O que descobri no ano em que comecei a me interessar por animes (e doramas e mangás)

Ao contrário dos meus colegas de infância — aliás, da minha geração inteira —, eu nunca gostei de animes. A única exceção, por ser bonitinho demais pra ignorar, era Hamtaro. O problema não eram os animes em si, e sim os animes aos quais tive acesso quando criança. Nunca gostei de games de luta e o mesmo valia para animes. Desse modo, títulos populares como Dragon Ball, Pokémon e Digimon nunca me agradaram. Eu simplesmente não conhecia outros gêneros de anime (e são inúmeros) até o começo deste ano. Foi então que, num surto de interesse pelo Japão e sua cultura, decidi me arriscar no mundo das animações nipônicas. De quebra, acabei encontrando séries japonesas (e também coreanas), conhecidas como doramas. Eis alguns animes, doramas e um mangá que me animaram ao longo do ano:

Animes

Bungou Stray Dogs (2 temporadas no Crunchyroll) Já pensou num anime com grandes nomes da literatura — Dostoievski, Poe, Fitzgerald, Steinbeck — como membros de uma organização criminosa e dotados de poderes sobrenaturais inspirados em suas obras? Baseado no mangá escrito por Kafka Asagiri e ilustrado por Hasegawa35, esse anime existe e é estrelado por escritores da literatura japonesa e estrangeira. Ambientada em Yokohama, a trama começa quando o órfão faminto Atsushi Nakajima salva o galã suicida Osamu Dazai e é levado por este a fazer parte da Agência de Detetives Armados, ao lado do exigente Doppo Kunikida, do simpático Kenji Miyazawa, da assustadora Dra. Akiko Yosano, dos grudentos irmãos Tanizaki, do sagaz Edogawa Ranpo e do respeitável chefe Yukichi Fukuzawa. Suas armas, no caso, são os superpoderes desses membros. Esse grupo de detetives não resolve crimes comuns e é uma espécie de agência secreta para controlar a violenta Máfia do Porto, também formada por usuários de “habilidades”, como o sombrio Ryonosuke Akutagawa, a dedicada Ichio Higuchi, o bombástico Motojiro Kaji, o terrível Chuya Nakahara, o misterioso Gin e chefiada por Ougai Mori. No entanto, em meio à guerra entre as duas organizações, surge uma ameaça estrangeira pronta a destruir Yokohama: a Guilda, liderada pelo riquíssimo F. Scott Fitzgerald. O objetivo de todos é por as mãos no poderoso tigromem, que na verdade é o órfão Atsushi Nakajima, que mal tem noção do seu poder. Não faltam cenas de batalhas épicas e momentos trágicos, mas também há muito espaço para comédia, referências literárias e não faltam oportunidades de shippar personagens (e a dupla mais carismática é formada por Dazai e Chuuya, que não se suportam). São apenas duas temporadas mais um OVA (i.e., um episódio especial e inédito) e um filme (a ser lançado em abril de 2018), mas o mangá está bem adiantado e tem material para pelo menos mais uma temporada. Primeira série de anime que me chamou a atenção e que vi, de longe é a minha favorita.


March comes in like a lion (2 temporadas, Crunchyroll) Em japonês, rei significa zero mas também é o nome de Rei Kiriyama, protagonista deste drama psicológico que mostra o cotidiano de um jovem japonês que vive sozinho. Aos 17 anos, Rei é um talentoso porém frustrado jogador de shogi. Depois de perder a família num acidente, ele foi adotado pelo adversário do pai no xadrez japonês e acaba se agarrando ao jogo para sobreviver. Eventualmente, ele supera os irmãos e o pai adotivos, torna-se o quinto colegial a virar jogador profissional da História e vê-se obrigado a sair de casa e abandonar os estudos. Em meio a um apartamento vazio e aos torneios do jogo, enquanto seu maior rival está sempre tentando forçar uma amizade e a antiga irmã adotiva volta do passado para atormentá-lo, Rei descobre uma nova família em Hina, uma moça da vizinhança, e suas irmãzinhas, Akiko e Momo (e seus três gatos sempre famintos). Ainda não vi segunda temporada, recém-lançada.


