqueles que estão mais próximos de sua pessoa saúdam-no em voz tão alta que são ouvidos pelas pessoas na antecâmara, que juntam-se à aclamação. Os cômodos adjacentes vão fazendo o mesmo, até que o rumor alcance a rua e propague-se por toda a cidade. De modo que cada espirro de sua majestade resulta num horrível alarido de saudações de milhares de seus vassalos. — D’ISRAELI, Isaac. Curiosities of Literature [Curiosidades da Literatura], Vol. I. Paris: Baudry’s European Library, 1835. pp. 105-106

Se você espirrou, tome um lencinho e leia o que Montaigne escreveu sobre o hábito de assoar o nariz.

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