Moyashimon (2 temporadas, Crunchyroll) Tadayasu Sawaki é um calouro recém-chegado à Universidade da Agricultura. Mas ele não é um calouro comum: Sawaki tem a incrível capacidade de enxergar e identificar fungos e bactérias a olho nu, em qualquer ambiente ou situação. Enquanto tenta se adaptar à nova vida universitária, com seus trotes, seus veteranos e veteranas e Keizō Itsuki, um professor meio nojento e misterioso, Sawaki se torna alvo de vários grupos por ser um microscópio ambulante e se vê diante do mistério do desaparecimento de seu melhor amigo, Kei Yūki. A segunda temporada traz Hazuki Oikawa, uma caloura que leva tempo para descobrir a habilidade de Sawaki, um túnel misterioso, o paradeiro (e a nova identidade) de Yūki e as férias forçadas de Haruka Hasegawa, a veterana com ar sádico do Sawaki. Ainda que pareça específico para o pessoal de biológicas, o humor desta série está em suas situações insólitas, em causos que todo universitário pode reconhecer e nas representações divertidas dos micro-organismos — como o Aspergillus oryzae e Saccharomyces cerevisiae —, que estrelam pequenos curtas informativos ao fim de cada episódio da primeira temporada.


ΛLDNOΛH.ZERO (2 temporadas, Crunchyroll) Ambientada num universo onde a Terra de 2014 já é unificada e tem um exército equipado com robôs gigantes (chamados catafractários), esta série poderia ser só mais uma do gênero mecha. Embora sejam importantes nas guerras contra a colônia marciana — ou melhor, o Império Vers —, os mechas são apenas parte de uma história também trata de terrorismo, conspirações políticas, alianças improváveis e uma Lua despedaçada. Quinze anos após a primeira guerra entre humanos e versianos Asseylum Vers Allusia, princesa-herdeira do trono marciano, é alvo de um atentado terrorista enquanto visita a Terra em missão de paz. Tomada como morta, ela vira pretexto para uma nova guerra interplanetária mas acaba sendo resgatada por um grupo de colegiais em treinamento militar, entre os quais está Inaho Kaizuka, moço estoico e algo ingênuo. Enquanto isso, em Marte, o moribundo imperador Rayregalia Vers Rayvers tenta controlar a vingança de seus Condes Orbitais, estacionados ao redor da Terra.  Entre eles estão os condes Cruhteo e Saazbaum, um dos quais está por trás do atentado à princesa, e Slaine Troyard, terráqueo resgatado na guerra anterior pelos marcianos. Apaixonado pela princesa, ele parece ser um pacifista que é o único a descobrir a conspiração. No entanto, isso o leva a ser torturado pelos conspiradores, tornando-o igualmente ambicioso e vingativo e colocando-o em conflito direto com Inaho. Dada a complexidade da trama, eu achei que Aldnoah.Zero tem um quê de Asimov e talvez por isso tenha sido o único mecha anime que me agradou.


Uchuu Kyodai ou Space Brothers (Crunchyroll) Numa noite de verão de 2006, dois moleques japoneses acreditam ter visto um disco voador durante um passeio pela mata. Verdade ou não, o fenômeno os inspira a buscar a carreira de astronauta. O mais velho, Mutta Nanba, quer ir para Marte enquanto o caçula, Hibito, que descobriu o UFO, sonha com a Lua. Vinte anos mais tarde, os dois tomaram rumos bem distintos na vida: enquanto o carismático Hibito já é um astronauta em treinamento na NASA para uma missão à Lua, Mutta perde o emprego depois depois de dar uma cabeçada à la Zidane no chefe. Frustrado, ele acaba sendo convidado a acompanhar o treinamento do irmão nos EUA ao mesmo tempo em que espera o resultado de um processo seletivo de astronautas na JAXA, a agência espacial japonesa. Ao longo de 99 episódios (!!), nós acompanhamos a jornada de Mutta rumo ao seu sonho astronáutico. Cheia de momentos cômicos — como quando Mutta derrota acidentalmente um ladrão célebre por disparar extintores de incêndio como camuflagem — a série parece ter agradado ao pessoal da NASA: o asteroide 13163 foi batizado de Koyama Chuya, o criador do mangá que deu origem ao anime.


Tonari no Seki-kun ou The master of killing time (1 temporada, Crunchyroll) Se você pensa que os alunos japoneses não aprontam no fundão é porque não conhece o Seki, o menino que senta ao lado da Rumi. Enquanto ela está sempre tentando se concentrar nos estudos, ele está sempre inventando mil novos jeitos de se distrair: brincando com carrinhos, com peças de shogi ou com bonequinhos os mais diversos que ele mesmo cria com seu material escolar. Sem querer querendo, Rumi acaba sendo atraída pelas distrações do colega e cai em suas próprias fantasias sobre as brincadeiras dele. Seki apronta mesmo nas aulas fora da sala, numa simulação de desastre e na oficina de artes, mas jamais é surpreendido (muito menos repreendido) pelos professores. Quem acaba levando um pito às vezes, por ficar exaltada, é a pobre Rumi-chan. Com cerca de sete minutos por episódio, sobra pouco espaço para o resto da turma em meio às peripécias de Seki e o desenvolvimento dos personagens, mas fica implícito que todo mundo acha que a Rumi tem uma queda pelo rapaz. Detalhe para a deliciosa abertura metalinguística na qual Seki roteiriza, edita e produz o anime (abaixo) e na musiquinha viciante tocada por ele num conjunto de estojos e materiais escolares no encerramento.


Doramas

Hibana: Spark (2016, 1 temporada – Netflix) — Essa série foi a primeira do Japão que me chamou a atenção, há praticamente um ano. Na época, eu estava começando a me interessar pela cultura nipônica e fiquei curioso em saber do que os japoneses riem. Descobri algumas coisas nessa série exclusiva do Netflix, que acompanha a trajetória dos amigos Tokunaga (Kento Hayashi) e Yamashita (Masao Yoshii), que almejam o sucesso como uma dupla de manzai. Essa foi a primeira coisa que aprendi: o manzai é um tipo de comédia stand up feito em dupla, sendo que um faz o papel de tonto e o outro, de sério. Os dez episódios (cerca de 50 min. cada) cobrem os dez anos de carreira dos Spark, a dupla formada por Tokunaga e Yamashita. Logo no começo, Tokunaga fica encantado pelo estilo mordaz e irreverente de Kamiya (Kazuki Namioka), que faz parte da dupla Ahonandra. Como é comum na cultura japonesa, o veterano Kamiya acaba se tornando o mestre ou senpai de Tokunaga, com a condição de que este escreva sua biografia. Os momentos cômicos demoram a aparecer, especialmente para quem não tem familiaridade com o humor japonês. Mais interessante, porém, é o retrato feito dos altos e baixos da carreira de Tokunaga — que, após trabalhos muito ingratos, chega a vencer concursos e aparecer na TV apenas para descobrir que seu ídolo e senpai está em declínio e a relação com Yamashita está cada vez mais estremecida. Infelizmente, só encontrei o trailler em japonês no Youtube:


Galileo (1 temporada + 1 ep. especial – Crunchyroll) — Ele é bonito, brilhante, muito inteligente e… meio esquisito. Ela é tímida, inquieta, justa e… sensível. O nome dele é Yukawa Manabu (Masaharu Fukuyama) e ele é professor universitário de física; ela se chama Ustumi Kaoru (Kou Shibasaki) e é investigadora da polícia — mas este não é um drama romântico. Quando se vê diante de casos aparentemente insolúveis ou com ares sobrenaturais — como uma suposta combustão espontânea, uma casa trepidante ou um suicídio aparentemente impossível —, Kaoru recorre a Manabu, cuja genialidade lhe rendeu o apelido de Galileo. Ele sempre resiste em ajudá-la mas acaba se interessando e, com um incrível poder de dedução (e alguns cálculos), vai juntando as peças do quebra-cabeça encontradas pelas investigações de Kaoru.


Nobunaga Concerto (1 temporada – Crunchyroll) — Figura pouco conhecia fora do Japão, Oda Nobunaga viveu no século XVI e foi um dos maiores senhores feudais do país. Durante sua vida, os japoneses entraram em contato com os portugueses e passaram a usar armas de fogo, que permitiram a Nobunaga ser o primeiro a tentar unificar o país, conseguindo conquistar boa parte do Japão. Esse é o pano de fundo histórico desse drama de época, que na verdade é uma mistura bem japonesa de passado e presente. Nesta série, um estudante colegial, Saburo (Shun Oguri), acaba acidentalmente caindo no período histórico de Nobunaga. Ao perceber como o forasteiro se parece consigo, Nobunaga, que na verdade está muito doente, troca de lugar com o rapaz. No entanto, como não é um estudante aplicado e acaba perdendo seu livro de História, Saburo tem dificuldade de se adaptar ao papel de senhor feudal do Japão quinhentista e acaba se metendo em confusões antes de perceber que não tem como voltar e que suas ações vão repercutir na História. Será que o rapaz do século XXI vai se dar bem no séc. XVI? (Há também uma versão em anime, mas o traço e o ritmo da história não me agradaram).


LOST:TIME:LIFE (1 temporada, Crunchyroll) — O que pode haver em comum entre personagens tão distintos quanto um fotojornalista, uma dona-de-casa, uma enfermeira, um mangaká, um ator, a esposa de um mafioso e um recluso? Nesta série japonesa todos eles são protagonistas — e todos eles morrem logo no começo de cada episódio. No entanto, quando estão prestes a falecer, aparece um quarteto de arbitragem e lhes dá um acréscimo, como no fim de um jogo de futebol. O que cada um destes personagens vai fazer com suas últimas horas extras? Outro ponto em comum entre todos os episódios, além da arbitragem e das frases de jogadores de futebol que dão o tom da narrativa logo na abertura, é a presença de um personagem coadjuvante que sempre cruza o caminho dos moribundos e vai ganhando importância ao longo da série — e sua história e identidade são reveladas apenas nos dois últimos episódios.

[Infelizmente não achei um clipe da série. Ao pesquisar, descobri uma versão coreana (o que não é incomum), mas me parece que apenas o formato é o mesmo e suas histórias são diferentes]


Midnight Diner: Tokyo Stories (1 temporada, Netflix) — Perdido numa viela estreita da capital japonesa está um discreto restaurante que só funciona de madrugada. O cardápio é restrito mas o mestre-cuca, chamado apenas de Mestre (Kaoru Kobayashi), sempre se dispõe a atender pedidos especiais se tiver os ingredientes à mão. É nesse ambiente que se encontram aposentados, empresários, advogados, ex-estrelas de cinema, moças, rapazes e crianças com as mais diversas histórias, temperadas pelos pratos solicitados, como o corn dog, umeboshi e, é claro, ramen. Esta é a série mais próxima de contos televisivos que já vi: cada episódio (com cerca de 20 minutos cada) é uma peça única, com começo, meio e fim bem definidos e com poucos porém densos personagens. A única coisa que os une é a comida e o ambiente acolhedor, com um cozinheiro que sempre está pronto a ouvir e aconselhar. Boa pedida para notívagos amantes de culinária e cultura japonesas.


Mangá

Nausicaä no Vale do Vento (mangá de Hayao Miyazaki em 7 volumes) — Misto de conto de ficção científica, saga de fantasia, conto de princesa e fábula ecológica, Nausicaä parece leitura indispensável nestes tempos de intolerância, fanatismo, crises de refugiados e mudanças climáticas. Ambientada num mundo pós-apocalíptico, mil anos após um holocausto nuclear, essa é a história de Nausicaä, princesa de um país periférico (o Vale do Vento, que com seus moinhos tem um quê de Holanda) que parte para tentar interromper a guerra entre o Reino de Torumekia e o Império Dorokiano. Além do conflito, a principal ameaça à humanidade está no Mar da Corrupção, uma floresta crescente de fungos e insetos gigantes que emana uma atmosfera tóxica, irrespirável sem a ajuda de aparelhos. Com resquícios da tecnologia dos dias antigos, o Mar da Corrupção é transformado em arma biológica, criando um tsunami de poluição que mata milhares de pessoas, varre cidades inteiras do mapa e cria uma onda de refugiados. Em meio a tudo isso, Nausicaä, sensível a todas as formas de vida, inclusive os monstruosos seres do Mar da Corrupção, precisa descobrir como lidar com os refugiados, como unir os lados beligerantes, como não cair na tentação de viver num mundo de sonho, como guiar um Deus-Guerreiro que acha ser seu filho e qual é o segredo da Cripta sob a Cidade Sagrada de Shuwa. Heroína complexa, Nausicaä não está acima do bem e do mal. Pelo contrário, ela é a única a compreender que trazer em si o bem e o mal, a claridade e a escuridão, a pureza e a corrupção, a vida e a morte são partes indispensáveis à condição humana. Em tempo: existe uma versão em anime de longa-metragem, produzido em 1984 (vide trailer abaixo). Foi uma das primeiras animações de Miyazaki-san. Perto do livro, porém, me pareceu pobre: muitas partes da história original são omitidas e o filme não tem o estilo gracioso das animações posteriores do Studio Ghibli.


Eu amo esse gif do Dazai em Bungo Stray Dogs <3

Eu amo esse gif do Dazai em Bungo Stray Dogs <3

Estes não são os únicos títulos que considero recomendáveis. Enquanto redigia essa lista, percebi que perdi a conta dos animes que passei a acompanhar regularmente. Vi e gostei de muitos outros, além de dramas e até alguns filmes coreanos, mas ainda não tive tempo de escrever sobre eles. Fica para a próxima!

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